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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

“Eu analiso o turismo enquanto indústria extractiva, como antes a mineração, o agro-alimentar. Para mim, Barcelona é um campo de soja, explorável como um qualquer recurso natural.”

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Cinco mil anos de tensões urbanas: uma breve história da cidade

Introdução: essência e atributos da cidade

Enquanto que a aldeia se estrutura em torno da satisfação de necessidades elementares, que ela garante de facto ao maior número, a cidade, estando longe de garanti-las adequadamente à maioria dos seus habitantes, move-se por outras causas: foi aí que a humanidade melhor soube demonstrar a vitalidade das suas sociedades e a originalidade do seu espírito criador. A cidade seria impensável sem a emergência do registo escrito, que a vida rural pôde ignorar até recentemente. Foi também na cidade que o homem melhor manifestou o seu desejo de imortalidade, pela criação de catedrais, palácios, torres, estátuas ou museus. E assim, condensando e conservando vidas, ideologias e experiências na sua paisagem, mas também na literatura ou na arte que ela dinamiza, a cidade une, como nenhuma outra geografia humana, passado, presente e futuro.

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Elogio do excesso (VI): Tributo às plantas exóticas

1 – As plantas exóticas são categoricamente desprezadas pela ortodoxia ecologista. Mas, enquanto mitificam e veneram as espécies autóctones, muitos militantes da causa ‘natural’ alimentam-se diariamente de quilos de exóticas – trigo, tomate, batata, arroz, laranja, azeite. Porque não se alimentam exclusivamente de sopas de folha de silva, saladas de urtiga e pão de bolota?

2 – Esta xenofobia vegetal dispensa um qualquer fundamento ecológico já que tais ecologistas não criticam apenas a deplorável introdução na paisagem das exóticas que se tornam pragas incontroláveis e acabam por sacrificar os frágeis equilíbrios do ecossistema. Criticam qualquer planta vinda de um lugar distante, a qual – mesmo que passe a conviver pacificamente com as restantes e até a melhorar ecossistemas degradados – se torna para eles uma abominável peste.

3 – Qual poderia ser, por outro lado, o fundamento cultural de uma tal xenofobia, sabendo-se que não existem culturas, nem identidades, que não sejam mestiças?

4 – E onde poderíamos encontrar um fundamento paisagístico, sabendo também que uma paisagem puramente ‘autóctone’ – como as que encontraríamos na Gronelândia, na Antártida ou em Marte – é, de acordo com as mais consensuais definições de ‘paisagem’, uma não-paisagem, já que marginal à intervenção humana que é, por definição, criadora de geografias impuras, miscigenadas?

5 – É ponto assente que onde não há homem não pode haver paisagem. E onde há homem – logo, também paisagem – jamais poderão faltar as exóticas, como bem deveriam saber os incoerentes ‘ecologistas’ que veneram as autóctones como o objecto de uma nova liturgia, apesar de as terem erradicado da sua dieta e da reprodução material da sua existência.

6 – Na nossa sociedade a sensualidade é violentamente reprimida. A pátina elimina-se dos edifícios, cujas fachadas periodicamente se higienizam. Nos cemitérios, as flores já não são senão de plástico, como as bolas de buxo à entrada dos hotéis. Também as madeiras do mobiliário são em cada vez maior número falsas – mas alguém nota realmente uma diferença enquanto passeia pelo Ikea? Perante o triunfo generalizado da aparência visual, que torna obsoletos os restantes sentidos, o mundo tornou-se plano, redutível à imagem de um ecrã. Como consequência desta degradação-falsificação da experiência sensorial, perdeu-se a exigência pela estética e a sensualidade dos objectos, das arquitecturas, dos lugares e das paisagens que nos rodeiam.

