Leila Khaled, 47 anos depois de Damasco

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Fez ontem 47 anos que Leila Khaled, integrando um comando da Frente Popular de Libertação da Palestina, se tornou na primeira mulher a desviar um avião, no caso, um que fazia a ligação entre Roma e Telavive. Foi uma acção imaculada, de onde todos os passageiros saíram com vida, e cumpriu com o objectivo de impedir que fosse ocultado ao mundo a limpeza étnica sobre a qual Israel sempre se construiu. A ocupação, que nessa altura mal tinha saído da adolescência, avançava em silêncio até que esbarrou na coragem de Leila Khaled e dos seus companheiros de luta. Hoje deputada, esta mulher ocupa, plena de direito, um lugar de destaque na história da Mulher, da Palestina e da Humanidade. Os terroristas que a acusam de terrorismo terão as honrarias mas os heróis que a têm como exemplo não esquecerão a lição.

Qual a parte de Temer que devemos a Dilma?

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O consenso na defesa de Dilma, no mather what, é uma das razões do seu fracasso. Desde o primeiro dia em que o PT chegou ao poder, em Porto Alegre, que a esquerda nunca foi exigente como devia. Não foi exigente na gestão dos municípios, como não o seria depois na gestão do governo central. A reforma agrária e o fim do latifúndio, os direitos das populações indígenas, a brandura com as elites brasileiras, a capitulação ao FMI, a Davos e ao Banco Mundial, os eventos faraónicos da copa às olimpíadas e a corrupção generalizada, são exemplos que sobram que a única coisa que o PT reservou de esquerda foi o ódio da direita que não soube lucrar na onda. É pouco, quase nada, para quem podia e devia ter sido o partido charneira para fazer o medo mudar de bando. A esquerda que interessa nascerá dos escombros do PT, do Syriza, do Chavismo, como o PT, o Syriza e o Chavismo nasceram dos escombros do socialismo real. Esperemos que desta feita o luto não demore tanto, e que da próxima vez que a esquerda tiver uma ronda no poder pelo menos esteja em condições de errar melhor. Pelo volume das lágrimas que vejo a escorrer por aí sou levado a crer que mais depressa se repete a equação à espera de outro resultado do que se conclui que assim não vale a pena.

Não é o socialismo por etapas. É o Temer ao virar da esquina.

Cartas do vale #15

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Eu tinha acordado com o alvoroço que fez um enorme gafanhoto verde preso no embaraço da rede que me protegia o sono das ferradelas dos mosquitos. Entrara desprevenido pela janela e fora cair na rede branca do sono. Soltei-o do óbice em que se via e, mal acordado, lancei-o pela janela fora ao campo aberto. E ele foi. À laia de solecismo, aquilo que a seguir poderá ter acontecido pertence ao entendimento geral do nosso conhecimento sobre a vida material. Essa mesma que interessa aos gafanhotos e restantes insectos e que diz respeito às particulares propriedades da natureza. Fui sentar-me à porta de casa sem mais para fazer, esperando receber da sombra de uma árvore grande que lá estava para o efeito o resto da sonolência da manhã. Encostei-me a ver passar as nuvens que sem peso se movem de Sul para todo o lado empurradas pelo vento. Quando o dia se preparava para se dobrar sobre si, desci à localidade e entrei num café que passei a frequentar. A mulher e o dono saudaram-me. Trouxeram-me um café e um copo de água. Ele apressou-se a limpar os cantos da mesa com um pano sujo de limpar tudo que trazia sempre pendurado à cintura. Depois acercou-se a mulher com o café e a água e perguntou-me, o Sr. Dr. não vai muito à missa, pois não? Eu nunca mais entrei numa igreja desde que deus se zangou comigo depois de uma violenta discussão sobre resultados desportivos, política e sexo, respondi com um sorriso que não e voltei ao que estava a fazer. O padre não vai gostar nada de saber que o gajo não vai à missa. Foi o que disse alguém que estava sentado nas minhas costas ao outro que estava ao lado dele. Bebiam e proferiam comentários surdos para as moscas.

