Maison Centrale de Clairvaux (prisão), Aube, França, 1998. Foto: Raymond Depardon/Magnum Photos

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Tout le monde déteste le travail

Travailler revient toujours à se soumettre à une finalité étrangère, jamais à la nôtre.

Poucos peixes, muitos detritos plásticos e algumas medusas: o oceano em 2018

Ao largo da ilha de Bali (Indonésia), Março de 2018

O não-jornalismo

Abel Coentrão, jornalista portuense do Público, apresenta hoje no jornal o projecto do atelier de arquitectura Pedra Líquida que já foi aprovado pelos organismos competentes para poder brotar no espaço de uma ruína junto à estação de São Bento, no Porto. O novo edifício, em tão privilegiado local da cidade (uma parte da área classificada pela Unesco como património da Humanidade), e financiado com dinheiros públicos europeus, destina-se à criação de dezasseis apartamentos turísticos. Coentrão, que não questiona este destino para o imóvel, realça no novo projecto as suas “linhas simples” e as cores escolhidas, que fazem o edifício procurar “diluir-se” na “escarpa granítica” contígua. Para lá de um reduzido léxico para descrever arquitecturas – o seu impacto e relações no espaço -, o jornalista revela que tão pouco consegue manusear conceitos antropológicos elementares, quando afirma que “a ruína” (que dará lugar ao novo edifício) é “uma espécie de não-lugar“.

Não-lugar é um daqueles conceitos que qualquer jornalista que escreve habitualmente sobre espaço urbano deveria estar familiarizado, dado o seu inquestionável contributo para o debate nas últimas três décadas sobre a evolução das geografias urbanas na contemporaneidade. Mas o Público não é o Guardian e Coentrão nunca deve ter aberto um livro de antropologia urbana em toda a sua vida, pelo que não deve espantar ninguém que os não-lugares, tal como Marc Augé os definiu, sejam precisamente o contrário daquilo que o jornalista portuense crê: espaços provisórios e transitórios para quem os frequenta, espaços sem memória, responsáveis pela rápida homogeneização e indiferenciação do território urbano, que não atendem à identidade e às referências das regiões nem tão pouco dialogam com a sua história.

Uma ruína, mesmo que Coentrão nunca tenha perdido quinze segundos a contemplá-la, é obviamente um lugar (e dos mais dignos), porque está ancorada na história de uma comunidade, porque tem um passado que a marcou e porque apenas esta comunidade lhe pode dar um amplo sentido e dirigir-lhe um vasto conjunto de afectos. A obra turística do atelier Pedra Líquida, que nenhuma comunidade jamais expressou o desejo de ver edificada e que não se destina a outra coisa que não seja gerar um espaço de ninguém, dirigido à pura circulação de capital e de consumidores solitários (os turistas), incapazes de estabelecerem relações interpessoais e, logo, de formar uma comunidade (o que os une é também o que os separa), é um não-lugar. Quanto ao trabalho jornalístico de Abel Coentrão creio que já todos perceberam do que se trata.

O momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social

O espaço público no Japão, visto por Afonso Barreto, 2017.

La Société du Smartphone

La Sociètè du Spectacle

La Société du Smartphone

O livro La Société du Spectacle foi publicado pela primeira vez em Paris no ano de 1967. Em Portugal a primeira tradução é de 1972 e foi seguida de perto pelo autor Guy Debord. É com base nesta edição que se elaborou o détournement de alguns capítulos substituindo a palavra «espectáculo» por «smartphone» mas mantendo a numeração e a sequência original. Este détournement, assim como as fotos ilustrativas, são da autoria de Maria Ramalho.

3. O Smartphone apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade, e como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente o sector que concentra todo o olhar e toda a consciência. Pelo próprio facto de este sector ser separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; e a unificação que realiza não é outra coisa senão uma linguagem oficial da separação generalizada.

4. O Smartphone não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediatizada por imagens.

5. O Smartphone não pode ser compreendido como o abuso de um mundo da visão, o produto das técnicas de difusão massiva de imagens. Ele é bem mais uma Weltanschauung tornada efectiva, materialmente traduzida. É uma visão do mundo que se objectivou.

6. O Smartphone compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projecto do modo de produção existente. Ele não é um suplemento ao mundo real, a sua decoração readicionada. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo directo de divertimentos, o Smartphone constituiu o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação omnipresente da escolha já feita na produção, e o seu consumo corolário. Forma e conteúdo do Smartphone são identicamente a justificação total das condições e dos fins do sistema existente. O Smartphone é também a presença permanente desta justificação, enquanto ocupação da parte principal do tempo vivido fora da produção moderna.

12. O Smartphone apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz que «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que de facto ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.

13. O carácter fundamentalmente tautológico do Smartphone decorre do simples facto que os seus meios são ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.

15. Enquanto indispensável adorno dos objectos hoje produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, e enquanto sector económico avançado que modela directamente uma multidão crescente de imagens-objectos, o Smartphone é a principal produção da sociedade actual.

16. O Smartphone submete a si os homens vivos na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si própria. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores.

30. A alienação do espectador em proveito do objecto contemplado (que é o resultado da sua própria actividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do Smartphone em relação ao homem que age aparece nisto que os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos representa. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o Smartphone está em toda a parte.

32. O Smartphone na sociedade corresponde a um fabrico concreto de alienação. A expansão económica é principalmente a expansão desta produção industrial precisa. O que cresce com a economia movendo-se para si própria não pode ser senão a alienação que estava justamente no seu núcleo original.

34. O Smartphone é o capital a um tal grau de acumulação que se torna imagem.

37. O mundo ao mesmo tempo presente e ausente que o Smartphone faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. E o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois o seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens entre si e face ao seu produto global.

42. O Smartphone é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social. Não só a relação com a mercadoria é visível, como também não se vê senão ela: o mundo que se vê é o seu mundo. A produção económica moderna estende a sua ditadura extensiva e intensamente.

215. O Smartphone é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O Smartphone é materialmente «a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem».

218. A consciência espectadora, prisioneira dum universo estreitado, limitada pelo écran do Smartphone, para trás do qual a sua vida foi deportada, não conhece mais do que os interlocutores fictícios que lhe falam unilateralmente da sua mercadoria e da política da sua mercadoria. O Smartphone, em toda a sua extensão, é o seu «sinal do espelho». Aqui se põe em cena a falsa saída dum autismo generalizado.

219. O Smartphone que é a extinção dos limites do eu e do mundo pelo esmagamento do eu que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura.