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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

Turismo e luta de classes

Numa excelente entrevista ao jornal espanhol Público, o investigador Agustín Cocola Gant, que está a dedicar o seu pós-doutoramento na Universidade de Lisboa ao estudo do turismo e da gentrificação, aborda a questão da turistificação urbana, destacando a luta de classes que um tal processo pressupõe e intensifica. Uma luta, como veremos, principalmente personificada (A) pelos investidores que aplicam o seu capital nos grandes fundos de investimento que estão por trás de hotéis, companhias aéreas, grupos imobiliários e outras multinacionais e (B) pelos residentes que se vêem forçados a abandonar os seus bairros – tornados recursos para a captação de capital – enquanto assistem à privatização generalizada do espaço público, à contaminação do meio ambiente, ao desaparecimento de todos os pequenos comércios virados para as necessidades dos moradores locais e à destruição de espaços de encontro e de convívio. Um episódio mais na guerra sem quartel que o capital anónimo e global vem travando contra as comunidades locais.

Eis a entrevista integral (sublinhados meus)

Jornalismo e ideologia

A banalização do uso da palavra “terrorismo” não é nova. O uso ideológico do medo como instrumento legitimador da ordem existente é um recurso habitual em  política. E os média, enquanto actores políticos decisivos para a manutenção da ordem em curso, são mestres nesse uso. Não por acaso, num editorial recente do Público, o director-adjunto do jornal abordava alguns episódios recentes em Barcelona, que tiveram por alvo empresas turísticas, com o título “Terrorismo contra o turismo”. Antes de mais, lugar aos factos: um grupo de jovens independentistas, socialistas e feministas catalães teve há uns dias o desplante de atacar um autocarro que transportava turistas, furando-lhe os pneus e grafitando na viatura “o turismo mata os bairros”. Dias depois, escolheu outra forma de protesto que também implicava danificar equipamentos turísticos, neste caso bicicletas. Perante esta ousadia, o referido editorial empregou a imagem em voga dos ‘terroristas’ para denominar e qualificar estes perigosíssimos putos anti-capitalistas, destacando assim neles a sua suposta intolerância, violência e ameaça social.

Nesse sentido, o artigo começa por opor habilmente a figura dos “extremistas” àquela dos “estrangeiros”, numa formulação que pretende passar a ideia de que estas – ou quaisquer outras – acções anti-turísticas têm sempre algo contra os “estrangeiros”. Mas um pouco de investigação jornalística, que infelizmente não está nada em voga, seria suficiente para revelar que os grupos que mais têm praticado uma crítica radical do turismo são também aqueles que mais têm apoiado a defesa dos imigrantes e dos refugiados. A caricatura xenófoba é portanto o primeiro tiro ao lado do jornalista.

Na mesma frase, o director-adjunto do jornal afirma que “a ideia dos extremistas (…) é atacar o turismo de forma a debilitar o sustento social” de Barcelona. Ou seja, a ideia que supostamente mobilizara os putos anti-capitalistas a saírem de casa seria basicamente… levar a cidade a morrer à fome – até porque deixou de haver outra forma de sustento no mundo para lá da mercantilização turística dos territórios. Segundo tiro que, numa mesma frase, erra o alvo.

Prossegue o pífio editorialista o périplo ideológico de quem lhe paga o salário, insinuando que a perigosa difusão do terrorismo pela sociedade se processa também através dos que praticam nas ruas a crítica social: “Não é algo novo: cada vez que uma cimeira política ou financeira reúne líderes mundiais numa qualquer capital há quem, a coberto do protesto político, aproveite para cometer crimes violentos, normalmente em grupo e a coberto de uma qualquer ideologia que promove a crítica social.” Só não especifica em que campos de treino do ISIS recebem formação estas “células de jovens”, como ele lhes chama (e atenção que o vocabulário escolhido é tudo menos casual). Já agora, quantas “células de jovens” terroristas se terão coordenado para fazer o Maio de 68?

Para o escriba assalariado da SONAE, todos estes desvios à normalidade se resolveriam se “as autoridades” não fossem “lentas a reagir”. Afinal de contas, para qualquer neoconservador neoliberal não há mal que a repressão policial não cure. Neste mundo, apenas o mercado é irreprimível.