A liberdade é  uma mulher. É quando ela se ri na casa de banho a pentear os cabelos que tem na cabeça. Foi o que escrevi no meu caderno e olhei através da grande janela do café que dava para a rua e vi a rua e as casas do outro lado da rua. Terá passado um carro, e depois outro. Quando ela se ri e aparece vinda sei lá de onde, como se amaranhasse pelas paredes, e ficasse escondida à espera de me ver passar. É quando ela se ri, a liberdade. A liberdade, tal como a ciência já era antes de existirmos, ou a pensar na falta que ela nos faz, ou já fez, ou fazia. A liberdade faz muita falta e toda a que se possa ter não é demais. É a ciência política que o diz, o senso comum. Não sei ao certo.  Houve um tempo em que a minha mãe ocupava o lugar de todas as mulheres que conheci depois dela. Ela a puxar-me pela mão, rua abaixo quando íamos ao mercado e eu resistir, talvez não quisesse ir. Moedas na carteira era o que ela tinha para comprar fruta e peixe. E a força das ordens que me dava que se misturava com o amor enorme que nos tinha todos. As moedas ganhavam verdete nas mãos do homem da peixaria, era um sinal de esperança, era o que ela me dizia do verdete. Ela enorme perante as mulheres e aquele verde nas moedas eram um sinal de esperança. Que raio de esperança era essa de que ela falava? O seu mundo que nada mudara desde que se apaixonara e eu nascera. O seu mundo que era uma espécie grande terraço descoberto, à mercê de todas as intempéries, um estendal aberto ao céu e as mãos com que fazia todos os mimos que me dava. A esperança é o que é.

Paguei e saí. Decidi lançar-me à água antes de subir ao meu promontório. Caminhei pela localidade e atravessei o lajedo do porto. Desci uma escadaria de pedra e afundei-me num areal branco sem ninguém. O mar era verde brilhante e transparente. E para sul espreitava para lá dos rochedos  cabeça do farol. No caminho vi um tipo de calças justas e sapatos de vela de camurça avermelhados. As calças tinham as bainhas viradas para fora e paravam acima dos tornozelos como nunca se tinham visto por ali umas calças assim. As pessoas olhavam para as calças do tipo com estranheza e humor. Um grupo de miúdos caminhava na sua sombra para lhe ver as bainhas das calças mais de perto. Será papeleiro?, perguntavam-se baixinho para não incomodar o estrangeiro. O tipo tinha uma irmã que vestia igualzinha a ele. Só a cor da camisola era diferente. Mais clara no tom, mas de cor muito semelhante. Ela fumava e tinha um ar enfadado, na certeza disso era ar de quem estava fartinha até ao cabelos de ali estar. Gritou para o rimão, vamos para o barco, ou não vamos? Depois apareceram dois amigos deles com passos de meninos ricos, como se valsassem, ou navegassem, e traziam garrafas e sacos de papel com mercearias. Usavam o mesmo estilo de corte nas calças. Os putos seguiram-nos com os olhos até que eles desapareceram num carro branco desportivo que tinham estacionado na praça do município. Um dos putos mais atrevidos disse com ar de entendido,  a gaja, logo à noite, leva na cona deles todos, ò lá se leva. Tão certo como estes dois que o mar há-de engolir. E apontava com dois dedos para os dois olhos da cara, enquanto os outros menos informados consentiam a informação como certa e sabida.

O alvoroço que os gafanhotos fazem quando ficam presos nas redes das camas. Malditos mosquitos, um horror.

Digerir o passado para recuperar o futuro

Este é um filme fabuloso que todos os revolucionários deviam ver, sobretudo os que insistem em olhar para as revoluções como processos imaculados. Num guião com o dedo de Pandura, o enredo tem a genialidade de criar cada um dos personagens tipo sem deixar que moral alguma recaia sobre eles. O que se foi e os que ficaram. Os que ficaram acreditando e os que ficaram derrotados. Com inteligência, pois percebe bem como funciona a cabeça dos militantistas, cada um começa por preferir expiar as suas culpas, os seus fantasmas, para depois, em nome da amizade e do futuro, preferirem olharem para dentro de si, e perceber qual a sua parte da culpa na derrota. Cuba foi uma revolução maravilhosa, que ninguém duvide disso, e a vitória de Castro evitou que Cuba fosse hoje mais um dos muitos bordéis em que os EUA, a França e a Inglaterra transformaram as Caraíbas. É tão inegável esse mérito como é inegável o facto de a revolução não ter sobrevivido ao período especial. O partido burocratizou-se e cedeu ao nepotismo nas costas dos sonhadores que lhe deram o sangue. Os que ficaram, conservam diferentes graus de rancor com quem espezinhou as suas utopias. Os que partiram, regressam sem terem descoberto melhor caminho. Acaba-se o filme com a justa sensação que é mais grave o crime de trair uma revolução do que o crime de a tentar impedir, porque só quem a trai defrauda os ideais e as pessoas que representa.

