Colonização Capitalista

A Palestina tem como primordial desafio sobreviver a uma ocupação selvagem, levada a cabo por uma potência agressora, tão cruel como imoral. Apesar dessa batalha, os palestinianos, como qualquer outro povo, enfrenta também contradições internas à sua própria sociedade, uma das quais aquela que é imposta pelo capitalismo, irmão de armas do colonialismo. A demolição do Cinema Jenin, o único desta cidade do norte da Cisjordânia, para no seu lugar ser construído um centro comercial, é disso exemplo. Com este processo, o Fragment Theatre, um projecto dinamizado por algumas pessoas que passaram também pelo Freedom Theatre, entre outros grupos que ali reuniam e desenvolviam a sua actividade cultural, ficam sem espaço. Um ano depois da última reportagem que fiz na Palestina, a fotografia de Rawand Arqawi, uma das dinamizadoras do Fragment Theatre, ficou lamentavelmente sujeita à ruína. Que a força imensa da gente que vive nesta cidade e tenta fazer da cultura uma arma ao serviço da resistência consiga contornar mais esta agressão, e que rapidamente encontrem forma de dar continuidade ao seu trabalho.

O turista de LPs à descoberta dos tesouros lisboetas

Em Lisboa, os danos colaterais da turistificação multiplicaram-se a uma velocidade que os tornou pura e simplesmente inquantificáveis. O ritmo das transformações – micro e macro – já não permite conceptualizações e descrições em tempo real. Bairros que antes eram residenciais deram subitamente lugar a cenários desabitados, exóticos e postiços de selfies turísticas. Zonas do centro que antes eram históricas foram subtilmente adulteradas e integralmente recodificadas para se tornarem reconhecidas instantaneamente pelos turistas. Espaços que antes eram públicos foram privatizados por uma rede de aparelhos publicitários, como tão bem documentaram recentemente Lucas Manarte e Bernardo Ferro no filme ‘Espaço Público’. Arquitecturas e lugares que antes albergavam e traduziam vidas/histórias singulares tornaram-se estandardizados, inertes e substituíveis. A reabilitação que antes se fazia (em pequeníssima escala) para os habitantes faz-se agora (em enormíssima escala) para os investidores. Podia ficar aqui o resto do Sábado e não seria capaz de completar o quadro da metamorfose turística (a qual, apesar de tudo, praticamente ninguém acha merecer uma crítica radical).

Tornou-se portanto um lugar comum dizer-se que Lisboa está à venda. Mas a estranha força do fenómeno faz com que tenhamos de regressar uma e outra vez a esse lugar que, de tão comum, está em vias de se tornar imperceptível. O trespasse da cidade a uma classe média internacional que se procura libertar do aborrecimento da sua vida quotidiana faz-se em pedaços: metros quadrados inflaccionados de cosy apartments e janelas com vista ao rio; pastéis de cerveja, de nata e de bacalhau; linhas de eléctrico e miradouros; mercearias e mercados; azulejos e calçadas… E até velhinhas que espreitam solitárias de suas pitorescas janelas são vendidas ao turismo como um ex-líbris inconfundível da capital. O turismo mobiliza neste momento tudo o que ajude a compor a oferta desse mega parque temático de portugalidade em que Lisboa se transformou. Pelo que se tornou muito difícil pensar nalguma coisa em Lisboa que ainda esteja por expor ao monstro insaciável do turismo, cujas câmaras, olfacto e papilas gustativas não deixam já recanto por vasculhar.

Mas eis que, de tempos a tempos, somos surpreendidos pela criatividade turística. A navegar pela net, fui dar com vendedores de LPs e melómanos alfacinhas, descobertos pela dj londrina Rita Maia, a anunciarem orgulhosamente, num site comercial inglês,  os seus mais bem guardados tesouros. Para gáudio dos record buying tourists. Fez-me lembrar os artigos de jornais dirigidos à burguesia entediada de Lisboa sobre as últimas praias virgens da costa vicentina.

Morreu Pauline Oliveros, teorizadora do deep listening, escritora e “compositora freelance e por conseguinte eternamente arruinada”

Pauline, espiritualista e cyborg, que da rádio preferia o som da sintonização dos aparelhos àquele dos programas, numa das últimas entrevistas que deu, observou: “Vivemos numa época ruidosa. O problema é a concentração. Agora toda a nossa atenção está centrada nos ecrãs.”

Cisões e Reunificações da ‘Self-hatred Left’

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Não tem sido fácil a vida da esquerda à esquerda do reformismo. Entre a fobia e o fascínio à marginalidade, uns cindem e outros reunificam-se. Em si mesmo não há nada de mal na recomposição da esquerda anti-capitalista, bem pelo contrário, mas receio que essa recomposição não tenhas ainda as fronteiras capazes de garantir, a prazo, uma relação higiénica entre o rio do oportunismo e as margens do sectarismo.

