“Discurso de Andy Green em Mosjøen”, por O Estivador

Uma das intervenções mais esclarecedoras e combativas traduzida para português, francês, inglês, grego e espanhol por O Estivador, a partir do conjunto de intervenções realizadas na jornada de luta do IDC (Internacional Dockers Council) contra o desemprego e a precariedade do trabalho portuário na Noruega.

Lady Gaga, Subproduto Pop da Imbecilidade

Gaga

Maravilhoso seria ver, no circo do espectáculoalgo mais do que a expressão da imbecilidade. Não têm que ser bons, só têm que evitar o disparate. Não é pedir muito. Espero.

Socialismo kosmische e a produtividade (parte I)

A história seria suficientemente bizarra para dar um muito razoável filme de domingo à tarde. No início dos anos 70, Martin Zeichnete trabalhava como sonoplasta na DEFA, os antigos estúdios de cinema da RDA, em Dresden. À noite, clandestinamente, perdia-se pelas ondas de rádio vindas do outro lado do muro, onde encontrava o então emergente krautrock, um inovador género musical que cruzava rock com electrónica, psicadelismo com minimalismo, jazz com Stockhausen, e onde pontuavam bandas com os Can, os Faust, os Neu!, os Kraftwerk, os Popol Vuh, etc. Zeichnete, que além de tudo o mais era também um corredor amador, absorveu toda a inspiração dessas novas sonoridades no seu trabalho de sonoplastia, mas também como elemento de treino para as suas corridas. Percebeu que o ritmo repetitivo do kraut, o famoso motorik, que reproduzia na sua cabeça enquanto corria, o ajudava a concentrar-se e a atingir melhores resultados. Mais ou menos pela mesma altura, tomou conhecimento de um protótipo do stereobelt, um antecessor do walkman que nunca chegou a ser comercializado, desenvolvido por Andreas Pavel, um germano-brasileiro que dizia que a sua invenção serviria para «acrescentar uma banda sonora à vida real» e que proporcionaria os «meios para multiplicar o potencial estético de qualquer situação». Com a conjugação destes dois elementos, o potencial do krautrock para o treino desportivo e o stereobelt, Zeichnete pensou que estariam reunidas as condições para uma utilização mais massificada do método. Evidentemente, dadas as circunstâncias, não se atreveu a divulgar os seus pensamentos senão a um círculo muito restrito de colegas de trabalho. Apesar disso, a ideia chegou aos ouvidos da Stasi e, pouco tempo depois, viu-se detido no local de trabalho e levado para umas instalações que desconhecia nos arredores de Berlim. Ao contrário do que temia, as autoridades tinham apreciado bastante a ideia e Zeichnete foi incumbido de produzir música para ser usada no treino de atletas, ficando às ordens do Comité Olímpico Nacional e a trabalhar secretamente num estúdio em Berlim. Manteve-se nessas funções até 1983, alargando a sua produção musical a várias outras modalidades. A designação informal do projecto, dada pelo próprio Zeichnete, era Kosmischer Läufer (corredor cósmico), numa referência à música kosmische, uma outra forma de dizer krautrock, especialmente depois do primeiro álbum dos Popol Vuh, os primeiros krauters a usar o sintetizador Moog. O projecto terminou em 1983, mas só no início dos anos 90, depois da queda do muro, é que Zeichnete recuperou as gravações de tudo o que produzira ao longo daqueles 11 anos. Em 2013, finalmente, as gravações, tal como toda a sua história, foram tornadas públicas, editadas em dois volumes (o segundo já em 2014) e disponibilizadas para audição e compra na Internet.

