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Autárquicas no Facebook

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Os Tesourinhos deram o mote, seguiram-se o Master Tacho e o Autarqui’Daltons, e outros devem dar à rede durante o Verão para acompanhar as Autárquicas de Outubro de 2017. As próximas eleições autárquicas é para trocar a Judite de Sousa e o Rodrigues dos Santos pelas páginas da especialidade no facebook. Enquanto as televisões, as rádios e os jornais darão à estampa perfis higienizados, debates redondos e reportagens em comícios que não interessam a ninguém, as redes sociais prometem palco a outra forma de olhar para o espectáculo da democracia, denunciando os candidatos catavento, que já foram candidatos por vários partidos e movimentos, os candidatos contraditórios, que defendem algo sem qualquer sentido, ou candidatos que se candidatam a lugares de onde foram corridos pela justiça, por crimes que cometeram no exercício do cargo para o qual agora se recandidatam. Vai ser um fartote!

Alentejo criativo

 

A criatividade converteu-se numa das qualidades mais valorizadas pelo capitalismo. Porque é ela que permite inventar negócios e produtos inovadores, com altas margens de rentabilidade no ultra-competitivo mercado único mundial. Em Lisboa, uma área privilegiada da zona oriental da cidade (a antiga Manutenção Militar) prepara-se para receber empresas que aí se queiram gratuitamente instalar, desde que estas operem nas indústrias ditas criativas. Será o maior “Hub Criativo e empreendedor nacional”, noticiava um jornal qualquer, num artigo que também revelava a alegria que o presidente da câmara e o primeiro ministro sentiam pelo sucedido.

Mas a criatividade está a chegar também às periferias, mesmo àquelas onde não conseguíamos imaginar mais do que extensas planícies, rebanhos de ovelhas e sobreiros. Hoje mesmo, o Lonely Planet, um guia de viagens que tem dado um inestimável contributo para levar o turismo aos lugares mais recônditos e que se tornou particularmente famoso entre os turistas que acham que não o são (precisamente porque exploram esses lugares recônditos, “quase virgens”), considerava o Alentejo uma das 10 regiões europeias a visitar em 2017. Entre os motivos para tão honrosa distinção, estão os “novos investimentos turísticos” que incluem “uma série de restaurantes criativos” e “casas de hóspedes imaginativas”.

Outro sintoma de que a criatividade está a assentar arraiais no Alentejo é a conferência internacional que decorrerá em Évora no início de Junho, chamada ‘Connecting Creative Ecosystems’, promovida pela CIMAC – Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central e inserida no projeto “Valorização, promoção e desenvolvimento do património histórico e cultural de Évora e da região envolvente” que é “cofinanciado pelo Programa Alentejo 2020, no âmbito de uma parceria regional alargada e liderada pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo”. Percorrendo temas que vão da gestão cultural à economia criativa, a conferência contará com um painel variado de intervenientes, alguns dos quais conhecidos pela sua visão crítica das democracias neoliberais (António Guerreiro, Tiago Mota Saraiva), mas todos eles dispostos a dar um contributo para um evento que, destinando-se tanto a programadores culturais como a agentes turísticos, pretende contribuir para “consolidar a Região como destino cultural, artístico e turístico”, ou seja, ajudar o Alentejo a trilhar o seu caminho no competitivo mundo da economia e do turismo globais.

Veneza, o melhor destino turístico do mundo

“When it comes to overseas, my favourite place is Venice. I’m an incurable romantic and love the grandeur and ambience of the place. There’s nothing better than sitting in a small restaurant by a canal, enjoying delicious pasta and some local Italian wine. It’s my idea of heaven.” – Alan Titchmarsh

“The nicest hotel I’ve stayed in? The Cipriani, especially if you have one of the suites on the top where you can look out and see the whole of Venice.” – AC Grayling

“I’ve had three wonderful holidays in Venice, which is so beautiful and romantic with the old gondolas and little restaurants on the water. We stayed at the Hotel Danieli and my wife remembers the magnificent four-poster bed in our room. It’s one of those places where you really spoil and pamper yourself.” – Sir Trevor Brooking

Fotos de Martin Parr

Sobre a violência sem nome a que o capitalismo diariamente me sujeita

“Vale a pena lembrar este episódio: em 27 de Abril de 2010, por iniciativa de estudantes da Faculdade de Ciências da Cidade do México, realizou-se um encontro, entre estudantes e representantes das comunidades de Jalisco, de San Luis Potosí, do Guerrero e do Distrito Federal que lutam contra a instalação de minas a céu aberto, contra projectos de barragens, de auto-estradas, de criação industrial de gado, de indústrias químicas. Todas estas empresas, norte-americanas ou europeias, exercem sobre as pessoas uma violência sem nome: êxodo de populações expulsas das suas terras, poluição dos rios e dos lençóis freáticos, poluição do ar… Uma interveniente disse a certa altura: É através de tais empresas que a violência é transformada numa forma de vida.”

In: Georges Lapierre, “A comunalidade como teoria e como prática”, Flauta de Luz, número 4, 2017.

Esta hostilidade que nos é dirigida pelos promotores da valorização do capital deve ser evidentemente vista como uma declaração de guerra que não pode continuar a ser ignorada.

“Eu acredito muito que Portugal tem de ser vendido como a Chanel e não como a Zara…Temos que nos saber vender bem… o português não se vende bem. Mas já tá melhor. Eu acho que Portugal já se está a tornar uma marca sexy, que não era”

Notas para uma crítica radical do turismo (VIII)

Eis porque fazer guerra ao turismo se tornou um imperativo: o turista não é um ser inofensivo, fazer turismo é tomar uma opção política pela hegemonia do capital

O turista reúne em si o vasto conjunto de propensões e atributos que o capitalismo gostaria de ver disseminados por cada um de nós. Ele é individualista, é consumidor, é espectador, é obediente, é acrítico, é analfabetoele não é consequentemente nem altruísta, nem activo nem insubmisso; nem muito menos instruído, caso contrário não se contentaria com o consumo passivo de cenários que, apesar de serem supostamente ‘verdadeiros’ e ‘autênticos’, foram meticulosamente formatados por especialistas em comunicação para poderem ser reconhecidos instantaneamente.

Quando um medíocre jornalista do Público ou um reputado professor da Universidade do Porto afirmam que “todos somos turistas”, eles, conscientemente ou não, estão a naturalizar e legitimar cada uma daquelas qualidades em nós (individualismo, consumismo, passividade, obediência, etc.), precisamente aquelas que fazem de nós seres governáveis e agentes sociais unificados pelo capitalismo. Este omnipresente “todos somos turistas” – que também ouvi da boca de todos os intervenientes em debates sobre o turismo – é parte da ideologia neoliberal de que todos somos consumidores, de que não existe vida para lá da mercadoria, de que não existem alternativas a este mundo mediado pelo capital, enfim, de que o capitalismo é mesmo a derradeira etapa da história humana. Alain Badiou: “o que define o nosso tempo é a tentativa de impor à humanidade a convicção de que só há um caminho para a história dos homens (…) sem nunca se afirmar que esse é um caminho excelente, mas apenas dizendo que não há outra solução.” Eis, em síntese, o que nos está a dizer aquele que afirma que “todos somos turistas”.

O turista é o cidadão modelo com que sonha qualquer político que ambicione gerir, sem tensões nem resistências, as democracias liberais em que vivemos. Sobretudo, porque o turista se deixa docilmente coagir, manipular e conduzir, o que não é pouco, sentindo-se (como se isso não bastasse) cómodo e seguro sob a vigilância das câmaras de segurança e das patrulhas da polícia ou do exército.

Na guerra em curso desencadeada pelos promotores da valorização do capital,  o turista sabe muito bem qual o partido a tomar. Desengane-se quem vir nele um sujeito politicamente incoerente, inocente e imparcial, que renuncia a um posicionamento político. Fazer turismo é já em si mesmo tomar uma opção política, tomar partido por um regime político concreto; precisamente aquele que cria, vigia e policia o mundo desigual, estandardizado e vendável que foi recodificado para o turismo. E é precisamente isto que faz do turista o oposto de um ser inofensivo.

Logo, o turista é hoje muito mais do que um mero consumidor de experiência e territórios. Ele tornou-se uma figura exemplar, o personagem padrão das democracias liberais, o seu protótipo comportamental, modelo ideal a que todos deveríamos aspirar. O mundo que, dos picos mais elevados e inacessíveis até aos bairros mais populares, se adultera e mercantiliza para o turismo não é neutro nem apolítico. Trata-se sim do mundo que melhor consegue reproduzir os regimes da especulação, do espectáculo e da aparência que são as iníquas democracias neoliberais.

É neste sentido que os territórios que, durante as últimas décadas, o turista ocupou  devem ser hostilizados e reocupados por quem hoje, na guerra contra a hegemonia capitalista, se mobiliza com vista à constituição de formas de vida colectiva em que as relações sociais não sejam mediadas pelo capital e pela mercadoria, e em que o interesse comum se substitua à busca do lucro. A reapropriação colectiva dos territórios usurpados pelo capital tornou-se um imperativo desta luta que acaba de começar.

Fotos: Barcelona (1,2 e 3), Israel (4) e Rio de Janeiro (5)

Outras notas para uma crítica radical do turismo: (I): A falsificação do real  / (II): O turista – esboço de definição / (III): O turismo, uma invenção do capitalismo / (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes / (V): Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo / (VI): O turismo, uma revolução semiótica sem precedentes / (VII): O que faz mover um turista?