Sugestões de orientação na ‘terra incognita’ do presente

Apresentação do novo livro do Comité Invisible: Maintenant

Dix ans après L’insurrection qui vient – dont il partage la vivacité de style et le statut de texte d’intervention –, Maintenant paraît lui aussi dans un contexte électoral. À ceci près qu’en dix ans les espoirs de salut placés dans la politique ont achevé de s’éteindre. Tout candidat en est réduit à promettre une « révolution » qu’il ne pourra pas faire. Les moyens de la politique sont bien trop superficiels au vu de la profondeur de la « crise » qui frappe en tout domaine. C’est pourquoi la politique donne d’elle-même un spectacle si lamentable. Il n’y a pas de « solution » au problème du présent, pas de solution qui nous laisse indemnes en tout cas. Mais il y a d’autres voies, d’autres voies que l’alternative entre restauration de l’unité nationale et globalisation néolibérale, entre maintien et refonte des institutions, entre option autoritaire et option citoyenne. En utilisant le conflit né de la loi Travail au printemps 2016 – où d’aucuns virent la patte du Comité Invisible – comme machine de vision des possibles contenus dans l’époque, Maintenant tente d’armer nos perceptions des notions permettant de s’orienter dans la terra incognita du temps présent. Accepter la fragmentation du monde et travailler à la liaison entre les fragments qui se détachent. Renoncer à la politique et ses vastes perspectives désertes au profit des possibilités révolutionnaires nées d’une élaboration de proche en proche. Repenser la révolution non plus comme processus constituant, mais comme patient processus de destitution. Admettre que le problème n’est pas de sortir de l’euro, mais bien de sortir de l’économie. Comprendre comment le slogan « tout le monde déteste la police » a pu s’imposer comme mot d’ordre si populaire dans les dernières années. Élaborer, par-delà individu et société, un communisme sensible. Voilà quelques-uns des mouvements nécessaires que le Comité Invisible esquisse ici. Il n’en faut pas moins pour penser à la hauteur de la folie du temps que nous vivons – le temps de Trump et de Bachar, celui d’Uber et de l’État Islamique, de la chasse aux Pokémons et de l’extinction des abeilles. Se rendre ingouvernable n’est plus une lubie d’anarchiste, c’est devenu une nécessité vitale dans la mesure où ceux qui nous gouvernent tiennent, de toute évidence, la barre d’un navire qui va au gouffre. Mais c’est aussi une chose qui exige un peu de méthode, et l’affinement de nos perceptions. Maintenant se veut une contribution à cet affinement. C’est un livre tout entier affirmatif, même là où il commence par doucher tous les faux espoirs.


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Cartas do Vale #16

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Brumário

Sabíamos da existência do destino e de um conjunto de coisas que se moviam no espectro da sombra e que tolhiam as pessoas. Coisas que tomavam os muitos nomes que se lhe haveria de dar conforme a circunstância e a oportunidade semeada pelo destempero da vida. O negrume dos tempos, o inexplicável e o misterioso descrito com afinco em colecções de livros que iam do triângulo das Bermudas aos extra-terrestres. Eram, entre outros, os problemas do dia, de ordem quase metafísica com que se lidava com extrema precaução. Sabíamos disso, que vida se finava num abrir e fechar de olhos. Tínhamos visto ali nos quintais alguidares de tragédias domésticas, verdadeiras óperas encenadas por um Deus cruel a que se acendiam velas. E não havia cá razão que nos valesse que se impusesse contra a vontade do destino. Os desmandos do cornudo e da vida prática, pelo que se ouvia falar na televisão, faziam mossa da grossa na alma das pessoas. Os primeiros a tombar eram os comuns, depois os outros, com mais dinheiro para consultas no estrangeiro ou especialistas em trabalhos de mau-olhado. O destino é aquilo que acontece e é sem remédio, é o que é. A novidade fundava-se nas contrapartidas sociais anunciadas na revolução uns anos antes, e, o destino, de outra fibra, temia-se. Apareceu uma Santa qualquer em Santa-Cona-do-Assobio. E ríamos, sentados nos muros dos jardins agarrados às barrigas de tanto rir. Frases de cortar o silêncio para vencer o azar. Os muros dos jardins que ficavam em frente aos prédios, eram uma espécie de nártex florido à entrada da casa materna. Ria-se para afastar o mal que o destino podia trazer.