A história é, a diversos níveis, bastante interessante, mesmo tratando-se uma ardilosa aldrabice. Na verdade, Martin Zeichnete nunca existiu e o projecto Kosmischer Läufer foi inventado e implementado em 2013 por dois talentosos escoceses, através de um bem-sucedido esquema de crowdfunding. Para o que aqui me interessa, pouco importa se nada disto aconteceu. Basta a verosimilhança. Tal como, para os mesmos efeitos, não me ocuparia qualquer preocupação de discutir as claridades e as obscuridades do que se diz sobre um suposto programa estatal continuado de dopagem de atletas na RDA. O que o caso põe em evidência é uma espécie de fetichismo da produtividade como elemento constituinte da prática e da narrativa do chamado «socialismo real», seja na organização da produção industrial ou agrícola, seja no desporto, seja na produção artística, etc., de modo muito semelhante ao que, nas três décadas subsequentes à 2.ª Guerra Mundial, sucedeu nos países do chamado «capitalismo fordista». A obsessão pelo aumento da produtividade como o elemento comum do «socialismo real», do «capitalismo fordista» e da decomposição de ambos os paradigmas, bem como o eco que ainda hoje mantém no imaginário e no discurso político tanto à esquerda como à direita, são temas para a segunda parte deste post, a ser publicada dentro em breve.

Peter Frenkel no primeiro lugar do pódio dos 20 km de marcha, nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.
Peter Frenkel no primeiro lugar do pódio dos 20 km de marcha nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

Questões sobre Kobane

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Esta fotografia tirada hoje de manhã, a 2 km de Kobane, do lado turco, chegou-me com as seguintes palavras: “os comunistas por terra e os capitalistas pelo ar unem esforços” (o fumo que vemos no fundo é o resultado de um bombardeamento americano contra o ISIS). Com um simplismo típico de um telegrama, esta frase resume o quão interessante é a situação de Kobane, porque mais do que estratégico no plano do terreno, Kobane tornou-se simbólico. Sem mares nem terras com uma abundância de recursos, interessantes para os curdos (por razões óbvias) mas muito pouco importantes para os meninos jesus deste mundo, Kobane mediatizou-se. Saiu da sombra… Daí as múltiplas questões que me coloco: desde quando a capacidade de auto-organização política e auto subsistência alimentar e energética são dignas de sair da sombra?

Durante o ultimo ataque a Gaza, uma palestiniana entrevistada por um jornalista dizia mais ou menos assim: “temos sorte porque os nossos inimigos são brancos, caso contrário seríamos dizimados às escuras”. O mesmo parece-me acontecer com os curdos sírios. Se os extremistas islâmicos não fossem o inimigo, o massacre não estaria a ser feito às escuras? Se as diferenças no apoio internacional que é concedido aos palestinianos e aos curdos são muitas, revelando em grande medida a parte de simpatia que o “inimigo” suscita no Ocidente, as semelhanças entre os dois emergem à luz de um aspecto pouco negligenciável para nós os “nostálgicos” das lutas armadas: a resistência organizada. Mas a empatia conquistada por Kobane na opinião publica, por vezes pelas piores razões (nomeadamente as que se relacionam exclusivamente com a imagem da mulher a combater o sexismo dos “homens” islâmicos, acentuando a islamofobia reinante), tem conduzido a um fenómeno engraçado que se posiciona na tensão entre a hesitação do governo turco em esclarecer a sua posição no turbilhão da guerra Síria e na questão curda (antevendo a importação do conflito para o seu território), a intervenção americana para marcar um ponto no “progresso civilizacional” do mundo contra os bárbaros e o ISIS que não está em medida de perder batalhas simbólicas. Já a luta dos curdos pelo direito de existir “sans Dieu ni Maître” tem um significado mínimo nesta tensão. Ainda assim, mesmo que Kobane caia nas mãos do Estado Islâmico, não terão os curdos já ganho muito?

Aqui um diaporama de fotografias de Yann Renoult na Palestina e no Curdistão, ver especialmente as categorias: “Les brigades Abu Ali Mustafa” e “YPJ-Kurdisk Female Fighters”.

A esquerda rupestre e a dívida privada paga com dinheiro público

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Em mais uma intervenção de levantar qualquer defunto, Pedro Filipe Soares exprime a sua ansiedade porque “um país que empobrece não paga a sua dívida”. Será preciso acrescentar mais alguma coisa ao esplendoroso futuro desta tropa fandanga?

Antigo soldado da IDF acusa Israel de “olhar para os palestinianos sem ser como seres humanos”

E assim continua a guerra, sem nenhuma moral mesmo que os meios de comunicação em todo o mundo anunciem que o tempo é de paz e cessar-fogo. O testemunho deste antigo soldado, militante do “breaking the silence“, é lapidar sobre a mentalidade sionista.

“STATE OF EXCEPTION | Estado de Excepção”, por CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra)