“Um mercado emergiu onde a humilhação pública é um produto e a vergonha uma indústria. Como se faz esse mercado? Cliques. Quanto mais vergonha, mais cliques. Quantos mais cliques mais dinheiro da publicidade.” Por Monica Lewinsky

Solidariedade Internacional com os Estivadores de Sines!

Os estivadores do Porto de Sines, depois de anos de humilhação e precariedade, estão a levantar-se contra uma das empresas (PSA SINES) que piores práticas interpreta no que diz respeito aos seus trabalhadores. Contrariando a realidade nacional e internacional, onde à custa de muita luta os estivadores têm sido capazes de defender com dignidade os seus postos de trabalho, os estivadores de Sines além da exploração levada a cabo pelos patrões estavam ainda reféns de um sindicato de empresa que defende mais o patronato do que os trabalhadores. Esta realidade começou a mudar com o envolvimento dos demais estivadores dos outros portos em Portugal e na Europa, que estiveram em Sines para deixar claro que esta realidade não mais vai ser tolerada. Acabado o tempo da humilhação segue-se o tempo da luta. Deste lado, poderão continuar a contar com toda a solidariedade!

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Yangire/Yandere: um tour pelas “meninas venenosas” na animação japonesa e não só

NOTA: O presente texto é uma tradução e adaptação do ensaio integrado no zine Muji Life + Yangire/Yandere.

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Yangire” e “yandere” são personagens-tipo originados na subcultura japonesa conhecida por otaku, grosso modo equivalente às culturas geek ou nerd no Ocidente. Mais precisamente, surgiram e floresceram dentro do manga, anime e fandom do moé, uma estética orientada para o público masculino e caracterizada pelo seu apreço por figuras do tipo “irmãzinha” e outras estripes de cuteness associadas. Quer a palavra “yangire” como “yandere” são trocadilhos que partilham o mesmo sufixo “yan”, de “yandeiru”, significando que algo ou alguma coisa está doente. O “gire” em “yangire” pede emprestada a conjugação verbal “kire”, que significa “cortar”, enquanto “dere” se refere a “deredere”, uma palavra onomatopaica que significa estar-se apaixonado. A parte final da palavra é, portanto, aquilo que separa o yangire e o yandere em termos de motivação: o primeiro, é movido por uma compulsão para cortar e talhar; o segundo, por sentimentos de amor. Resumindo e concluindo, o yangire traduz-se em personagens exteriormente cute e adoráveis mas propensas a transformarem-se em psicopatas sanguinárias quando irritadas, assustadas ou de algum modo stressadas. Da mesma forma, as personagens yandere são exteriormente cute e adoráveis, assumindo diferentes matizes de brutal, obsessivas ou pura e simplesmente maradas quando toca aos seus interesses românticos. O yandere é, por outras palavras, um “lobo em pele de cordeiro”, um stalker superprotector que não hesita em recorrer a todos métodos disponíveis (rapto, chantagem, tortura, assassinato, é só escolher!) para chamar a atenção da sua pessoa especial e remover qualquer obstáculo que entre eles se entreponha… Mesmo que, em casos extremos, tal signifique “proteger” a pessoa amada matando-a.

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Olhos e expressões faciais típicas de personagens yangire e yandere.

O yangire e yandere inserem-se assim, em traços gerais, no arquétipo da dupla personalidade, e apesar das metades “Mr. Hyde” poderem estar mais ou menos presentes, manifestam-se habitualmente em mudanças de humor violentas e súbitas explosões de fúria assassina despoletadas pelos chamados “butões berserk” (que, muitas vezes, alteram a aparência física das personagens ao des-“cutificar” os seus traços cute). O ocasional yangire ou yandere masculino existe nos media japoneses mas, sem surpresa, a maioria destas personagens são femininas, endorsando uma longa tradição de excessos emocionais incontroláveis por parte de mulheres histéricas. Yuno Gasai, da série Mirai Nikki (“Diário Futuro”, animada em 2011 d’aprés a banda desenhada homónima de Sakae Esuno), tornou-se a poster child do yandere, originando o muito difundido meme Yandere Trance ou Ecstatic Yandere Pose (também conhecido por Mirai Nikki Face ou Yuno Face).

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Capa do primeiro volume de Mirai Nikki, com Yuno em primeiro plano e Yukkii atrás, em segundo. 

Yuno é uma menina amorosa de cabelos cor-de-rosa apaixonada pelo protagonista masculino Yukiteru “Yukkii” Amano, um rapaz forçado a participar numa espécie de battle royale, que ela jura proteger a qualquer custo – geralmente, por processos envolvendo stalking agressivo e carnificina. No final do primeiro episódio, depois de Yukkii (absolutamente aterrorizado) descobrir que terá de lutar pela vida nesse jogo mortal, é consolado por uma Yuno ruborizada com os olhos transbordantes de loucura que lhe diz “Não te preocupes, Yukkii… Eu vou (ahn~♥) proteger-te”.

