Está aí o novo Jornal MAPA (nº 18, Novembro-Janeiro)

Com um olhar sobre o racismo e habitação: a história de bairros de exclusão como as Pedreiras, em Beja, por entre a histórica perseguição à comunidade cigana; e a publicação de uma carta dos moradores do bairro 6 de Maio na Amadora. Notícias da gentrificação e da sua resistência no Porto, com enfoque ainda no movimento de ocupações que nessa cidade e em Lisboa ressurge. Neste MAPA continuamos a alertar sobre a mineração no mar dos Açores e  o mar como a última fronteira do capitalismo também através do turismo. Reflectimos sobre incêndios e em entrevista a Jorge Leandro Rosa falamos sobre para que serve o catastrofismo oficial. Destaque ainda à situação das mulheres no sistema prisional português, sem esquecer os centros de detenção de imigrantes. Não podíamos deixar de abordar a Catalunha e por entre crónicas – sobre o trabalho voluntário, o privilégio branco, o transhumanismo russo ou a história de Eugenio Granell, o homem que queria ser índio – podes encontrar outras noticias e apontamentos de música, teatro e exposições.  

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A organização da ignorância

Habituámo-nos a ouvir que, na sociedade do conhecimento e da informação que é a nossa democracia liberal, os cidadãos são livres, educados e conscientes porque são permanentemente informados sobre tudo o que afecta a sua existência. Graças essencialmente à grande conquista civilizacional que representam os noticiários televisivos, que os canais informativos debitam em permanência, a maioria dos cidadãos teria acesso aos conhecimentos determinantes para poder pensar o mundo à sua volta e tomar as decisões mais acertadas na defesa dos seus interesses. E esta seria a maior virtude da nossa sociedade. Ao contrário dos regimes políticos onde se exerce mais ou menos explicitamente controlo sobre os média (Coreia do Norte, Cuba, Angola, China, Congo, Irão, Eritreia, Arábia Saudita, etc.), nas democracias ‘consolidadas’ o livre acesso aos média seria a garantia de um pensamento livre e autónomo dos cidadãos, capaz de impedir a sua subserviência aos diversos poderes.

Ao contrário dos norte coreanos ou dos iranianos, os europeus sabem portanto que, se as suas autoridades detectarem, através de medições precisas, a presença de uma nuvem radioactiva sobre todo o continente, os seus média informarão imediatamente a população sobre o sucedido. Porque nenhum interesse político, nem nenhum lobby industrial ou económico se poderá sobrepor à saúde dos cidadãos, que são quem ocupa, com exclusividade total, o centro nevrálgico a partir do qual são comandadas as democracias liberais. Digamos como mera hipótese que, se a dita nuvem fosse detectada em diversas estações de medição no início de Outubro, a respectiva informação, pela segurança dos cidadãos, jamais seria veiculada 5 semanas depois. Seria portanto impossível que as autoridades registassem um pico de contaminação radioactiva a 6 de Outubro e os média europeus informassem a população a partir de 9 de Novembro. Todos sabemos que na Europa estas coisas são possíveis apenas no cinema e nas teorias da conspiração porque o poder, precisamente por ser democrático, assenta não sobre a ocultação, mas sobre a informação e o escrutínio.

Por conseguinte, é impossível que na quinta-feira passada, dia 9 de Novembro, todos os média europeus tivessem noticiado pela primeira vez que “A medição a partir das estações europeias revelou altos níveis de ruténio 106 na atmosfera da maioria dos países europeus nos inícios de Outubro, com uma diminuição constante do 6 de Outubro em diante.” Se uma aberração destas fosse verdade, e fosse realmente possível esconder da população de todas as democracias europeias, durante mais de um mês, que uma nuvem radioactiva pairou vários dias ou semanas sobre as suas cabeças, então teríamos de perguntar, como fez Debord em 1988, afinal “que diabo pode comandar o mundo democrático?”

O fascismo aqui tão perto

Numa semana, dois acontecimentos próximos de nós demonstraram um facto que se tem tornado cada vez mais evidente e público: entre o poder e os movimentos abertamente fascistas os laços são muito estreitos. Enquanto que no estado espanhol as manifestações unionistas, comandadas pelos partidos que dominam o Parlamento de Madrid, têm contado impunemente com o desfile de bandos de fascistas, em Lisboa o Presidente da República inaugurou “com uma grande alegria” uma escola da ultra-conservadora Opus Dei. Na assistência estava, entre outros, o presidente do Partido Nacional Renovador (PNR), José Pinto-Coelho, quem também poderia ter estado nos desfiles fascistas de Barcelona. Em Espanha, o Partido Popular, o Partido socialista e os movimentos abertamente fascistas caminham pelas ruas em uníssono e a uma voz, enquanto que por cá as correntes ultra-conservadoras da sociedade contam com a bênção do poder presidencial que, debaixo da capa de rebelde cool e surfista, contribui para a radicalização conservadora de uma sociedade que, em cada dia que passa, vemos polarizar-se mais entre dois extremos: de um lado, uma casta neo-reaccionária e neoliberal que goza o seu privilégio entre escolas de elite, condomínios privados, resorts, marinas, pousadas e spas; do outro, uma massa consumida pela luta diária por ganhar-se “a merda da vida”, anestesiada por uma sucessão ininterrupta de espectáculos que não têm outra finalidade do que serenar a sua frustração.