Por vezes, sem mais nada para fazer, debaixo de um sol tórrido, observávamos o tempo chegar. A hora de ir comprar um gelado ao Mini-Mercado que ficava do outro lado da rua. Um pequeno entreposto comercial que era palco de grandes ambições. Um projecto familiar trazido de uma aldeia qualquer, que tinha tido origem num tempo não muito distante. Ali viva o homem concreto no seu verdadeiro habitat. As tarefas diárias limitadas ao tempo, ao horário do expediente e ao plástico colorido gerido por um afável capitalista de bairro cujo propósito era o do enriquecimento rápido, a aspirar a todos os prazeres que o dinheiro podia trazer. Os raciocínios de vinha-d’alhos com origem numa estranha fé não apresentavam o menor desvio ao conservadorismo familiar. Ali não houve revolução nenhuma. Todo o animal procura o seu sentido de viver, é verdade. De que valem as grandes filosofias da existência se o conforto do plástico é superior à alienação que o trabalho fomenta. A máquina libertou o homem da escravatura da labuta, mas atirou com ele para um mundo de fumo onde apenas se vislumbram sombras e silhuetas que mal adivinhávamos a quem pertenciam. A mercadoria confunde-se com o trabalhador e tudo tem um preço. Sem exploração não há lucro. E o lucro, que vem a ser? Palavras supostamente sábias ditas vezes sem conta pelo pai do Quirino em palestras gratuitas à porta do Mini-Mercado. O pessoal mais novo à volta dele a chupar Olás e a ouvi-lo. A hora do Olá tinha disto e pastilha elástica azul, ou cor-de-rosa, no fundo do copo do gelado. A produção depende da substancialidade do consumo e vice-versa, coisas básicas, trocados. E continuava, comendo pevides, a falar e a cuspir para o chão as cascas das pevides. No consumir é que está o ganho. Se o trabalhador não produz, não ganha o dele. E o que toda a gente quer é ganhar o seu. É ou não é? Ser ou não ser daquele planeta, daquela mundanidade onde não existiam nem os grandes feitos da história, nem da literatura, nem da ciência, nem de coisa nenhuma que o valha,  a que apenas se aplicava uma espécie de puta-que-o-pariu, vamos mas é jogar à bola. O Quirino auxiliava o pai nestes discorres. Orgulhoso, abanava a cabeça em sinal afirmativo. Agarrado à vassoura, varria as cascas das pevides semeadas pelo pai à volta do pai. Eles, pai e filho, intuíam que, nesta cadeia de consumo, a produção e o ganho eram tudo. E mais pevides. A boca tinha sempre casca de pevides coladas aos lábios.  Explicava a sua perspectiva enquanto a força do trabalho e a consciência colectiva definhavam nos alguidares de plástico. Promoviam sem noção do histórico conceito de alienação, estabelecendo uma relação directa entre o objecto, o sujeito e as condições concretas em que se processava a produção e o trabalho. A actividade produtiva de que falavam era no fundo a fonte da consciência dos trabalhadores que passava na televisão. As gritarias que aquela gente que mal sabia falar fazia na televisão. As gritarias eram medonhas, obra do destiino, certamente. A minha mãe desfazia-se em considerações, Coitados, sem nada para comer quem é que não há-de ter razão para falar assim? O reflexo da sua actividade, o tempo e a minha história, aquela que me contavam, confirmava que o homem tinha evoluído de acordo com o trabalho e não o contrário. A história deles era outra. Era relatada no horizonte do Mini-Mercado que seguramente estava na vanguarda do grande capital moderno. Os ricos e os poderosos, patamar onde se situavam o Quirino e o seu pai, à escala da rua, ditavam, também ali, algumas regras. Os produtos fora do prazo eram anunciados com letras pintadas à mão. A curiosidade aguçava a procura e os Quirinos sabiam disso. É nesta relação social que crescia à tripa-forra o capital que haveria de transformar os Quirinos em micro-Quirinos. A semente voraz da nova economia fora lançada ao mundo por espécimes que certamente comiam pevides. A perspectiva bolsista de mercado estava para rebentar. A simplicidade, minha senhora? Temos a simplicidade de uns selvagens, dizia o pai do Quirino à mãe da Blimba. As palavras provinham-lhe da braguilha das calças sempre que falava com a mãe da Blimba. O gajo anda sempre cheio de tesão, dizia-se entre os putos. O reino do alguidar era ali, e a cores. Polímeros transformados em almofias vistosas. O micro-Quirino é um fragmento do original, uma evolução histórica a partir de uma matriz social degenerada. O seu aparecimento foi responsável pela poluição dos oceanos, transformados, entretanto, em sopa de plásticos. A popularização do Mini-Mercado e do saco com asas são os grandes responsáveis pela poluição dos mares. Os Micro-Quirinos chegavam ao mar levados pelas fortes correntes dos rios, soprados pela ventania que vinha do interior da terra. Um Quirino pensa como um saco de plástico e pega de estaca, videirinho. Estás aqui, estás a enfardar. O gajo armava-se ao pé dos putos. Cabeça de plástico é aquele que projecta a eternidade num curto espaço de tempo. O que é preciso é ser rico, está ouvir? Olha que levas uma sarrafada, caralho. Está a olhar para onde?  Os putos todos a rir. Um deles diz, Eh boi, eh lá, “ganda“ boi! O pai do Quirino diferenciava-se do filho pela cor do guarda-pó, como se na loja cada cor correspondesse a uma hierarquia na cadeia de comando. O ocre do pai era a cor da chefia. O azul índigo do filho, o da vulgaridade que se prestava a todo o trabalho sujo do Mini-Mercado. A mãe, multicolorida, era baixa e tinha um bigode de meter medo. Aquilo tinha uma ordenação rigorosa, indigentemente imposta de cima para baixo.  O pai comia atrás do balcão e tomava conta da loja no período do almoço. O filho comia com a mãe no 1.º andar do prédio de dois andares, mesmo por cima do Mini-Mercado. O pai comia sentado no banco alto do balcão com o prato pousado nos joelhos. Cheirava a banha que ficava guardada numa vitrine depois da secção e perfumes. Faziam férias na primeira quinzena de Agosto, no Almograve. Tinham lá uma casinha de madeira com um quintal à frente e, depois da praia, por causa das tosses do Quirino, iam para a aldeia dos pais dele que fica numa serra qualquer. Regressavam em Setembro para capitalizar a comuna que entretanto se deturpara em nome da unidade, da fraternidade e dos vários socialismo que se apregoavam na rua. Eu tenho um tio que tem um relógio em ouro maciço. Trabalha na Suíça, é encarregado numa fábrica de plásticos. O Quirino tinha um tio. Foda-se pá, o Quirino até tem um tio na Suíça.Toda a gente tem um tio, ou dois. Por vezes ficávamos a ouvi-lo falar aquelas coisas todas. Era um estupor, o Quirino. Só se armava em frente aos putos. Sem a mais significativa manifestação de génio, de singularidade, de jeito. Lérias, era o que aquilo era. E coisas destas aparecem vindas de todo o lado. Tenho um fartote de tipos cheios de si e empáfia. Surgiam no ar, eram pólenes da tosse, multiplicavam-se sem a mínima graça. Mas o pior, na geografia humana, é o interior e as suas aldeias, à imagem do litoral e das suas capitais. É desses sítios que afluem às capitais do litoral os micro-Quirinos: as capelas onde nasciam eram geridas por copistas de sacristia e uma espécie de padralhada que se sabia semear filhos entre as filhas dos outros. Com frequência esta gente ejaculava sem frémito pontos finais e vírgulas. Babam-se doutores que vivem à sombra da ausência de memória, e outros improfícuos que sabíamos existir. Há sempre gente inútil na sombra. A sombra era um perigo, mesmo sob a protecção de colares de alhos e cebolas. Os mandados das mães eram recados bíblicos. Coisas domésticas para fazer sopas transcendentes. Divino? Divinas eram as sopas.

