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A vitória do imperialismo cultural

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Lembra a Jacobin, e muito poucos mais, que os EUA de Bush, seus aliados, cúmplices e percursores, declararam guerra ao Iraque há 14 anos. O conflito que está na origem da dramatização da situação política em todo o mundo, alargou-se a quase todos os blocos continentais e acelerou a divisão do planeta entre países pobres e ricos, países semi-soberanos sob intervenção da infraestrutura financeira, ou países ocupados sob tutela militar. Na macabra matemática da guerra somam-se quilómetros de muros, multiplicam-se trincheiras, subtraem-se vidas e divide-se a humanidade o mais que se pode para que os responsáveis do atoleiro continuem a mandar.

Se nos primeiros anos o avanço da guerra teve uma inesperada oposição popular, num movimento contra a guerra que não se imaginava possível no tempo do “fim da história”, a verdade é que hoje o movimento parece derrotado, por diferentes ordem de razão e com impacto muito além das questões relacionadas exclusivamente com as fronteiras do movimento contra a guerra. Por um lado, o campo pragmático, fez a sua experiência de governo, com exemplos tão diferentes como Lula ou Obama, Tsipras ou Chávez. Independentemente da generosidade com que se faça o balanço dessas experiências,  é inegável que os resultados do exercício do poder ficaram muito aquém das expectativas. Por outro, os campos mais radicalizados do movimento não conseguiram manter a pressão necessária para conseguir mais do que algumas vitórias pontuais em lutas concretas, quase sempre defensivas face a direitos conquistados anteriormente, e ancoradas em sectores sociais excessivamente delimitados.

Se a cruzada inicial para vingar o 11 de Setembro não ganhou o coração da opinião pública, a cartada do Estado Islâmico – ou derivados – faz hoje as delícias dos propagandistas. A esquerda que outrora ocupava as ruas para dizer que outro mundo era possível, vai paulatinamente ser apeada dos poucos sítios onde teve poder porque replicou ou agravou exactamente  o mesmo mundo que dizia combater. Entre a assimilação e a derrota, venceram os jihadistas da “guerra das civilizações”, seja na sua versão financeira, de colarinho branco e gravata aprumada, seja na sua versão militar, de farda e insígnias aos de falsa bandeira. Não sobrará esquerda à esquerda se ela não for capaz de se levantar ao menos contra a lógica da guerra infinita.

Longa vida ao IDC!

 

O International Dockworkers Council (IDC) produziu um vídeo para contar a sua história e todos o deviam ver. Trata-se de uma verdadeira aula de sindicalismo de combate, que nos mostra os pilares fundamentais do sindicalismo do século XXI: internacionalismo, democracia de base, interligação com outros sectores em luta e combatividade. É um orgulho sentir, sem nunca ter sido estivador, que faço parte desta comunidade e é um privilégio poder aprender com muitos dos que têm dado a sua força a esta construção. Do Estado Espanhol à Suécia, da Austrália aos EUA, a luta continua!

Tanta gente sem casa, tanta casa sem gente. Até quando?

Foto de SOLID.

Mais informações no evento do facebook.

O que é que aconteceu aos movimentos sociais?

Foto de SOLID.

A SOLID dará este mês início a um ciclo de debates, que começam já no próximo dia 21 de Janeiro, na Fábrica das Alternativas, num encontro que procura perceber o que aconteceu aos movimentos sociais que marcaram a luta política nos últimos anos. Da situação política (da PàF à Geringonça), aos modelos organizativos (dos pequenos comités às grandes assembleias horizontais), passando pelo papel das organizações políticas e partidárias até à pauta das reivindicações, a ideia é colocar tudo em análise para perceber se há, hoje, razões para o reaparecimento deste novo, mas adormecido, sujeito social.

O convite é aberto a todos os interessados, em particular a quem teve participação nos movimentos sociais e tenha interesse em transformar a reflexão sobre o passado em acção para o futuro. Participa!