Sequência do anime Mirai Nikki com Yuno Gasai em Yandere Trance ou Ecstatic Yandere Pose.

A performance vocal febril da actriz Tomosa Murata, não parca em subtexto erótico, juntamente com a pose dramática das mãos e a iluminação sinistra, tornaram esta cena numa imagem explorável com centenas de variações paródicas, em que personagens de todo o tipo são “yanderificados” pelos fãs usando as feições afeminadas de Yuno como modelo.

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Como “yanderizar” personagens, utilizando a popular Kirino Kousaka de Oreimo como exemplo. 
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Fan art representando personagens de séries populares (Touhou Project, Nichijou, Naruto, Yu-Gi-Oh!) na pose yandere de Yuno.

Adicionalmente, como ambos os tipos estão ancorados em mundos moé densamente povoados por raparigas pubescentes fazendo coisas fofinhas, a feminização das disposições afectivas do yangire e yandere corresponde também a uma infantilização. Por essa razão, estes tornam-se numa espécie de aparatosos Enfant Terrible (fórmula definida por crianças com tendências homicidas), revertendo para a nossa ansiedade paradoxal de que demonstrações extremas de cuteness são a algum nível perturbadoras, não naturais ou manipuladoras (talvez fruto do seu efeito “não-exactamente-humano”, ecoando o uncanny valley de Masahiro Mori). Como nota Sianne Ngai em Ugly Feelings, esta demarcação de sujeitos como emocionalmente anómalos, quer por défice quer por excedente, é na realidade uma forma corrente e enraizada de “outrização” daqueles que aparentam estar fora do privilégio branco, masculino, hétero-cis, adulto e/ou fisicamente apto e saudável. O conceito de “animatedness” avançado por Ngai, isto é, o estado de “ser-se movido” (que, na genealogia da autora, remonta às técnicas rudimentares de animação), é eficaz no seu apontar das implicações ideológicas dessa “interação ambígua entre coisas agitadas e pessoas desativadas” ou de “o passional e o mecânico” (Ngai 2007, 91), que frequentemente encontramos em ficções de possessão de corpos femininos dentro da literatura e cinema de terror. Em House of Psychotic Women, um livro semi-autobiográfico sobre as representações da neurose feminina nos filmes de terror e exploitation, a autora Kier-La Janisse compara a sua própria experiência de doença mental com a mais notória rapariga-adolescente-possuída-pelo-demónio do cinema: “Sentia-me como a Regan d’O Exorcista, emitindo estes insultos grosseiros e venenosos ao mesmo tempo que sentia que as palavras estavam a vir de outra pessoa” (Janisse 2012, 136). Similarmente, o yangire e yandere são, entre o reportório de personagens-tipo do moé, aquelas mais “possuídas” por uma defectividade emocional; assombradas por um sentimento de ventriloquismo e manipulação das suas vozes e corpos ao alternarem entre a inocência e a monstruosidade.

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O corpo de Regan, de 12 anos, possuído pelo Diabo em O Exorcista.

Um exemplo notável da ligação do yangire e yandere ao marionetismo é o início de Elfen Lied, adaptado para anime em 2004 a partir do manga de Lynn Okamoto.

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A diclonii Lucy de Elfen Lied. A parte direita da sua cara mostra o capacete usado durante a sequência inicial da série.

Centrando-se nas interacções entre os seres humanos e uma espécie mutante chamada diclonii, cuja aparência é idêntica à das pessoas excepto por dois pequenos cornos nas suas cabeças, os primeiros minutos de Elfen Lied tornaram-se célebres pelo seu uso de violência gráfica e “pinhatas de sangue” (personagens cujo propósito é serem reduzidas a uma polpa de entranhas). À medida que a personagem principal, uma diclonii chamada Lucy – que, não por acaso, é uma menina amorosa de cabelos cor-de-rosa como a Yuno de Mirai Nikki −, executa a sua fuga da instalação onde se encontra aprisionada, ela utiliza braços-tentáculo invisíveis para trucidar os seus captores, deixando um banho de sangue pelo caminho.

Primeiros minutos do anime Elfen Lied. Aviso que há sangue; MUITO SANGUE.

Durante esta sequência, Lucy torna-se marionete e marionetista, manipulando os cordéis com mãos ocultas ao mesmo tempo que é metaforicamente mecanizada e desumanizada pela sua progressão imparável. O contraste memorável entre o corpo nu de Lucy e o capacete de metal que lhe envolve a face (e que simbolicamente lhe inibe a voz, fazendo-a silenciosa durante toda a sequência), reforça o aspecto automatizado da dessensibilização dos diclonii. Por fim, Lucy é atingida na cabeça, causando o desenvolvimento da persona alternativa Nyu, uma criança selvagem extremamente querida, inocente e desajeitada, depois acolhida por um casal de jovens que lhe dá o nome da única palavra que ela pronuncia (“nyu~”).

