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Ciência e prostituição

 

Ontem, os média noticiavam mais um episódio na triste história da inclusão da academia na esfera empresarial. Ficávamos por exemplo a saber que “o ensino superior vai contar com um novo tipo de mestrados, mais curtos, mas com uma ligação maior ao mercado de trabalho“. Parece-me fantástico que António Costa queira democratizar o acesso ao ensino superior e esteja preocupado em garantir que “até 2030 seis em cada dez jovens de 20 anos participa no ensino superior”, mas  tenebroso que o ensino superior que esses jovens irão conhecer tenha sido vendido aos interesses da economia, convertendo estudantes e investigadores em empregados ao serviço de empreendedores, startups, multinacionais, fundos de investimento e accionistas – subsidiados no entanto pela generalidade dos contribuintes. Em 2030, nenhum aluno do ensino superior saberá qual é a diferença entre investigação científica e desenvolvimento tecnológico.

No neoliberalismo, também a ciência é mobilizada pelos industriais na competição que travam entre si pela produção de valor. O dinheiro torna-se a medida exclusiva de todas as coisas, até da produção científica. Neste contexto, a única coisa que não se pode pedir à ciência é uma análise crítica para com a sociedade, a economia, a cultura, a vida presente ou passada. O seu foco deve deslocar-se exclusivamente para o incremento da rentabilidade dos mais diversos sectores da economia. E, ao invés de esclarecerem à comunidade a natureza do mundo actual, os seus contributos devem esclarecer aos agentes económicos a natureza da comunidade que estes desejam explorar.

Cosmopolitismo e conflito na cidade burguesa

Em muitas metrópoles do planeta, a burguesia parece estar a atravessar um período de uma certa euforia. A classe média lisboeta, por exemplo, assiste radiante e orgulhosa à rápida “modernização” da sua capital. Para ela, até há sensivelmente uma década atrás, o centro histórico era uma “estrumeira” impenetrável onde, a seus olhos, não viviam senão idosas que estendiam roupa interior XL nos estendais à porta, putos mal criados que corriam pela rua atrás de uma bola e, bem pior, os seus pais, precários ou desempregados, que gritavam até altas horas da noite à porta dos cafés. Sem elevador nem estacionamento à porta, sem shopping nem restaurantes elogiados pela Time Out, e com uma tal vizinhança, era impensável habitá-lo. Por isso, a valorização imobiliária, que vive a reboque das aspirações e das opções da classe média, desconhecia um tal território: o investimento num prédio em Santa Catarina a dois passos do miradouro do Adamastor ou no coração de Alfama era pouco mais auspicioso do que num terreno em Carrazeda de Ansiães.

Mas eis que, de repente e sem aviso prévio, rios de capital (maioritariamente estrangeiro) se apropriaram daquele território, que era o habitat privilegiado das classes populares lisboetas, para finalmente “dinamizá-lo”. Há dias, Alexandra Prado Coelho anunciava efusivamente nas páginas do Público – em mais um exercício de marketing disfarçado de jornalismo – um novo episódio nesta imparável conquista: “Um ano depois de ter sido anunciado, o restaurante italiano de Jamie Oliver abriu finalmente. Ocupa três andares de um edifício no Príncipe Real, tem pizzas, massas frescas, pratos italianos e uma equipa contagiada pelo conhecido entusiasmo do chef britânico.” Ora, o “restaurante italiano de Jamie Oliver” pertence na verdade a uma grande cadeia de restaurantes espalhada pelo mundo, o Jamie’s Italian. Participa portanto na uniformização planetária, não só dos paladares, como das geografias. A celebração feita pela jornalista ao negócio lisboeta do empreendedor inglês é parte de uma celebração muito mais ampla que os média burgueses diariamente fazem à nova cidade capitalista que se está a afirmar em todos os países do mundo.