#PensarParaActuar #CicloDebatesSolid | Evento no facebook

Colonização Capitalista

A Palestina tem como primordial desafio sobreviver a uma ocupação selvagem, levada a cabo por uma potência agressora, tão cruel como imoral. Apesar dessa batalha, os palestinianos, como qualquer outro povo, enfrenta também contradições internas à sua própria sociedade, uma das quais aquela que é imposta pelo capitalismo, irmão de armas do colonialismo. A demolição do Cinema Jenin, o único desta cidade do norte da Cisjordânia, para no seu lugar ser construído um centro comercial, é disso exemplo. Com este processo, o Fragment Theatre, um projecto dinamizado por algumas pessoas que passaram também pelo Freedom Theatre, entre outros grupos que ali reuniam e desenvolviam a sua actividade cultural, ficam sem espaço. Um ano depois da última reportagem que fiz na Palestina, a fotografia de Rawand Arqawi, uma das dinamizadoras do Fragment Theatre, ficou lamentavelmente sujeita à ruína. Que a força imensa da gente que vive nesta cidade e tenta fazer da cultura uma arma ao serviço da resistência consiga contornar mais esta agressão, e que rapidamente encontrem forma de dar continuidade ao seu trabalho.

Cisões e Reunificações da ‘Self-hatred Left’

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Não tem sido fácil a vida da esquerda à esquerda do reformismo. Entre a fobia e o fascínio à marginalidade, uns cindem e outros reunificam-se. Em si mesmo não há nada de mal na recomposição da esquerda anti-capitalista, bem pelo contrário, mas receio que essa recomposição não tenhas ainda as fronteiras capazes de garantir, a prazo, uma relação higiénica entre o rio do oportunismo e as margens do sectarismo.

A ruptura do Em Luta, que rompeu com o MAS, e o regresso do CIT ao Bloco de Esquerda, são processos que só espantam por tardios. O CIT tem uma longa tradição de unidade com os partidos do keynesianismo, e era de esperar que parte da vida inteligente do MAS não se resignasse, eternamente, ao trotsko-populismo da sua direcção. No caminho, outros grupos também ficaram órfãos de caminho, como é disso evidência o desaparecimento do colectivo da Revista Rubra, a cristalização do POUS ou o fratricídio do MRPP. Nas margens, experiências como a SOLID dão os primeiros passos há demasiado tempo, e outras como a Unipop basta-lhes a auto-suficiência de admirarem ao espelho o seu próprio brilhantismo. Nos movimentos sociais poucos se mantém activos fora do apadrinhamento partidário. Academia Cidadã, Plataforma 15 de Outubro, MSE, Primavera Global, Indignados, QSLT, entre outras agremiações cuja memória me falhe, ou fecharam portas ou as mantêm abertas sem que isso signifique o reforço da luta política. Debaixo do guarda-chuvas partidário os Precários Inflexíveis parecem diluídos no papel de consciência crítica ou claque da geringonça e sobram a Habita e a Solidariedade Imigrante a dar um ar da sua graça. À chuva, algumas, poucas, associações de bairro nas grandes cidades ou fenómenos de luta regionais, levam a resistência para a sua última trincheira da sobrevivência.

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Se do ponto de vista orgânico o quadro é esdrúxulo, do ponto de vista político o cenário não é melhor. Cada tradição política se divide nos temas centrais da actualidade. Do euro à dívida. Da UE à caracterização do novo governo dos EUA. Do Turismo à Emigração. Da sacralização do trabalho à sua expiação como a origem da tragédia. A ideologia, outrora uma útil tábua de salvação para as dissonâncias organizativas, hoje ela é cada vez mais uma âncora do que uma ferramenta. Quem rasgou a ideologia, cai no erro diametralmente oposto, agarrando-se às organizações, mesmo defuntas, para se manter vivo.

A encruzilhada é grande e para se decantar o que quer que seja será importante, por certo, uma redobrada dose de paciência. No imediato a geringonça mais não vai fazer do que reverter a pasokização do PS, ao ponto de estar na iminência de lhe dar, de novo, maioria absoluta. Com a direita refém de Passos e sem alternativas, a esquerda à esquerda do PS tem que matar os seus fantasmas para que não desertifique.

Que mil cisões e reunificações floresçam e definhem, tantas vezes quantas forem preciso, até que se torne evidente o que nos une e nos separa, o que podemos fazer para que se criem as condições necessárias para que se comece de novo sem estar condenado a repetir cada uma das asneiras.

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