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About JMGervásio

Sou pessoa alta, magra por criação, amante de velocípedes e de quase tudo que implique não fazer à segunda - quero dizer, sou do tipo espontâneo. Licenciado em altos estudos artísticos na ESBAP, tenho, desde lá, desenvolvido uma certa tendência para o comércio a retalho e agricultura de terraço. Possuo momentos de grande felicidade e civilidade que nem sempre são devidamente apreciados.

Cartas do vale #15

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Eu tinha acordado com o alvoroço que fez um enorme gafanhoto verde preso no embaraço da rede que me protegia o sono das ferradelas dos mosquitos. Entrara desprevenido pela janela e fora cair na rede branca do sono. Soltei-o do óbice em que se via e, mal acordado, lancei-o pela janela fora ao campo aberto. E ele foi. À laia de solecismo, aquilo que a seguir poderá ter acontecido pertence ao entendimento geral do nosso conhecimento sobre a vida material. Essa mesma que interessa aos gafanhotos e restantes insectos e que diz respeito às particulares propriedades da natureza. Fui sentar-me à porta de casa sem mais para fazer, esperando receber da sombra de uma árvore grande que lá estava para o efeito o resto da sonolência da manhã. Encostei-me a ver passar as nuvens que sem peso se movem de Sul para todo o lado empurradas pelo vento. Quando o dia se preparava para se dobrar sobre si, desci à localidade e entrei num café que passei a frequentar. A mulher e o dono saudaram-me. Trouxeram-me um café e um copo de água. Ele apressou-se a limpar os cantos da mesa com um pano sujo de limpar tudo que trazia sempre pendurado à cintura. Depois acercou-se a mulher com o café e a água e perguntou-me, o Sr. Dr. não vai muito à missa, pois não? Eu nunca mais entrei numa igreja desde que deus se zangou comigo depois de uma violenta discussão sobre resultados desportivos, política e sexo, respondi com um sorriso que não e voltei ao que estava a fazer. O padre não vai gostar nada de saber que o gajo não vai à missa. Foi o que disse alguém que estava sentado nas minhas costas ao outro que estava ao lado dele. Bebiam e proferiam comentários surdos para as moscas.

A liberdade é  uma mulher. É quando ela se ri na casa de banho a pentear os cabelos que tem na cabeça. Foi o que escrevi no meu caderno e olhei através da grande janela do café que dava para a rua e vi a rua e as casas do outro lado da rua. Terá passado um carro, e depois outro. Quando ela se ri e aparece vinda sei lá de onde, como se amaranhasse pelas paredes, e ficasse escondida à espera de me ver passar. É quando ela se ri, a liberdade. A liberdade, tal como a ciência já era antes de existirmos, ou a pensar na falta que ela nos faz, ou já fez, ou fazia. A liberdade faz muita falta e toda a que se possa ter não é demais. É a ciência política que o diz, o senso comum. Não sei ao certo.  Houve um tempo em que a minha mãe ocupava o lugar de todas as mulheres que conheci depois dela. Ela a puxar-me pela mão, rua abaixo quando íamos ao mercado e eu resistir, talvez não quisesse ir. Moedas na carteira era o que ela tinha para comprar fruta e peixe. E a força das ordens que me dava que se misturava com o amor enorme que nos tinha todos. As moedas ganhavam verdete nas mãos do homem da peixaria, era um sinal de esperança, era o que ela me dizia do verdete. Ela enorme perante as mulheres e aquele verde nas moedas eram um sinal de esperança. Que raio de esperança era essa de que ela falava? O seu mundo que nada mudara desde que se apaixonara e eu nascera. O seu mundo que era uma espécie grande terraço descoberto, à mercê de todas as intempéries, um estendal aberto ao céu e as mãos com que fazia todos os mimos que me dava. A esperança é o que é.

