“O que esta civilização revela — ter transformado o mundo numa gigantesca fábrica produtora de patologias — obriga a pensar a sua urgente superação”

“Afrontar a realidade significa reconhecer que o capitalismo industrial criou problemas para os quais pode não haver solução.”

Acaba de sair o imperdível nº 7 da revista Flauta de Luz, que pode ser comprado aqui.

A cloaca demente

O pânico social decorrente da pandemia é provavelmente mais preocupante que a peste que o alimenta. Não quero com isto diminuir o impacto daquilo que parece tratar-se de uma evidente calamidade global. Mas esta nova peste prepara-se para semear uma crise mais profunda que a que temos ultimamente sentido nos vários domínios da sociedade. Se considerarmos separadamente alguns aspectos da vida e os respectivos contextos sociais, de que forma serão afectados pela situação atípica que viemos a arte e a política? 

O osso do tempo implicará novas exigências, é certo. Mas decorrente desta espécie de guerra bio-política (contra quê e contra quem?) que se instalou na esperança de uma vida asséptica, limpa e idealmente descolorida, temperada de todas as inauditas e insuportáveis tolerâncias que temos vindo a deduzir da parcimoniosa vida que nos é dada a viver que outro monstro verdadeiramente  implacável germina sob o pesar do tempo? 

A singularidade da distância é um imperativo que se justifica perante o facto do contacto físico ser fonte de contaminação. Congemina-se sobre a hipótese do outro se encontrar infectado ao nosso lado na fila do super-mercado. A excepção é, assim, transformada em prática normativa: o controlo, a vigilância, o fastamento, a cor da pele, a forma de como e a quem se reza, o corte do cabelo, o desenho dos olhos. A aceitação plausível do espírito drone actua perante a necessidade de uma vigilância prescrita por decreto. A realidade ultrapassou-se a si mesma. O risco de infecção afecta aqueles que de uma forma ou de outra se deixarem contaminar pela experiência social do isolamento, pela ignorância, pela inteligência de um vírus que se transformou na palavra que até aqui alimentava apenas as redes sociais: o vírus tornou-se efectivamente viral. 

Este vírus é o fim do tempo da aceleração, mas é ainda um vírus deste tempo. Será por isso urgente reflectir não na direcção do afastamento que a guerra da psicologia clínica quererá certamente impôr. Mas noutro sentido, o de reduzir o efeito do desejo e da nossa permanência sobre o supérfluo. A água deverá correr livremente das fontes.

No limiar da ficção cientifica estão lançados os condimentos de um novo tempo social em que o controlo se transformará na prática da supressão da liberdade individual como facto aceitável. Ao olho pineal, destinado a olhar e adorar o sol, acrescenta-se-lhe uma nova funcionalidade, a do controlo do território individual. 

Até quando não te poderei tocar? Até onde o estado de excepção é um ensaio politicamente aceite perante a evidência do contágio e do contacto? Simbolicamente, que significa este novo tempo social que implica na forma da separação a linguagem da segurança e do controlo? Que implicação efectiva sofrerá a arte relativamente ao contágio ou à falta dele? Segundo a cartilha do contágio, a arte, a política e a industrialização não sendo a mesma coisa vivem há muito de e através de uma espécie de contaminação mútua. A seiva deste processo resulta nem sempre em aspectos socais pacíficos. As novas armas de que falava Deleuze são os produtos da interferência tecnológica – a razão estiolou-se sobre si mesma. Este tempo é simultaneamente o tempo da cloaca e do dejecto.

O mundo que vem

Não há crise que não seja pretexto para o poder (DEMOCRÁTICO) ensaiar novos mecanismos de controlo. Preparem-se!

O que vai acontecer aqui?

Depois de um documentário pouco afortunado sobre a turistificação do centro de Lisboa, o colectivo Left Hand Rotation fez este must-see recentemente apresentado numa sessão muito concorrida no Doc Lisboa, que acompanha e dignifica quem tem lutado na capital portuguesa contra a ditadura da especulação e a violenta onda de despejos:

A célebre solidariedade do capitalismo

Nos “bairros históricos” de Lisboa, uma cadeia de supermercados encontrou a fórmula de se solidarizar com uma parte da sua clientela que está em franco declínio por causa do turismo e da gentrificação: fazendo-la participar do bombardeio publicitário que promove essa cadeia.

Quem tem amigos destes, não precisa de inimigos.