Apresentação do enigmático projecto em curso para um ‘porto espacial’ numa ilha açoreana

Informação crítica sobre o projecto aqui.

Participação e desilusão

Um historiador que dentro de umas décadas se debruce sobre o sistema político-económico actual sentirá provavelmente algum espanto, quando se der conta da adesão generalizada de que este sistema goza, apesar das catastróficas consequências sociais e ambientais de que é responsável. Como não sentir assombro perante um sistema depredador ao qual porém as massas aderem? É bem possível todavia que, pese embora esta adesão tão inquestionável, o historiador de amanhã se aperceba também de que uma descrença latente se expressa hoje a cada instante – e que, afinal de contas, a ordem e a estabilidade deste portentoso sistema são bem mais frágeis do que à primeira vista aparentam. Sintomas não faltam.

Se olharmos para o campo da alimentação, quase toda a gente que compra regularmente nos hipermercados maçãs ou laranjas que receberam dezenas de tratamentos químicos durante a sua produção e que têm tanto de brilho como de falta de paladar, já comentou pelo menos uma vez que “os químicos são venenos”, terríveis para a saúde e ambiente. Se virarmos a atenção para as alterações climáticas cada vez mais assustadoras, desencadeadas pelo modo de vida dominante, também frequentemente ouvimos que “o culpado disto tudo é o homem”. Já ouvimos também muitas destas pessoas, que contribuíram para eleger os sucessivos governos que estiveram em funções nas últimas décadas, afirmarem que, como uma mancha de óleo, “a corrupção alastrou à classe política”. E tão pouco costuma ser positiva a opinião geral sobre a actuação dos agentes económicos e do papel decisivo que desempenham na configuração do presente – especulam, para lembrar apenas um exemplo actual, com a habitação urbana, assim expulsando inúmeros habitantes dos bairros onde cresceram; e exploram, para lembrar apenas outro, a força de trabalho com métodos cada vez mais brutais, fazendo banalizar os burnouts na população empregada. Poderíamos nomear aqui igualmente as condenações gerais aos “abusos da banca”, aos “monopólios energéticos” ou aos “escândalos da indústria automóvel”.

Não podem portanto restar dúvidas de que fazemos parte de um sistema em que quase todos diligentemente participam (na figura do consumidor, do eleitor, do trabalhador, do desempregado que recebe um subsídio) apesar de praticamente ninguém sair em sua defesa – dos seus métodos produtivos ou daqueles que empregam as elites políticas e económicas. Apesar da participação ser total, a descrença é profunda e é geral. Tornou-se raro o cidadão que ainda acredita num qualquer futuro risonho. O optimismo e as promessas de prosperidade da sociedade capitalista do pós-guerra deram lugar a um niilismo que tornou mais mainstream do que nunca o “no future” com que Johnny Rotten provocava o mundo em 1977. Doravante, praticamente qualquer pessoa é susceptível de ser vista a desfilar pelas ruas numa manifestação, reclamando um direito, um salário, uma reforma, um planeta.

O medo de perder tudo, e ficar sem nada, veio roubar o lugar à euforia de se acreditar que se podia ter tudo. Sarkozy ainda pôde escolher, na campanha presidencial de 2006, o lema “Ensemble tout devient possible”. Hoje, um medo difuso veio eclipsar o fascínio que poderiam exercer tais promessas. Devem-se justamente a ele as últimas escolhas eleitorais, que nem os mais avisados analistas, do alto da sua sabedoria mediática, puderam prever. Ninguém vota já por acreditar num qualquer projecto. Cada um vota apenas para defender-se – uns dos refugiados e dos terroristas, outros do desemprego e da especulação, outros da violência e da criminalidade, outros simplesmente da corrupção, outros ainda do aquecimento, dos incêndios ou das cheias; e todos sem excepção da “crise, que alastrou a todos os domínios da existência, tornando-se simultaneamente “social”, “económica”, “ecológica”, “ética”… O voto tornou-se uma ferramenta do conservadorismo. Não serve já para transformar o mundo, alterando-lhe radicalmente as bases, apenas para defender aquele que vota de uma onda destruidora que ninguém sabe até onde poderá chegar. São reveladoras as metas nostálgicas da actual agenda do Bloco de Esquerda: “recuperar a economia e o emprego”, “parar os despejos”, “proteger o serviço nacional de saúde” (sublinhados meus).