A ruptura do Em Luta, que rompeu com o MAS, e o regresso do CIT ao Bloco de Esquerda, são processos que só espantam por tardios. O CIT tem uma longa tradição de unidade com os partidos do keynesianismo, e era de esperar que parte da vida inteligente do MAS não se resignasse, eternamente, ao trotsko-populismo da sua direcção. No caminho, outros grupos também ficaram órfãos de caminho, como é disso evidência o desaparecimento do colectivo da Revista Rubra, a cristalização do POUS ou o fratricídio do MRPP. Nas margens, experiências como a SOLID dão os primeiros passos há demasiado tempo, e outras como a Unipop basta-lhes a auto-suficiência de admirarem ao espelho o seu próprio brilhantismo. Nos movimentos sociais poucos se mantém activos fora do apadrinhamento partidário. Academia Cidadã, Plataforma 15 de Outubro, MSE, Primavera Global, Indignados, QSLT, entre outras agremiações cuja memória me falhe, ou fecharam portas ou as mantêm abertas sem que isso signifique o reforço da luta política. Debaixo do guarda-chuvas partidário os Precários Inflexíveis parecem diluídos no papel de consciência crítica ou claque da geringonça e sobram a Habita e a Solidariedade Imigrante a dar um ar da sua graça. À chuva, algumas, poucas, associações de bairro nas grandes cidades ou fenómenos de luta regionais, levam a resistência para a sua última trincheira da sobrevivência.

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Se do ponto de vista orgânico o quadro é esdrúxulo, do ponto de vista político o cenário não é melhor. Cada tradição política se divide nos temas centrais da actualidade. Do euro à dívida. Da UE à caracterização do novo governo dos EUA. Do Turismo à Emigração. Da sacralização do trabalho à sua expiação como a origem da tragédia. A ideologia, outrora uma útil tábua de salvação para as dissonâncias organizativas, hoje ela é cada vez mais uma âncora do que uma ferramenta. Quem rasgou a ideologia, cai no erro diametralmente oposto, agarrando-se às organizações, mesmo defuntas, para se manter vivo.

A encruzilhada é grande e para se decantar o que quer que seja será importante, por certo, uma redobrada dose de paciência. No imediato a geringonça mais não vai fazer do que reverter a pasokização do PS, ao ponto de estar na iminência de lhe dar, de novo, maioria absoluta. Com a direita refém de Passos e sem alternativas, a esquerda à esquerda do PS tem que matar os seus fantasmas para que não desertifique.

Que mil cisões e reunificações floresçam e definhem, tantas vezes quantas forem preciso, até que se torne evidente o que nos une e nos separa, o que podemos fazer para que se criem as condições necessárias para que se comece de novo sem estar condenado a repetir cada uma das asneiras.

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A turistificação do Porto em debate

Organização do ICOMOS-Portugal

Sobre o radical amor de Assunção Cristas ao radicalismo populista

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Assunção Cristas é a melhor aluna do radicalismo populista liberal-conservador, a melhor de todas na cátedra do seu mestre, Paulo Portas. Eleita contra um bando de gajos que parecem velhos aos trinta anos, Cristas emerge à direita cavalgando dois dos sectores mais reaccionários do país. No plano social, no combate à legalização do aborto, e no plano económico, na promoção da prostituição da economia portuguesa no bordel da alta finança europeia e mundial. O seu perfil tem que ser retratado com a crueza necessária para desmontar a sua versão eleitoral, no qual se procura a metamorfose necessária para se poder apresentar como a fiel da balança de uma geringonça de novo tipo, que um mais que provável colapso da aliança do PS à esquerda e do PSD vai obrigar.

Ela sabe, claro, que não consegue mudar o mundo sozinha. Depois de o ter mudado muito mais que a sua rua ao serviço da PAF, do BCE e do FMI, sabe que bem que tempo é outro, pelo que precisa “de encontrar um sentido, procurar ler nas entrelinhas, aproveitar para aprender.”

Diz-se assustada com o resultado das eleições americanas. Aponta aos “vários episódios de populismo” como se fosse um problema, quando a sua família política vai festejar a vitória de Le Pen com mais entusiasmo com que celebrou a vitória de Trump. Diz-se atenta à “tendência no mundo”, e aconselha a que “nós, em Portugal e na Europa”, aproveitemos o “pretexto para essa reflexão”, mas deixa perceber bem que no seu campo essa reflexão já foi feita, precisamente para a colocar o lugar do impulso caso algum fenómeno idêntico pontifique por cá.Resultado de imagem para assunção cristas

Escreve que está empenhada na “contenção dos populismos de direita e de esquerda”, mas oculta tudo o que tem feito no quadro do populismo de direita, nomeadamente, “o papel do CDS na construção dessa voz”.

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Por fim, no seu prelúdio filosófico, deixa cair a máscara com estrondo quando nos diz que “o problema é quando nós, políticos, não conseguimos explicar. Porque não temos tempo, porque não sabemos, porque não nos é conveniente. E esta opacidade abre espaço para discursos populistas radicais.” Face às dificuldades, eis que declara o seu amor ao amor, mas apenas e só pelo amor à táctica do radicalismo populista, que apesar do que diz ser o desacerto ao nível da mensagem, soube descobrir a solução ao nível da forma: “a ligação direta às pessoas e aos seus problemas quotidianos. Às suas aspirações, às suas inquietudes.”

Assunção Cristas está atenta às circunstâncias, mas há também quem esteja atento à circunstância de Assunção Cristas.

Colaborar com Israel é criminoso

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O resto, tudo o resto, é resistência.

“Os que se comovem com o Avillez por ter tido o restaurante pintado com tinta vermelha – duas entradas e uma sobremesa devem pagar os estragos – deviam pensar no aviltante do Avillez por ter ido a Israel ajudar o apartheid a lavar as mãos de sangue. Quem toma partido numa guerra deve saber que poucas são as vezes em que isso não tem consequências.” – Via Grupo Said