Loucura Digital

Prince Ea não deixa de ter a sua página no facebook, de usar a “rede anti-social” para que a sua mensagem chegue a milhões de pessoas e de fazer com que uma estrutura de dominação faça com que as pessoas percebam que têm que se libertar da tecnologia quando esta lhes domina a vida. A “loucura digital”, como bem lhe chama, não nos torna informados, conscientes ou modernos. Bem ao contrário. Tal como qualquer outra ferramenta, quando passa a ser ela a usar-nos e não o contrário estamos só no lugar de um doente em negação que afirma contra todas as evidências a sua improvável salubridade. Um bom alerta a quem não consegue já ir vivendo um par de dias sem se ligar aos que estão longe, fechando os olhos para quem está perto.

Zeinal Bava, “honoris causa” do erro

Antes do colapso da PT este escroto foi premiado com todas as honrarias, saudado por todos os empreendedores, aplaudido de pé por todos os políticos do bloco central dos interesses financeiros. Nesta entrevista, discreta, fala-nos do erro. Pena é que os erros do comum dos mortais são pagos pelos próprios, os seus contam com a bonomia dos contribuintes.

“Batalha por Mong Kok”, por Nathan Mauger

“Todos os discursos solidários em Mosjoen”, por IDC (Internacional Dockworkers Council)

A esquerda rupestre sem encruzilhada

unnamed (1)Depois de muita troca de sardas e piropos entre todos os que têm vindo a dirigir o BE até aqui, começa a ser fácil de prever o que vai acontecer ao partido no próximo congresso. Se a direcção bicéfala ganhar – com o apoio do que sobra do PSR e dos ditos independentes – tudo ficará na mesma e uma das mais frágeis lideranças irá a votos sem grande capacidade de evitar um dos piores resultado do BE desde a sua fundação. Neste contexto boa parte dos militantes que sobram continuarão no partido com os fiéis do Fazenda a gerir a oposição interna numa hábil troca de lugares no aparelho por alguma paz interna até ao próximo congresso. Se acabar por ser a UDP e o seu António José Seguro a assumir a liderança, voltaremos a ser presenteados com uma estrutura que está na política mais para se servir dela do que para servir o bem comum, pelo que o mais certo é que boa parte dos demais dificilmente ficará para fazer de carroceiros de um projecto político que mais não será do que a recuperação da velha lógica da UDP, profundamente estalinista do ponto de vista do regime e acerrimamente reformista do ponto de vista político. Os outros projectos alternativos, alguns deles qualitativamente superiores do que os dois com hipóteses de ganhar a contenda, ficarão reduzidos a cinzas e apesar das boas intenções o elemento central de análise será a sua pouca expressão militante no interior do partido.

O debate sobre o BE há muito que se esgotou. Quem por ai defende o regresso às origens – as únicas onde o BE teria viabilidade e espaço político – terá pouco mais do que os votos das suas próprias sombras e o meu único desejo é que o seu percurso político não fique por esta derrota e sejam capazes de seguir caminho e começar de novo com todos os outros que foram saindo ao longo dos anos. Os que mandam – e ganhe quem ganhe continuarão a mandar – acabarão incapazes de resistir ao apelo governativo e à pressão de um governo de unidade com o Partido Socialista – agora de António Costa, que fará ao BE o que antes fizeram Manuel Alegre ou José Sá Fernandes. Paradoxalmente, o único cenário que os livrará disso é o de serem insuficientes para contar eleitoralmente para essa maioria e essa maioria seja suficiente seja em modo de Bloco Central seja com o Livre na lapela dos barões do Largo do Rato.

Todos estes cenários, de uma maneira ou de outra, deixam uma realidade muito clara. Quem, na esquerda anti-capitalista, queira refundar a esperança tem que desde já começar a preparar o Futuro. Este não passa pelo reforço das estalagmites do Partido Comunista, que dificilmente sobreviverá, a prazo, à implosão da CGTP, nem pela caverna de estalactites em que se transformou o Bloco de Esquerda que provavelmente o tornará irrelevante já no próximo ciclo político. Até ver quem ri com tudo isto é o António Costa, o Rui Rio e o Rui Tavares, mas para que se abra caminho à reorganização de uma resposta política contra a austeridade e capaz de reacender a fornalha da luta política – sobretudo nas ruas – aos que querem o poder ao serviço da maioria, há que olhar para o colapso da esquerda rupestre com os olhos cheios de esperança e para a experiência de governo dos oportunistas como um momento chave para que se perceba, de vez, que o poder só interessa se for para o colocar ao serviço dos de baixo.