Ainda que o turismo elitista seja tão nefasto como o turismo de massas, vejamos atentamente este documentário

“Uma cidade que se vende poderá continuar dona do seu destino?”

Síria, um reflexo da barbárie

Abd Alkader Habak, fotógrafo e rebelde que resiste na Síria, em Idlib, Aleppo, vai ser recordado pelo desespero com que chorou a morte de uma de várias crianças carbonizadas num ataque cobarde a uma caravana que procurava sair da cidade, no âmbito do precário cessar-fogo negociado entre Assad e os rebeldes. A fotografia acima lembra a esperança que o fez ficar, mas a que deixo abaixo ficará publicada sem ceder ao pudor dos meios de comunicação convencionais, que optaram por censurar a vítima, que importa. A crueldade da imagem não nos deve fazer fechar os olhos, por mais que seja isso que acontece assim que se olha para ela. Importa que se divulgue porque ela é uma imagem espelho do abismo para a qual os senhores da guerra arrastaram a humanidade. Importa, porque não nos podemos dar ao luxo de optar por esquecer. Importa porque os crimes desta envergadura não podem ficar na escuridão. Pelas vítimas de ontem, pelas vítimas de amanhã,  travar a barbárie não pode ser só uma escolha, tem que ser uma condição que não temos o direito de declinar.

Enquanto Assad, Putin e Trump se dedicam a jogar xadrez com peões a sério, o mundo permanece cúmplice, calado. A guerra das civilizações, ultimato feito por Bush na ressaca dos atentados do 11 de Setembro de 2001, tem ganho paulatinamente terreno aos que, de baixo, procuram contrapor a guerra de classes à guerra de povos, crenças ou origem geográfica. Se olharmos para o debate sobre a Síria, facilmente se conclui que à falta de todos os elementos necessários para se perceber todas as dimensões do conflito, não se escolha a prudência como a melhor das linhas. Neste tema como outros, a gritaria serve apenas para esconder as dúvidas, truncando a capacidade de um grau de elaboração sobre o assunto com o mínimo de seriedade. No mar das dúvidas, qual náufragos, o exercício mais inteligente devia fazer-nos olhar para aquilo que temos como certo. Não havendo garantias, ficaremos seguramente mais perto da solução do que de ajudar a aumentar o problema.

