Autárquicas no Facebook

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Os Tesourinhos deram o mote, seguiram-se o Master Tacho e o Autarqui’Daltons, e outros devem dar à rede durante o Verão para acompanhar as Autárquicas de Outubro de 2017. As próximas eleições autárquicas é para trocar a Judite de Sousa e o Rodrigues dos Santos pelas páginas da especialidade no facebook. Enquanto as televisões, as rádios e os jornais darão à estampa perfis higienizados, debates redondos e reportagens em comícios que não interessam a ninguém, as redes sociais prometem palco a outra forma de olhar para o espectáculo da democracia, denunciando os candidatos catavento, que já foram candidatos por vários partidos e movimentos, os candidatos contraditórios, que defendem algo sem qualquer sentido, ou candidatos que se candidatam a lugares de onde foram corridos pela justiça, por crimes que cometeram no exercício do cargo para o qual agora se recandidatam. Vai ser um fartote!

Otium postmodernum

Fotos (Muralla de la cárcel de la Santé (« Salud »), París. Junio 2017) e texto de Benito Barja

En el siglo XVI, Montaigne decía “Cuando juego con mi gata, ¿cómo sé que no es ella la que juega conmigo?”. En mi siglo espectacular, me pasa igual con los muros de las cárceles.

Tal fue lo que pensé al pasar por la cárcel de la Santé*. No tenía porque estar ahí, solo buscaba un velib (bicicleta en libre servicio) que funcionase: Pero hacía calor y todo París se los había llevado. En fin, que me había perdido.

El sol aplastaba, pero levanté la cabeza. Algo me llamaba la atención. Y veo esas grúas dentro de la cárcel: « Parece que hay tanto productivismo dentro que fuera; esto es una fiesta, como cuando la locura del ladrillo en España! ». Bajé la mirada y vi esa enigmática figura contra la pared. « Sonríe bien o sonríe mal? », difícil saberlo. La confusión y el calor me engendraron cierto vértigo, y también una reflexión: « Pero yo estoy dentro o fuera!? »

Entonces es cuando me vino a la mente aquella frase del filósofo Montaigne, la que tanto me había gustado (la duda cartesiana siempre se me atraganto). Y pienso en mi siglo, con sus torres de cristal que miran y no dejan ver, a un mundo en donde todos somos animales transparentes y dóciles. Aquella gata tenía una libertad y su espectador también, el espectáculo a aniquilado esas posibilidades, ese pensamiento que juega. Todos es rígido ahora, el discurso espectacular de adaptación permanente no es más que el estadio extático de la petrificación: no hay más espacios que los útiles a la circulación de la mercancía, fuera no existe. El problema no es que metan a algunos en la cárcel por rebeldes — además de ser demasiado romántico y anticuado —, el problema es que nos meten a todos en una única granja de pollos llamada Tierra, donde « productivamente » se trabaja a la ruina del planeta y  a la extinción de nuestra especie, tal como la conocemos.

Ocio, libertad o espacio ya solo se concentran en fiebre breve y consiguiente sentimiento. Pero nada nuevo bajo el sol, pues de esa situación primaria nacen las otras; la libertad siempre ha sido un vértigo dialéctico, que impulsa y que hay que conquistar.

* Salud

Elogio do ócio (IV)

 

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Mil vezes sentar-me à vontade em cima de uma abóbora do que comprimir-me entre outras pessoas numa almofada de veludo. 

Henry David Thoreau – ‘Walden ou a vida nos bosques’ (1854)

Fotos (Afurada, Porto, "Monumento ao Herói Pescador", popularmente conhecido por "Chapa", 2014-15) e escolha de citação de Antigoni Geronta

Elogio do ócio (III)

Ganhar o pão do seu dia

Com o suor do seu rosto…

– Mas não há maior desgosto

Nem há maior vilania!

Mário de Sá-Carneiro

Fotos (arredores de Évora, 2017) de PDuarte

 

Elogio do ócio (II)

Se o ensino é acolhido com reticências, ou até com repugnância, é porque o saber filtrado pelos programas escolares contém a marca de uma ferida antiga: ter sido castrado da sua original sensualidade.

Raoul Vaneigem – Aviso aos alunos do básico e do secundário.

Foto (Campus da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil) e escolha de citação de Maria Ramalho

Alentejo criativo

 

A criatividade converteu-se numa das qualidades mais valorizadas pelo capitalismo. Porque é ela que permite inventar negócios e produtos inovadores, com altas margens de rentabilidade no ultra-competitivo mercado único mundial. Em Lisboa, uma área privilegiada da zona oriental da cidade (a antiga Manutenção Militar) prepara-se para receber empresas que aí se queiram gratuitamente instalar, desde que estas operem nas indústrias ditas criativas. Será o maior “Hub Criativo e empreendedor nacional”, noticiava um jornal qualquer, num artigo que também revelava a alegria que o presidente da câmara e o primeiro ministro sentiam pelo sucedido.

Mas a criatividade está a chegar também às periferias, mesmo àquelas onde não conseguíamos imaginar mais do que extensas planícies, rebanhos de ovelhas e sobreiros. Hoje mesmo, o Lonely Planet, um guia de viagens que tem dado um inestimável contributo para levar o turismo aos lugares mais recônditos e que se tornou particularmente famoso entre os turistas que acham que não o são (precisamente porque exploram esses lugares recônditos, “quase virgens”), considerava o Alentejo uma das 10 regiões europeias a visitar em 2017. Entre os motivos para tão honrosa distinção, estão os “novos investimentos turísticos” que incluem “uma série de restaurantes criativos” e “casas de hóspedes imaginativas”.

Outro sintoma de que a criatividade está a assentar arraiais no Alentejo é a conferência internacional que decorrerá em Évora no início de Junho, chamada ‘Connecting Creative Ecosystems’, promovida pela CIMAC – Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central e inserida no projeto “Valorização, promoção e desenvolvimento do património histórico e cultural de Évora e da região envolvente” que é “cofinanciado pelo Programa Alentejo 2020, no âmbito de uma parceria regional alargada e liderada pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo”. Percorrendo temas que vão da gestão cultural à economia criativa, a conferência contará com um painel variado de intervenientes, alguns dos quais conhecidos pela sua visão crítica das democracias neoliberais (António Guerreiro, Tiago Mota Saraiva), mas todos eles dispostos a dar um contributo para um evento que, destinando-se tanto a programadores culturais como a agentes turísticos, pretende contribuir para “consolidar a Região como destino cultural, artístico e turístico”, ou seja, ajudar o Alentejo a trilhar o seu caminho no competitivo mundo da economia e do turismo globais.