Uma cidade onde, por iniciativa conjunta de agentes públicos e privados, se combinam os seguintes factores (que doravante poderemos encontrar em praticamente qualquer cidade do mundo, independentemente do continente onde nos encontremos), com vista à criação de uma fórmula eficaz para atrair as classes com maior poder aquisitivo, aumentando assim a capacidade do território urbano para gerar valor:

  1. a recuperação integral de edifícios e o consequente desenvolvimento da actividade imobiliária,
  2. a criação de áreas verdes e pedonais como pedra de toque nas políticas de requalificação urbana,
  3. a invenção pela administração pública, por um lado, de pólos culturais e, por outro, de hubs criativos,
  4. a criação de políticas públicas de marketing das cidades (por ex., a cidade como marca),
  5. a multiplicação das atracções turísticas,
  6. a revalorização do comércio ‘tradicional’ (mercearias, tabernas, restaurantes, mercados, etc.) por empreendedores atentos às modas burguesas,
  7. a disseminação de cafés que materializem as tendências actuais (comida ‘saudável’ ou gourmet, interiores escandinavos, etc.),
  8. a importação do lifestyle americano e, sobretudo, italiano (pizza, pasta, caffè, gelato, etc.),
  9. o aumento da vídeo-vigilância e do policiamento,
  10. a omnipresença da língua inglesa.

Porém, esta cidade “moderna”, “cosmopolita”, “segura”, repleta de negócios “criativos” e de empreendedores “inovadores”, tão celebrada pelos média, está longe de ser um paraíso feito de paz, amor e concórdia. Porque, nela, o mesmo movimento que faz atrair as classes que beneficiam da economia neoliberal faz expulsar violentamente as restantes, abrindo caminho a tensões sociais. Mas a luta de classes na cidade actual, entre quem frui e quem padece da organização presente da economia, é neste momento uma luta desigual, dada a ainda reduzida mobilização do conjunto da população que se está a ver privado do acesso à cidade. De todos os modos, como vimos já no caso paradigmático de São Francisco, mas também em muitas outras urbes do planeta, a multiplicação dos movimentos de resistência à gentrificação bem como a criação de novos espaços rebeldes parecem anunciar a chegada a um novo estágio nesta luta, em que a obediência e a passividade dos excluídos dão lugar a acções insubmissas e emancipatórias que fazem os promotores públicos e privados da nova cidade capitalista perderem o monopólio da iniciativa urbana. 

O Partido Comunista Português quer compatibilizar “o crescimento económico com as preocupações ambientais, a salvaguarda do património ambiental e a preservação da qualidade ambiental”

Era notícia ontem. Afinal de contas, há alguém melhor do que os estalinistas em matéria de compatibilização de crescimento económico com ecologia? De secar um dos grandes mares interiores do planeta a aniquilar florestas inteiras, o portfólio não é pequeno.

Mar de Aral
Chuvas ácidas na República Democrática Alemã
Geamana – o grande lago tóxico romeno
Rio Amarelo, República Popular da China

Mesmo sem ir muito longe daqui – ou seja, sem sair deste distrito -, vejo que nas juntas de freguesia comunistas alentejanas os funcionários, ano após ano, pulverizam alegre e impunemente glifosato sobre ribeiras enquanto os respectivos presidentes esfregam as mãos de contentes quando promotores canadianos de uma ultra-poluente mina de ouro lhes vêm bater à porta com a promessa de postos de trabalho, como sucedeu recentemente com o projecto mineiro da Boa Fé.

Elogio do ócio (V)

No desporto, não se trata de jogar melhor; trata-se de uma disputa que se resume a uma luta pela sobrevivência e pela dominação, e que se encontra completamente alinhada pelo espírito dominante do capitalismo. (…) No desporto o homem é sujeito a uma ordem autoritária e habituado a “responder a um apito” – sem raciocinar. A “regra de ouro” de qualquer treinador é que “os jogadores não pensam, fazem aquilo que lhes é pedido”.

‘O desporto como religião do capitalismo: uma entrevista com Ljubodrag Simonovic’, Flauta de Luz, nº 4, 2017.

Fotos (Zambujeira do Mar, 2017) e escolha de citações de Maria Ramalho