“Não, não é tudo sempre igual” por Sofia Lorena *

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Homs, Siria.

“lembram-se quando cada atentado no Iraque já só era notícia se fosse o maior de todos? não? eu lembro-me. um dia um atentado matou centenas e centenas de yazidis e ninguém deu por nada porque no dia em que as bombas explodiram não pareciam ser mais (!) de cem. eu lembro-me bem. foi por causa disso que assim que pude fui a Lalish conhecer os yazidis que sobram. sabem que nem todos os dias são iguais na Síria? pois não. esta semana foi dura e brutal e isso, sim, isso foram todas as dos últimos mais de cinco anos. mas esta também foi a semana em que viaturas da ONU com ajuda para civis cercados em Alepo foram bombardeadas e o sr que provavelmente as bombardeou ainda deu uma entrevista a gozar com os mortos e com os esfomeados. na ONU, toda lá juntinha em Nova Iorque, continua a tentar salvar-se o que não tem salvação nem vergonha porque nunca teve, nem uma nem outra, o “que foi acordado entre Rússia e EUA”. ontem, as bombas caíram como poucas vezes (o escritor Robin Yassin-Kassab diz que nunca tinham caído assim, “Aleppo is being pounded like never before. A hundred dead or injured since the morning. A five-thousand-year-old city being annihilated by Russian imperialism, surrounded by Iranian occupation troops, the US looking on, the left cheering the new war on terror. These people struggled for democracy and the world collaborated in smashing them. There is nothing left to say, other than our grandchildren will still be paying the price of all this.”) em Alepo e as notícias, bem os títulos que isto de ser notícia ainda não é para todos, dão conta do que por lá se diz em Nova Iorque. e as vidas das pessoas, pá? hoje, as bombas continuam a cair em Alepo. essa cidade que era a puta-da-maravilha-mais-deslumbrante que eu já vi na vida e eu, acreditem, já vi muita deslumbrância por aí. hoje, diz o activista Kenan Rahmani, “regime forces bombed and destroyed 3 out of 4 White Helmets headquarters in Aleppo, including the center featured” no filme White Helmets, que estreou há uma semana na Netflix. e eu, que devia estar de folga mas na verdade estou a escrever sobre o caos político espanhol só me apetece gritar “não aguento mais” e ir a correr para Alepo. depois, respiro fundo, penso no Azad Khlbash, no Nour Machlah, na Hind Khlbash, no Ferhad Jaffar e em tantos outros, e sei que aguento. se eles aguentam, quem sou eu para dizer que não posso mais?

esta foi a semana em que a ONU foi literalmente bombardeada e um facínora se riu de quem tem fome (“como é que eles podem estar cercados? já teriam morrido”) e não aconteceu nada. esta foi a semana em que Alepo passou da expectativa da paz à desesperança da morte ou “A new offensive by the Assad army to exterminate the 300,000 civilians in besieged Aleppo, announced while world leaders meet in New York to talk about imaginary ceasefires and refugees” como escreve o Kenan. esta foi a semana em que a TVI24 se lembrou de dedicar 5m de um noticiário a algo mais do que frases de rodapé e imagens intercaladas da Assembleia-Geral da ONU com bombas a caírem em cima de camiões com comida ou de pessoas à espera da morte que não desistem de viver por mais FDP que as rodeiem. foi ao minuto 27 do noticiário das 19h, antes do bloco de desporto e depois de tantas mas tantas outras notícias. isto deve ser notado e sem ironia. afinal, quantos mais noticiários houve esta semana em Portugal com mais de 5m dedicados a tentar fazer mais do que legendas sobre esta merda toda? O lindo João Manuel Rocha viu por acaso e reagiu assim “oh para ti quando te pediram para explicar o inexplicável”. é, é um bocado isso que faço na vida. com falta de jeito e, acima de tudo, de estômago. às vezes, penso que seria mais feliz a escrever sobre comida (ou séries de tv, como uma amiga turca me propôs o mês passado). podia ser, mas não era a mesmo coisa.”

Um desenho ao cuidado dos “vitorcunhas”

Ilustração de acto médico do século XII, que é preferível não revelar por agora

Há por ai alguma gente espantada pelo facto da abécula imbecil do vitorcunha, depois de atiçar os machos com testosterona com que a direita se anima para dar uma lição de intimidade à Mariana Mortágua – o assunto não era economia? – que o problema do seu apelo à violação não é possível de ser discutido à luz do delito civil, mas à luz do delito criminal. O tipo não compreende um verbo, quanto mais o advérbio de modo, não lhe peçam também para compreender a quantidade de crimes que se podem cometer com os dedos. Façam-lhe antes um desenho, pode ser que assim entenda que o único lapso freudiano que se deixa perceber é exposto na sua ira transmontana. Haja Futuro!

Exorcismo ao Tarrafal (ou como há sítios que só podem ser fotografados sem cor)

Elementos para uma caracterização da classe média (fim)

Chega-se assim ao final de um percurso que, em quatro breves etapas, procurou ajudar a compreender a natureza da chamada ‘classe média’. Juntando as quatro partes (em síntese: 1 – consagração das liberdades individuais / 2 – atomização social / 3 – mediação pelo espectáculo / 4 – ética fundada na imagem dos média), fica-se com um puzzle ainda bastante incompleto, é certo, mas começamos a entrever um retrato da classe média. Recordo que  estas quatro partes são provenientes dos quatro debates que marcaram a minha passagem por este blog, e onde, em todos eles, eu ataquei as posições e as convicções da classe média.