A política tornou-se uma ferramenta para recuperar um paraíso que se perdeu no tempo, quando supostamente o planeta gozava de temperaturas normais, os oceanos de águas cristalinas, os campos de enxames de abelhas, a classe política de valores, as cidades de alugueres acessíveis, a economia de oportunidades para todos. A classe política em bloco perdeu a ilusão num qualquer desenlace inédito que poderia resultar de um caminhar em frente, rumo ao desconhecido. O caminho faz-se agora andando, planificada e conscientemente, para trás: é lá que estão os referentes de orientação. Entrada no novo milénio, a sociedade do espectáculo passou, numa mudança brusca, de uma longa fase eufórica para um estado agonizante. O confronto com os seus limites, na depredação industrial dos recursos naturais ou na sobre-exploração dos humanos, tornou-a pessimista e descrente quanto ao seu próprio futuro. Mas esta desconfiança não parece ser, ao contrário do que seria de esperar, uma boa notícia para os partidos de esquerda que têm aguardado pacientemente pela sua vez. Porque, perante o pessimismo ambiente, o discurso da direita reaccionária, secundado por aquele das velhas religiões, tem-se revelado mais eficaz do que as promessas da esquerda, por muito que esta também se tenha tornado saudosista. Andar para trás é, obviamente, património da direita. Bolsonaro ganhou as eleições brasileiras – como seria de esperar não faltou participação; segue-se a desilusão.

Polícias militarizadas e manifs violentas, uma dicotomia em construção

É exactamente na forma como reprime quem se manifesta que o poder democrático revela a sua essência de poder separado e autoritário. Um episódio ocorrido ontem em Almada, e noticiado nos jornais, concorre para validar esta tese que já foi aqui defendida mais do que uma vez.

“Polícias militarizadas de vários países terminaram nesta sexta-feira em Almada, no distrito de Setúbal, o exercício EGEX18, organizado pela GNR no âmbito da presidência portuguesa do Comité Interministerial de Alto Nível da Eurogendfor, a Força de Gendarmeria (polícia militarizada) Europeia”, noticiava ontem o Público, que informava também serem oito esses países, um dos quais a Turquia. “O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, esteve presente na cerimónia e, em declarações aos jornalistas, sublinhou a importância da Guarda Nacional Republicana: «Portugal tem a honra e a responsabilidade este ano, através da GNR, de comandar esta estrutura, que tem elevado nível de prontidão, de qualificação para cenários de afirmação dos direitos fundamentais, de manutenção da ordem pública, de prevenção e combate a actos terroristas e tem-no demonstrado», disse o ministro.” Segundo o mesmo jornal, “O exercício decorreu desde segunda-feira, nas antigas instalações da Lisnave, em Almada. Objectivo: aumentar a capacidade de gestão internacional de crises e de contribuir para o desenvolvimento de uma política comum de segurança na União Europeia.”

Entre os vários episódios simulados a que as forças policiais tiveram que reagir contam-se, continuando a citar a mesma fonte, “actos terroristas” e “manifestações violentas”. Que os gestores das democracias modernas não distinguem entre quem pratica atentados terroristas e quem se manifesta “violentamente” nas ruas é por demais sabido. Na verdade, o seu maior terror são justamente os raros dias em que o povo encolerizado sai à rua e se dirige em massa à grande casa da representatividade democrática, o Parlamento ou o Palácio do Presidente. Se estiver suficientemente irado, poderá querer invadi-la e ser recebido, olhos nos olhos, por quem sempre lhe disse agir em sua representação. É então que uma horda de robocops militarizados o irá irremediavelmente varrer à bastonada (como bem se recordam aqueles que, num certo final de tarde, se manifestaram em frente ao Parlamento contra o governo Passos Coelho).