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Fisicamente, Nyu distingue-se de Lucy pelos seus tarime, i.e. olhos doces e descaídos típicos de personagens moé ingénuas.

Como seria de esperar, esta divisão entre Lucy-a-pessoa-de-destruição-massiva e Nyu-a-ingénua acaba por torna-se no argumento central da série. Porém, a sequência de abertura mantem-se particularmente eficiente na sua representação da vontade ambígua dos yangire e yandere: simultaneamente, os mais agressivamente inervados e os mais possuídos dos personagens-tipo moé.

Em última instância, se como aponta Ngai “a cuteness é uma estética da impotência” (Ngai 2012, 64), o yangire e yandere podem ser entendidos como uma vingança do sujeito “cutificado”, batendo-se sadicamente contra o sadismo do seu dono. Não é de admirar, portanto, que o comportamento dos yangireyandere seja tão frequentemente justificado por traumas passados, mostrando-os como sofredores de abuso físico ou psicológico, numa lógica circular em que a vítima se torna vilão. É o caso quer em Mirai Nikki como em Elfen Lied, uma vez que Yuno era fisicamente maltratada e feita passar fome pelos pais por não corresponder às suas expectativas, e é indiciado que a propensão dos diclonii para a violência é resultado de abusos por parte dos humanos. A experiência da abjecção, i.e. de ser-se rejeitado e reduzido a um estado de desamparo, miséria e desespero, é de facto fundamental no retrato e desenvolvimento de muitas destas personagens, como a icónica yangire Rena Ryuuguu da franchise de sucesso Higurashi no Naku Koro ni (“Quando as Cigarras Choram”).

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Rena Ryuuguu, segurando na sua mahadinha ou nata (um instrumento de jardinagem japonês). Tão fofinha, ou será que não?

Marcada pelo divórcio traumático dos seus pais, Rena (que é uma rapariga doce e amigável excepto quando não é) sofre de um sentimento agudo de abjecção maternal e auto-abjecção. Este traço reflecte-se quer no seu fascínio pela lixeira ilegal da terra, onde passa o tempo numa caça ao tesouro por coisas “fofinhas” (normalmente, pedaços de lixo esquisitos); quer em cortar-se a si própria numa tentativa de remover o sangue materno que, nas suas alucinações, está infestado de vermes.

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A lixeira da cidade em Higurashi no Naku no Koro ni. Rena tem aqui a sua “base secreta” numa carrinha antiga (esvaziada e preenchida com coisas de que ela gosta), para onde se retira quando está angustiada.
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Rena alucina com vermes no seu sangue.

Apesar da sua neurose não se definir em função dos interesses amorosos, Rena (que devido ao divórcio dos pais, odeia mentiras, especialmente vindas de pessoas que lhe são próximas) também tem os seus momentos yandere, como a famosa cena da porta na versão animada da série. Nesta, Rena tenta forçar a entrada em casa do seu crush, acabando por tornar-se violenta quando este lhe dá uma desculpa esfarrapada, e aterrorizando-o ao ponto de este lhe entalar violentamente os dedos na pressa de fechar a porta.

Sequência yandere entre Rena e o seu interesse amoroso no anime Higurashi no Naku Koro ni.

A abjecção é pois uma componente-chave quer no yangire como no yandere, cujo amor assassino emerge em muitos casos de um desejo extremo por ligações físicas e espirituais. Na genealogia do yandere, esta obsessão pode ser traçada até ao caso Sada Abe de 1936, uma famosa assassina sexual que capturou a imaginação pública japonesa e alimentou o movimento artístico conhecido por ero guro nonsense (abreviado para ero guro ou guro). Sada Abe foi uma prostituta que estrangulou eroticamente o seu amante até à morte, castrou o cadáver e passeou-se pelas ruas de Tóquio com a genitália na sua malinha de mão durante dias até ser detida. Quando questionada sobre porque o tinha feito, respondeu que “amava-o tanto que não conseguia aguentar, por isso decidi que o queria todo para mim” (Marran, 163).

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Sada Abe pouco depois da sua detenção em 1936, na estação de polícia de Takanawa em Tóquio.

