Category Archives: apontamentos sobre a cidade capitalista

Propriedade privada, propriedade sagrada

O Relatório Anual de Segurança Interna de 2017 que foi ontem divulgado aponta como motivo de preocupação securitária maior “a ocupação de imóveis devolutos no Porto e em Lisboa”. Num país e numa sociedade onde é normal os supermercados destruírem diariamente toneladas de comida que sobra, impedindo o seu aproveitamento por quem não faça parte do mercado e não cumpra a lei sagrada do capitalismo de que não pode existir valor de uso sem existir valor de troca, é também normal que “a legislação obrigue a emparedar um imóvel, quando não é possível, no imediato, proceder à sua reabilitação. Estando todo o edifício abandonado, devem ser emparedadas com tijolos, as portas e as janelas mais baixas do imóvel, para que não seja invadido por quem lhe possa, por descuido ou vandalismo, pegar fogo. Não o fazendo voluntariamente, as próprias autarquias podem intimar o proprietário a fazê-lo. Não o fazendo, muitas câmaras, tomam elas mesmo a iniciativa de emparedar o imóvel, apresentando posteriormente a fatura ao proprietário.” Ocupar um imóvel para convertê-lo no lar de uma família ou num equipamento sócio-cultural representa um perigo para a segurança interna porque significa romper com a lógica dominante que atribui maior valor (legal) à mercadoria e à propriedade privada do que ao ser humano e às suas necessidades. E, hoje, a principal incumbência da polícia é certificar o distribuidor de mercadorias e o proprietário de imóveis que a lógica mercantil que defende os seus interesses se mantém intacta e que os humanos sem condições (ou sem o objectivo) de integrar o mercado continuarão excluídos, marginalizados e criminalizados.

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“Os pobres estão a ser expulsos do centro, e isso está a acontecer a grande velocidade”

Hoje, num interessante artigo de opinião, Pedro Machado escreve sobre “uma Lisboa que vai morrendo aos poucos”. Aí encontramos várias passagens do calibre das que aqui transcrevo:

“Estabelecimentos (…) muito estimados pelos habitantes locais desapareceram sobretudo pela acção do implacável compressor especulativo. (…) Existem diferentes causas para estes encerramentos, mas nem sempre se trata de falta de clientela ou viabilidade económica. O que acontece em muitos casos são rendas que atingem valores muito acima da realidade económica do país, e por vezes é apenas uma questão de opção e de conceito, por exemplo, um hotel que não quer a sua imagem associada a um lugar de cariz popular

“Do café Palmeiras não sobraram sequer as suas belíssimas arcadas e o seu magnífico pé direito — a ânsia de rentabilização foi tal que o rés-do-chão foi convertido em dois pisos.”

O café Estádio, no Bairro Alto, era um marco indelével da antiga boémia lisboeta, tratava-se do casamento perfeito entre o café de bairro e o destino dos errantes nocturnos e dos inconformados (…) noite fora praticava-se a tertúlia e a boémia. (…) Às sextas e sábados à noite era frequente não encontrar nenhuma das 80 cadeiras vagas e aí havia que encostar ao balcão, o que faríamos com satisfação pela oportunidade de desfrutar aquele ambiente anárquico, e electrizante. Não raras vezes havia discussões políticas e clubísticas inflamadas, ali estacionavam também alguns leitores solitários, algumas pessoas sinistras e outras até que falavam sozinhas. (…) O lugar tinha um charme decadente que já não se encontra mais nem tem substituto que se possa comparar, numa Lisboa que vai morrendo aos poucos.”

“Mais abaixo, na Praça da Figueira, o café Videirinha e a pensão Ibérica resistiam heroicamente nos últimos meses de 2017, sob ameaça de fecho. (…) Os clientes sentavam-se ao balcão para comer uma canja, um bacalhau cozido, beber imperiais acompanhadas de tremoços ou para tomar um café e um bagaço. Volta e meia saíam uns “bitaites” e umas “piadolas” ou uma resposta mais torta mas o ambiente era amistoso e sobretudo autêntico. O dono do estabelecimento estava disposto a negociar a renda e a pagar um preço mais elevado mas o proprietário do edifício não quis negociar. Agora esta verdadeira pérola será substituída provavelmente por um lugar luxuoso chamado Giuseppe’s, Low Fat Burger ou um lounge bar.”

“O pequeno café de bairro com as suas estimáveis particularidades, a sua clientela castiça e as relações que se criam entre estes não são substituíveis por modernos bistrôs self-service de paredes brancas, luminosas e desnudadas, nem por relações anónimas e mecânicas.”

“O que está a acontecer é que talvez pela primeira vez na história da cidade os pobres estão a ser expulsos do centro, e isso está a acontecer a grande velocidade.”

“Se expulsarem todos os pobres do centro, e acabarem com a mistura de estratos sociais que fazem a cidade, a Lisboa que Wim Wenders descobriu um dia morrerá tristemente.”

