Entreter os Genocidas

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Indiferentes aos apelos da campanha de boicote internacional a Israel, Caetano Veloso e Gilberto Gil já estão em Al-Mas’udiyya (Tel Aviv) para servir a propaganda da ocupação sionista e entreter aqueles que entretêm a destruir a vida dos outros. Contrariando muito do que têm cantado ao longo dos anos, Caetano e Gilberto, ao contrário de tantos outros artistas que se recusaram a servir de bobos da corte dos genocidas, vão enterrar o tropicalismo no cemitério em que se transformou a Palestina Ocupada. Como canta Adriana Calcanhoto, com evidente sarcasmo, vamos comer Caetano: “Pelo óbvio, pelo incesto, vamos comer Caetano, pela frente, pelo verso, vamos comê-lo cru.” Ou ainda, parafraseando os artistas de variedades que vão animar o circo das feras, é lamentável que sejam eles hoje os intérpretes do “silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina”.

O significado do medo e o fim do seu monopólio | Uma breve reflexão a propósito do episódio que bloqueou os negociadores da troika num elevador em Atenas

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Tal como a chuva de cofetes foi capaz de impor o sobressalto em Draghi ou o tufão de dólares o desânimo em Blatter, agora foi um simples elevador a razão do pânico do staff da troika em Atenas. O episódio está a ser difundido com benevolência, como se pode concluir pela forma como as notícias estão a vir a público, entre o humor e o fantástico. A verdade é que nunca saberemos se a intervenção dos bombeiros foi necessária pelo “excesso de peso” de um dos funcionários da troika, se estamos perante uma avaria ou um acto de sabotagem, ou mesmo se tudo não passou de um simples mal entendido. O que é certo, e muito relevante, é que mesmo assumindo a versão cómica do acontecimento ele foi capaz de provocar medo. Aqueles trinta minutos de suspense, de imprevisibilidade, comportam uma lição fundamental para se perceber onde é que está o ponto sensível do vidro em que se converteram as organizações da eurocracia. Ainda não acabou o monopólio com que nos atormentam e nos procuram imobilizar, mas só não vê o caminho que a resistência pode e deve calcorrear quem, como dizia Mia Couto, tenha medo que o medo acabe. Eles, porque sabem que merecem, vão cada vez mais andar escondidos, o que já é, em si, uma vitória. Nós, que não podemos dizer que não sabemos, não podemos continuar a fazer pouco. Já esperamos demais por Godot. O tempo é outro. Cada vez seremos mais a responder à altura do que se tornou necessário.

Apartheid não rima com cultura

Esta carta foi redigida pelo movimento BDS tunisino e é dirigida aos cineastas tunisinos convidados a participar na secção magrebina do Festival de Locarno 2015, que dará carta-branca ao cinema israelita. Traduzimos assim o texto integral uma vez que ele é de interesse geral, e em particular a todos os cineastas e agentes culturais. Sobre o assunto vale também a pena ler a entrevista a Eyal Sivan, publicada no Le Courrier

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Carta aberta a Nadia Rais, Nejib Belkadhi, Hind Boujemaa, Mohammed et Mehdi Ben Attia:

“Não deem carta-branca ao apartheid israelita”

A campanha tunisina pelo Boicote a Israel está profundamente triste de saber que programaram a vossa participação na secção “open doors” consagrada ao cinema magrebino do Festival de Locarno (5 e 15 de Agosto 2015). Um ano depois do massacre israelita perpetrado em Gaza no Verão de 2014, onde mais de 2 mil palestinianos, entre os quais 500 crianças, foram assassinadas, o festival Locarno 2015 decide dar um lugar central no festival com “uma carta-branca ao cinema israelita” – sete filmes em fase de pós-produção são apresentados a profissionais para lhes facilitar a finalização e distribuição – e isto no contexto de uma cooperação com o “Fundo Israelita do Filme”, fundo esse que é um organismo apoiado pelo Conselho Israelita para o cinema que o governo Israelita mandatou como organismo consultivo de financiamento de filmes (…) beneficiando também do apoio do departamento “Cinema” do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cujo objectivo é “promover os filmes israelitas no estrangeiro com o apoio dos assistentes culturais das embaixadas israelitas pelo mundo”. É importante lembrar que este mesmo Ministério dos Negócios Estrangeiros, escolhido como parceiro do festival, justificou os ataques brutais de Israel contra os civis palestinianos e as suas infraestruturas.