À medida que a investigação avançou, vieram à luz detalhes relevantes sobre a vida de Abe, incluindo ter sido vítima de violação por um conhecido; acontecimento que, na altura, sentenciava raparigas de tenra idade ao estatuto marginal das mulheres não-casadas vistas como “damaged goods”. Isto, por sua vez, precipitou uma série de eventos trágicos, desde tornar-se uma delinquente fugida de casa a ser forçada pelo pai a prostituir-se, bem como a miséria resultante dos seus dias enquanto trabalhadora do sexo: os maltratos pelos proxenetas, o contrair sífilis, o desespero financeiro, o aprisionamento em casas de geishas, até tornar-se finalmente numa prostituta em fuga. Como discutido por Christine Marran em Poison Woman, apesar destas revelações, os discursos coevos sobre Abe eram essencialmente naturalizados e caucionários, enquadrando o seu crime como resultado desejos instintivos e primários (repetidamente descritos como infantis, insectoides, regressivos), e alertando para os perigos de uma maturação sexual desregulada nos membros do sexo feminino. Isto reflectia e consolidava o arquétipo enraizado da dokufu, ou “mulher-veneno”, que Abe veio a personificar no século XX, alinhando a criminalidade feminina com o potencial para a destruição na libido de todas as mulheres.

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A “dokufu” (“mulher-veneno”) tornou-se uma buzzword na Era Meji, temendo-se uma epidemia de mulheres desviantes e assassinas. Takahashi Oden, representada na figura, é considerada a mulher-veneno mais icónica deste período. 

Apesar da própria Abe reconhecer que as suas acções eram, em certa medida, motivadas por uma desapropriação de poder (“disempowerment”) com base no seu sexo e classe social – recorrendo ao assassinato e à mutilação na tentativa de alcançar uma igualdade sexual em relação ao homem−, os escritos do pré-guerra despolitizam as suas reivindicações, atribuindo-as a uma suposta psicossexualidade desviante inata e (ab)usando-a para validar uma agenda de opressão de género. Numa reviravolta surpreendente, contudo, a cultura popular do pós-guerra alterou esta posição dominante, reconvertendo Abe num ícone de liberdade, auto-afirmação e emancipação feminina recorrente na ficção pulp e cinema dos anos 70 japoneses. Ainda assim, de acordo com Marran, esta viragem tem menos a ver com a luta das mulheres do que com o emergir do “homem masoquista” como contra-discurso sobre a masculinidade, gerando um culto da depravação feminina “através dos qual a política totalitária e os valores culturais masculinos são explorados e criticados” (Marran 2007, 136).

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Still do pink film de Noboru Tanaka, A Woman Called Abe Sada (1975).

As fórmulas do yangireyandere herdam este masoquismo masculino e o tom grotesco do ero guro, combinando aquilo que seriam normalmente personagens moé benignas com a carga negativa da transgressão na “mulher-veneno”. Como resultado, têm uma qualidade inerentemente sensacionalista e chocante, que distingue manga e anime como Mirai Nikki e Elfen Lied de retratos mais delicados e completos da insanidade e depressão em séries como Neon Genesis Evengelion. Ao transformar mulheres psico-patológicas em caricaturas distorcidas, as “mulheres venenosas” do yangire e yandere – agora “meninas venenosas”− perpetuam mitos perniciosos sobre a feminilidade e a doença mental que são mais reveladores dos medos (hegemónicos) masculinos do que de outra coisa. No entanto, se formos momentaneamente além da questão da má representação (uma estratégia que Ngai sugere em relação à “animatedness”), podemos não obstante encontrar questões de afecto, vontade e poder únicos às estéticas do grotesco e do grosseiro.

Um exemplo disto será Akira Kogami do anime quintessencialmente moé Lucky Star (2007), baseado na banda desenhada yonkoma de Kagami Yoshimizu. Akira é uma ídolo de 14 anos que, juntamente com o seu assistente Minoru, co-apresenta “Lucky Channel”, um curto segmento informativo no final de cada episódio de Lucky Star que (supostamente) promove as personagens e eventos principais do programa. Tem cabelo cor-de-rosa (notam o padrão?), usa um sailor suit com mangas supercompridas e exibe uma personalidade energética, cuteonsteroids, que é na verdade uma fachada para a misantropa intratável que se esconde por baixo, não acima de recorrer ao abuso verbal e físico para impor a sua vontade.

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Akira Kogami, co-apresentadora de “Lucky Channel”, posando na sua indumentária de ídolo.

À medida que os episódios avançam, a piada é que, apesar dos melhores esforços do seu assistente, a personalidade tóxica de Akira desvia invariavelmente o “Lucky Channel” do seu propósito original como “cantinho” para os fãs, transformando-o ao invés numa comédia negra autónoma sobre a relação profissional cada vez mais abusiva do duo. E, atenção: à típica moda da “menina veneno”, a violência é quase exclusivamente do feminino sobre o masculino.

A dupla personalidade de Akira no “Lucky Channel”.