7 – O paisagismo contemporâneo não poderia deixar de contribuir para estas geografias assépticas, que falam a linguagem mirrada e empobrecida da classe média. O léxico da maior parte dos paisagistas, como dos arquitectos em geral, desconhece a palavra sensualidade. Trajam invariavelmente de negro como se o mundo com que se relacionam fosse um cadáver. Efectivamente, os espaços exteriores que desenham são invariavelmente inertes. O absoluto desprezo que as plantações exuberantes e exóticas de uma artista como Tita Giese lhes suscita é sintomático da aridez que predomina nos espaços exteriores das nossas cidades. Estes paisagistas, seres enfadonhos e previsíveis, que projectam para o intelecto mas não para o corpo, nem nas paisagens orgânicas e dinâmicas de Burle Marx sabem encontrar inspiração.

8 – Mas a sobriedade e a moderação não dominam apenas as paisagens hiper-racionais dos arquitectos paisagistas – paisagens que não admitem o descontrolo, a loucura, nem sequer a emoção. Dominam, reprimindo, os nossos gestos no espaço público, tal como dominam, restringindo, a nossa fantasia e o nosso imaginário.

9 – A loucura, a vitalidade e o excesso das plantas exóticas fazem tanta falta aos nossos desertos urbanos, como os oásis ao Sahara.

Fotos de  A. Morgenstern, plantas exóticas da Estufa Fria, Lisboa, 2018

 

Diverso e actual, o novo MAPA está nas ruas

Com artigos, como sempre variados, sobre: o fogo e o seu território; a febre do lítio e os conflitos ambientais da mineração; uma nova Cooperativa alentejana; a Grécia onde o Estado deixou de garantir  serviços essenciais; uma análise histórica da cidade; uma visão não comemorativa do Maio de 68; o precariado invísivel dos estafetas; o encontro de mulheres em Mar­ço de 2018, nas montanhas de Chiapas; um olhar sobre os conflitos no Myanmar; biopolítica; etc. A não perder, portanto.

Os estrangeiros na revolução social do 25 de Abril

“O meu primeiro contacto com Portugal foi através da literatura, devendo destacar aqui o livro de Erich Maria Remarque ‘A Noite de Lisboa’, sobre os refugiados do nazismo que acorreram ao porto de abrigo que Lisboa representava e a partir do qual procuravam um exílio seguro nas Américas. Este belo romance alemão levou-me a pressentir, no provisório oásis português dos anos 40, algo que contrastava com as circunstâncias sociopolíticas portuguesas minhas contemporâneas: a já então mais longa ditadura política do mundo ocidental, uma sangrenta guerra colonial que parecia interminável e uma impressionante emigração para vários países europeus, em particular para França. Esta última realidade levou-me aliás a fazer uma formação na Sorbonne para ensinar francês a trabalhadores estrangeiros.

O contacto mais próximo que depois tive com portugueses foi na minha faculdade, no primeiro ano, na Universidade de Paris VII, em 1973. A certa altura, conheci na cantina um grupo de jovens portugueses, rapazes e raparigas na casa dos vinte anos, que chamaram a minha atenção pela sua jovialidade e os seus modos atraentes. Fiquei surpreendida quando soube que eram todos casados, e ainda mais ao saber que nenhum vivia com o seu respectivo cônjuge, embora todos fizessem parte daquele grupo. Percebi depois que isso se devia ao facto de as raparigas terem precisado de casar para sair de Portugal, e que esses casamentos tinham sido combinados entre eles, ludibriando os pais.

Mais ou menos um ano depois, quando de repente ocorreu o popular golpe de Estado do 25 de Abril, todos esses meus amigos regressaram a Portugal. E eu segui-os. Como todos eram de Lisboa, fui para Lisboa, onde aliás se concentravam os acontecimentos políticos mais relevantes.

Tal como eu, acorreram a Portugal centenas de jovens estrangeiros. Alguns conheciam alguma coisa da história do país ou estavam até implicados, nos seus respectivos países, em actividades de apoio e solidariedade antifascista; e para muitos outros, certamente a maioria, tratou-se de um impulso motivado pelo que parecia ser uma revolução social no sul da Europa, que poderia propagar-se a outros países europeus, o que se vira confirmado na Polónia, em 1981, com o surgimento do movimento Solidarnosc.

