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Socialismo kosmische e a produtividade (parte I)

A história seria suficientemente bizarra para dar um muito razoável filme de domingo à tarde. No início dos anos 70, Martin Zeichnete trabalhava como sonoplasta na DEFA, os antigos estúdios de cinema da RDA, em Dresden. À noite, clandestinamente, perdia-se pelas ondas de rádio vindas do outro lado do muro, onde encontrava o então emergente krautrock, um inovador género musical que cruzava rock com electrónica, psicadelismo com minimalismo, jazz com Stockhausen, e onde pontuavam bandas com os Can, os Faust, os Neu!, os Kraftwerk, os Popol Vuh, etc. Zeichnete, que além de tudo o mais era também um corredor amador, absorveu toda a inspiração dessas novas sonoridades no seu trabalho de sonoplastia, mas também como elemento de treino para as suas corridas. Percebeu que o ritmo repetitivo do kraut, o famoso motorik, que reproduzia na sua cabeça enquanto corria, o ajudava a concentrar-se e a atingir melhores resultados. Mais ou menos pela mesma altura, tomou conhecimento de um protótipo do stereobelt, um antecessor do walkman que nunca chegou a ser comercializado, desenvolvido por Andreas Pavel, um germano-brasileiro que dizia que a sua invenção serviria para «acrescentar uma banda sonora à vida real» e que proporcionaria os «meios para multiplicar o potencial estético de qualquer situação». Com a conjugação destes dois elementos, o potencial do krautrock para o treino desportivo e o stereobelt, Zeichnete pensou que estariam reunidas as condições para uma utilização mais massificada do método. Evidentemente, dadas as circunstâncias, não se atreveu a divulgar os seus pensamentos senão a um círculo muito restrito de colegas de trabalho. Apesar disso, a ideia chegou aos ouvidos da Stasi e, pouco tempo depois, viu-se detido no local de trabalho e levado para umas instalações que desconhecia nos arredores de Berlim. Ao contrário do que temia, as autoridades tinham apreciado bastante a ideia e Zeichnete foi incumbido de produzir música para ser usada no treino de atletas, ficando às ordens do Comité Olímpico Nacional e a trabalhar secretamente num estúdio em Berlim. Manteve-se nessas funções até 1983, alargando a sua produção musical a várias outras modalidades. A designação informal do projecto, dada pelo próprio Zeichnete, era Kosmischer Läufer (corredor cósmico), numa referência à música kosmische, uma outra forma de dizer krautrock, especialmente depois do primeiro álbum dos Popol Vuh, os primeiros krauters a usar o sintetizador Moog. O projecto terminou em 1983, mas só no início dos anos 90, depois da queda do muro, é que Zeichnete recuperou as gravações de tudo o que produzira ao longo daqueles 11 anos. Em 2013, finalmente, as gravações, tal como toda a sua história, foram tornadas públicas, editadas em dois volumes (o segundo já em 2014) e disponibilizadas para audição e compra na Internet.

A história é, a diversos níveis, bastante interessante, mesmo tratando-se uma ardilosa aldrabice. Na verdade, Martin Zeichnete nunca existiu e o projecto Kosmischer Läufer foi inventado e implementado em 2013 por dois talentosos escoceses, através de um bem-sucedido esquema de crowdfunding. Para o que aqui me interessa, pouco importa se nada disto aconteceu. Basta a verosimilhança. Tal como, para os mesmos efeitos, não me ocuparia qualquer preocupação de discutir as claridades e as obscuridades do que se diz sobre um suposto programa estatal continuado de dopagem de atletas na RDA. O que o caso põe em evidência é uma espécie de fetichismo da produtividade como elemento constituinte da prática e da narrativa do chamado «socialismo real», seja na organização da produção industrial ou agrícola, seja no desporto, seja na produção artística, etc., de modo muito semelhante ao que, nas três décadas subsequentes à 2.ª Guerra Mundial, sucedeu nos países do chamado «capitalismo fordista». A obsessão pelo aumento da produtividade como o elemento comum do «socialismo real», do «capitalismo fordista» e da decomposição de ambos os paradigmas, bem como o eco que ainda hoje mantém no imaginário e no discurso político tanto à esquerda como à direita, são temas para a segunda parte deste post, a ser publicada dentro em breve.