O “Lucky Channel” separa-se do resto do programa não apenas por quebrar a “quarta parede” mas também pelo seu tom negro, inervado e cínico, contrastando com a alegria e descontração slice-of-life de Lucky Star. Adicionalmente, a “yangirização” de Akira é abertamente enquadrada como uma questão laboral, não-tão-subtilmente apresentado a sua neurose como resultado do envolvimento precoce, aos três anos, na indústria altamente competitiva dos tarento (personalidades da televisão). Entre outros detalhes mórbidos, ficamos a saber que os seus pais são divorciados e que a mãe administra as finanças de Akira, usando o dinheiro para alegadamente comprar produtos de marca para si própria enquanto dá à sua filha uma exígua mesada. Akira é, portanto, representada como uma slave to the wage, amargurada pela pressão e expectativas de uma indústria, família e pais exploradores, mas também obcecada com a progressão na carreira, poder e prestígio. Como uma Regan invertida, o seu corpo é possuído pelo trabalho intensivo de uma persona cute que rápida e facilmente se desmorona em poses nada femininas ou infantis (e.g. coçar a virilha, fumar cigarros em série), olhos franzidos e uma voz de bagaço. Além de que, porque percepciona o facto de ser relegada para o outro lado da “quarta parede” como uma desigualdade de estatuto, Akira é consumida pelo monstro verde da inveja, uma emoção que, como proposto por Ngai, é historicamente feminizada e proletarizada (com o mal-afamado conceito de “pennis envy” no olho da tempestade). Akira torna-se mesquinha e paranóica, ressentida pela popularidade dos protagonistas e vingando-se no subordinado Minoru – que tem um papel menor no programa principal e cuja mobilidade a irrita mais do que tudo o resto −, utilizando métodos extraordinariamente cruéis e antagonísticos, desde a humilhação verbal a formas cada vez mais extremas de agressão física (culminando num cinzeiro atirado à sua cara).

Exemplos do abuso verbal e bullying de Akira sobre Minoru.

As tentativas repetidas por parte de Akira de entrar no programa principal são, por sua vez, constantemente frustradas. Em ocasiões várias, fica abruptamente doentíssima, ou é-lhe dado uma cabine de karaoke em vez de um palco de concertos, ou a sua canção é interrompida a meio, aparentemente barrada de entrar num mundo ficcional habitado por estudantes de liceu ou trabalhadores imunes à violência do trabalho sobre o corpo e alma da mão-de-obra. Por fim, a venenosidade de Akira precipita a destruição do próprio “Lucky Channel”. Depois de ser enviado numa missão com risco de vida para recolher água potável das nascentes do Monte Fuji (que Akira acaba a cuspir por não estar suficientemente fresca), Minoru, para lá do seu ponto de ruptura,  destrói completamente o cenário do segmento aos murros e pontapés.

Minoru a (finalmente!) passar-se depois do abuso escandaloso de Akira, deixando o cenário de “Lucky Channel” em ruínas.

O yangire e yandere personificam, potencialmente, este ciclo nefasto de abuso de uma forma transgressiva, mas não necessariamente progressista, procurando abertamente a negatividade ao invés do realismo ou de uma melhor representação. Expressam de modo grosseiro e directo o nosso medo do reprimido (quer do psicologica como do socio-economicamente reprimido), aproximando-se do princípio junguiano da “enantiodromia”: os extremos que se transmogrificam nos seus opostos-sombra. Quanto mais fofinha e domesticada a rapariga, então, mais sinistro e selvagem o seu veneno. O mesmo se pode aplicar ao dizer shakespeariano de que há um método na loucura, tornando o seu contrário – uma loucura no método – tão ou mais verdadeiro. (Na dúvida, dêem um passeio até à vossa loja Ikea ou Muji mais próxima, onde a mera superabundância de ordem e utilitarismo é suficiente para levar qualquer um à loucura). O jogo vídeo Yandere Simulator, presentemente a ser desenvolvido e descrito como “um jogo de acção furtiva sobre perseguir um rapaz e eliminar secretamente qualquer rapariga que pareça interessada nele, ao mesmo tempo que se conserva a imagem de uma estudante de liceu inocente”, aborda este aspecto processual da disrupção no yangire e yandere.

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Ilustração promocional do jogo vídeo Yandere Simulator, mostrando uma estudante do liceu apaixonada com um rasto de sangue e corpos atrás de si.

Com o subtítulo “Don’t Let Senpai Notice You” (um trocadilho com o popular meme da internet I Hope Senpai Will Notice Me), a personagem principal utiliza uma larga gama de processos “racionais” para eliminar as rivais, desde da carnificina pura e simples à encenação de acidentes ou à sabotagem social, não deixando de lidar com preocupações prácticas como desfazer-se dos cadáveres, limpar o sangue ou destruir outros indícios incriminadores.