Dirigir o corpo, educar o espírito

Todos os corpos que atravessam a longa fila da caixa do supermercado ensaiam involuntariamente um conjunto de gestos e atitudes que não são insignificantes para a reprodução do presente. Neste (não)lugar, eles são obrigados a praticar a indiferença, a obediência, o individualismo e o fingimento. E é também aí que assimilam eficazmente a repressão da subjectividade que esta sociedade nos faz aceitar como natural – tal como se tornou perfeitamente natural que se consumam anualmente, em Portugal, oito milhões de embalagens de antidepressivos e que, no mundo, a segunda causa de morte entre os jovens seja o suicídio.

(I) A indiferença silenciosa perante quem connosco comparte um lugar na fila ensina-nos a conviver pacificamente com corpos anónimos, que nos aparecem como não sendo possuidores de sujeito nem de interioridade.

(II) O “bom dia” frio e distante que mecanicamente retribuímos ao funcionário da caixa educa-nos a reduzir as nossas interacções comunicativas a um mínimo ‘institucional’, que nos permita simplesmente atravessar o espaço social, de ‘instituição’ em ‘instituição’ (o supermercado, a empresa, a loja, a universidade, o ginásio), com um pragmatismo individualista, sem criar elos nem ligações.

(III) A convivência forçada com a música, noticiários e promoções que são incessantemente debitados da aparelhagem sonora, sem que logicamente o tenhamos solicitado, incita-nos a tolerar passivamente o enquadramento mediático-ideológico que os nossos movimentos têm em qualquer parte onde chega esta sociedade.

(IV) Ensacar instantaneamente as compras e pagá-las num ápice, como se estivéssemos numa linha de montagem onde nos é vedado vacilar assim que chega a nossa vez, ensina-nos a não perturbar quer a normal reprodução do sistema (fundado sobre a incessante circulação mercantil) quer o sono da massa apática que jaz sobre as suas pernas enquanto aguarda imóvel e obediente pela sua vez – despertá-la, através de uma performance mais lenta e demorada, poderia fazê-la soltar a agressividade descontrolada que toda a longa sucessão de actos obedientes e passivos faz acumular.

(V) Manter uma postura vertical e honrada no meio deste isolamento, desta impotência e desta humilhação ensina-nos a fingir a dignidade perante a omnipresente anulação do eu. É quando se esgota esta capacidade de fingir a dignidade que a ideia do suicídio começa a ser considerada.

Porque é que já nenhum poder teme as ‘ciências sociais’?

Está por fazer o debate sobre se o meio académico (laboratórios de investigação incluídos) contribui satisfatoriamente para entendermos criticamente o mundo em que vivemos – e, em caso negativo, quais os motivos. Apesar dos mestres e doutorados que ele constantemente fabrica, o presente continua bastante turvo, mesmo para quem acompanha algumas das principais revistas especializadas. Várias explicações concorrem, na minha opinião, para explicar o curioso fenómeno que contribui para que os distintos poderes (políticos, culturais, económicos) se reproduzam comodamente.

1) tautologia

Tal como está organizada, a academia não estimula os novos cientistas a participarem no aprofundamento ou na superação das teorias existentes, que determinam como se interpretam os dados, mas tão somente na sua acrítica reprodução, única forma destes se verem admitidos na restrita ‘comunidade científica’. Fazer carreira no mundo da ciência implica, em primeiro lugar, replicar indistintamente as teorias em vigor – que assim se tornam pau para toda a obra. Quando um pequeníssimo conjunto de construções teóricas (logo de abordagens, leituras, conclusões) são empregues no estudo de uma grande diversidade de casos, a produção científica torna-se tautológica. Quem orienta uma tese não costuma estar interessado em que o seu mestrando ou doutorando questione os pressupostos teóricos em que o trabalho de investigação do orientador assenta, porque desse modo é toda a carreira deste que é de certa forma posta em causa. É assim com mão de ferro que a herança científica se vai transmitindo hierarquicamente, como um tesouro sagrado e inviolável que passa de ‘pai’ para ‘filho’, devendo a todo o custo perpetuar-se e manter-se a salvo de deformações. Consequentemente, as mudanças nos paradigmas teóricos das ciências sociais tornam-se muito lentas, não acompanhando, nem de perto nem de longe, um mundo em transformação acelerada.

