Category Archives: apontamentos sobre a cidade capitalista

A burguesia também vai ao mercado

Mercado Les Halles, Paris, 1971

Estando a “gentrificação” das cidades no epicentro de numerosos debates, é de estranhar que pouca atenção esteja a ser prestada a um dos lugares onde esse processo é tão premente e devastador: os mercados. Estes últimos redutos urbanos da sensualidade, onde cheiros, sons, cores, aromas e corpos em movimento se combinam de modo singular, sempre foram pontos de encontro vitais para as classes populares, que aí confluíam para vender, comprar e socializar. Sem a obsessão pela higiene e o silêncio que a classe média e os seus arquitectos manifestam, eles tornaram-se, juntamente com as tascas, as últimas heterotopias urbanas: lugares isolados do restante espaço social que, precisamente por não reproduzirem as mesmas normas que ocuparam esse espaço, proporcionam momentos de fuga à ordem actual. Desconhecem o wifi, os sistemas de videovigilância, as empresas de segurança privada e o ar condicionado. Permanecem como que subtraídos ao tempo presente. E é por se encontrarem suspensos numa dimensão paralela que estão ameaçados de extinção por um sistema que tolera mal a existência de margens.

Mas alguns resistem. O mercado das Caldas da Rainha foi cercado de supermercados e shoppings e, contra todas as previsões, sobreviveu com enorme fulgor até hoje. Em Tavira, o elegante mercado situado no centro da cidade foi reservado aos turistas, que aí não encontram senão souvenirs, enquanto que os antigos vendedores de géneros alimentares, escorraçados para longe do centro e enfiados num pavilhão vulgar e soturno que mais parece uma estação da rodoviária, resistem para conseguir vender o melhor peixe e as verduras mais saborosas da região. Em Évora, o edifício do mercado sofreu uma intervenção de “recuperação” que o tornou tão estéril que até os turistas se demoram menos de 1 minuto no seu interior escuro e desolado. Na vizinha Montemor-o-Novo, o interior do mercado tem alguma vida aos sábados, mas já existe um projecto de “revalorização” que, a ver pelas imagens disponíveis nos outdoors que foram colocados em frente ao mercado, ameaça transformar tascas em hamburguerias com esplanadas e molhos de nabiça e agrião em tapas gourmet. A tendência generalizou-se de tal modo que até o irredutível Mercado do Bolhão no Porto está finalmente em vias de ser esterilizado por algum arquitecto burguês que costuma fazer as suas compras de fim de semana no NorteShopping.

De um ponto de vista sociológico e geográfico, a leitura é simples (ainda que nenhum sociólogo ou geógrafo ouse fazê-la, sob pena de perder o financiamento da FCT ou do Compete2020): o território das cidades, como a transformação dos velhos mercados exemplifica, tem sido um palco activo na tradicional luta de classes que, na última década, viu a sua dimensão geográfica acentuar-se. Nas cidades, geografias inteiras que permaneciam populares vão sendo desbravadas por empreendedores e promotores imobiliários que as “recuperam”, “restauram” e “revalorizam”, segundo o paladar e as preferências das classes médias que se endividam para lhes terem acesso. E não é só em Londres, Paris e Berlim, onde estes fenómenos ganharam uma intensidade descomunal, que todo o espaço urbano com um qualquer potencial imobiliário muda subitamente de classe.

Por toda a parte, em poucos anos as classes populares, ou perigosas, viram-se excluídas do direito e do acesso à sua cidade. Os bairros, as ruas, as mercearias, os cafés, as tascas e os mercados que frequentavam “revalorizaram-se” enquanto mercadorias dirigidas a uma burguesia (local e visitante) que, tomada por um impulso romântico, passou a interessar-se pelo pitoresco e o exótico desses cenários. A empresa internacional que explora o Mercado da Ribeira, em Lisboa, e que se gaba deste se ter convertido num dos locais da capital mais visitados pelos turistas, explica na sua página web o que agora aí se pode encontrar: “o melhor bife, o melhor hambúrguer, o melhor sushi ou os melhores espetáculos”. A classe média – lisboeta, nova-iorquina ou iraniana, já que ela é rigorosamente igual em todos os países – sente-se aí em casa. Uma casa que não tem cessado de aumentar.

Central Market, Covent Garden, Londres

É precisamente no momento em que a sociologia nos apresenta a sociedade global como já não tendo lugar para divisões entre classes que o mundo neoliberal apresenta uma fractura sociológica que faz lembrar aquela que existia no tempo em que o conceito de ‘classe’ foi forjado. Em Berlim, virtualmente ninguém da burguesia que habita os bairros centrais de Mitte, Prenzlauer Berg e Friedrichshain – os quais exportam ao mundo o seu cada vez mais acomodado lifestyle – sabe dizer o nome de uma única rua dos bairros densamente habitados da periferia que, para ela, começa já no vizinho bairro de Lichtenberg e se estende até ao longínquo Marzahn. Em Portugal, a segregação da sociedade assenta na mesma divisão classista de um território que para a burguesia praticamente não tem existência fora de autoestradas, aeroportos, comboios alfa, clínicas e colégios privados, hotéis, condomínios, resorts, marinas, pousadas e termas reconvertidas em spas.

Não é preciso uma licenciatura no ISCTE para entender que o sexto da população mundial que habita as favelas que não param de se expandir não pertence à burguesia, nem que os programas de revalorização dos centros urbanos (como o Programa Polis que se definia como visando “promover intervenções nas vertentes urbanística e ambiental, por forma a promover a qualidade de vida nas Cidades, melhorando a atractividade e competitividade dos pólos urbanos”) jamais são dirigidos ao conjunto da população mas a uma pequena fatia desta. Quando o poder público decide promover a qualidade de vida num qualquer eixo urbano, tornando-o mais verde e mais pedonal, paralelamente, ele não faz rigorosamente nada para, nas proximidades do eixo intervencionado, fixar as populações com menos recursos. Pelo que toda a requalificação urbana, financiada com dinheiros públicos, se dirige, genericamente e salvo excepções muito pontuais,  a uma classe social concreta que, essa sim, tem direito à cidade. Todo o direito. A toda a cidade.

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