Breve apresentação e tutorial de Yandere Simulator.

Afinal de contas, o que nos assegura de que o nosso próprio raciocínio, a nossa ordem, não é retorcida? Como disse Yuno Gasai: “Eu sou louca? O que é louco é outro mundo em que eu não posso estar contigo.” Este oscilar na fina linha que separa a normalidade da loucura é válido para muitos produtos da cultura popular feminina, como o shoujo manga (banda desenhada japonesa para raparigas), cujos diálogo e demonstrações românticas de um sentimentalismo excessivo, se tiradas do contexto, poderiam facilmente passar por cenários yandere de possessividade, stalking e obsessão.

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Um exemplo de discurso romântico num shoujo manga com um tom yandere.

O yangire e yandere são, na sua essência, personagens de uma bimodalidade sensacionalista cujo trabalho afectivo pode, apesar desta legibilidade “excessiva”, tornar-se extraordinariamente opaco, apelando tanto a leituras radicais como reacionárias. Entre as suas posições extremas – cuteness e horror, razão e loucura, passional e mecânico, controlador e controlado…− está uma lacuna onde reverberam visões do feminino, do infantil, do masculino, de classe e do trauma. Acima de tudo, ambas as fórmulas exploram o eterno conflito entre Eros e Thanatos, as pulsões para a vida-amor e a morte, numa forma concentrada que sonda a nossa inveterada suspeição e sentimentos disfóricos para com tudo aquilo que seja excessivamente… simpático.


LIVROS

Edelman, Lee. 2005. No Future: Queer Theory and the Death Drive. Durham, NC: Duke University Press.
Janisse, Kier-La. 2012. House of Psychotic Women: House of Psychotic Women: An Autobiographical Topography of Female Neurosis in Horror and Exploitation Films. Godalming, U.K.: FAB Press.
Johnston, William. 2004. Geisha, Harlot, Strangler, Star: A Woman, Sex, and Morality in Modern Japan. Columbia University Press.
Marran, Christine. 2007. Poison Woman: Figuring Female Transgression in Modern Japanese Culture. Minneapolis: University Of Minnesota Press.
Ngai, Sianne. 2007. Ugly Feelings. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Ngai, Sianne. 2012. Our Aesthetic Categories. Cambridge, MA: Harvard University Press.

WIKIS

 

Know Your Meme-Dere; I Hope Senpai Will Notice Me; Mirai Nikki Yandere Face; Yandere Simulator.
Higurashi no Naku Koro Ni Wiki:  The Dam Construction Site; Ryūgū Rena.
TvTropes: Ax-Crazy; Bitch in Sheep’s Clothing; Berserk Button; Beware the Nice Ones; Beware the Silly Ones; Cute and Psycho; Enfant Terrible; The Fake Cutie; Girl with Psycho Weapon; Grotesque Cute; The Ingenue; Person of Mass Destruction; Split Personality; Tareme Eyes; Yandere; Yangire.
Wikipedia: Elfen Lied; Ero guro; Future Diary; Glossary of anime and manga; Higurashi When They Cry; Lucky Star; Moe; Sada Abe.

OUTROS SÍTIOS

The Yandere Game Development Blog
OLF, i.e. Olf Le Fol. 2010, Aug 4. Your Guide To Yandere Love, Too awesome not to post [Comentário em fórum online]

Resposta a um misógino androfóbico que se acha feminista

Image by Matthias Ritzmann/Corbis

Bom dia. :)

Hoje tens reunião no Porto mas não te preocupes. Vai no comboio descansada e aproveita os dias para descansar dos miúdos. Como me deitei mais tarde deixei-te o pequeno almoço preparado e só precisas de aquecer o café. Para acender o fogo giras o gás e aproximas o fósforo da bica. Estão ao pé das tomadas. Tenho a certeza de que vais dar conta de tudo. Mas antes que entres em parafuso fica descansada que as crianças sobrevivem se eu não escolher a roupa de acordo com a estação ou a moda. Vai confiante que do frio elas estão salvos, mesmo que não acerte em cheio na combinação de cores. Se chegarem atrasadas à escola eu explico à professora que o pequeno-almoço foi demasiado divertido para poder ser acelerado. Não há tabuada que valha mais que o tempo dos sorrisos. Como costumas consultar o e-mail logo de manhã no telemóvel, mal te levantas, peço-te apenas que trates de ti, mas para ires sossegada deixo-te o relato de como vão funcionar as coisas.

