Arquipélago Palestina

Foto de Grupo Said.
Mapa via Grupo Said
Primeiro Israel ocupou 80% da Palestina provocando a expulsão e assassinato de centenas de milhares de palestinianos, depois Israel dividiu a parte sobrante em dois, Gaza e Cisjordânia. Primeiro Israel destruiu a memória de séculos de convivência pacífica entre judeus e árabes, depois fundou um dos primeiros estados confessionais a espalhar o terror e a segregação como forma de vida. A possibilidade de dois Estados é assim negada por Israel todos os dias desde 1948, porque um arquipélago onde no lugar do mar surgem muralhas armadas por um dos mais poderosos exércitos do mundo não tem como ser um Estado independente, e não pode aspirar do que ser um exército de reserva de trabalhadores que estão reféns social, económica e politicamente. O mundo Ocidental, pretensamente democrático e respeitador dos direitos humanos, lucra complacente com as mais-valias da ocupação, e os negócios comuns falaram sempre mais alto do que a interminável lista de crimes de guerra com que Israel brinda, impune e quotidianamente, a Palestina. A cristalização deste conflito, que se agrava todos os anos a reboque do avanço dos colonos sionistas, a sua assimilação e banalização, é um espelho fiel para se avaliar o grau de degeneração onde estacionou a humanidade.
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Em tempo de Guerra, Amor e Eros: “Il y a du temps après du temps”

Les premières pluies sont tombées, annonçant l’arrivée de l’automne. C’est une pluie différent de toutes les autres, c’est la pluie des perles de pluie que nous a dit le chanteur poète. C’est une pluie d’odeur, de son et de saveur, c’est une pluie avec des taches de rousseur, des décolletés et des yeux profonds, c’est une pluie d’histoire, une histoire qui nous rappelle que le passé est chargé d’avenir. Le temps perdu ne se retrape plus, mais Il y a du temps après du temps. Celui qui vit sans rien, vous le savez bien, n’a pas besoin du temps pour vivre.

Democracia, capitalismo e pensamento único

O jornal Expresso questionou “os 5 principais candidatos à Câmara Municipal de Lisboa sobre a estratégia de cada um para o turismo na cidade”. Desta mão cheia de cabeças pensantes, não houve uma que tivesse criticado o avançar da cidade capitalista que o crescimento do turismo necessariamente implica. Da CDU ao CDS, impera uma crença profunda e inabalável no papel central que deve ser atribuído às indústrias turísticas na organização da pólis contemporânea. Apesar de não existir nenhuma forma de turismo independente dos caprichos irracionais do capital (na medida em que não há turismo – no domínio da gastronomia, da aventura, da ecologia, do património, da noite ou do sexo – que não se estruture sobre investimentos, mercadorias e especulação), os cinco pretendentes à liderança do município concordaram em que uma crítica do turismo não deve ser convocada para o debate (acham que basta regular, mesmo que seja superficialmente, os seus impactos). Na verdade, é a crítica do capitalismo que está hoje ausente dos debates políticos, que deixaram de ter a pretensão de querer intervir no rumo da história.


Votar num destes cinco candidatos contribui objectivamente para a reprodução da cidade capitalista, que marca decisivamente o período histórico em que vivemos. A Lisboa turística que, com matizes de opinião, todos abertamente defendem é o paradigma acabado da cidade capitalista. Nela tudo é consumo e tudo é gestão: consumo passivo de cenários mercantilizados e estandardizados; gestão meticulosa dos gestos e das interacções dos utentes da cidade – onde dormem, por onde passeiam, o que vêem, onde se divertem.

Parece-me que ainda pouca gente percebeu o que está efectivamente em jogo na constituição da cidade turística e o que, política e historicamente, representa a consolidação de uma urbe onde deixou de haver lugar, por um lado, para materialidades que não sejam vendáveis e, por outro, para transeuntes que não sejam consumidores. E, apesar dessa aterradora falta de consciência, a cidade turística vai-se constituindo como o grande laboratório da cidade capitalista, onde se ensaia o oposto de uma ideia colectiva e democrática de território e onde se experimentam formas de liquidar (no plano arquitectónico, artístico, comercial, gastronómico) as culturas locais pré-capitalistas, para aí conseguir impor uma nova cultura massificada global – que fetichiza a produção local, mas apenas quando esta adquire formas que foram subtilmente falsificadas, e recodificadas numa linguagem universal, para permitir o consumo instantâneo de consumidores passivos e ignorantes que acham que o inglês é a língua materna da humanidade.

No laboratório político-social constituído pela cidade turística, ensaiam-se métodos e processos de controlo, vigilância e gestão de massas humanas que circulam e se recreiam pelo território. Fernando Medina chama “carga turística” a essa massa cada vez mais homogénea de átomos autónomos, afirmando que ela deverá ser objecto de “maior distribuição na cidade”. Sintonizada com a mesma doutrina gestionária, Hortênsia Menino, autarca comunista do Alentejo, pretende também dar à cidade de Évora, como há tempos tive ocasião de registar, uma função de “placa giratória do tráfego de turistas”, permitindo direccionar os visitantes “não só para a oferta turística cultural da cidade mas também para todos os concelhos vizinhos”.