E reitera: “O que interessa aqui é o crime, que tem de ser combatido de forma decidida em nome da preservação da vida social.” Vida social?! Mas este porta-voz da classe média lusitana que vive trancada entre condomínios deprimentes e segundas circulares já se deu ao trabalho de ir a Barcelona ver a “vida social” dos bairros populares que a expansão do turismo está a transformar em parques temáticos desabitados e em territórios férteis para quem faz vida de negócios imobiliários? Na verdade, bastaria ao jornalista andar um pouco pela velha Lisboa popular para perceber o extremismo do fenómeno. Mas há muito que o jornalismo pequeno-burguês não frequenta as mesmas ruas que nós. Não frequenta ruas nenhumas, aliás. E espanta-se que já ninguém o lê.

E assim prossegue o brilhante raciocínio: “Quando esta mesma forma de crime organizado chegar a Portugal, será preciso recordar que é apenas uma questão de lei e ordem. E será melhor que não apareçam agentes sociais a tentar branquear comportamentos criminosos com argumentos desculpabilizantes com base em ideologias. (…) Será importante ignorar as motivações pseudopolíticas e clarificar que a lei e a ordem existem precisamente para preservar a lógica social da democracia e da liberdade. Um crime é um crime e nenhuma ideologia justifica a destruição de propriedade ou a agressão.” (Não era também o que se dizia durante as barricadas do Maio de 68?)

Enfim, tudo parece ficar mais claro quanto à ideologia do editorialista: “lei e ordem”, “democracia”, “liberdade” e “propriedade”, ou seja, os conceitos que hoje estruturam o discurso de qualquer apregoador do capitalismo liberal. Refira-se que, desses conceitos, os de “democracia” e de “liberdade” foram, ao longo de décadas, sendo castrados, pervertidos e esvaziados do seu potencial emancipador, para se tornarem pura propaganda capitalista. Não foram exactamente eles que legitimaram Bush a invadir o Iraque para aí impor o seu modelo “democrático” e “livre” de sociedade? Afinal de contas, hoje, falar de democracia e liberdade (por oposição ao inimigo, já não do comunismo, mas do terrorismo) equivale a falar de capitalismo. Trata-se simplesmente da eficaz ideologia que legitima o presente.

A inflexão nacionalista d’Os Verdes

Por vezes, a argumentação ecologista confunde a defesa do “local” com a defesa do “nacional”. E emerge acriticamente do seu discurso um “nós”, unido pela pátria. A cereja no topo do bolo dos mais recentes outdoors com inflexão nacionalista do PEV é o anti-nuclear Perigo à Nossa Porta! (relativo ao É Urgente Fechar Almaraz). Este outdoor revela de que pouco importa a estes ecologistas quem está para lá da “nossa porta” (numa imagem, esta da porta, digna da propaganda estadonovista).

Também a imagem do “Lugar à Nossa Floresta” tem que se lhe diga. A ideia da nossa floresta – enquanto entidade autóctone, quase mítica, já que idealizada numa pureza que nenhum elemento exótico deverá contaminar – é defendida por ecologistas que, apesar da sua xenofobia vegetal, não têm problemas de consciência em comer tomate, batata, laranja e azeite, produtos ‘exóticos’ que a civilização contaminadora, e não o ecossistema lusitano, fez chegar até nós. Mas não é necessário, como fazia Hitler, recorrer ao valor identitário da “nossa” floresta, para criticar a praga e o deserto de eucaliptos que varrem o país. Não é por serem estrangeiros (australianos) que os eucaliptos são maus, mas simplesmente por converterem territórios inteiros em desastrosos monocultivos capitalistas que reduzem o espaço ambiental e cultural a um investimento económico à espera de retorno.