DESPERTAR: acordarei por volta das oito. Já sei que é tarde, mas se acordar mais cedo nada vai andar mais depressa por causa disso. A ansiedade do atraso ajuda-me a acordar mais desperto. Isto significa que pode ser que acorde às 07h45 ou às 08h15. Não faz diferença. Todos os minutos contam, mesmo que contem na cama. Não te preocupes com o choramingar matinal, faço tantas palhaçadas que elas acabam a rir num instante. Já sei, vai demorar mais, mas há delongas que fazem multiplicar os minutos. Quando a segunda acordar, já vai acordar a rir à gargalhada. Não vão dizer que lhes dói a barriga. Ou os ouvidos. Nem que querem ficar em casa. Acredita. A menos que tenham febre vão mesmo acabar na escola. Em caso de dúvida confirmo com o termómetro, ainda que tenha que virar a casa três vezes do avesso para descobrir onde o escondeste da última vez que o usaste.

ROUPA: Não prepares. Para elas não estarem com frio enquanto procuro as calças e as camisolas interiores deixo-as a rir debaixo dos lençóis. É capaz de não haver roupa passada a ferro, mas engelhadas elas ficam ainda mais fofas. Por favor não deixes a roupa pendurada como se de uma farda se tratasse, elas são crianças, não candidatos a um alto cargo de uma grande empresa. Se usar as gavetas de baixo não haverá drama, se elas não fossem para usar não estariam cheias de roupa.

TAMANHO: temos duas filhas das quais nunca me esqueço a idade, em todo o caso, se trocar a roupa da maior com a da mais pequena, elas vão achar divertido e vai ser uma paródia lá na escola. Ficam com o dia ganho e já me segredaram que está na moda usar uma meia de cada cor e roupas largas. GANCHOS: eu deixo que elas escolham mesmo que acabem a discutir. Faz parte da vida. É melhor que vão treinando o debate em casa e elas acabarão por conseguir entender-se sobre quem leva qual. Se for preciso falo alto, e elas recuam no mesmo instante. Se esquecer que é dia de ginástica fica segura que as sapatilhas, a fita para o cabelo, a T-shirt e a sweatshirt chegarão ao fim do dia bem suadas. No tupperware além da fruta, do sumo e do pão deixarei também umas bolachinhas de chocolate. Gosto que elas percebam a diferença.

PEQUENO-ALMOÇO: bem sei que elas vão dizer que com a mãe comem pão de forma desse industrial, tipo Panrico, e mesmo sabendo que não é verdade vou fingir que acredito. Vou fingir tão mal fingido que elas vão perceber a conivência. Vão tentar enganar-me, porque costumam fazer isso com as coisas que acham que eu não sei, mas eu vou ganhar ainda mais o seu respeito permitindo tamanha desobediência. Acredita. Pão torrado com manteiga e um copo de leite morno todos os dias pode tornar-se mais penoso que a sopa de nabos. Se tudo falhar e estiver muito atrasado para as levar à escola, levam um iogurte líquido na mão que são um óptimo pequeno-almoço. Sei que contigo não costumam comer no carro, mas o meu está uma pocilga pelo que as migalhas não farão qualquer diferença. Se te quiseres armar em intransigente fazes isso quando és tu a levá-las à escola. Eu não as deixarei ver desenhos animados, nem enquanto estão à mesa nem no resto do dia, é comigo que elas vão estar, não com o imbecil do Noddy. Se quiseres não dar em doida pura e simplesmente não penses no assunto. Quando voltares não estará tudo na mesma, mas estarão a salvo.

Isto vai longo e tens de te despachar. Se me ligares em pânico cheia de dúvidas, não ligues. Resiste à ideia de que é mau eu fazer as coisas de outra maneira. É certo que todas as tuas preocupações terão razão de ser, mas eu vou mentir-te caso insistas na ideia de que devo fazer tudo como tu fazes. Se não resistires a ligar antes de chegares ao Entroncamento, prometo avariar o ferro de engomar e deixar tudo o que encontre ligado às tomadas eléctricas. Se todos estivermos a dormir quando chegares a Coimbra-B, sei que já estarei lixado com o meu chefe, pelo que por favor não dupliques os problemas ao acordar-me aos gritos ao telefone. Ah, última coisa: espero que doravante metas na cabeça que há diferenças entre «fazer» e «ajudar» e qualquer um dos dois, apesar das diferenças de estilo, está plenamente habilitado. Segundo o dicionário, «dar existência ou forma a…, criar, realizar» é o que qualquer um dos dois, à sua maneira, faz todos os dias. Todos os dias. «Dar ajuda a…, auxiliar, socorrer, cooperar» é o que tu não deves insistir em fazer quando não não podes estar presente. Um beijo e até logo. Boa sorte e coragem.

Sobreviveremos.

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Alguns apontamentos engraçados sobre as eleições presidenciais

Vencedores

Estas eleições presidenciais tiveram um resultado muito curioso, que dá pano para mangas para se pensar a realidade política em Portugal.