É conhecido o argumento que quem governa os regimes democráticos usa para reprimir violentamente os manifestantes quando a legitimidade do seu poder é espontaneamente questionada nas ruas: a ordem democrática funda-se exclusivamente nos resultados das eleições; o poder vem das urnas, não das ruas. Qualquer desfile popular que não acate as decisões tomadas pelos representantes que foram democraticamente eleitos – para no entanto se constituírem em poder separado – deverá por isso ser brutalmente reprimido. Não espanta pois que as polícias democráticas usem métodos tão brutais como as polícias fascistas, já que o que para elas está em jogo, quando existem manifestações questionando as decisões tomadas por um ou outro regime, é a pura reprodução de um poder que se separou das pessoas – seja este ‘democrático’ ou ‘fascista’ – e que, a partir do momento em que se constituiu, deixou de se sentir a elas vinculado. Por conseguinte, tão pouco deve espantar que, nos exercícios de Almada, a polícia portuguesa – sem que isso tenha indignado alguém – tenha partilhado experiências com a polícia da Turquia, abundantemente treinada (A) na defesa de um regime autoritário, (B) na guerra contra uma minoria (povo curdo) marcada por execuções arbitrárias e (C) na repressão diária de intelectuais e académicos.

Tschüss Google!

O colectivo Fuck Off Google, animado por várias associações locais que lutam em Berlim contra a especulação imobiliária e a gentrificação, acaba de levar a Google a cancelar o seu projecto de instalar um gigante “campus” no bairro berlinense de Kreuzberg, como existem já outros em Londres, Madrid, São Paulo, Seul, Tel-Aviv e Varsóvia. Esta mobilização participa de um movimento mais amplo contra o mundo googliano do empreendedorismo, das startups, das tecnologias invasivas, das ‘smart cities’ panópticas, do copyright, da centralização da informação, do transhumanismo e dos algoritmos opacos. Em Kreuzberg, Google is NOT watching you!

Viver no apocalipse

Neste Inverno, os pesticidas que garantem a rentabilidade a curto prazo da agricultura intensiva mataram na França 30% das colónias de abelhas. Lá fora, no meu jardim, os três cortiços de abelhas ficaram também eles vazios. Apesar de há décadas se saber que os lucros imediatos da agricultura moderna representam calamidades a longo prazo para o planeta e a humanidade (destruição de solos, contaminação dos freáticos, disseminação de alergias e cancros, etc.), a civilização, em vez de mudar de política agrícola, começou já a adaptar-se ao extermínio dos insectos polinizadores.

Agora que entrámos na era da banalização da hecatombe, deu para perceber que não será fácil extinguir o homem, o mais resiliente dos animais, da superfície terrestre.

Cidade e capitalismo, ponto da situação

 

Recordo-me das cidades no tempo em que os moradores se abasteciam diariamente em mercearias situadas nas ruas e nos bairros em que viviam ou num mercado central, onde produtores regionais se reuniam para aí venderem os seus produtos. Na cidade onde cresci, não havia tão pouco rua onde faltasse um café em que boa parte dos clientes se demorava horas a fio, autêntico palco para uma socialização informal e espontânea que punha em contacto diferentes moradores e diferentes gerações. Lembro-me também de muitas noites de verão passadas numa grande praça que agregava centenas de pessoas, vindas a pé, que nada consumiam, apenas se encontravam – hoje, nessa mesma praça, somente a transmissão de um evento desportivo ou a estreia de um novo menu do McDonald’s reúne tantas pessoas. As cidades estavam então repletas de lugares cheios de vida colectiva onde se reproduziam velhos costumes pré-capitalistas, como a comunicação directa e livre entre vizinhos. Assisti depois ao desmoronamento progressivo de todos estes lugares e à reconfiguração capitalista da geografia e da sociedade urbanas, num processo que, como um terramoto, abalou e destruiu as cidades tal como as conhecíamos. E o que se perdeu não foram meramente as redes de convívio, solidariedade e partilha; foi também o acesso a uma paisagem repleta de história, essencial para a construção da memória, bem como a uma sólida vida cultural, ancorada nessa paisagem e construída ao longo de gerações em torno de teatros, bibliotecas, cafés, associações, praças, jardins ou museus.

Foi quando a mercadoria vedeta da sociedade do espectáculo, o automóvel,  irrompeu no imaginário colectivo como símbolo maior de prosperidade e emancipação individual, que um novo desenho das cidades começou a ser posto em prática. Estas foram integradas numa ampla rede de mobilidades ao mesmo tempo em que nas periferias surgiam pólos comerciais, empresariais e residenciais, totalmente subordinados ao automóvel. As velhas cidades, sem condições para a circulação e o estacionamento em massa, tornaram-se rapidamente obsoletas. Habitá-las deixava de constituir uma vantagem para a maioria da população, dado que toda a oferta, à excepção da cultural, se transferira para fora delas. Foi assim que, no espaço de uma geração, se desertificaram todas as cidades deste país: Coimbra, Lisboa, Porto, Évora, entre tantas outras, sucumbiram à nova organização capitalista da geografia urbana, com o shopping, o hipermercado e o automóvel à cabeça de um vasto território que, pela primeira vez na história urbana, não incluía lugares que promovessem o convívio nem a  partilha. Nele, apenas se reproduziam a separação, a passividade e a atomização.