Texto completo aqui.

Fotos de Lisboa por PDuarte e A. Morgenstern

La Société du Smartphone

La Sociètè du Spectacle

La Société du Smartphone

O livro La Société du Spectacle foi publicado pela primeira vez em Paris no ano de 1967. Em Portugal a primeira tradução é de 1972 e foi seguida de perto pelo autor Guy Debord. É com base nesta edição que se elaborou o détournement de alguns capítulos substituindo a palavra «espectáculo» por «smartphone» mas mantendo a numeração e a sequência original. Este détournement, assim como as fotos ilustrativas, são da autoria de Maria Ramalho.

3. O Smartphone apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade, e como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente o sector que concentra todo o olhar e toda a consciência. Pelo próprio facto de este sector ser separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; e a unificação que realiza não é outra coisa senão uma linguagem oficial da separação generalizada.

4. O Smartphone não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediatizada por imagens.

5. O Smartphone não pode ser compreendido como o abuso de um mundo da visão, o produto das técnicas de difusão massiva de imagens. Ele é bem mais uma Weltanschauung tornada efectiva, materialmente traduzida. É uma visão do mundo que se objectivou.

6. O Smartphone compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projecto do modo de produção existente. Ele não é um suplemento ao mundo real, a sua decoração readicionada. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo directo de divertimentos, o Smartphone constituiu o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação omnipresente da escolha já feita na produção, e o seu consumo corolário. Forma e conteúdo do Smartphone são identicamente a justificação total das condições e dos fins do sistema existente. O Smartphone é também a presença permanente desta justificação, enquanto ocupação da parte principal do tempo vivido fora da produção moderna.

12. O Smartphone apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz que «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que de facto ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.

13. O carácter fundamentalmente tautológico do Smartphone decorre do simples facto que os seus meios são ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.

15. Enquanto indispensável adorno dos objectos hoje produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, e enquanto sector económico avançado que modela directamente uma multidão crescente de imagens-objectos, o Smartphone é a principal produção da sociedade actual.

16. O Smartphone submete a si os homens vivos na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si própria. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores.

30. A alienação do espectador em proveito do objecto contemplado (que é o resultado da sua própria actividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do Smartphone em relação ao homem que age aparece nisto que os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos representa. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o Smartphone está em toda a parte.

32. O Smartphone na sociedade corresponde a um fabrico concreto de alienação. A expansão económica é principalmente a expansão desta produção industrial precisa. O que cresce com a economia movendo-se para si própria não pode ser senão a alienação que estava justamente no seu núcleo original.

34. O Smartphone é o capital a um tal grau de acumulação que se torna imagem.

37. O mundo ao mesmo tempo presente e ausente que o Smartphone faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. E o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois o seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens entre si e face ao seu produto global.

42. O Smartphone é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social. Não só a relação com a mercadoria é visível, como também não se vê senão ela: o mundo que se vê é o seu mundo. A produção económica moderna estende a sua ditadura extensiva e intensamente.

215. O Smartphone é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O Smartphone é materialmente «a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem».

218. A consciência espectadora, prisioneira dum universo estreitado, limitada pelo écran do Smartphone, para trás do qual a sua vida foi deportada, não conhece mais do que os interlocutores fictícios que lhe falam unilateralmente da sua mercadoria e da política da sua mercadoria. O Smartphone, em toda a sua extensão, é o seu «sinal do espelho». Aqui se põe em cena a falsa saída dum autismo generalizado.

219. O Smartphone que é a extinção dos limites do eu e do mundo pelo esmagamento do eu que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura.

A burguesia também vai ao mercado

Mercado Les Halles, Paris, 1971

Estando a “gentrificação” das cidades no epicentro de numerosos debates, é de estranhar que pouca atenção esteja a ser prestada a um dos lugares onde esse processo é tão premente e devastador: os mercados. Estes últimos redutos urbanos da sensualidade, onde cheiros, sons, cores, aromas e corpos em movimento se combinam de modo singular, sempre foram pontos de encontro vitais para as classes populares, que aí confluíam para vender, comprar e socializar. Sem a obsessão pela higiene e o silêncio que a classe média e os seus arquitectos manifestam, eles tornaram-se, juntamente com as tascas, as últimas heterotopias urbanas: lugares isolados do restante espaço social que, precisamente por não reproduzirem as mesmas normas que ocuparam esse espaço, proporcionam momentos de fuga à ordem actual. Desconhecem o wifi, os sistemas de videovigilância, as empresas de segurança privada e o ar condicionado. Permanecem como que subtraídos ao tempo presente. E é por se encontrarem suspensos numa dimensão paralela que estão ameaçados de extinção por um sistema que tolera mal a existência de margens.

