Incrível não, maravilhoso! Enquanto a civilização capitalista constrói o paraíso na Terra, a temperatura do planeta não pára de aumentar, mais de 95% da população mundial está exposta à poluição atmosférica e 82% da riqueza mundial está nas mãos de 1% da população. Melhor só num conto de fadas.

Rosa e Crucificação

Primeiro ela chamou-nos a todos. Estávamos sentados e de pé, encostados às paredes, espalhados pela sala que servia de ante-câmara a outra onde se previa que a acção viesse a decorrer. Estávamos entregues a uma intelectualizada espera, forjada na tensão do vai vem que ela imprimia ao tempo.  Ela ia e vinha, atarefada no leva e traz, entre a sala onde nos haveríamos de acomodar e aquele espaço de espera que já era o tempo de ser.

Ela chamou um por um com uma voz pulmonar adocicada a cigarros. E a todos levou para dentro como que para dentro de si. Ela é uma mulher cujo rosto expressivo faz dançar palavras da boca para fora. Ela diz as palavras como o fazem as pessoa do teatro. Límpidas, mas cheias de uma vibração muito particular. Ela e as suas palavras são como as mãos em pele de certas pessoas rudes, cheias de gretas do lavrar que a vida faz nos corpos, das coisas que acontecem. A voz dela nos nossos ouvidos, repetindo o convite de cada vez que voltava a entrar: “Queres vir…”. E, um a um, lá fomos levados através da escuridão para uma sala maior, tocados na escuridão que ela construiu para nos tocar nas costas, nos braços e nas mãos, ao lugar que nos tinha destinado. Apresentou-nos a todas e a todos dizendo o nosso nome. E fê-lo pela simples razão de ali estarmos perante o que iria acontecer e por sermos cada um um de nós.

Depois falou da cona e vimos no vídeo lamber os dedos e metê-los na cona. Dois dedos dentro de si e a outra mão sôfrega sobre a primeira. O frémito de um desejo imaginado. Um desejo real e sentido. Tão real como a origem do mundo. Aquilo tudo aconteceu à nossa frente enquanto a noite se fechava definitivamente sobre a pequena cidade. Deliciem-se, este é o meu corpo, tomai e comei-o todo como se a vós mesmos vos comesses. Se a noite cai permite-se que os sonhadores se libertem da razão. Ali, naquele sítio, haveria de eclodir o fundamento de um derramamento sexual que só viria a morrer quando ela se excedeu, quando se ultrapassou num abraço prolongado.

Quer se tivesse tratado de puro erotismo (amor-paixão) ou da sensualidade de um corpo debaixo de uma luz, a intensidade foi tanto maior quanto nos sentimos ameaçados pela intimidade daquela mulher. Tomem lá, isto é tudo aquilo que eu sou. E ela falava enquanto se masturbava no video que acompanhava o que dizia, com voz de actriz a dizer palavras como escrevi que as dizia.

Sentiria como eu o excessivo tormento do amor descarnado a mulher que se sentava a meu lado? Enterrava-se pela cadeira abaixo na esperança de ali não estar sempre que a mulher nua se contorcia no swing da cadeira de baloiço. Foi ainda mais simbólico da verdade última do amor quando a actriz lhe pediu um beijo. Como se lhe pedisse a morte, como se se aproximasse para a ferir. Ela deu-lhe o beijo, mas antes disse,” Só se for na cara, sim?”, e deu-lhe na cara o tal beijo pedido.

Por fim, o olhar transformou-se naquilo a que podemos chamar vício e que resulta da profunda implicação do grupo perante a mulher. O tesão e o estiramento a nenhum outro amor de seres mortais poderia ser dito mais a propósito de que aquilo que ela mostrou. A pequena cidade não está a salvo das incursões voluntárias ao reino da pornografia residual da World Wide Web. Entre todas as mulheres, Rosa e Crucificação, de Mónica Calle.

“Os ecologistas são incapazes de demonstrar que os chamados agrotóxicos envenenam a população.” João Bernardo

Serão mesmo?