Mas, se há vinte ou trinta anos era lucrativo arruinar as cidades, transferindo as suas dinâmicas de emprego, habitação ou comércio para novos bairros fabricados à pressa na periferia onde, sem obstáculos, o capital mais rapidamente encontrava formas eficazes de se multiplicar, agora esse mesmo capital veio reocupar as ruínas que ele próprio gerara – e onde se haviam entretanto instalado formas de vida minoritárias, por vezes marginais, animadas por imigrantes, subculturas, comunidades lgbt ou artistas inconformados. Com a redescoberta burguesa dos encantos da velha cidade, subitamente investida de prestígio e glamour, tornou-se urgente encontrar estratégias para a sua revalorização e consequente expulsão das minorias que a haviam ocupado e das classes populares que nunca a tinham deixado. Encontramo-nos agora numa fase da configuração capitalista do território urbano em que as cidades reentraram em grande na agenda do investimento. E não só na área do turismo, dado que as transformações radicais da oferta comercial e residencial nos seus bairros mais carismáticos não são apenas desencadeadas pela turistificação. Bastaria abrirmos uma Time Out para percebermos que elas se dirigem na mesma medida à burguesia local, da qual pouco se fala quando se abordam estas transformações súbitas: do anúncio de charmosas boutiques a gigantes concept stores, não faltam, em qualquer dos bairros do centro de Lisboa que até aqui estavam excluídos do roteiro burguês, atractivos para as classes mais prósperas da cidade. Também um jornal catalão noticiava esta semana que o Ikea está a ponto de chegar ao centro de Barcelona, bem como de outras 29 cidades, revelando assim que, no momento presente, não há actor económico que queira ficar de fora da grande festa do consumo que se transferiu para as cidades. E que estas estão a recuperar o lugar que tinham perdido no coração não apenas do território urbano e da metrópole, mas também do capitalismo.

Notas para uma crítica radical do turismo (X)

Mobilidades, policiamento e coleccionismo turístico

Todo o turista é por natureza coleccionador. Mais do que aprofundar, ele acumula: experiências, imagens, lugares, viagens. Este coleccionismo não é apenas um facto de ordem mental (colecção de impressões, de memórias, numa trama muitas vezes confusa – “Tive aquela experiência na viagem à Austrália ou à Namíbia?”), já que se manifesta também num plano físico, material. A imprescindível câmara fotográfica permite-lhe reunir e acumular imagens das experiências e dos lugares, materializando o sentimento de possessão desenfreada que é comum a qualquer coleccionador. Os souvenirs desempenham o mesmo papel: a compra de uma lata de sardinhas retro ou de um sabonete vintage numa mercearia ‘típica’ lisboeta permite-lhe levar consigo de volta para casa um pouco da Lisboa ‘genuína’ que vem descrita nas páginas do Lonely Planet ou do Fodor’s Travel, de dela se apropriar por um período mais longo do que aquele que dura a viagem. Eis a função do souvenir e o motivo do seu extraordinário sucesso.

O autocarro descapotável que traduz aos turistas, em imagens reais, as descrições que um guia de viagens faz do centro de uma cidade, tal como o tuk tuk que serpenteia esse centro num registo mais divertido e aventureiro, não tem outra motivação que não seja a de alimentar o coleccionismo passivo de imagens, as quais faz sucederem a um ritmo frenético. Também o trilho pedestre que foi introduzido algures na natureza para permitir ao eco-turista aventurar-se em paraísos ‘intactos’ da Serra do Gerês ou da ilha açoriana das Flores serve o mesmo propósito, ao criar no seio de paisagens invulgares um fluxo de imagens que, desta feita numa cadência slow, se substituem e eliminam à medida que se vão sucedendo. Todo o trilho de natureza – cujo antepassado mais provável é o alpinismo, que foi uma das primeiras formas de turismo – tem por meta criar uma lenta sucessão de imagens e, deste modo, limitar a possibilidade de se explorar cada imagem singular.

