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Jornalismo e propaganda

O jornal Público informa hoje, pela mão versada na arte do copy paste de Maria Lopes, que “Balsemão cria um grupo de Bilderberg à portuguesa em Cascais”. No artigo a jornalista observa, sem o mais pequeno vestígio de crítica, que o grupo “pretende ser um fórum de pensamento estratégico em que personalidades essencialmente da sociedade civil procuram discutir soluções para os problemas que o país e a Europa enfrentam”. Imagino que esta informação foi precisamente o grupo quem amavelmente forneceu à jornalista, a qual se limitou a verter para o jornal, sem qualquer exame e tal qual como a recebera. Entre outras informações que parecem ter sido obtidas na mesma fonte sem terem sido submetidas a qualquer tipo de triagem, a jornalista acrescenta que “o objectivo deste novo fórum é (…) ajudar a definir os caminhos e estratégias para que o país tenha uma economia mais forte, mais justa” (sublinhado meu).

Depreendemos que, se a preocupação do grupo é a justiça na economia, o Francisco Louçã deverá ser um dos cabeças de cartaz. No entanto, lemos a lista de membros divulgada pelo jornal e não encontramos o seu nome junto da “empresária Paula Amorim, presidente do Grupo Amorim; Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian; Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud; Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais; Francisco Pedro Balsemão, presidente da Impresa; António Lagartixo, partner na Deloitte Portugal & Angola; Vasco de Mello, presidente do grupo José de Mello; Pedro Penalva, presidente da AON, um grupo de serviços de gestão de riscos, corretagem de seguros e recursos humanos; António Ramalho, presidente do Novo Banco; e Carlos Gomes da Silva, presidente da comissão executiva da Galp Energia.”

O jornal que em 1999 despediu um jornalista estagiário porque, na cobertura à reunião do clube Bilderberg em Sintra, usara adjectivos na altura considerados “impróprios para jornalismo” (do género de ‘faustoso’) para descrever o cenário do encontro, sabe que não é necessário adjectivar quando se trata de cuidar da reputação e dos negócios de quem se serve dos seus serviços. Percebe-se porque é que Maria Lopes continua no Público há tantos anos, ela que já lá estava à data daquela peripécia tão reveladora de que, em vez de jornalismo, o ofício que mantém as redacções a funcionar é o de cuidar da imagem e da reputação de uma série de clientes e interesses; o de legitimar os seus projectos sociais e económicos. Houve um tempo em que fazer jornalismo implicava investigar e escrutinar. Dava trabalho e exigia tempo e recursos. Hoje, quando até as ciências sociais são inibidas de empreender uma análise crítica do real, tornou-se sinónimo de promoção, propaganda e merchandising.

Participação e desilusão

Um historiador que dentro de umas décadas se debruce sobre o sistema político-económico actual sentirá provavelmente algum espanto, quando se der conta da adesão generalizada de que este sistema goza, apesar das catastróficas consequências sociais e ambientais de que é responsável. Como não sentir assombro perante um sistema depredador ao qual porém as massas aderem? É bem possível todavia que, pese embora esta adesão tão inquestionável, o historiador de amanhã se aperceba também de que uma descrença latente se expressa hoje a cada instante – e que, afinal de contas, a ordem e a estabilidade deste portentoso sistema são bem mais frágeis do que à primeira vista aparentam. Sintomas não faltam.

Se olharmos para o campo da alimentação, quase toda a gente que compra regularmente nos hipermercados maçãs ou laranjas que receberam dezenas de tratamentos químicos durante a sua produção e que têm tanto de brilho como de falta de paladar, já comentou pelo menos uma vez que “os químicos são venenos”, terríveis para a saúde e ambiente. Se virarmos a atenção para as alterações climáticas cada vez mais assustadoras, desencadeadas pelo modo de vida dominante, também frequentemente ouvimos que “o culpado disto tudo é o homem”. Já ouvimos também muitas destas pessoas, que contribuíram para eleger os sucessivos governos que estiveram em funções nas últimas décadas, afirmarem que, como uma mancha de óleo, “a corrupção alastrou à classe política”. E tão pouco costuma ser positiva a opinião geral sobre a actuação dos agentes económicos e do papel decisivo que desempenham na configuração do presente – especulam, para lembrar apenas um exemplo actual, com a habitação urbana, assim expulsando inúmeros habitantes dos bairros onde cresceram; e exploram, para lembrar apenas outro, a força de trabalho com métodos cada vez mais brutais, fazendo banalizar os burnouts na população empregada. Poderíamos nomear aqui igualmente as condenações gerais aos “abusos da banca”, aos “monopólios energéticos” ou aos “escândalos da indústria automóvel”.

Não podem portanto restar dúvidas de que fazemos parte de um sistema em que quase todos diligentemente participam (na figura do consumidor, do eleitor, do trabalhador, do desempregado que recebe um subsídio) apesar de praticamente ninguém sair em sua defesa – dos seus métodos produtivos ou daqueles que empregam as elites políticas e económicas. Apesar da participação ser total, a descrença é profunda e é geral. Tornou-se raro o cidadão que ainda acredita num qualquer futuro risonho. O optimismo e as promessas de prosperidade da sociedade capitalista do pós-guerra deram lugar a um niilismo que tornou mais mainstream do que nunca o “no future” com que Johnny Rotten provocava o mundo em 1977. Doravante, praticamente qualquer pessoa é susceptível de ser vista a desfilar pelas ruas numa manifestação, reclamando um direito, um salário, uma reforma, um planeta.

O medo de perder tudo, e ficar sem nada, veio roubar o lugar à euforia de se acreditar que se podia ter tudo. Sarkozy ainda pôde escolher, na campanha presidencial de 2006, o lema “Ensemble tout devient possible”. Hoje, um medo difuso veio eclipsar o fascínio que poderiam exercer tais promessas. Devem-se justamente a ele as últimas escolhas eleitorais, que nem os mais avisados analistas, do alto da sua sabedoria mediática, puderam prever. Ninguém vota já por acreditar num qualquer projecto. Cada um vota apenas para defender-se – uns dos refugiados e dos terroristas, outros do desemprego e da especulação, outros da violência e da criminalidade, outros simplesmente da corrupção, outros ainda do aquecimento, dos incêndios ou das cheias; e todos sem excepção da “crise, que alastrou a todos os domínios da existência, tornando-se simultaneamente “social”, “económica”, “ecológica”, “ética”… O voto tornou-se uma ferramenta do conservadorismo. Não serve já para transformar o mundo, alterando-lhe radicalmente as bases, apenas para defender aquele que vota de uma onda destruidora que ninguém sabe até onde poderá chegar. São reveladoras as metas nostálgicas da actual agenda do Bloco de Esquerda: “recuperar a economia e o emprego”, “parar os despejos”, “proteger o serviço nacional de saúde” (sublinhados meus).

A política tornou-se uma ferramenta para recuperar um paraíso que se perdeu no tempo, quando supostamente o planeta gozava de temperaturas normais, os oceanos de águas cristalinas, os campos de enxames de abelhas, a classe política de valores, as cidades de alugueres acessíveis, a economia de oportunidades para todos. A classe política em bloco perdeu a ilusão num qualquer desenlace inédito que poderia resultar de um caminhar em frente, rumo ao desconhecido. O caminho faz-se agora andando, planificada e conscientemente, para trás: é lá que estão os referentes de orientação. Entrada no novo milénio, a sociedade do espectáculo passou, numa mudança brusca, de uma longa fase eufórica para um estado agonizante. O confronto com os seus limites, na depredação industrial dos recursos naturais ou na sobre-exploração dos humanos, tornou-a pessimista e descrente quanto ao seu próprio futuro. Mas esta desconfiança não parece ser, ao contrário do que seria de esperar, uma boa notícia para os partidos de esquerda que têm aguardado pacientemente pela sua vez. Porque, perante o pessimismo ambiente, o discurso da direita reaccionária, secundado por aquele das velhas religiões, tem-se revelado mais eficaz do que as promessas da esquerda, por muito que esta também se tenha tornado saudosista. Andar para trás é, obviamente, património da direita. Bolsonaro ganhou as eleições brasileiras – como seria de esperar não faltou participação; segue-se a desilusão.

Polícias militarizadas e manifs violentas, uma dicotomia em construção

É exactamente na forma como reprime quem se manifesta que o poder democrático revela a sua essência de poder separado e autoritário. Um episódio ocorrido ontem em Almada, e noticiado nos jornais, concorre para validar esta tese que já foi aqui defendida mais do que uma vez.

“Polícias militarizadas de vários países terminaram nesta sexta-feira em Almada, no distrito de Setúbal, o exercício EGEX18, organizado pela GNR no âmbito da presidência portuguesa do Comité Interministerial de Alto Nível da Eurogendfor, a Força de Gendarmeria (polícia militarizada) Europeia”, noticiava ontem o Público, que informava também serem oito esses países, um dos quais a Turquia. “O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, esteve presente na cerimónia e, em declarações aos jornalistas, sublinhou a importância da Guarda Nacional Republicana: «Portugal tem a honra e a responsabilidade este ano, através da GNR, de comandar esta estrutura, que tem elevado nível de prontidão, de qualificação para cenários de afirmação dos direitos fundamentais, de manutenção da ordem pública, de prevenção e combate a actos terroristas e tem-no demonstrado», disse o ministro.” Segundo o mesmo jornal, “O exercício decorreu desde segunda-feira, nas antigas instalações da Lisnave, em Almada. Objectivo: aumentar a capacidade de gestão internacional de crises e de contribuir para o desenvolvimento de uma política comum de segurança na União Europeia.”

Entre os vários episódios simulados a que as forças policiais tiveram que reagir contam-se, continuando a citar a mesma fonte, “actos terroristas” e “manifestações violentas”. Que os gestores das democracias modernas não distinguem entre quem pratica atentados terroristas e quem se manifesta “violentamente” nas ruas é por demais sabido. Na verdade, o seu maior terror são justamente os raros dias em que o povo encolerizado sai à rua e se dirige em massa à grande casa da representatividade democrática, o Parlamento ou o Palácio do Presidente. Se estiver suficientemente irado, poderá querer invadi-la e ser recebido, olhos nos olhos, por quem sempre lhe disse agir em sua representação. É então que uma horda de robocops militarizados o irá irremediavelmente varrer à bastonada (como bem se recordam aqueles que, num certo final de tarde, se manifestaram em frente ao Parlamento contra o governo Passos Coelho).

É conhecido o argumento que quem governa os regimes democráticos usa para reprimir violentamente os manifestantes quando a legitimidade do seu poder é espontaneamente questionada nas ruas: a ordem democrática funda-se exclusivamente nos resultados das eleições; o poder vem das urnas, não das ruas. Qualquer desfile popular que não acate as decisões tomadas pelos representantes que foram democraticamente eleitos – para no entanto se constituírem em poder separado – deverá por isso ser brutalmente reprimido. Não espanta pois que as polícias democráticas usem métodos tão brutais como as polícias fascistas, já que o que para elas está em jogo, quando existem manifestações questionando as decisões tomadas por um ou outro regime, é a pura reprodução de um poder que se separou das pessoas – seja este ‘democrático’ ou ‘fascista’ – e que, a partir do momento em que se constituiu, deixou de se sentir a elas vinculado. Por conseguinte, tão pouco deve espantar que, nos exercícios de Almada, a polícia portuguesa – sem que isso tenha indignado alguém – tenha partilhado experiências com a polícia da Turquia, abundantemente treinada (A) na defesa de um regime autoritário, (B) na guerra contra uma minoria (povo curdo) marcada por execuções arbitrárias e (C) na repressão diária de intelectuais e académicos.

Cidade e capitalismo, ponto da situação

 

Recordo-me das cidades no tempo em que os moradores se abasteciam diariamente em mercearias situadas nas ruas e nos bairros em que viviam ou num mercado central, onde produtores regionais se reuniam para aí venderem os seus produtos. Na cidade onde cresci, não havia tão pouco rua onde faltasse um café em que boa parte dos clientes se demorava horas a fio, autêntico palco para uma socialização informal e espontânea que punha em contacto diferentes moradores e diferentes gerações. Lembro-me também de muitas noites de verão passadas numa grande praça que agregava centenas de pessoas, vindas a pé, que nada consumiam, apenas se encontravam – hoje, nessa mesma praça, somente a transmissão de um evento desportivo ou a estreia de um novo menu do McDonald’s reúne tantas pessoas. As cidades estavam então repletas de lugares cheios de vida colectiva onde se reproduziam velhos costumes pré-capitalistas, como a comunicação directa e livre entre vizinhos. Assisti depois ao desmoronamento progressivo de todos estes lugares e à reconfiguração capitalista da geografia e da sociedade urbanas, num processo que, como um terramoto, abalou e destruiu as cidades tal como as conhecíamos. E o que se perdeu não foram meramente as redes de convívio, solidariedade e partilha; foi também o acesso a uma paisagem repleta de história, essencial para a construção da memória, bem como a uma sólida vida cultural, ancorada nessa paisagem e construída ao longo de gerações em torno de teatros, bibliotecas, cafés, associações, praças, jardins ou museus.