Paguei e saí. Decidi lançar-me à água antes de subir ao meu promontório. Caminhei pela localidade e atravessei o lajedo do porto. Desci uma escadaria de pedra e afundei-me num areal branco sem ninguém. O mar era verde brilhante e transparente. E para sul espreitava para lá dos rochedos  cabeça do farol. No caminho vi um tipo de calças justas e sapatos de vela de camurça avermelhados. As calças tinham as bainhas viradas para fora e paravam acima dos tornozelos como nunca se tinham visto por ali umas calças assim. As pessoas olhavam para as calças do tipo com estranheza e humor. Um grupo de miúdos caminhava na sua sombra para lhe ver as bainhas das calças mais de perto. Será papeleiro?, perguntavam-se baixinho para não incomodar o estrangeiro. O tipo tinha uma irmã que vestia igualzinha a ele. Só a cor da camisola era diferente. Mais clara no tom, mas de cor muito semelhante. Ela fumava e tinha um ar enfadado, na certeza disso era ar de quem estava fartinha até ao cabelos de ali estar. Gritou para o rimão, vamos para o barco, ou não vamos? Depois apareceram dois amigos deles com passos de meninos ricos, como se valsassem, ou navegassem, e traziam garrafas e sacos de papel com mercearias. Usavam o mesmo estilo de corte nas calças. Os putos seguiram-nos com os olhos até que eles desapareceram num carro branco desportivo que tinham estacionado na praça do município. Um dos putos mais atrevidos disse com ar de entendido,  a gaja, logo à noite, leva na cona deles todos, ò lá se leva. Tão certo como estes dois que o mar há-de engolir. E apontava com dois dedos para os dois olhos da cara, enquanto os outros menos informados consentiam a informação como certa e sabida.

O alvoroço que os gafanhotos fazem quando ficam presos nas redes das camas. Malditos mosquitos, um horror.

Popular é o caralho.


A propósito de moedas de 2€, chamo a atenção que uma parte considerável dos nossos artesãos ficou bastante descontente com a escolha da “imagem” que cunhará a referida moeda. O pessoal das Caldas da Rainha não entende a razão da escolha do coração de Viana do Castelo, outros objectos de significativo valor artístico-popular poderiam ter sido considerados como altrenativa. Sei lá, lagostas, mexilhões, sapos, cãezinhos de loiça, ou, até mesmo “naperons” (sem a respectiva espanhola). Pois aqui fica o meu projecto, em nome de todos os ceramistas que tão honestamente fazem pela vida e levam longe o nome das Caldas da Rainha. A elas e eles que disto vivem: viva o caralho, pois!

Os cravos de todas as cores são vermelhos em Abril


E não o são por questões do sempre assim foi. São-no porque não poderiam ter outra cor. Vermelho é cor que não existe onde não há vida e a vida não se dá onde não há revolução. Em Abril todas as flores são cravos, vermelhas ou não. Aos cravos não se lhes muda a cor só porque sim. É preciso que nos convençam que a nova cor é mais vermelha que o vermelho original. Até melhor explicação, até vermelhos são aqueles que não são. A liberdade é de todos os cravos. E os cravos são vermelhos não por opção, mas por necessidade de terem feito uma revolução.

(Apropriação a partir de fotografia de Elmer Batters – Maria do Povo esgana fascista com a cona que a mãe lhe deu!)

Querida Burda! – ( Como quem escreve uma cartinha).


Fofa.

A menina enganou-se. A causa agora era outra. Desta vez não eram aquelas pessoas do programa do chichi-cocó, em que se pede às individualidades do mundo da bola e do espectáculo que digam lá o que levavam para a ilha deserta. Não era esse o programa, fofa. O que se pedia era que a menina dissesse e fizesse simbolicamente coro com outra espécie de gente socialmente mais comprometida que a malta da bola e do espéctáculo. Era assim como que uma espécie de Pirilampo Mágico, mas dirigido lá para fora, percebe?

Incrédulo não fiquei, acredite. Mas ó querida, levar jóias na mochila para se enfiar num barco com a marabunta? Aquilo não é propriamente uma excursão de escuteiros. E o piolho? Eu sei lá. Aquilo era a causa dos refugiados, sabe ?     R E F U G I A D O S.  Enfim. Deixe lá. Neste país também ninguém liga a coisa nenhuma. Andam todos a falar do tempo e da gravata do Louçã. Tenho cá para mim que ninguém reparou no detalhe das jóias.

Olhe fofa,  a terminar, andei a ver na internet uns apartamentos em Damasco e na faixa de Gaza. Nem lhe digo, encontrei uns giríssimos e amplos a preços muito convidativos. Crochet à parte, talvez valesse a pena a mudança. Mais não fosse mudava de ares.

Bem haja pelo espírito largo com que encara a vida.

Um generoso e fraterno abraço.

 

Caderno dos filmes

Elia Kazan, A FACE IN THE CROWD ( 1957).
  

Caderno dos filmes

Luís Buñuel, EL RIO DE LA MUERTE (1956)

  
   
    
     
   
 

Caderno dos filmes

Sam Fuller, FIXED BAYONETS (1951)