2) exiguidade cognitiva

Outra explicação relaciona-se com o alcance cognitivo das teses doutorais, que caiu quase a pique. Quem comparar uma tese, numa qualquer área, que tenha sido realizada há trinta anos com uma que foi defendida a semana passada irá certamente reparar numa diminuição abrupta da abrangência cognitiva do trabalho (o campo cujo conhecimento ele permite aumentar), que se traduz por exemplo num muito menor alcance geográfico das conclusões propostas. Lá onde há umas décadas se procurava compreender a floresta, tenta-se hoje explicar a árvore. A noção de ‘totalidade’ nunca esteve tão afastada da prática científica. E os cientistas sociais nunca estiveram tão longe de entender as dinâmicas complexas e dialécticas que determinam o presente. Encontrar explicações para esta decadência não é fácil – mas é fácil de prever que não será uma tese doutoral a fazê-lo.

3) imitação

Por outro lado, devem mencionar-se aqui os autores que todos os investigadores citam mas que ninguém verdadeiramente lê (Foucault será o caso mais evidente). Na verdade, nunca se leu tão pouco nem tão mal. Nunca os investigadores foram tão descaradamente analfabetos. Reproduzir, replicar, copiar tornaram-se as tarefas que se exigem hoje a qualquer um que queira ser bem sucedido nesta carreira. A verdadeira arte reside em fazê-lo eliminando os indícios que possam levar a ser-se acusado de plagiador. Se nunca se falou tanto de plágio em ciência é porque o plágio está hoje, de facto, no epicentro da sua produção.

4) produção de valor

Mas o golpe de misericórdia dado à academia foi a sua inclusão na esfera empresarial. Por exemplo, um laboratório do respeitável Centro de Estudos Sociais, chamado ‘Cidades, Culturas e Arquitectura’, coordena hoje o desenvolvimento de pesquisas centradas no turismo criativo. Se consultarmos a sua página web, lemos que “O projeto (chamado CREATOUR) está estruturado de acordo com as dimensões-chave para a valorização do sector criativo: 1) construir conhecimento e capacidade, 2) apoiar o desenvolvimento de conteúdos e ligação da criatividade ao lugar, e 3) reforçar a formação de redes e clusters.” Noutra página do mesmo projecto, lemos também que “The project aims to develop a sustainable creative tourism sector to boost tourism in small cities and rural areas”. Esta prostituição pura e dura da investigação, vendida aos interesses da economia, faz do investigador um empregado ao serviço de empreendedores. Estes, enquanto competem entre si por um lugar na cadeia global de produção de valor, não lhe pedem uma análise crítica para com a sociedade mas para com os seus negócios. O foco da ciência desloca-se assim subtilmente, passando a ser a rentabilidade de um sector da economia a determinar o rumo a seguir pelas suas investigações. E os seus contributos, pagos com dinheiro dos contribuintes, deixam de esclarecer a comunidade sobre a natureza do mundo actual; eles antes esclarecem aos agentes económicos qual a natureza da comunidade que estes desejam explorar.

O impasse catalão visto de dentro (XII)

 

desespero: Madrid vai jogando as suas cartas (pela primeira vez) com inteligência e da Catalunha nem uma greve geral se decreta contra o 155

Esta todo controlado. Ya está todo controlado.

Rajoy tiene su 155, Puigdemont ha declarado su república aunque algunos juristas empiezan a decir que… bueno, que bien bien no la ha declarado (y esto será seguramente lo que diga delante de un juez). Y vamos a unas elecciones el 21 de diciembre. Elecciones normales en un pais normal, España, que es desde donde te escribo.

Una pena. Porque la fractura social es brutal, porque los unionistas dan mucho miedo (ya se que las imagenes son de cuatro idiotas y que entre los catalanistas las encontrariamos tambien, pero… joder… no es ya que sean groseros y violentos, es que son antiguos, reivindicando el fascimo y la dictadura que se acabó hace 40 años). Una pena porque Catalunya es más pobre y porque hemos perdido la industria cultural, hemos perdido las editoriales y la industria audiovisual dependía de TV3, que era quien hacia muchos encargos y coproducía la mayoría de las producciones independientes, y a TV3 le van a cortar el dinero. No será brutal (el centralismo de momento lo está haciendo perfecto, sin brutalidad) peró será igual de efectivo.

Ya te lo he dicho: el independentismo se ha convertido en un vampiro que necesita martires (no necesariamente sangrientos, solo con que encarcelen a alguien le es suficiente). Veremos si el estado central se lo da. De momento los políticos creo que estan calmando las cosas, que estan intentando apagar una revolución para la que no estaba preparado nadie, ni en Madrid, ni en Barcelona ni en Bruselas.

A ver como acaba, porque hasta el 21 de diciembre falta mucho y la realidad puede acabarse imponiendo.