Uma vitória num oceano de derrotas

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Dificilmente será algo definitivo, tal é o rumo que a França tem levado, mas a revogação da lei que proibia mulheres vestidas na praia é evidentemente uma pequena vitória para a liberdade das mulheres. O patriarcado vai continuar a sua cruzada, o que quer impor e o que quer proibir o que as mulheres podem vestir, mas pelo menos por agora não se somam a estas duas categorias de guerrilheiros da sua liberdade a forças da lei e da polícia. O colonialismo o imperialismo cultural europeu vão ter que esperar um pouco mais.

Que o livre-arbítrio das mulheres vença o fundamentalismo dos homens obrigacionistas e proibicionistas

“Desvendada, Despida, Humilhada”, assim são as novas causas da República de França, islamofóbica, racista, patriarcal, burguesa. Rendida ao medo, a República que outrora se batia pela Liberdade, a Igualdade e Fraternidade, morreu nas praias de Nice e na mais que provável vitória de Marine Le Pen. Apagam-se as luzes da República da Liberdade para dar lugar a uma longa madrugada da República do Medo. Os barretes vermelhos perderam a cor, empalideceram, e alguém devia acordar depressa a resistência! Será que sobra quem prefira a liberdade da mulher poder escolher o que veste ao fundamentalismo reaccionário dos proibiscionistas-obrigacionistas?

proibicionistas e obrigacionistas

Parece haver, mas fora da nomenclatura académica e militar. Não deixa de ser notável a capitulação ao proibicionismo da generalidade dos eurocêntricos, outrora pregadores da liberdade. André Freire e Carlos Matos Gomes, como aqui escreve o Menor, coleccionam uma sucessão de disparates sem paralelo no debate público. O cientista e o capitão de Abril, mesmo avisados por quem os lê, usam fotografias manipuladas, repetem à exaustão que se tratava de uma burka, assumem que a mulher é seguramente esposa e inevitavelmente maltratada pelo seu marido e que a proibição é o caminho para defender os valores da Europa. A cereja? Afirmar, aparentemente sem corar, que a melhor maneira das mulheres se libertarem é preferir que fiquem em casa, pois desse modo “talvez se revoltem”. Haverá outro nome a dar a isto que não o de talibanismo-ocidental?

André Freire e Carlos Matos Gomes podem enfiar as burkas que entenderem, falar pelas mulheres que quiserem – por falar nisso, já houve alguma a defender a actuação da polícia? – banir todas as pessoas que lhe mostraram as evidentes limitações do seu postulado, mas não escondem que estão dispostos a não se distinguir dos talibans, procurando salvar a mulher de si própria, procurando substituir-se à mulher numa escolha que só será livre quando for exclusivamente dela. O debate acalorado é de facto bom para se perceber outra evidência que tem andado esquecida: se a situação política continuar neste sentido, esta não será a última vez que a social-democracia dá o braço, com convicção e fulgor, ao fundamentalismo. Acabarão a votar Sarkozy contra Le Pen, Hillary contra Trump, para no final acabar a arrancar véus nas praias de braço dado com a polícia dos costumes. Triste fim. Esperemos que a resistência acorde a tempo de desmoralizar tanto desvario.

Primeiro as mulheres, depois ponto final.

André Freire e Carlos Matos Gomes: o bófia bom e o mau incendiário

14088948_10154554482429379_1443280363_nEstava a tardar. O rocambolesco do episódio e a justa indignação justificava a hesitação, e com ela o silêncio inicial da “variação humanista” da islamofobia. Carlos Matos Gomes, um dos que tardou mas que não se fez rogado, equiparou a ida à praia de uma mulher vestida, pasme-se, à defesa de actos terroristas como aquele que abalou a cidade: “Com aquela vestimenta ela está a transmitir uma clara mensagem de cumplicidade com o autor do atentado do 14 de Julho – está dizer eu tenho e bato-me pelos mesmos princípios do camionista”. Para Carlos Matos Gomes, cuja sabedoria no tema nem sequer lhe permite perceber que em causa não estava um burkini, a senhora interpelada e humilhada pela polícia, por ser “irmã de fé” do terrorista, foi à praia apenas e só para desafiar a República, “fazer-vos engolir o fel das vossas leis”. Estarão todos os católicos preparados para responder pelos cúmulo jurídico dos crimes da Igreja? Terão todos os judeus que responder pelo cadastro hediondo de Israel? Estou certo que mudando o sujeito e o credo, o ateísmo farsola de Carlos Matos Gomes cairá com estrondo vociferando a resposta certa. 