O meu primeiro deslumbramento foi o 1º de Maio de 1974 em Lisboa. Pareceu-me que desaguara ali o melhor do Maio de 68, mas mais jubiloso, sem barricadas nem violência das forças policiais. Foi como um estado de graça irrepetível, um intenso sentimento de fraternidade sem fronteiras, momento de autêntico universalismo a partir daquelas novas condições locais. Tal como em Maio de 68, a primeira evidência de que algo de fundamental estava a acontecer revelava-se no facto de as pessoas falarem umas com as outras abertamente e em toda a parte, mostrava-se na comunicação social directa, cara a cara, que só surge quando um contexto revolucionário se prepara para pôr toda a sociedade a ver-se ao espelho e a interrogar-se radicalmente.

Faço aqui um parêntesis: se quisermos ser rigorosos, a «revolução de Abril» não durou dois anos: durou do 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975. Mas com efeito, nesse período ocorreram, por um lado, mudanças perfeitamente consensuais, que já deviam ter acontecido no pós-guerra, em 1945, quando se deu na Europa a libertação do fascismo hitleriano (mudanças que muitos portugueses desse tempo esperavam que acontecessem), em particular a reimplantação da democracia parlamentar que a ditadura militar abolira em Portugal em 1926 – e, ao mesmo tempo, mudanças nada consensuais, um processo revolucionário social que começou a pôr em causa a propriedade privada dos meios de produção, o conteúdo e a razão de ser do trabalho assalariado ou as relações entre homens e mulheres, tudo isso através da aplicação da democracia directa, em particular nas comissões de trabalhadores e de moradores, tendo mesmo esse movimento autónomo criado uma nova e significativa palavra no léxico político internacional, a palavra apartidário, que exprimiu, com bastante clareza, a autonomia estratégica do movimento social. Devemos pois ter presente que o resultado desse período de dois anos não foi a vitória do movimento revolucionário dos trabalhadores auto-organizados, foi precisamente o contrário, por causa do contragolpe do 25 de Novembro de 1975 e da «normalização» que este impôs pela ameaça das armas através do estabelecimento de uma democracia formal, parlamentar, na qual, como posteriormente se pôde verificar, o povo não exerce nenhum poder directo.

Na Primavera de 1974, Lisboa tornou-se de repente uma cidade cosmopolita. Até então, os estrangeiros que visitavam Portugal eram os turistas convencionais. Mas havia outros estrangeiros, naturalmente os mais politizados, que não vinham de férias a Portugal (nem iam a Espanha ou à Grécia) para não colaborarem com ditaduras.

Muitos dos estrangeiros jovens (ou menos jovens) que vieram para Portugal logo a seguir ao 25 de Abril implicaram-se com grande entusiasmo no que estava a acontecer. Para isso não faltavam motivos de interesse, quer fosse na cidade ou nos campos. Como cantou Sérgio Godinho, «a liberdade está a passar por aqui», e essa liberdade abrangia os âmbitos mais diversos. Pois, havia muito que transformar. Além disso, os estrangeiros oriundos de países mais frios encontravam na maneira de ser dos portugueses, então muito mais calorosa e afectiva, motivos suplementares de participação.

Eu viera a Portugal para conhecer o país em revolta dos meus amigos portugueses de Paris, e rapidamente fiquei encantada, ao mesmo tempo que me dava conta das grandes contradições em curso, novas e antigas. Graças a essa feliz conjuntura, fiz quase todos os meus trabalhos universitários sobre alguns aspectos das grandes ocorrências então em curso na sociedade portuguesa. Nesse sentido, acabei por frequentar uma casa, no bairro da Graça, bastante representativa da atmosfera jovem e internacionalista que então predominava em Portugal. Era uma casa comunitária onde viviam rapazes e raparigas de várias nacionalidades. Essa casa fora alugada, a uma senhora que fugira para Inglaterra com medo da revolução, pelo único morador português, o JH (jornalista, actor, tradutor), que virá a ser o meu companheiro para a vida, e por um amigo irlandês, o Phil Mailer, professor em Lisboa e que já então conhecia muito bem a sociedade portuguesa. Nesta casa moravam pessoas vindas de Itália, de França, de Espanha, da Grã-Bretanha, do Brasil, da Austrália, dos Estados Unidos. As tarefas comuns eram partilhadas, tal como as refeições e as festas – porque era uma casa festiva! Ainda me lembro dos gritos de horror das amigas italianas quando nos viam partir em dois o esparguete, do chili com carne preparado com arte mexicana durante toda a manhã pelo Bill Lomax ou da feijoada brasileira confeccionada pela Luísa!

Todos naquela casa viviam com pouco dinheiro, porque a maior parte do seu tempo era dedicada a actividades militantes. Vários eram membros de uma organização, o colectivo libertário Combate, constituído, em pé de igualdade, por participantes portugueses e estrangeiros, que editava o jornal com o mesmo nome e tinha uma bonita livraria no Bairro Alto. O jornal chegou a ter uma grande tiragem. Este colectivo defendia e exprimia as posições dos movimentos autónomos de trabalhadores e moradores. Do colectivo Combate fazia parte um grupo feminista, que incluía homens, em que as raparigas estrangeiras tiveram um papel relevante. De resto, as lutas feministas foram nessa altura consideráveis, inclusive nos meios operários.

A este propósito, lembro um episódio que me marcou. O ataque lançado contra a primeira manifestação organizada pelo MLM (Movimento de Libertação das Mulheres), no dia 13 de Janeiro de 1975 (Ano Internacional das Mulheres), em pleno centro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. De repente, quando as manifestantes, em sua maioria jovens, estavam prestes a dar início à manifestação, com as suas bandeirolas erguidas em que reclamavam igualdade de direitos, salário igual para trabalho igual e outras reivindicações democráticas, caiu-lhes em cima, com brutal agressividade e numa histeria alucinante, uma grande multidão de homens acompanhados por algumas mulheres. Várias manifestantes tiveram de ser hospitalizadas, outras foram protegidas por repórteres da rádio e da televisão ali presentes, e a manifestação foi destroçada, a meio de uma desoladora estupefacção. Este episódio degradante teve repercussões internacionais.

Tal como hoje continuamos a ver nos repetidos casos de violência doméstica que não cessam, mesmo no meio universitário, nessa altura o problema da relação entre homens e mulheres estava longe de ter chegado a um equilíbrio. A propósito desta violência no meio universitário, é altamente recomendável a obra da investigadora Maria do Mar Pereira Fazendo, Género no Recreio, Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa em 2014. Convém aqui notar uma coisa: um depoimento coligido pela investigadora Manuela Tavares no seu importante livro Feminismos: Percursos e Desafios, editado em 2011: «O 25 de Abril, para as mulheres, foi terem a rua como palco. Foi um abrir de portas, um saltar de barreiras […]. As mulheres deixaram de viver acabrunhadas, fechadas. Foi a primeira grande oportunidade de tomarem a palavra. Foi uma libertação, mas muitas esperavam ter mais do que vieram a ter…».

Na casa da Graça havia frequentes reuniões, mas também simpáticas festas a que acorriam muitas outras pessoas; anos depois, ainda era recordada por isso. Era também um local de passagem de militantes estrangeiros que iam colaborar na reforma agrária, em diversas herdades ocupadas no Alentejo e no Ribatejo. O colectivo Combate tinha uma relação muito próxima, em particular, com uma cooperativa agrícola constituída numa herdade ocupada em Aveiras de Cima, no Ribatejo, onde por diversas vezes pude presenciar a participação de jovens estrangeiros nos trabalhos do campo, nas actividades da cantina e noutras tarefas. Era muito estimulante o clima de solidariedade internacional que estas pessoas criavam com a sua presença eficaz; e o facto, forçoso, de não falarem bem português dava aso com frequência a brincadeiras dos trabalhadores rurais, em particular das mulheres e raparigas, que às vezes criavam diálogos hilariantes ao meterem-se com rapazes alemães, franceses ou suecos fazendo-lhes propostas de casamento, cujo sentido eles obviamente não compreendiam, mas a que respondiam, sorridentes, dizendo «sim sim, pois pois».