Seja no meio do alcatrão da cidade ou das daninhas da natureza, os lugares que se encenam num itinerário turístico surgem unificados, desfazendo-se do seu carácter único, o qual apenas poderiam reconstituir aqueles que os habitaram. Apesar da sua singularidade, estes lugares são mobilizados para a criação de um roteiro ou pacote, que lhes confere uma equivalência e unidade inéditas, ao mesmo tempo que anula aquilo que os faz diferentes e incomparáveis, ou seja os seus significados, códigos e contextos locais. É através de um sofisticado processo de adulteração, que modela os territórios de modo a poderem ser consumidos, que se dá a sua recodificação e recontextualização. Este processo visa, através do uso de códigos universais, torná-los descodificáveis – leia-se consumíveis – por esse coleccionador nato que é o turista. É por isso que os territórios turísticos, enquanto deslizam continuamente de um contexto local para um outro que é de natureza universal, se vêem libertos de uma semântica que é particular a um lugar e cuja chave de interpretação está circunscrita ao grupo que o habita. Todo o processo turístico passa por uma vasta recodificação e estandardização do mundo sensível.

O habitante opõe-se ao turista na medida em que o turismo é a negação do habitar. Habitar implica ocupar, estar presente, permanecer activa e prolongadamente num dado lugar, através da constituição de redes de relações, que se transformam num devir imprevisível, entre os diferentes habitantes. Fazer turismo, pelo contrário, implica estar  ausente dessas redes de relações históricas que se prolongam no tempo, na medida em que, estando continuamente integrado num sistema de mobilidades, o turista nunca deixa de estar em movimento, em trânsito, numa passagem perpétua, que, enquanto colecciona experiências e imagens, se revela incapaz de criar nós ou estabilizar ligações com os habitantes. Se a imposição de mobilidades aos territórios se tornou um dos aspectos centrais do turismo é porque elas são o meio do turista se realizar enquanto coleccionador.

Um território sem uma rede eficiente de mobilidades – ao negar a possibilidade a qualquer um, independentemente do seu grau de conhecimento da geografia em questão, de mudar constantemente de lugar – é um nonsense turístico. Um bairro popular (a Rocinha no Rio, Alfama em Lisboa, o Raval em Barcelona, a Baixinha de Coimbra) não é turístico até ao dia em que, sem o consentimento de quem o habita, agentes exteriores ao bairro – decisores políticos, urbanistas, paisagistas, investidores, credores, polícias, etc. – passam a operar coordenadamente, de modo a integrá-lo numa ampla rede, sistematizada e policiada, de mobilidades, que torna possíveis e seguros o trânsito e o consumo turísticos. A violência do processo turístico – ou da turistificaçãoreside precisamente nesta imposição das mobilidades e dos consumos que são inerentes ao turismo a geografias habitadas, sem qualquer consulta nem participação de quem as habita (é precisamente nesse momento que os habitantes se apercebem quão débil e frágil é, no mundo da mercantilização capitalista, a soberania de que dispõem sobre os seus territórios).

O policiamento dos territórios turísticos, trazendo consigo a novidade de defender uma população que lhes é exterior pela repressão de grupos locais – os quais, no entanto, o financiam através dos seus impostos -, corresponde essencialmente ao policiamento daquelas mobilidades, como ocorre no Rio de Janeiro, onde a polícia militar vigia com armamento de guerra as chamadas ‘áreas turísticas’, ou em Lisboa, onde ficará reservada às principais artérias turísticas a colocação do futuro dispositivo de vídeo-vigilância que já foi anunciado pelo actual presidente da câmara.

Mais notas para uma crítica radical do turismo: (I): A falsificação do real  (II): O turista – esboço de definição (III): O turismo, uma invenção do capitalismo (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes (V): Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo (VI): O turismo, uma revolução semiótica sem precedentes / (VII): O que faz mover um turista? (VIII): Eis porque fazer guerra ao turismo se tornou um imperativo: o turista não é um ser inofensivo, fazer turismo é tomar uma opção política pela hegemonia do capital / (IX): O gozo efémero do turista é a desgraça permanente do residente: da ‘moradorofobia’ às bio-mercadorias