Não são razões religiosas, quase nunca o são, mas razões económicas e geopolíticas que estão no centro da disputa. A espaços, muito a espaços, raros exemplos de jornalismo com coragem levantam o véu sobre a realidade, mesmo na televisão pública em Portugal ou em França. O levantamento contra Assad tem legitimidade, não obstante o antagonismo no campo dos rebeldes, e deste contar com sectores ligados ao Daesh e ao Al-Nusra (cisão da Al-Aaeda), mas tal antagonismo não nos deve conciliar com a ditadura nacional, que comanda um regime repressivo capaz de atacar o seu próprio povo para manter o poder a todo o custo.

Os que alegam que a Síria era um paraíso democrático antes do levantamento, onde Assad era amado pelo seu povo e onde a oposição era respeitada, mentem. Os que usam dos crimes de Assad para justificar os de Obama e de Trump, mentem também. Ninguém tem razão nesta guerra espúria e ambos dispõem de meios poderosos de difusão da sua propaganda.

Achar que o levantamento contra Assad é unicamente obra da CIA é uma infantilidade, tão infantil como achar que a Rússia e Assad são o único problema do território. Os EUA jogam, como jogaram sempre em todo o lado, em muitas revoluções e levantamentos legítimos e dos quais tal intervenção não foi razão para se virar costas à legitima aspiração dos povos. O jogo dos EUA deve ser denunciado, combatido, mas essa denúncia de nada serve se aquilo que tivermos para dizer é que os povos se resignem aos seus déspotas, dando-lhe apoio crítico e em alguns casos entusiástico, enquanto ele prende e liquida a parte do país que lhe é contrária.

A legitimidade de Assad como governo eleito não existe a partir do momento em que este ordenou o seu exército para reprimir o seu povo, a principal vítima dos ataques. Com meio milhão de mortos é evidente que a esmagadora das pessoas é inocente e que mesmo que todos os grupos rebeldes fossem terroristas, o número de vítimas demonstra que o alvo não foram só eles. Pela tipologia da guerra, cabe ao exército sírio e à aviação russa a assinatura sobre as maiores valas comuns, não ao armamento precário dos rebeldes. Trump e a imbecildiade da sua fúria pode vir a equilibrar as contas nesta matemática do absurdo, mas quem está do lado dos sírios não pode escolher entre o vírus da ditadura nacional e do imperialismo russo e a bactéria do imperialismo americano.

Se é evidente que o papel dos EUA é pernicioso, cavalgando um levantamento e financiando, junto com os seus aliados na região (Arábia Saudita, Israel, etc) o pior lado da moeda do campo dos rebeldes, devia ser igualmente evidente que a Rússia não está no campo anti-imperialista, e antes joga, nesse quadro, o seu papel nessa disputa. O seu interesse energético é objectivo, mas para a análise subjectiva não deixa de ser relevante a proximidade do partido de Putin aos partidos da extrema-direita que têm proliferado no centro e norte da Europa.

Com mais dados em cima da mesa é evidente que é urgente um cessar-fogo efectivo e duradouro, não a farsa que vigora e continua a matar inocentes, a definição de um roteiro para a paz e para a realização de eleições, programas de auxílio aos refugiados, enfim, medidas que serão úteis não só para travar o número de vítimas mas também para perceber o quem é quem no campo dos rebeldes. O Daesh não irá seguramente a votos e não se vislumbra melhor maneira para o seu isolamento.

Não há terroristas de primeira e de segunda e na Síria poucos serão aqueles que não têm o lugar reservado no banco dos réus. A mesa de negociações com vista ao cessar-fogo e ao roteiro para organizar eleições não pode esquecer que não haverá paz se todos os que fazem fogo não estiverem envolvidos nas negociações. É o maior paradoxo da guerra, a paz depender dos generais, e é provável que nem todos aceitem, mas a legitimidade dessa negociação depende do envolvimento do maior número de intervenientes possível.

Que o esforço de Abd Alkader Habak, como o do fotógrafo Issa Touma, que ficou para registar os primeiros dias do levantamento a partir do seu apartamento, ou o de Aeham Ahmad, o pianista das barricadas de Yarmouk, sirvam para se perceber que ambos os campos em disputa estavam e estão pouco capazes de convencer a população das suas intenções. A sobrevivência, na maioria dos casos, tornou-se o seu campo da resistência para fugir a uma vala comum que já conta meio milhão de mortos. Até quando?

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