Peter Frenkel no primeiro lugar do pódio dos 20 km de marcha, nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.
Peter Frenkel no primeiro lugar do pódio dos 20 km de marcha nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.
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Crítica da economia política da salsicha

Há certas associações de palavras que nos levam para lugares bastante inesperados. Por exemplo, nos últimos tempos tenho lido por aí várias coisas sobre salsichas. Primeiro, a salsicha educativa do outro e, nos últimos dias, a triste notícia da morte do camarada Loukanikos. Estas referências a salsichas fizeram-me recordar uma história bizarra que li há um par de anos aqui (e mais desenvolvida aqui). Em resumo, o episódio passou-se em Janeiro de 1990, na cidade ucraniana de Chernigov, quando, numa noite, um dirigente local do Partido Comunista teve um acidente de automóvel. O estrondo do acidente chamou a atenção de um grupo de pessoas, que se dirigiu ao local e verificou que, na mala do carro, o homem levava diversos artigos que, à época, eram considerados escassos, ou seja, bens a que a generalidade das pessoas não tinha acesso, a não ser com muita dificuldade: umas bebidas espirituosas e alguns enchidos, incluindo salsichas. Aquilo parecia ser a prova do que se dizia à boca pequena, isto é, de que havia um esquema de fornecimento privilegiado de certos bens escassos a membros da nomenclatura do Partido, enquanto a maioria das pessoas tinha de se contentar com umas poucas lojas com prateleiras quase vazias. O caso provocou a ira das pessoas que ali se juntaram. O carro foi arrastado até ao centro da cidade e ficou exposta a vigarice daquele dirigente partidário, que insistia que aqueles artigos tinham sido uma oferta da família – o que, parente o facto de se tratar de bens escassos, pouco alterava a situação.

Curiosamente, as exigências populares – e mesmo da frágil oposição organizada – que resultaram deste insólito episódio passavam sobretudo pela substituição dos quadros dirigentes locais do Partido. Ou seja, do que se tratava não era tanto do modo de produção e apropriação de bens, ou pelo menos da aspiração por estruturas sociais e políticas de decisão colectiva sobre a sua produção e distribuição, do que se tratava não era, portanto, de questionar uma lógica de organização social em que há governantes e governados, mas apenas de substituir dirigentes corruptos por dirigentes sérios. O que remete, ao contrário do que viria a ser o desfecho do processo de decomposição da União Soviética (e independentemente do que se ache desse processo), muito mais para uma ideia de regeneração do que para qualquer perspectiva de transformação mais profunda das estruturas de organização social.

É difícil não encontrar aqui um paralelo com certos discursos que aqui em Portugal, também em contexto de degradação acelerada do regime, têm ocupado persistentemente o debate público sobre corrupção, privilégios de figuras do Estado, manigâncias mais ou menos legais com dinheiros públicos, etc. Por exemplo, é bastante abstruso que se tivesse, há bem pouco tempo, aventado a hipótese de que Passos Coelho poderia ter o seu lugar de primeiro-ministro em risco por causa do caso Tecnoforma, e não pela capacidade que a pressão social pudesse ter – e manifestamente não tem tido – para o fazer cair.

É evidente que a circunstância deste nível de indigência política ser actualmente sequer plausível diz muito mais sobre a falência da esquerda e dos movimentos sociais do que sobre a honestidade de Passos Coelho. Ou pelo menos, deveria dizer mais para quem ainda mantivesse alguma réstia de perspectiva política emancipatória. A este exemplo poderia juntar-se toda a conversa sobre as incongruências do ufano Marinho Pinto, sobre os «donos de Portugal» ou ainda sobre a localização na ganância de banqueiros e especuladores da principal responsabilidade pela crise da última dúzia de anos. Mais ou menos como sucedeu no episódio de Chernigov, do que parece tratar-se aqui é de substituir dirigentes desonestos por dirigentes honestos, populistas incoerentes por homens de Estado à séria ou banqueiros gananciosos por competentes gestores de um bem comum brilhantemente descrito em qualquer programa político da esquerda. Em suma, por detrás da indignação pela injusta distribuição da salsicha, bem como pela vigarice dos que só se fossem tolos ou não tivessem arte é que não ficariam com a melhor parte quando partem e repartem, está a mesma fúria regeneradora de Chernigov, já incapaz de fazer das estruturas de dominação social vistas na sua totalidade o seu objecto de crítica.

Ora, ainda que mais não se dissesse, podemos pelo menos constatar que a deriva moralista que atravessa o discurso político à esquerda conduziu a um nível muito razoável de bloqueio da acção política. Porventura, um movimento de regresso à crítica da economia política da salsicha pudesse gerar algumas boas pistas para furar esse bloqueio.

Capa do romance 'Inveja', de Yuri Olesha (1927). http://en.wikipedia.org/wiki/Envy_%28novel%29
Capa do romance ‘Inveja’, de Yuri Olesha (1927). http://en.wikipedia.org/wiki/Envy_%28novel%29