TERRAMOTOURISM, um documentário medíocre mas útil

Terramotourism é um documentário sobre a turistificação do centro de Lisboa. Baseia-se num argumento idiota: compara o terramoto de 1755 com a turistificação em curso no centro histórico de Lisboa. Não é necessária muita investigação para perceber que o abandono dos bairros históricos (que levou à sua degradação material, criando verdadeiras ruínas) foi um processo que começou muito antes da chegada do turismo. Não é preciso recuar muito no tempo (bastaria ir até aos anos 90), para nos recordarmos de ver uma quantidade assombrosa de prédios em ruínas nesses bairros, ao mesmo tempo em que não víamos um único turista em 90% das suas ruas e em 100% das suas tabernas. Por outro lado, é de um exagerado simplismo associarem-se dois fenómenos tão incomparáveis no impacto que tiveram sobre a cidade, como são o sismo setecentista e o turismo do novo milénio, apenas com a barata finalidade de produzir impacto.

Numa entrevista ao Público, o colectivo Left Hand Rotation, que é responsável pela realização do filme, faz uma ressalva que não é despicienda, pois permite-nos situar tanto o colectivo como o próprio filme numa longa linhagem de crítica espectacular do espectáculo (neste caso, de crítica do turismo que não deixa de ser condescendente com o mesmo): “É importante sublinhar que isto não é um documentário contra o turismo. Todos, em algum momento das nossas vidas, somos turistas.” Não terá também algo de esquizofrénico quem coloca o turismo ao nível de um tsunami para depois admitir que afinal ele próprio contribui para esse espectáculo devastador? Afinal de contas, este querer estar bem com tudo e com todos (neste caso, com o turismo e com as vítimas do tsunami turístico) não é mais do que uma típica psicopatologia dessa classe que nunca ousa tomar posição nem partido, a classe média.

Nos debates sobre turismo em que tenho participado, é muito frequente ouvir esta ideia paradoxal de que há que “limitar o turismo”, apesar de “todos sermos turistas”. (Isto é um pouco o mesmo que dizer que há que eliminar o açúcar dos refrigerantes apesar de todos sermos ávidos consumidores de refrigerantes açucarados.) No fundo, o que é dito é o absurdo masoquista de que há que “limitar-nos a nós próprios”; ou, para que melhor se entenda o nível desta loucura burguesa tornada senso comum, “há que desmontar os pilares do mundo em que afinal de contas gostamos de viver”. Em que é que ficamos?

A ideia de que “todos somos turistas” – e que “não há alternativas ao turismo” -, por ser tão absurda quanto corrente, urge ser desmontada: NÃO, NEM TODO O VIAJANTE TEM DE SER UM CONSUMIDOR PREGUIÇOSO DA VERSÃO PRÉ-ESTABELECIDA, MANIPULADA, SUPERFICIAL, ESTANDARDIZADA, DESTINADA A UMA CONTEMPLAÇÃO DESDE FORA E PASSIVA, QUE É FABRICADA PELAS INDÚSTRIAS TURÍSTICAS! PODEMOS, AO INVÉS, CRIAR COM OS TERRITÓRIOS VISITADOS VÍNCULOS PROFUNDOS, LIVRES E SUBJECTIVOS – ESSES MESMOS QUE O TURISMO PERMANENTEMENTE NOS NEGA. GUY DEBORD NÃO ERA UM TURISTA E, NO ENTANTO, VAGUEAVA HORAS SEM FIM PELAS RUAS DE PARIS. NANNI MORETTI TÃO POUCO E, TODAVIA, SABE MELHOR DO QUE NINGUÉM ONDE ESTÃO OS TESOUROS DE ROMA.

Outro pressuposto equivocado em que assenta o documentário é o de que são os turistas os principais culpados pela “gentrificação” da cidade, fomentando por exemplo o aparecimento do novo comércio chic e gourmet, como é o caso do Mercado da Ribeira, que na verdade é um lugar de eleição da classe média nacional. Este é outro dos aspectos que não costuma ser debatido: o papel das classes médias locais nas transformações “gentrificadoras” que geralmente se atribuem exclusivamente ao turismo. É que as hamburguerias que abrem em Alfama, em lugares onde antes havia tabernas, não atraem só turistas. A burguesia lisboeta adora-as igualmente. A questão que tem de passar a ser igualmente colocada é: não fará a classe média lisboeta turismo na sua própria cidade quando, guiada pela Time Out, visita a mais recente cafetaria de interiores escandinavos na Graça? O que a distingue do japonês que dorme num “prédio típico” do Airbnb? Mas adiante.

Apesar da receita de Terramotourism ser construir uma perspectiva “crítica” da turistificação a partir de banalidades redundantes (talvez um espectador muito pouco informado possa descobrir nelas alguma novidade), mas “impactantes” (os cruzeiros sobredimensionados; as fachadas tapumadas; o comércio de bairro que desaparece por não ser chic nem gourmet; os ajuntamentos de turistas na Baixa, em miradouros, nas lojas “típicas”, nas ruelas de Alfama, na estação de comboio, em autocarros turísticos, em tuk tuks, no 28 ou no engarrafamento que tudo isto provoca), enfim, apesar de toda esta construção pouco estimulante, há três efémeros momentos que rompem com a monotonia geral, merecendo por isso ser assinalados:

  • minuto 25: do buraco de uma fechadura num prédio da Lisboa antiga, observamos um sem número de turistas que entram e saem, de malas e bagagens, do apartamento vizinho, numa cena que, para lá de sintetizar a magnitude do fluxo turístico, também revela a descaracterização/mercantilização dos prédios “típicos”.
  • minuto 28: quando um técnico camarário apresenta na rua um projecto turístico, perante a incredulidade e a apreensão de um imigrante asiático, percebemos a tremenda distância que hoje existe entre o poder público (representado pelo tal técnico) e o cidadão comum. Entre o técnico e o imigrante existe uma estranheza e uma incompreensão que não são mais do que aquelas que nos separam a todos nós dos “nossos” “representantes” “democráticos” (aspas propositadas em cada palavra).
  • minuto 36: numa sessão organizada por uma associação de Alfama, moradores deixam desabafos desesperados mas violentos, sintomáticos do nível da expropriação de que estão a ser vítimas.

Apesar de resumir o interesse do filme a estes três momentos, é evidente que o simples facto dele contribuir, à sua maneira, para manter vivo o debate sobre a turistificação em curso nas cidades portuguesas lhe confere, por si só, uma clara utilidade no contexto presente – ainda mais se tivermos em conta a inexplicável ausência de contributos para esta tão urgente discussão.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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