Um dos moradores da casa da Graça, a que já aludi, o irlandês Phil Mailer, publicou em 1977, nos Estados Unidos e na Inglaterra, o livro mais substancial e completo para dar a conhecer no estrangeiro o movimento autónomo dos trabalhadores em Portugal (Portugal, The Impossible Revolution?), parcialmente editado pela Afrontamento em português nesse mesmo ano, com o título, sempre na interrogativa, Portugal, a Revolução Impossível? A importância histórica deste livro foi confirmada pela sua reedição nos Estados Unidos em 2011. Um dos frequentadores da casa da Graça, um velho amigo meu de Paris, o Samuel Thirion, fez a sua tese de doutoramento em agronomia sobre a reforma agrária no Ribatejo, em que esteve directamente implicado, e também criou raízes em Portugal, casando com uma portuguesa como o Phil. Cooperante com países africanos, é uma das pessoas que tem fomentado, também em Portugal, o sistema dos cabazes para apoio à nova agricultura de proximidade. Um outro morador na casa da Graça, o inglês Bill Lomax, professor da Universidade de Nottingham, contribuiu com os seus estudos, já então publicados e hoje de referência, sobre a revolução húngara de 1956 e sobre outros aspectos da resistência dos trabalhadores no bloco de Leste. O Gerry Vignola, australiano, documentou aturadamente, em parceria com a sua companheira, a brasileira Maria Luísa Carvalho, que fora colega de faculdade de Chico Buarque, a cronologia das lutas sociais em Portugal entre 1974 e 1976. Os restantes moradores estrangeiros foram também estudiosos do inédito processo revolucionário português, fornecendo ou publicando informações em primeira mão em publicações dos seus países respectivos. Uma das italianas, a Francesca, jovem militante feminista oriunda das lutas da autonomia operária em Itália, faleceu prematuramente há alguns anos, na sequência dos efeitos a longo prazo causados pela grande ressaca política posterior ao 25 de Novembro, quando o sonho de uma outra sociedade se viu asfixiado. É aliás de referir que nessa ressaca alguns militantes portugueses se suicidaram, por lhes ter sido demasiado doloroso enfrentar o contraste de uma sociedade que durante quase dois anos se tinha visto liberta do medo, da exploração e da mentira e que a seguir mergulhou novamente no medo, na exploração e na mentira.

Passaram também pela casa da Graça alguns espanhóis, muito interessados nas repercussões imediatas que o processo português iria ter na queda da ditadura franquista; um deles, o Jaume, catalão de grande estatura, com a sua calma ironia e boa-disposição escrevia textos luminosos sobre a libertação sexual para a revista que entretanto o Júlio começara a editar.

Os estrangeiros que vieram para Portugal no pós-25 de Abril participaram nas mais diversas actividades. Lembro-me, por exemplo, que a certa altura o grafismo e a paginação do jornal do MES (Movimento de Esquerda Socialista) foram obra de um artista gráfico inglês, ou que na Clínica Popular da Cova da Piedade (freguesia do concelho de Almada), havia vários médicos estrangeiros voluntários. Esta Clínica foi criada em Setembro de 1974 por militantes da LUAR e do PRP, mas dela faziam parte sobretudo independentes, em particular estrangeiros. A Clínica, instalada num antigo palacete abandonado pelos donos, começou como centro de planeamento familiar que dava informação e aconselhamento sobre medidas anticoncepcionais. Tinha uma permanência aberta 24 horas por dia e acorriam ali muitas pessoas da zona, sobretudo mulheres, muitas das quais puderam resolver gratuitamente os seus problemas, e em 1975 começou a ter consultas de medicina e abriu um infantário. As pessoas pagavam apenas, numa caixa de papelão à saída, o que achavam que podiam e deviam pagar, e alguns dos médicos, sobretudo os estrangeiros, estavam ali alojados em instalações improvisadas. Tal como muitas outras iniciativas semelhantes, a Clínica foi encerrada por imposição militar após o contragolpe do 25 de Novembro. A cineasta Margarida Gil, em 1975, fez o seu segundo filme sobre essa clinica, intitulado Clinica Comunal Popular de Cova da Piedade, e teve grandes elogios no festival de cinema de Leipzig, na Alemanha.

