A paz de Israel é a guerra por outros meios

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Faixa de Gaza, depois de 51 dias de massacre

Israel entrou na guerra para destruir a resistência e saiu a ter que abrir mão do bloqueio e a cólera leva o colono a aumentar as suas provocações. É estranha a forma de Israel compreender a paz que além de no mesmo dia em que assinou o cessar fogo em Gaza prendeu mais 12 dirigentes da resistência palestiniana na Cisjordânia – num processo que visa isolar uma das fracções mais progressistas do campo palestiniano - foi ainda reprimir uma escola em Nablus. Se fosse ao contrário, sabemos bem, já estariam novamente a chover bombas em cada palmo de céu que sobrou na Palestina.

Em Gaza a Amnistia Internacional, essa perigosa instituição terrorista, não está a conseguir entrar no território para investigar a actuação militar de Israel. É natural. Não é provável que Hitler, antes de perder todas as guerras, deixasse quem quer que fosse investigar o que se passava nos campos de concentração. Israel e o Reich são tão parecidos no tempo da guerra como nos seus intervalos.

Estranha forma de vida aquela que Israel acha possível chamar de paz na Palestina.

Fotografia via Mahdi Aljamal

Israel prende 12 dirigentes na Cisjordânia no mesmo dia em que assina o cessar fogo em Gaza

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A propósito do artigo “Como destruir as forças progressistas na Palestina? Silenciar as mulheres perigosas”, aqui replicado, que analisa a perseguição de Israel a Khalida Jarrar, importa acrescentar esta notícia, que dá conta da detenção de outros 12 dirigentes da FPLP na Cisjordânia, concretizadas praticamente em simultâneo com o cessar fogo. Para que a paz duradoura que tanto se fala não seja uma farsa, este é um dos temas que, a par do direito de retorno, não pode ficar esquecido.

Presos Políticos Palestina

Uma crónica de Verão à Miguel Esteves Cardoso

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MEC é dotado de excelente auto-imagem. Não se preocupem os mais preocupados.

A água do mar reluzia o dia inteiro à espera da sua chegada. Antónia era sempre divertida, sobretudo quando trazia a mãe…

A areia, qual pó-de-ouro, deixava os rostos de todos felizes. As gaivotas voavam com mestria. Nem pareciam pombos grandes.

Volta e meia o pregão da bola, com creme ou sem, aguava a boca até dos menos gulosos. O cheiro a maresia enchia a alma. A alma, por sua vez, devolvia a maré à maresia.

O som do vento parecia Wagner, o da turba Tony Carreira e o dos espanhóis flamengo refinado.

Gosto muito das férias de Verão apesar de ter que fazer estas crónicas. A Antónia detesta e como a Antónia detesta eu também não gosto muito. Gosto sobretudo das coisas que a Antónia gosta, porque o gosto de Antónia foi bem esculpido pelo gosto da mãe.

Agosto, a gosto, aproxima-se do fim. Uma tristeza muito forte invade-me o ânimo e decido ir passear ao longo do mar.

Espero não ter esquecido de dizer que a areia parecia pó-de-ouro.

É sempre tão difícil voltar.

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M. Esteves Cardoso: hoje no “Público” – eu cá voltei a ter 7 anos, e é bom, mesmo bom (é Verão, “férias grandes”)

 

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PROPORÇÕES DO AMOR

« Nos últimos dias, o mar nas furiosas praias de Colares tem conseguido correr com as ondas, sem ser as mais pequenas, só para refrescar as testas.

Tem sido novo e misterioso nadar na Praia das Maçãs e na Praia Grande sem hipótese de susto ou de medo.

Só a Maria João tem faltado, durante as poucas horas que passa, divertida, com a divertidíssima mãe dela. Escrevo “só” no sentido dramático e poético de António Nobre e não como sinónimo do britânico “apenas”.

Nadando sozinho, sem a Maria João, percebo que partilhar, quando se ama, é um verbo positivo, no pior e mais negativo sentido matemático e romântico.

Quando se partilham coisas que se têm de dividir entre pessoas – horas do dia; sangrias; charutos; fatias de presunto – quanto mais pessoas, menos fica para cada um de nós.

Mas quando é a partilha que dá valor à amizade e ao amor perde-se por não poder partilhar qualquer prazer que se é obrigado a sentir sozinho.

Posto em palavras mais simples: a qualidade de nadar na bonança do mar aumenta quando a partilho com o meu amor e diminui quando não posso partilhá-la com ela.

A partilha acaba por ser uma multiplicação. Entre 0 e 100, sendo 0 o inferno e 100 o paraíso, nadar sozinho é 40 e nadar com quem se ama é sempre 100. Não poder nadar, nem sequer sozinho, nem sequer é zero: são cem graus negativos.

As coisas materiais diminuem quanto mais se distribuem. É esse o bem e o mal delas. As coisas ideais crescem quanto mais se concentram. »

Não gostaram?? Opá!

Cessou o fogo, continua a ocupação

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O cessar fogo terá o seu efeito nas redes sociais e nos canais de informação alternativos. É natural mas é bom que o descanso não conduza de novo o tema para o esquecimento. Foram semanas de autêntica intifada, electrónica e de combate nas ruas, que deu forma ao maior momento de força da causa palestiniana, provavelmente desde a fundação de Israel. No terreno, com dificuldades acrescidas por anos de bloqueio, o massacre e o pavor genocida não vergou a espinha dos palestinianos. Na arena da propaganda, os grandes grupos económicos alinhados com o dinheiro da ocupação perderam a guerra pelo relato dos “factos no terreno” contra uma espantosa rede de activismo internacional, que unificou a acção de pessoas na Malásia e no Paquistão, mas também em Inglaterra e nos EUA. Do ponto de vista político a esquerda parece estar a aprender – era pelo menos bom que estivesse – a defender o campo contra a ocupação, guardando no bolso a pedagogia para tempos melhores. A dimensão da agressão, muito para lá da esfera material, e a força de quem lhe faz frente cara a tanque, farão com certeza pensar quem sobre o assunto se limitou a falar de cátedra. À direita, já com poucos soldados a bater com a mão na mesa e sem o despudor de acrescentar grandes argumentos, boiou-se apenas na estupidez de escolher Israel.

Como se dizia no Maio de 68, isto é apenas o início. Apesar da vitória ninguém deve pensar que a paz chegou ao território. A ocupação e a humilhação não acabaram. O muro da vergonha mantém-se de pé, milhares de presos políticos definham ilegitimamente nas prisões israelitas, a água e a luz continuarão a ser racionadas e gerações de palestinianos exilados continuam sem resposta ao seu direito de voltar.  Netanyahu, como chefe do Reich, não pode sair sem responder por crimes feitos conta toda a humanidade. Nuremberg voltou lamentavelmente a ser preciso.

No relógio de Israel nunca se sabe quanto tempo “duradouro” significa. No da resistência há muito que as horas de Israel deixaram de contar. A hora de desligar de vez a máquina que insiste em manter vivos os piores fantasmas do século XX, já passou.