De momento, hoy, lunes vamos a ir todos a trabajar. Si hubieran declarado una vaga general se hubiera podido demostrar que el país se paraliza y que, por tanto, el 155 no se puede aplicar. Pero quizas da miedo que tambien se mostraría que el poder está en la masa, en la clase media, y no en los despachos ni en los pasillos de los ministerios y parlamentos. La gente ha querido una cosa y este tipo de pasión da miedo a cualquier político, incluso a los que la usan para sus fines. Pero los de aquí van a seguir alentando esta pasión. Porque pasión son votos.

O sea: no se donde acaba esto. Espero que acabe antes de que acabe europa, porque como te decía esta europa que nos ha abandonado, este club de ricos que no se preocupa por la población, es el único motivo por el que todavía no han utilizado la fuerza bruta para reprimir un problema que está claro que se les ha ido de las manos.

roger, barcelona

O impasse catalão visto de dentro (XI)

 

sobre a aplicação moderada do 155 e a possibilidade de um pacto secreto entre Puigdemont e Rajoy

ontem às 22:57h

Hoy era un dia mágico. El president de la generalitat (ex-president para el gobierno central, que lo ha cesado) ha salido a hablar. La duda era si acataria el 155, su destitución, o si se enfrentaría a los 30 años de carcel del delito de sedición. Ha optado por los 30 años. Sigue siendo el president y inaguramos un periodo de dos legalidades muy extraño. El videpresident Junqueras, de ERC, tambien.

Ya te decía por eso que estoy conspiranoico. Que veia la posibilidad de que hubiera un pacto secreto. El president queria convocar elecciones el dia 20. Ve que la revolución es imparable y que el pueblo se lo come con patatas. En Madrid tienen que aplicar el 155 sí o sí, pue sus electores lo reclaman. Solución? proclama la independencia -el pueblo catalan queda contento- y los de Madrid aplican el 155 y convocan elecciones el dia 21, solo un día de diferencia. El resultado final es el mismo, elecciones, pero los dos han quedado bien.

El 155 que estan aplicando es moderado, perfecto, diria que tiene más de flema británica que de pasion ibérica.

Lo que me hace sospechar es que ahora, a tan solo unas pocas horas de que el president Puigdemont se haya declarado en rebeldía contra el estado, aparezca en la primera página de La Vanguardia (el diario conservador catalán por excelencia) y en la Razón (lo mismo pero de Madrid) que “el gobierno -central, se entiende- vería con buenos ojos que Puigdemont se presentara a las elecciones del 21-D”.

A pocas horas de rebelarse los diarios unionistas de derechas ya lo estan perdonando y verian con buenos ojos -ellos y el gobierno central- que se presentara a las elecciones? Huele mal. Veremos que pasa.

Será facil saberlo: si pasa por lo menos cinco años en prisión no había pacto, si no… no me van a quitar de la sospecha.

Ahora la esperanza de la república catalana está en que alguien en nombre del gobierno central se equivoque (detengan al presidente o a alguien importante, metan en la carcel a alguien por sus ideas, toquen la escuela o la televisión pública, hagan algún tipo de martir…). Como son muchos y hay que son muy vengativos puede que pase. Diria que es lo más probable. Veremos.

hoje às 8:14h

Los periodicos pro-españolistas estan muy moderados. Porque no puedo abandonarme como todo el mundo a la euforia revolucionaria y sigo desconfiando de los politicos?

La verdad es que el president se enfrenta a penas de carcel (aunque en la vanguardia ya dicen que no se le puede aplicar el delito de rebelion -que es el duro, con 30 años-) y que la CUP está muy tranquila (y estan muy cerca del govern y si se olieran algo raro irian a por todas, no son pactistas en ningun caso, de estos sí me fio en este sentido).

Todo indica que estamos en una republica real.

Pero sigo sin fiarme. No tengo remedio.

Y si tuviera que escojer ahora apostaría porque ha habido pacto. Espero -y mucho- equivocarme.

às 8:47h

Es cierto: un pacto que alejara a puigdemont de la carcel beneficiaria al govierno central, que tendria solucionado un problemon, y puigdemont podria cumplir su palabra (no presentarse a las proximas elecciones) convirtiendose en un mito (habria sido presidente de una catalunya independiente, habria salvado su partido, a si mismo y al pais: un mito autentico).

Pero es cierto que un pacto es casi imposible.

Llegados a este punto:

– ninguna de las partes se fia de la otra

-ninguna de las partes puede asegurar el cumplimiento de su parte, porque no controla todos los aspectos de la realidad

La realidad revolucionaria en la calle existe. Y por tanto es imprevisible. Un pacto a alto nivel (soy un conspiranoico, lo se) no asegura nada. La realidad se puede imponer en cualquier momento.

roger, barcelona