Sabe-se que em Portugal, o nacionalismo brota como que espontaneamente das pessoas. De tal modo, que nem fazem falta os partidos políticos que se auto-denominam de nacionalistas. Porque, em maior ou menor grau, já todos o são. Afinal de contas não é de espantar que, num país onde os Descobrimentos são ensinados nas escolas como uma grande epopeia civilizadora da humanidade e onde uma cadeia de lojas chamada A Vida Portuguesa é elogiada em coro pela sociedade e imprensa, um partido ecologista imponha fronteiras políticas à defesa da ecologia, fazendo coincidir um território ecológico com um território nacional.

O estado natural do homem é estar deitado a fumar um cigarro e a beber cerveja, esse é o estado natural do homem, verdadeiramente o estado paradisíaco do homem, mesmo sem cerveja e sem cigarro também vai

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A neutralidade deste(a) artigo ou se(c)ção foi questionada, conforme razões apontadas na página de discussão.

É assim, com estas advertências, que começa o artigo ‘Sonae’ na página portuguesa da wikipedia. Para quem sabe um poucochinho do historial ético da empresa, a sua leitura é um exercício hilariante. No artigo, são destacados o apoio da empresa à comunidade e a sua distinção como uma das empresas mais éticas do mundo, sublinhando-se igualmente que se trata da “segunda empresa preferida pelos universitários portugueses para trabalhar”. Ao longo do texto, que reduz sabiamente o contraditório a ZERO, o discurso elogioso e glorificador retrata a multinacional portuguesa como um bem sucedido grupo de benfeitores, revelando que quem faz a comunicação da empresa não anda a dormir e sabe que todos os canais são úteis para as tarefas promocionais.

Otium postmodernum

Fotos (Muralla de la cárcel de la Santé (« Salud »), París. Junio 2017) e texto de Benito Barja

En el siglo XVI, Montaigne decía “Cuando juego con mi gata, ¿cómo sé que no es ella la que juega conmigo?”. En mi siglo espectacular, me pasa igual con los muros de las cárceles.

Tal fue lo que pensé al pasar por la cárcel de la Santé*. No tenía porque estar ahí, solo buscaba un velib (bicicleta en libre servicio) que funcionase: Pero hacía calor y todo París se los había llevado. En fin, que me había perdido.

El sol aplastaba, pero levanté la cabeza. Algo me llamaba la atención. Y veo esas grúas dentro de la cárcel: « Parece que hay tanto productivismo dentro que fuera; esto es una fiesta, como cuando la locura del ladrillo en España! ». Bajé la mirada y vi esa enigmática figura contra la pared. « Sonríe bien o sonríe mal? », difícil saberlo. La confusión y el calor me engendraron cierto vértigo, y también una reflexión: « Pero yo estoy dentro o fuera!? »

Entonces es cuando me vino a la mente aquella frase del filósofo Montaigne, la que tanto me había gustado (la duda cartesiana siempre se me atraganto). Y pienso en mi siglo, con sus torres de cristal que miran y no dejan ver, a un mundo en donde todos somos animales transparentes y dóciles. Aquella gata tenía una libertad y su espectador también, el espectáculo a aniquilado esas posibilidades, ese pensamiento que juega. Todos es rígido ahora, el discurso espectacular de adaptación permanente no es más que el estadio extático de la petrificación: no hay más espacios que los útiles a la circulación de la mercancía, fuera no existe. El problema no es que metan a algunos en la cárcel por rebeldes — además de ser demasiado romántico y anticuado —, el problema es que nos meten a todos en una única granja de pollos llamada Tierra, donde « productivamente » se trabaja a la ruina del planeta y  a la extinción de nuestra especie, tal como la conocemos.

Ocio, libertad o espacio ya solo se concentran en fiebre breve y consiguiente sentimiento. Pero nada nuevo bajo el sol, pues de esa situación primaria nacen las otras; la libertad siempre ha sido un vértigo dialéctico, que impulsa y que hay que conquistar.

* Salud

Elogio do ócio (IV)

 

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Mil vezes sentar-me à vontade em cima de uma abóbora do que comprimir-me entre outras pessoas numa almofada de veludo. 

Henry David Thoreau – ‘Walden ou a vida nos bosques’ (1854)

Fotos (Afurada, Porto, "Monumento ao Herói Pescador", popularmente conhecido por "Chapa", 2014-15) e escolha de citação de Antigoni Geronta