Para lá desta gestão de grandes massas que os administradores do território direccionam para onde bem entendem, o que se ensaia na cidade turística são sobretudo formas eficazes e criativas de tornar essas multidões rentáveis para a economia – que é, afinal de contas, o projecto político do capitalismo: elevar a velha pólis a um apelativo e moderno centro comercial onde a gestão de massas não visa senão a sua exploração económica. O que a política de gestão turística do liberal Medina e da comunista Menino ambiciona de facto é encontrar a melhor forma de tornar produtivos os turistas, de incrementar e diversificar os seus consumos. Este consenso político em torno da gestão da cidade turística faz com que, no caso lisboeta, dos cinco candidatos, nenhum represente uma ruptura com o mundo capitalista que assim continua a alastrar furiosamente, apenas atenuado por alguma “regulação” pontual – um pouco como na agro-indústria em que as entidades reguladoras impõem um limite máximo aos resíduos de pesticidas presentes nos alimentos, em vez de simplesmente os banirem. Vejamos, pois, o que disseram ao Expresso os diferentes candidatos sobre o lugar e o peso que o turismo deve continuar a ocupar na vida dos lisboetas.

1 O turismo é importante

Fernando Medina – O aumento de turismo é em primeiro lugar uma boa notícia para a cidade. Uma boa notícia para a economia e o emprego na cidade.

Teresa Leal Coelho – O turismo é uma atividade importante e deve ser visto como uma alavanca na economia da cidade. (…) O turismo urbano é uma oportunidade

Assunção Cristas – O turismo tem sido um motor de crescimento para Lisboa e para o país e se correr bem em Lisboa e no Porto alavancará certamente o turismo em todo o Portugal que pode ser muito positivo para um desenvolvimento sustentável do nosso país.

João Ferreira – Primeiramente é importante que se diga que a CDU em nada se opõe ao turismo, o turismo como fator de desenvolvimento, de conhecimento, de cultura, da projeção do país, da cidade, do povo que somos, da nossa história, língua, cultura e tradições. É pois importante que o turismo exista não apenas como negócio mas muito para além disso.

Ricardo Robles – Que o turismo vai crescer é um dado absolutamente adquirido. E o município não pode pôr um travão quanto a isso e seria um absurdo que o pusesse. Viajar é bom. (…) O turismo é importante para a cidade.

2 Não há em Lisboa turismo a mais

Medina – Em vez de dizer que temos turismo a mais, o que digo é que temos transportes públicos a menos

Coelho – Lisboa não tem turismo a mais.

Cristas – Julgo que não há turismo a mais.

Ferreira – Os números de turistas entrados e de dormidas verificadas está longe de ser dramático.

Robles – Não acho que haja turistas a mais em Lisboa.

3 O turismo deve conquistar novos territórios

Medina – Queremos uma maior distribuição da carga turística na cidade. A construção da nova Feira Popular daqui a poucos anos será uma zona de atração da cidade. Como o Lumiar, e a zona oriental da cidade. (…) Acho importante alargarmos as zonas de atração turística na cidade e fazermos produtos turísticos que cruzem não só com outras zonas da área metropolitana de Lisboa mas com outras zonas do país.

Cristas – A criação de novas centralidades turísticas é uma área imprescindível para a ação camarária. (…) O Tejo, por exemplo, tem um enorme potencial ainda por desenvolver sustentavelmente.

Ferreira – O desenvolvimento de uma estratégia para o turismo e de um plano para a sua concretização permitiria diversificar a oferta de acordo com os interesse e sensibilidades destes visitantes, dar a conhecer alternativas de interesse histórico, patrimonial, ambiental, cultural e de lazer na área metropolitana, desenvolver e potenciar objetivos comuns com os municípios vizinhos e obter assim uma desconcentração de turistas por uma área mais vasta e também ela repleta de pontos de interesse.

4 O turismo requer regulação 

Medina – Em vez de dizer que temos turismo a mais, o que digo é que temos (…) mais necessidade de regulação da habitação, em particular através da promoção da habitação pública. (…) A palavra chave aqui chama-se equilíbrio

Coelho – O turismo tem de ser orientado e regulado, para controlar os seus efeitos destrutivos, que são conhecidos.

Cristas – À pressão turística deve responder-se com mais gestão.

Ferreira – A intervenção da CML, privilegiando o arrendamento a preços acessíveis do seu património imobiliário, contribuiria para diminuir a pressão sobre os habitantes locais (…) exercendo um papel regulador do mercado.

Robles – O crescimento do turismo em Lisboa tem sido feito sobretudo sem regras.

Francisco, mentes? Minto.

Resultado de imagem para "Francisco Louçã"+"António Chora"Francisco Louçã veio a terreiro defender a trajectória de António Chora, que escolheu atacar a greve na autoeuropa ao lado da direita mais reaccionária do país, apenas acompanhado por Catarina Martins, que em nome do BE e na primeira declaração sobre o assunto, trocou a solidariedade pela apreensão. É por isso de louvar, antes de tudo, a sua honestidade. Louçã não trocou os aplausos da turba pela fogueira que António Chora e Catarina Martins decidiram saltar. Fica-lhe bem que assim proceda, até porque, se Chora e Martins erraram, erraram baseados na política da qual ele não é só simples morador, mas arquitecto, engenheiro e mestre de obras.