Meio ambiente e mentalidade empresarial, uma relação impossível

A ilha brasileira Fernando de Noronha é um paraíso ecológico que atrai um número cada vez maior de visitantes, sendo estes já metade dos habitantes totais da ilha. Aqui, a protecção da natureza, apesar de constituir o grande atractivo da ilha, confronta-se diariamente com a avalanche turística que impõe nos quatro cantos do mundo os resultados do triunfo histórico da mentalidade empresarial, segundo a qual qualquer território se deve tornar uma mercadoria, mesmo que isso implique a sua gradual destruição ou a extinção das suas formas de vida. O principal empresário da ilha e seu grande promotor turístico, José Maria Sultanum, mostra como o turismo se alimenta precisamente daquilo que vai degradando, quando afirmava recentemente, nas páginas de um jornal brasileiro, “Eu dependo da sustentabilidade, da preservação, mas desde que não seja em detrimento do homem. O meio ambiente tem que ser protegido para servir o homem”. Ora, se é o homem, o turista, quem deve estar hoje no centro da política de conservação ambiental, torna-se desde logo evidente a insignificância, a miséria e a desfaçatez desta política, que não serve senão para camuflar a (no curto prazo) lucrativa destruição ambiental em curso.

Já todos percebemos que, à medida que a mentalidade empresarial se dissemina pelo globo, a água limpa e o ar respirável se vão tornando cada vez mais escassos. Mas há uma pergunta muito simples que os média e a classe política jamais colocam: quem beneficia com a destruição da vida?

Jornalismo e propaganda

O jornal Público informa hoje, pela mão versada na arte do copy paste de Maria Lopes, que “Balsemão cria um grupo de Bilderberg à portuguesa em Cascais”. No artigo a jornalista observa, sem o mais pequeno vestígio de crítica, que o grupo “pretende ser um fórum de pensamento estratégico em que personalidades essencialmente da sociedade civil procuram discutir soluções para os problemas que o país e a Europa enfrentam”. Imagino que esta informação foi precisamente o grupo quem amavelmente forneceu à jornalista, a qual se limitou a verter para o jornal, sem qualquer exame e tal qual como a recebera. Entre outras informações que parecem ter sido obtidas na mesma fonte sem terem sido submetidas a qualquer tipo de triagem, a jornalista acrescenta que “o objectivo deste novo fórum é (…) ajudar a definir os caminhos e estratégias para que o país tenha uma economia mais forte, mais justa” (sublinhado meu).

Depreendemos que, se a preocupação do grupo é a justiça na economia, o Francisco Louçã deverá ser um dos cabeças de cartaz. No entanto, lemos a lista de membros divulgada pelo jornal e não encontramos o seu nome junto da “empresária Paula Amorim, presidente do Grupo Amorim; Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian; Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud; Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais; Francisco Pedro Balsemão, presidente da Impresa; António Lagartixo, partner na Deloitte Portugal & Angola; Vasco de Mello, presidente do grupo José de Mello; Pedro Penalva, presidente da AON, um grupo de serviços de gestão de riscos, corretagem de seguros e recursos humanos; António Ramalho, presidente do Novo Banco; e Carlos Gomes da Silva, presidente da comissão executiva da Galp Energia.”

O jornal que em 1999 despediu um jornalista estagiário porque, na cobertura à reunião do clube Bilderberg em Sintra, usara adjectivos na altura considerados “impróprios para jornalismo” (do género de ‘faustoso’) para descrever o cenário do encontro, sabe que não é necessário adjectivar quando se trata de cuidar da reputação e dos negócios de quem se serve dos seus serviços. Percebe-se porque é que Maria Lopes continua no Público há tantos anos, ela que já lá estava à data daquela peripécia tão reveladora de que, em vez de jornalismo, o ofício que mantém as redacções a funcionar é o de cuidar da imagem e da reputação de uma série de clientes e interesses; o de legitimar os seus projectos sociais e económicos. Houve um tempo em que fazer jornalismo implicava investigar e escrutinar. Dava trabalho e exigia tempo e recursos. Hoje, quando até as ciências sociais são inibidas de empreender uma análise crítica do real, tornou-se sinónimo de promoção, propaganda e merchandising.