Músicas inobedientes (VIII): o caos segundo Sunn O))) [e também uma nota sobre o incompreensível fascínio do Noise]

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Prosseguindo este aleatório roteiro sonoro pelos domínios marginais do Noise, por onde já andámos e onde sempre voltaremos, chegamos inevitavelmente à impenetrável e abrasiva massa sonora produzida por Sunn O))), mestres dessa inesgotável arte de fazer (anti-)música com ruído. O Noise deste misterioso duo de Seattle, conhecido pelos seus ‘monolithic soundscapes’, não é brilhante nem estridente, mas antes grave e subterrâneo. Em concerto, os seus drones ruidosos não nos entram pelo tímpano, mas directamente pelo peito, como pudemos comprovar no seu concerto em Lisboa há uns anos. Há por isso algo de vital, ou de letal, em tal sonoridade.

Mas, perguntarão com pertinência alguns leitores, por que caralho me fascina tanto o Noise se esta merda é só barulho e rigorosamente nada mais para lá de barulho?

Os meus vizinhos estão convencidos que é doença minha e que portanto um internamento psiquiátrico me iria muito bem. Outra explicação para esse fascínio obsceno poderá ser: a estetização de certo modo dionisíaca da embriaguez, da violência, da agressividade, da destruição, do sofrimento (por oposição a uma estética apolínea, centrada sobre a melodia, a ordem, o equilíbrio, a forma) operada pelo Noise fascina-me de facto porque me coloca perante manifestações que nunca percebo como estando estabilizadas, estruturadas ou acabadas (e isto num mundo que me procura formatar para a identificação com formas acabadas, ordenadas e estáticas, docilmente manipuláveis por ideologias). Como também sucede com a música improvisada, elas estão num devir constante rumo a um desconhecido, e suspeito que esse estado de surpresa ininterrupta contribue para deixar-me num estado de excitação permanente.

Sensorialmente estimulado pelo Noise, que é como referi qualquer coisa de instável, logo de caótico e complexo, que não tem nenhum tipo de existência fora do seu próprio fluxo, dizia eu que, estimulado pelo Noise, sou impelido, não à projecção de categorias, julgamentos, significados ou conceitos (e nem mesmo de memórias conscientes), mas apenas à pura experiência fenoménica dessa manifestação sensorial (se é que isto pode ser humanamente possível). Sem qualquer mediação de ideias. O facto de nunca chegar a entender o Noise (por estar para lá daquilo que faz sentido e por ser parcialmente incompreensível e inenarrável) faz da sua experiência uma certa exploração do caos. E talvez seja precisamente isso o que mais me fascina nele: mergulhar no caos, perder-me nele para aí subitamente encontrar um campo radicalmente livre, sem códigos nem barreiras culturais, sem símbolos, sem nenhum cosmos impregnado de valores, sem o bem e sem o mal; SÓ SOM, nada mais (por muito improvável que isto possa soar). Som que, além do mais, me aproxima do êxtase – não será certamente casual a semelhança entre as palavras alemãs Rausch (êxtase) e Geräusch (ruído).

Outra explicação mais simples é aquela que também explica porque milhares de pais por esse mundo fora tranquilizam e adormecem, com poderosa eficácia, os seus bebés debaixo de uma massa de ruído branco. É que o ruído branco tem um efeito potencialmente tranquilizador em todas as pessoas (na verdade, ele remete para alguns sons intemporais: cascata, chuva, vento, mar, fogo, etc.), sendo que, para os bebés, ele proporciona além do mais uma atmosfera sonora provavelmente similar ao interior do corpo da mãe.


Outras músicas inobedientes: (I) Lou Reed (Metal Machine Music) - (II) Diamanda Galás (Malediction and Prayer) – (III) Throbbing Gristle - (IV) Kurt Cobain – (V) M.A.S.O.N.N.A. – (VI) Charlotte Moorman (Topless Cellist) – (VII) Gangsta Rap (sobre os motins de L.A.)

De derrota em derrota se matou o ensino superior público, gratuito e de qualidade

Há 10 anos os estudantes perderam a última batalha na guerra pelo ensino público e gratuito. Uma década depois as consequências estão à vista, com o apartheid social a ser o melhor fermento da praxe e a vida académica transformada num circo que não só não forma os estudantes para o combate político como transforma as universidades em autênticas fábricas de obediência.