Mas entre as diversas actividades em que os estrangeiros vindos para Portugal no pós-25 de Abril se mostraram profícuos, gostaria de destacar duas. O cinema, imediatamente associado aos acontecimentos sociopolíticos de cariz revolucionário; e a agricultura orgânica ou biológica, de efeitos posteriores.

O cinema a que aludo é o documentário, que não abarca propriamente o caso, por exemplo, de Solveig Nordlund, cineasta sueca naturalizada portuguesa. O inspirado filme de Sérgio Tréfaut, Outro País, de 1999, revelou claramente a singularidade desses dois anos da revolução social portuguesa graças ao inestimável trabalho levado a cabo em Portugal em 1974-75 por uma série de grandes cineastas e fotógrafos estrangeiros, alguns deles consagrados, como Robert Kramer, Glauber Rocha, Thomas Harlan, Peå Holmquist, e fotógrafos como Sebastião Salgado, Guy Le Querrec, Ursula Zangger ou Dominique Issermann. Como Sérgio Tréfaut explica em Outro País, este precioso espólio documental fora desprezado pelas autoridades cinematográficas portuguesas e encontrava-se disperso e esquecido em arquivos inacessíveis.

Desses mais de quarenta filmes postos de lado e cuja memória e importância Sérgio Tréfaut recuperou, destacaria aqui Cenas das Lutas de Classes em Portugal, de Robert Kramer, realizador nova-iorquino. Este filme que levou alguns responsáveis políticos portugueses de então a quererem reimplantar a censura, é seguramente o melhor documentário conhecido sobre a auto-organização das classes populares em Portugal. Perdido durante anos, foi restaurado graças à colaboração da Cinemateca Francesa com a Cinemateca Portuguesa e reapresentado em Lisboa, salvo erro, em 2003. Lembro-me de que nessa sessão fiquei ao lado da Isabel do Carmo, uma das protagonistas do filme. Robert Kramer manteve até ao fim uma relação especial com Portugal; quando morreu, em 1999, as suas cinzas foram dispersas no mar dos Açores pelo realizador Joaquim Pinto.

O outro filme que aqui destacaria é Torre Bela, do realizador e escritor alemão Thomas Harlan, que se tornou um clássico. Thomas Harlan e a sua equipa internacional documentaram ao longo de oito meses, entre Março e Outubro de 1975, a ocupação da herdade de Torre Bela, no concelho da Azambuja . «Reserva de caça» do duque de Lafões, membro da família real de Bragança, era uma propriedade com milhares de hectares cuja agricultura se fora tornando residual, substituída por eucaliptais. O filme acompanha o processo de ocupação de terras e a criação de uma cooperativa agrícola por um numeroso grupo de trabalhadores rurais, homens e mulheres, alguns muito jovens, habitantes das aldeias limítrofes. Capta em profundidade as contradições entre os trabalhadores, reveladoras da falta de hábitos de diálogo numa sociedade reprimida durante quase meio século, e reveladoras, também, da extrema novidade constituída pela possibilidade de as pessoas simples agirem livremente, em comum, em prol da colectividade, compreendendo que era possível viverem sem chefes nem patrões, que era possível levar a generosidade da terra a distribuir as suas riquezas por todos os que trabalham. Num dos debates ao ar livre, há neste filme um momento empolgante quando José Afonso, Francisco Fanhais e Vitorino, ali presentes em solidariedade com os ocupantes, cantam a Grândola Vila Morena, imediatamente acompanhados pelo vasto coro dos trabalhadores.