Em jeito de resumo, e tendo esses quatro momentos em mente, poderíamos dizer que compõem a classe média todos aqueles que se sentem cómodos nesta sociedade e que nada de estrutural nela gostariam de alterar, uma vez que:

  1. crêem sem restrições no mito das liberdades individuais que a economia liberal enraizou na sociedade da livre iniciativa e do empreendedorismo;
  2. não buscam mais do que levar uma vida individualizada e tranquila, à margem das tensões e dos tumultos da história colectiva;
  3. procuram a mediação mercantil para a maioria das suas experiências mundanas;
  4. não encontram o real senão nas imagens dos média.

Deste modo, ficamos com um primeiro esboço desta classe. Sabendo que deixámos de fora do retrato uma série de outras características igualmente importantes para defini-la. E eu não poderia deixar aqui de aflorar aquela que é para mim a mais relevante: o apego que a classe média tem, de um modo geral, pela mercadoria está intimamente relacionado com o apego que ela tem pela propriedade privada. Para ela a vida converte-se essencialmente em todo um vasto projecto de criação de pequenos proprietários. De facto, quem compõe esta classe vive por exemplo obcecado com a ideia de comprar a casa onde irá viver, dispondo-se para isso a casar com um banco por 30 ou 40 anos. Mas este casamento pressupõe um divórcio: com os movimentos políticos que buscam soluções colectivas para a organização da sociedade e da economia. Ao escolher a via da pequena propriedade privada, a classe média – que vota tanto à esquerda como à direita – escolhe também aquela da estabilidade, do emprego seguro, da carreira profissional. A defesa da pequena propriedade privada leva-a a abandonar posições políticas revolucionárias, trocando-as invariavelmente por uma postura conservadora, obediente e individualista que permite conservar essa propriedade. A pólis e a sociedade convertem-se na soma da defesa de interesses privados. Eis, política e socialmente falando, o que representa o triunfo da classe que os políticos, os produtores de mercadorias e os publicitários converteram na classe modelo desta época.


Etapas nesta digressão:

Elementos para uma caracterização da classe média (IV)

4) No reino encantado das representações mediáticasPara a minha consciência burguesa, ‘o que não se vê não existe’

A classe média encontra no dispositivo mediático um sistema de referências orientador das suas práticas quotidianas, sendo precisamente aí que germinam as suas representações do mundo. Este dispositivo, nomeadamente através dos noticiários, modela a sua consciência do real: ele é o mundo que é permitido ver.  E, para a classe média, o que não se vê não existe. Eis outra característica que permite definir esta classe: a sua consciência ética não se detém senão sobre o que os média afirmam existir. Para lá da imagem por estes veiculada, entra-se nas trevas, na penumbra. A ética da pequena burguesia não alcança senão o que se projecta nessa imagem. Ela está por isso dependente, uma vez mais, de uma mediação.

Assim, a classe média ocupar-se-á por exemplo a salvar isoladamente uma espécie de vida animal que seja torturada numa arena ou em directo para a televisão, mesmo que essa espécie represente 0,001%, ou até menos, daquelas que são hoje diariamente massacradas pelo homem. Para ela, um massacre público é infinitamente pior do que um que, no quadro da informação mediática, seja mantido anónimo, silencioso, oculto (como também revelaram no último ano os atentados terroristas em França e a onda de comoção que geraram, ao contrário de centenas ou milhares de outros atentados em África e na Ásia sem qualquer eco mediático).

Que os industriais da carne ou do peixe cometam as piores monstruosidades aos animais pouco ou nada lhe importa, já que os média nunca lhes dão destaque. E tão pouco lhe importa porque são justamente essas atrocidades que permitem baixar enormemente o preço da carne, dos ovos, do leite, do peixe. E a classe média é também aquela que esquece imediatamente o seu humanismo/animalismo e respectivos valores éticos sempre que surge a possibilidade de comprar mais barato. É que, antes de se relacionar com o mundo, ela relaciona-se com a mercadoria.

Se o contexto histórico presente, de formatação capitalista da economia, da cultura, da sociedade, do planeta, jamais é mencionado pelos média – os quais entre outras coisas também se destinam a despolitizar a população (e alguém ainda hoje duvida disso?) -, então para a classe média essa conjuntura histórica não é real. A burguesia “animalista” não quer assim saber [A] da mercantilização de todas as formas de vida rentabilizáveis pelo capital nem [B] da tendência apocalíptica para a extinção de todas as outras que se tornaram inúteis para os industriais, sendo que ambas (A+B) resultam da formatação capitalista do planeta para a qual ela, mais do que qualquer outra classe, contribui.

Esta postura superficial, egocêntrica, vã e hipócrita, de quem não se relaciona com o mundo senão por intermédio do dispositivo mediático, não é exclusiva da burguesia animalista. Ela é típica de toda a classe média.

(continua)

Nas catacumbas da democracia

O Público regressou temporariamente ao jornalismo para uma efémera investigação sobre um exercício de governação que, mais ou menos subterraneamente, estrutura as democracias liberais, o lobbying: na U.E. e em Portugal. (A este estádio evolutivo das democracias burguesas, em que o poder dos estados e o poder das grandes empresas se fundem e confundem num único poder, Debord – no quadro da sua teoria sobre a sociedade do espectáculo – chamava o espectacular integrado. Segundo ele, este estádio caracterizava-se pelo segredo generalizado já que o centro decisor das democracias se tinha tornado oculto. Isto era em 1988.) Nada de muito original, portanto.