A coragem de Francisco Louçã, contudo, devia ser acompanhada quer pela verdade dos factos, evitando a mentira fácil ou a ignorância com dolo, quer pela seriedade de não fingir que a vida política de António Chora acabou quando saiu da autoeuropa, passando um pano sobre as razões que levaram a que o povo que outrora o aplaudia, vir agora perceber o papel pernicioso da escola sindical da qual faz parte.

“Chora criou uma tradição de democracia que não tem paralelo: não há nenhuma outra grande empresa ou sindicato que consulte sempre os trabalhadores em plenário e referendo sobre os acordos que estabelece ao negociar com o patronato. Só na AutoEuropa, e isso deve-se a Chora.” Francisco Louçã

A mentira é grosseira. Louçã afirma, sem qualquer hesitação, e parte dos seus acólitos aplaudem sem qualquer apreensão, que António Chora é o obreiro singular do sindicalismo de base, o único que fez escola a aprovar em plenários de base as orientações centrais do sindicato ou comissão de trabalhadores da qual fez parte. Como é do conhecimento público, o Sindicato dos Estivadores (entre outros que desconheça) tem essa tradição há muito, tendo o último acordo ficado à espera do respectivo debate e aprovação em plenário (também no Expresso), só sendo válido a partir desse momento. Louçã mente com dolo, porque sabe que o seu partido, depois de algumas hesitações iniciais, se decidiu pelo apoio à luta dos estivadores, e a cobertura que o seu meio de comunicação fez dos vários momentos de reportagem que revelam que o Esquerda.net (aqui, aqui, aqui e aqui), o BE e Louçã sabem bem que António Chora está longe de ter o monopólio sobre a escola do sindicalismo de base. Aliás, sabe quem estuda ou participa no movimento operário, que o garante da democracia de base não são as direcções sindicais – estas ou a respeitam e merecem o nosso aplauso, ou a atacam e merecem o nosso combate – mas sim os plenários que, independentemente de quem elegem, criam a boa prática de poder votar e questionar o que querem quando reunidos em assembleias de base, no órgão máximo da sua vida sindical.

Francisco Louçã devia por isso ter limitado a defesa de António Chora a António Chora, porque o centro do debate está aí e não nos truques para fazer de Chora um mártir do sindicalismo de combate que o próprio, em momento nenhum, reivindicou. Neste campo, privilegiemos os factos aos factos alternativos. António Chora tem uma longa tradição sindical e uma vida política cuja trajectória o levou do PCP para o BE, e que leva Louçã a dar primazia à defesa do seu camarada em prejuízo dos direitos dos trabalhadores, expressa precisamente num plenário de base que recusou o apoio negociado pela escola sindical de Chora. Aceitou, durante anos, um modelo de representação que levou tempo a ser democrático, e optou por um modelo de negociação cujo balanço é amplamente favorável à administração e aos accionistas em detrimento dos trabalhadores que Chora representava. Por isso os trabalhadores da autoeuropa, não obstante o valor do trabalho que produzem, estão entre os que menos percentagem garantem do valor criado na linha, não só em Portugal, mas também se comparados com trabalhadores que, noutros países da Europa, têm as mesmas funções. Por isso há muito que são pressionados para trabalhar aos Sábados, Domingos e Feriados, por isso têm piores condições dos seus colegas que, por razões muito parecidas, levaram a cabo uma greve vitoriosa na fábrica de Bratislava, com aumentos de salários na ordem dos 15%, e um sistema de prémio de produção e folgas que salvaguardará a paz social na empresa e um mínimo de justiça distributiva face aos esforços pedidos aos trabalhadores.

Por fim, a análise de Louçã ao sindicalismo de Chora, não podia ignorar que ele, mesmo depois de reformado e quando já não representa ninguém a não ser ele próprio, se lembrou de vir a terreiro atacar uma greve sem um único argumento a não ser o da chantagem da deslocalização, permitindo perceber que a greve que os trabalhadores votaram está cheia de razão, tão cheia que as suas razões fermentaram em cima da falta de razão de António Chora quando, no seu tempo, preferiu assinar e convencer os trabalhadores da autoeuropa a ser mais amigos dos patrões do que de si próprios.

A única defesa possível de António Chora seria a de chamar António Chora à razão. Seria a de deixar claro que a esquerda que faz falta deve olhar primeiro para as reivindicações dos de baixo ao invés das preocupações dos de cima, mesmo que em cima tenha passado a governar a geringonça.

“Temer, não sacrifique a Amazônia para manter-se no poder! Nada de liberar área protegida para o desmatamento!”

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Habitação, cidade e turismo – debate em Lisboa no dia 15 de Setembro, às 18h

Líder de um Estado confessional convoca conferência de imprensa para oração colectiva