A outra actividade a que atrás aludi em que os estrangeiros tiveram um papel profícuo foi uma nova visão da agricultura. Esta nova visão, decorrente da crítica ecológica, começou a ser manifesta em Portugal no fim dos anos 70 e início dos anos 80. Naturalmente, já havia portugueses que tinham começado a lançar essas novas sementes, como foi o caso do professor e agricultor Luís Alberto Vilar, dirigente da Sociedade Portuguesa de Naturalogia, que em Porto Brandão, na margem sul de Lisboa, criara nos anos 70 uma pequena quinta exemplar, mas estes casos eram sumamente singulares. Depois do 25 de Abril o movimento francês de agricultura biológica teve uma grande influência em Portugal, sendo de registar que a primeira entidade criada neste âmbito, a Agrobio, foi fundada por um agrónomo francês, Jean-Claude Rodet. Rodet começou por ser solicitado em 1983 pela Universidade de Évora para ministrar o primeiro curso de agricultura biológica no departamento de Ecologia, e voltou a sê-lo, três anos depois, pelo Ministério do Emprego e Formação Profissional para organizar e ministrar o primeiro curso profissional de agricultura biológica em Portugal, em Torre de Moncorvo, tendo assim participado na formação dos primeiros conselheiros agrobiologistas portugueses.

Por outro lado, de um modo muito menos formal, uma parte dos jovens estrangeiros que tinham vindo para Portugal estabeleceu-se no mundo rural, criando em várias regiões do país pequenos núcleos de neo-rurais. Pude testemunhar esse processo no distrito de Coimbra, onde passei a residir em 1983, quando fui nomeada professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Testemunhei-o, em particular, nos concelhos da Lousã e de Miranda do Corvo. Acompanhei de perto o repovoamento de várias aldeias da serra da Lousã que tinham sido abandonadas nos anos 50 ou 60, repovoamento esse levado a cabo sobretudo por jovens estrangeiros, em sua maioria alemães e muitos deles com formação universitária, que mudaram de vida aprendendo in loco a cultivar a terra e a fazer criação de animais segundo princípios ecológicos. Quase todas as aldeias serranas nas proximidades da Lousã foram por eles restauradas, com grande esforço e criatividade, a partir de finais dos anos 70 e ao longo dos anos 80; havia entre eles também alguns jovens portugueses, oriundos de Lisboa ou do Porto, mas eram uma minoria em relação aos estrangeiros. As condições em que viviam eram bastante duras, tanto mais que eram quase todos de origem citadina e de classe média, mas a sua determinação levou a melhor.

Mas, curiosamente, a dimensão crítica visível nessas práticas de vida estava intimamente associada, através de outras mediações filosóficas, àquilo que de mais avançado o movimento social revolucionário do 25 de Abril conseguira fazer vislumbrar, ou seja, a capacidade colectiva de autogoverno das pessoas realmente empenhadas e a sua busca de uma inserção mais harmoniosa no mundo, libertas de hierarquias obsoletas e alienantes, tendo como meta, rumo ao bem comum, uma livre cooperação de iguais.”

Joëlle Ghazarian (publicado com autorização da autora)

A deriva na Internacional Letrista: para uma crítica radical do urbanismo – por Maria Ramalho

Já imaginaram como seriam as nossas vidas se, no quotidiano, em vez de centros históricos meticulosamente preparados para o consumo turístico ou de subúrbios estéreis e monótonos, tivéssemos à nossa inteira disposição palácios delirantes com rios subterrâneos, candeeiros urbanos munidos de interruptores, parques infantis no interior de igrejas, estações de comboios sem indicação das chegadas e partidas ou obras-primas de arte distribuídas pelos bares nocturnos? Então deveriam ler o texto de Maria Ramalho. Um óptimo contributo para a reflexão sobre a cidade.