Category Archives: maldita crítica

“O que esta civilização revela — ter transformado o mundo numa gigantesca fábrica produtora de patologias — obriga a pensar a sua urgente superação”

“Afrontar a realidade significa reconhecer que o capitalismo industrial criou problemas para os quais pode não haver solução.”

Acaba de sair o imperdível nº 7 da revista Flauta de Luz, que pode ser comprado aqui.

O espanto do Público: “Sri Lanka: bombistas serão todos da classe média.”

O Público fazia hoje manchete na edição on-line com a citação que reproduzi no título.  O jornal de classe média espanta-se pelo facto de os terroristas que cometeram os recentes massacres no Sri Lanka pertencerem à classe média. E os que mandaram abaixo o World Trade Center e o Pentágono de que classe seriam? É sabido que, de todas as classes, nenhuma é tão amada pelos gestores do tempo presente, e seus vassalos, como a classe média – refiro-me, entre outros, a políticos, empresários, banqueiros, publicitários e mediáticos. Por falta de crítica, ela tornou-se a classe modelo desta época, aquela a quem se dirige quase toda a publicidade, quase toda a informação e quase toda a propaganda política. Eis por isso alguns elementos, que partilho uma vez mais, relativos a uma caracterização desta classe que tem tanto de ubíqua quanto de ignorada nas suas expectativas e motivações.

Ciência e prostituição

 

Ontem, os média noticiavam mais um episódio na triste história da inclusão da academia na esfera empresarial. Ficávamos por exemplo a saber que “o ensino superior vai contar com um novo tipo de mestrados, mais curtos, mas com uma ligação maior ao mercado de trabalho“. Parece-me fantástico que António Costa queira democratizar o acesso ao ensino superior e esteja preocupado em garantir que “até 2030 seis em cada dez jovens de 20 anos participa no ensino superior”, mas  tenebroso que o ensino superior que esses jovens irão conhecer tenha sido vendido aos interesses da economia, convertendo estudantes e investigadores em empregados ao serviço de empreendedores, startups, multinacionais, fundos de investimento e accionistas – subsidiados no entanto pela generalidade dos contribuintes. Em 2030, nenhum aluno do ensino superior saberá qual é a diferença entre investigação científica e desenvolvimento tecnológico.

No neoliberalismo, também a ciência é mobilizada pelos industriais na competição que travam entre si pela produção de valor. O dinheiro torna-se a medida exclusiva de todas as coisas, até da produção científica. Neste contexto, a única coisa que não se pode pedir à ciência é uma análise crítica para com a sociedade, a economia, a cultura, a vida presente ou passada. O seu foco deve deslocar-se exclusivamente para o incremento da rentabilidade dos mais diversos sectores da economia. E, ao invés de esclarecerem à comunidade a natureza do mundo actual, os seus contributos devem esclarecer aos agentes económicos a natureza da comunidade que estes desejam explorar.