Estamos a escrever-vos para vos incitar a juntarem-se ao boicote lançado em Abril pela PCABI (Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel) intitulado: “não deem carta-branca ao apartheid israelita” e foi assinado por mais de 200 cineastas, artistas e actores culturais. Divulgada pelo movimento internacional BDS e, na Suíça, pelo Comité dos artistas e actores culturais solidários com a Palestina, esta carta aberta incita Locarno a reconsiderar a sua parceria com o Fundo Israelita do Cinema, órgão nacional de financiamento e promoção. Ela explica que se o objectivo do festival é apoiar certos cineastas israelitas ou difundir filmes israelitas, existem múltiplas maneiras de o fazer sem aceitar o financiamento ou outras formas de apoio da parte de organismos estatais e governamentais israelitas.

Entre os assinantes figuram cineastas e profissionais da indústria do cinema como Ken Loach, Jean Luc Godard, Alain Tanner, realizadores palestinianos como Anne Marie Jacir, Elia Suleiman, e realizadores israelitas como Eyal Sivan, e, claro, artistas árabes, entre os quais vários tunisinos como Sawsen Saya, Nejma Zeghidi, Ridha Tlili, Jilani Saadi, Asma Chiboub, Moncef Taleb, Azza Chaabouni, Fatma Cherif, Ismael Lemasi, entre outros.

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“O euro-anarquismo em vias de facto”, por Carlos Marques

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Um colectivo de escribas na rede tem vivido os últimos tempos em enorme sobressalto. Perante o colapso do Syriza, da estrutura imperialista europeia, e a iminente crise revolucionária que atravessará os países mais periféricos, este colectivo vive assombrado pelo espectro do nacionalismo.

Quem não conhecer o blogue tem logo em grande destaque na coluna direita o melhor cartão de visitas: “Pela libertação do Nobel da Paz Liu Xiaobo”. Convém avisar que Liu Xiaobo não é euro-anarquista, mas está ali por razões não muito distintas. Liu Xiaobo defendeu a invasão do Iraque para garantir “a liberdade e a democracia” – o que o qualifica simultaneamente para estar ali e ser prémio-novel.

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“The Greek Debacle” por Perry Anderson

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On the crisis in Greece and Syriza’s failure to resist the eurozone

he Greek crisis has provoked a predictable mixture of indignation and self-satisfaction in Europe, alternatively lamenting the harshness of the settlement imposed on Athens or celebrating the last-minute retention of Greece within the European family, or both at once. Each is as futile as the other. A realistic analysis has no place for either.

That Germany is once again the hegemonic power in the continent is no news in 2015: it has been clear for at least twenty years. Nor is the reduction of France to its handmaid, in a relationship not unlike that of Britain to the United States, a political novelty: since de Gaulle, the reflexes of the French political class have reverted to those of the early forties, not only in accommodation, but admiration for the superior power of the day, first Washington and then Berlin.

Least of all is there any surprise in the outcome to date of monetary union. From the start, the economic benefits of European integration — taken for granted by bien-pensant opinion across the board — were very modest.

Continuar a ler na Jacobin. Tradução para português na Revista Rubra

A classe operária já tem onde botar o voto

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A coligação entre o PTP, o PDA, o AGIR e o MAS, arrisca-se a entrar para o anedotário das próximas eleições, mas a vontade de rir não devia ser razão para não nos debruçarmos convenientemente sobre o assunto, nomeadamente recuperando algumas passagens dos clássicos da literatura marxista e, com a sua ajuda providencial, compreender que esta é a melhor alternativa para confiar o voto nas próximas eleições legislativas. É verdade que o POUS também apoia o Livre\Tempo de Avançar, mas nesse ramo do trotsquismo é mais difícil ser contagiado pelo entusiasmo, sobretudo depois do enterismo menos conseguido do lambertismo, não só em partidos mas também em governos burgueses, como foi exemplo o PS no pós 25 de Abril e a frente popular do Mitterrand.

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A psiquiatrização do aborto

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A direita fundamentalista, em final de mandato, escolheu fazer do direito ao aborto um calvário para as mulheres que, para o exercer, optem pelo serviço nacional de saúde. O calvário a que estaremos forçadas a partir de agora mais não fará do que nos atirar de novo para a clandestinidade, com as ricas a reforçar os lucros das clínicas privadas e as pobres a voltar a enfrentar a morte no vão de escada como preço por uma escolha que só pode ser feita em liberdade. Esta aliança entre capital e fanatismo não podia ter um final feliz.