Foi quando a mercadoria vedeta da sociedade do espectáculo, o automóvel,  irrompeu no imaginário colectivo como símbolo maior de prosperidade e emancipação individual, que um novo desenho das cidades começou a ser posto em prática. Estas foram integradas numa ampla rede de mobilidades ao mesmo tempo em que nas periferias surgiam pólos comerciais, empresariais e residenciais, totalmente subordinados ao automóvel. As velhas cidades, sem condições para a circulação e o estacionamento em massa, tornaram-se rapidamente obsoletas. Habitá-las deixava de constituir uma vantagem para a maioria da população, dado que toda a oferta, à excepção da cultural, se transferira para fora delas. Foi assim que, no espaço de uma geração, se desertificaram todas as cidades deste país: Coimbra, Lisboa, Porto, Évora, entre tantas outras, sucumbiram à nova organização capitalista da geografia urbana, com o shopping, o hipermercado e o automóvel à cabeça de um vasto território que, pela primeira vez na história urbana, não incluía lugares que promovessem o convívio nem a  partilha. Nele, apenas se reproduziam a separação, a passividade e a atomização.

Mas, se há vinte ou trinta anos era lucrativo arruinar as cidades, transferindo as suas dinâmicas de emprego, habitação ou comércio para novos bairros fabricados à pressa na periferia onde, sem obstáculos, o capital mais rapidamente encontrava formas eficazes de se multiplicar, agora esse mesmo capital veio reocupar as ruínas que ele próprio gerara – e onde se haviam entretanto instalado formas de vida minoritárias, por vezes marginais, animadas por imigrantes, subculturas, comunidades lgbt ou artistas inconformados. Com a redescoberta burguesa dos encantos da velha cidade, subitamente investida de prestígio e glamour, tornou-se urgente encontrar estratégias para a sua revalorização e consequente expulsão das minorias que a haviam ocupado e das classes populares que nunca a tinham deixado. Encontramo-nos agora numa fase da configuração capitalista do território urbano em que as cidades reentraram em grande na agenda do investimento. E não só na área do turismo, dado que as transformações radicais da oferta comercial e residencial nos seus bairros mais carismáticos não são apenas desencadeadas pela turistificação. Bastaria abrirmos uma Time Out para percebermos que elas se dirigem na mesma medida à burguesia local, da qual pouco se fala quando se abordam estas transformações súbitas: do anúncio de charmosas boutiques a gigantes concept stores, não faltam, em qualquer dos bairros do centro de Lisboa que até aqui estavam excluídos do roteiro burguês, atractivos para as classes mais prósperas da cidade. Também um jornal catalão noticiava esta semana que o Ikea está a ponto de chegar ao centro de Barcelona, bem como de outras 29 cidades, revelando assim que, no momento presente, não há actor económico que queira ficar de fora da grande festa do consumo que se transferiu para as cidades. E que estas estão a recuperar o lugar que tinham perdido no coração não apenas do território urbano e da metrópole, mas também do capitalismo.

Entretanto em Casablanca…

Cinco mil anos de tensões urbanas: uma breve história da cidade

Introdução: essência e atributos da cidade

Enquanto que a aldeia se estrutura em torno da satisfação de necessidades elementares, que ela garante de facto ao maior número, a cidade, estando longe de garanti-las adequadamente à maioria dos seus habitantes, move-se por outras causas: foi aí que a humanidade melhor soube demonstrar a vitalidade das suas sociedades e a originalidade do seu espírito criador. A cidade seria impensável sem a emergência do registo escrito, que a vida rural pôde ignorar até recentemente. Foi também na cidade que o homem melhor manifestou o seu desejo de imortalidade, pela criação de catedrais, palácios, torres, estátuas ou museus. E assim, condensando e conservando vidas, ideologias e experiências na sua paisagem, mas também na literatura ou na arte que ela dinamiza, a cidade une, como nenhuma outra geografia humana, passado, presente e futuro.

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