Há vencedores fáceis de consagrar: Marcelo Rebelo de Sousa que ganhou à primeira volta, Marisa Matias, que teve o melhor resultado de sempre do BE numas Presidenciais, e o Tino de Rans, Vitorino Silva, que pisou os calos e ultrapassou em votos e em muitos círculos, vários candidatos do sistema.

Os derrotados também são fáceis de perceber: Sampaio da Nóvoa que não consegue a segunda volta, Maria de Belém e Edgar Silva, ambos com o pior resultado da área política que os apoiou, Paulo Morais por se revelar que é preciso mais do que gritar contra a corrupção e Henrique Neto, Jorge Sequeira e Cândido Ferreira por terem votações sem qualquer expressão política.

O PSD e o CDS festejam porque elegeram um dos seus, ainda que ele não diga já tudo o que eles querem ouvir. Marcelo Rebelo de Sousa é um conservador, mas é um conservador que nunca falou mal do governo das esquerdas e disse sempre que não será por ele que não vai governar todo o mandato. Para amaciar a direita citou o Papa, estendeu a mão, mandou calar a plateia e atacou as pulsões radicalistas, mas o que a direita queria ouvir era outra coisa conforme se percebeu pelo semblante de Passos e Portas.

O PS parece tranquilo, tem como líder alguém que não precisa de vitórias eleitorais para ter poder. António Costa seria sempre um homem feliz fosse qual fosse o resultado das eleições e nem sucessivas derrotas eleitorais o parecem abalar. A verdade é que nenhum candidato lhe apontou o dedo e todos lhe deram garantias que a sobrevivência do governo depende unicamente do PS e da sustentabilidade dos acordos que fez com os partidos à sua esquerda. É nisto que ele agora fará contas. Se a direita não tem como derrubar o governo ele sabe que o PCP e o BE o vão fazer, pelo que será ele, de braço dado com Marcelo, a escolher o momento da antecipação que lhe permitam ficar com os créditos que a governação for capaz de dar e atribuir à esquerda o ónus do derrube do governo.

O BE festeja o seu resultado e festeja bem ainda que alguma contenção fosse prudente dada a inexistência de uma segunda volta. Contrariamente ao que muitos pensavam os eleitores do BE não se deixaram ludibriar pelo voto útil, uma capacidade sobretudo notável para um partido que tem passado boa parte da sua existência a reforçar esse caminho. Não garantiram a segunda volta, mas foram de todos os que mais fizeram por isso.

O PCP diz que a culpa é dos candidatos “engraçadinhos e engraçadinhas” (ouvir aqui na integra), mas vai ter que se dedicar melhor à leitura dos resultados para conseguir uma explicação mais capaz de justificar ter perdido por muitas dezenas de milhares de votos para a Marisa Matias no resultado geral e por ter perdido para o Tino de Rans em 12 (Viana do Castelo, Porto, Viseu, Braga, Vila Real, Bragança, Aveiro, Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Açores) dos 20 círculos eleitorais em disputa.

Nas candidaturas marginais o Tino de Rans foi mesmo o único a ganhar, deixando uma mão cheia de lições muito claras para quem, na sombra, conspira para mudar a relação de forças no xadrez do sistema. É preciso ser autêntico e falar dos temas que preocupam as pessoas no seu quotidiano. Não é preciso um programa acabado de governo, mas é mandatório que não se venda gato por lebre.

Votar no Povo

1Tino de Rans é autêntico, não ensaia ao espelho, não falsifica e não alimenta nenhuma espécie de cagança académica. Tino de Rans é de todos os candidatos o único capaz de seduzir o eleitorado situacionista e ridiculista, muitos furos acima de Sampaio da Nóvoa que tem o apoio dos timoneiros da multitude do cognitariado e de três ex-presidentes da República. Tino de Rans é pela igualdade, interpretou a mais corajosa acção de campanha alertando para as dificuldades da vida dos que emigram dos sem abrigo, com quem chegou a passar a noite em jeito de denúncia. Tino de Rans responde “hein?” às palavras eruditas dos jornalistas do regime que o chamam de “Oh Vitorino” e obriga-os a reformular as questões que ele, como o povo, não entende. Tino de Rans não faz “intrigada” e a ela responde com “bonequinhos”. Tino de Rans não tem nem apoios escondidos de estruturas partidárias nem deixa que o tratem como produto. Tino de Rans ganhou o debate com todos os candidatos e deixou claro que há nove candidatos que falam do povo ao passo que ele é um candidato do povo. Tino de Rans é assim o voto mais útil de todos os votos úteis para forçar Marcelo Rebelo de Sousa a uma segunda volta. Enchamos por tudo isso os pulmões: nem sapo nem rã, o voto útil é no Tino de Rans! Até Domingo.