Mas alguns resistem. O mercado das Caldas da Rainha foi cercado de supermercados e shoppings e, contra todas as previsões, sobreviveu com enorme fulgor até hoje. Em Tavira, o elegante mercado situado no centro da cidade foi reservado aos turistas, que aí não encontram senão souvenirs, enquanto que os antigos vendedores de géneros alimentares, escorraçados para longe do centro e enfiados num pavilhão vulgar e soturno que mais parece uma estação da rodoviária, resistem para conseguir vender o melhor peixe e as verduras mais saborosas da região. Em Évora, o edifício do mercado sofreu uma intervenção de “recuperação” que o tornou tão estéril que até os turistas se demoram menos de 1 minuto no seu interior escuro e desolado. Na vizinha Montemor-o-Novo, o interior do mercado tem alguma vida aos sábados, mas já existe um projecto de “revalorização” que, a ver pelas imagens disponíveis nos outdoors que foram colocados em frente ao mercado, ameaça transformar tascas em hamburguerias com esplanadas e molhos de nabiça e agrião em tapas gourmet. A tendência generalizou-se de tal modo que até o irredutível Mercado do Bolhão no Porto está finalmente em vias de ser esterilizado por algum arquitecto burguês que costuma fazer as suas compras de fim de semana no NorteShopping.

De um ponto de vista sociológico e geográfico, a leitura é simples (ainda que nenhum sociólogo ou geógrafo ouse fazê-la, sob pena de perder o financiamento da FCT ou do Compete2020): o território das cidades, como a transformação dos velhos mercados exemplifica, tem sido um palco activo na tradicional luta de classes que, na última década, viu a sua dimensão geográfica acentuar-se. Nas cidades, geografias inteiras que permaneciam populares vão sendo desbravadas por empreendedores e promotores imobiliários que as “recuperam”, “restauram” e “revalorizam”, segundo o paladar e as preferências das classes médias que se endividam para lhes terem acesso. E não é só em Londres, Paris e Berlim, onde estes fenómenos ganharam uma intensidade descomunal, que todo o espaço urbano com um qualquer potencial imobiliário muda subitamente de classe.

Por toda a parte, em poucos anos as classes populares, ou perigosas, viram-se excluídas do direito e do acesso à sua cidade. Os bairros, as ruas, as mercearias, os cafés, as tascas e os mercados que frequentavam “revalorizaram-se” enquanto mercadorias dirigidas a uma burguesia (local e visitante) que, tomada por um impulso romântico, passou a interessar-se pelo pitoresco e o exótico desses cenários. A empresa internacional que explora o Mercado da Ribeira, em Lisboa, e que se gaba deste se ter convertido num dos locais da capital mais visitados pelos turistas, explica na sua página web o que agora aí se pode encontrar: “o melhor bife, o melhor hambúrguer, o melhor sushi ou os melhores espetáculos”. A classe média – lisboeta, nova-iorquina ou iraniana, já que ela é rigorosamente igual em todos os países – sente-se aí em casa. Uma casa que não tem cessado de aumentar.

Central Market, Covent Garden, Londres

É precisamente no momento em que a sociologia nos apresenta a sociedade global como já não tendo lugar para divisões entre classes que o mundo neoliberal apresenta uma fractura sociológica que faz lembrar aquela que existia no tempo em que o conceito de ‘classe’ foi forjado. Em Berlim, virtualmente ninguém da burguesia que habita os bairros centrais de Mitte, Prenzlauer Berg e Friedrichshain – os quais exportam ao mundo o seu cada vez mais acomodado lifestyle – sabe dizer o nome de uma única rua dos bairros densamente habitados da periferia que, para ela, começa já no vizinho bairro de Lichtenberg e se estende até ao longínquo Marzahn. Em Portugal, a segregação da sociedade assenta na mesma divisão classista de um território que para a burguesia praticamente não tem existência fora de autoestradas, aeroportos, comboios alfa, clínicas e colégios privados, hotéis, condomínios, resorts, marinas, pousadas e termas reconvertidas em spas.

Não é preciso uma licenciatura no ISCTE para entender que o sexto da população mundial que habita as favelas que não param de se expandir não pertence à burguesia, nem que os programas de revalorização dos centros urbanos (como o Programa Polis que se definia como visando “promover intervenções nas vertentes urbanística e ambiental, por forma a promover a qualidade de vida nas Cidades, melhorando a atractividade e competitividade dos pólos urbanos”) jamais são dirigidos ao conjunto da população mas a uma pequena fatia desta. Quando o poder público decide promover a qualidade de vida num qualquer eixo urbano, tornando-o mais verde e mais pedonal, paralelamente, ele não faz rigorosamente nada para, nas proximidades do eixo intervencionado, fixar as populações com menos recursos. Pelo que toda a requalificação urbana, financiada com dinheiros públicos, se dirige, genericamente e salvo excepções muito pontuais,  a uma classe social concreta que, essa sim, tem direito à cidade. Todo o direito. A toda a cidade.