Para quem não sabe ou lembra, Carlos Matos Gomes é um dos “Capitães de Abril”, pelo que não se compreende que agora escreva, a justificar o injustificável, que as “leis foram feitas dentro de um dado contexto e para serem aplicadas dentro desse contexto”. Para que não sobrem dúvidas sobre a subscrição à lei e aos actos da polícia naquele naufrágio geral, declara sem pudor que “os polícias da República Francesa estão a fazer é a defender-nos desse retorno à idade das trevas”. Não se espantem. Para Carlos Matos Gomes a mulher que foi importunada na praia pode mesmo ter “a obrigação de cumprir esta missão provocatória que outras mulheres islâmicas tiveram, ao serem coagidas a vestirem-se com um colete de explosivos e a fazerem-se explodir.” Estaria ali quase por certo mais uma obediente militante do Daesh, cujo zelo da polícia deve por certo ser também obra do diabo, tal é a publicidade que tem dado aos seus costumes, graciosamente elevados a símbolo de liberdade pelo fanatismo proibicionista que se abateu sobre a Europa em geral e sobre a República Francesa desta maneira tão particular, que tão perto os coloca em matéria de valores de aqueles com quem, apesar da abjura, o Ocidente sempre fez belíssimos negócios sem olhar um segundo para os direitos das mulheres.

Poderíamos ter alguma condescendência. Afinal Carlos Matos Gomes já deixou claro o seu arrependimento por, à data da Revolução, não ter entregue à ONU “o processo de transição para a independência das colónias”. Recentemente ainda mais a propósito, deixou também claro que está de armas e bagagem na guerra das civilizações, um soldado do “Je Suis Charlie”, que acusa todos os que não foram Charlie não o foram “porque entendem que é razoável e defensável que um homem, ou uma mulher (…) assassinem outros homens e mulheres precisamente por fazerem uso do dom do livre arbítrio com que esse Deus dotou os seus filhos, deixando-os livres para pensarem mal, para pecarem, para renegarem quem os animou!”. Podíamos pensar que Carlos Matos Gomes é apenas uma voz isolada, cuja ignorância não seria subscrita por nenhuma alma cuja opinião seja moldada por mais do que a “conversa de táxi” que Carlos Matos Gomes diz andar a levar a vítima em ombros como se fosse uma heroína. Mas não. Outros, com mais crédito, se têm juntado ao coro.

André Freire, cientista e tudo, partilha cada uma das palavras de Carlos Matos Gomes e à boleia deixa a recomendação da prosa, “ao cuidados de alguns esquerdistas, relativistas e multiculturalistas, e quejandos…, que andam por aí, muito indignados pela proibição do uso da Burka em locais públicos nas democracias ocidentais!”. Ele, claro, não deixa ninguém com dúvidas: “sou totalmente favorável à proibição do uso da Burka em locais públicos nas democracias ocidentais”, numa pérola que não se coíbe de proteger “por razões de principio na defesa de direitos fundamentais”. 14101637_10154556788544379_1918950511_n

Em nome do “Liberté, Egalité, Fraternité”, escrever-se-á agora “Dévoilée, Deshabillée, Humilliée”, e teremos por certo André Freire a afirmar que em nome do primeiro há que pagar o preço do segundo. Lá está “convém não esquecer!”, ora pois, a lágrima que se percebe nos olhos de ambos, quando pensam que grave mesmo é a “a falta de assertividade na defesa dos nossos valores”. É que outra não tem feito a Europa, numa sucessão de guerras que semearam o ódio que se somou ao ódio acumulado por séculos de colonialismo. Se algum dia tivermos a sensatez e a coragem de preferir alguma falta de assertividade na defesa dos valores ocidentais, onde se inclui a possibilidade de deixar quem queira ir à praia sem ter que se despir, talvez se abra a possibilidade do mundo ficar em melhores lençóis do que aqueles que agora se apressam a incendiar em nome da liberdade.