Ideologia, imagem, propaganda – o desafio de incluir os excluídos na iconografia do poder

Exercer o poder é também diluir os seus atritos, retirar argumentos aos seus descontentes, distorcer-lhes a consciência da realidade. Eis a origem da ideologia e também da propaganda. E eis a sua missão: fazer o poder aparecer como necessário aos olhos daqueles que diariamente subjuga, ignora, humilha. Todo o poder quer mostrar que está onde nunca esteve: não do lado dos poderosos, mas daqueles que vivem à margem da abundância e do privilégio que o poder concentra nesses poderosos. Na imagem propagandística como o poder quer ser visto, encena-se uma mentira que é vital para a sua conservação: a de que a figura do ‘chefe’ emana directamente do seio da comunidade de súbditos, não existindo senão para servi-los. Essa iconografia de louvor ao poder manipula corpos anónimos ao representá-los como estando agradecidos às boas acções do ‘chefe’. O poder não tem ética. Porque é incapaz de uma acção que não sirva para a sua própria reprodução.

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Democracia liberal e vida selvagem, uma relação impossível

O desaparecimento massivo de pássaros nos países europeus é uma das consequências mais evidentes no meio selvagem dos efeitos devastadores das práticas produtivas capitalistas, que têm como única meta o lucro imediato, ainda que isso reiteradamente implique aniquilar a vida, nas suas diferentes formas. Em França, o Museu de História Natural e o CNRS acabam de emitir um comunicado conjunto onde estimam que “os pássaros dos campos franceses estão a desaparecer a uma velocidade vertiginosa” e que, “em média, as suas populações se reduziram para um terço em quinze anos”.

As práticas levadas a cabo pela agricultura industrial são a principal causa deste extermínio em massa. O fim dos pousios e a generalização dos insecticidas neurotóxicos são, entre outros factores, apontados como causas centrais deste declínio que tão pouco tem poupado, como tem sido amplamente noticiado, as populações de abelhas, mas também de todos os outros insectos, os quais se estima terem declinado cerca de 80% na Alemanha, desde os anos noventa. Quem, nos anos oitenta, fazia uma viagem por uma qualquer auto-estrada europeia recorda-se de, no final, o vidro do carro ficar completamente coberto de marcas de insectos. Hoje, e tanto dá se estamos em França, na Alemanha ou Portugal, contam-se pelos dedos de uma mão os insectos marcados no vidro.

As práticas produtivas uniformizaram-se em todo o continente, graças à política agrícola comum e ao mercado único (dominado por hipermercados), pelo domínio do qual os empresários agrícolas brutalmente competem, através da criação de monocultivos intensivos cada vez mais produtivos. Em Portugal, os produtores agrícolas que desejam encontrar um espaço no império da distribuição fundado por Belmiro de Azevedo – esse homem que recentemente o país em peso recordou como “uma pessoa extraordinária” – são constantemente pressionados, através de técnicas de “terrorismo negocial”, para reduzirem preços. Conseguem-no apenas se aumentarem a rentabilidade e reduzirem custos em todas as etapas do ciclo produtivo, recorrendo à precarização laboral, à sobre-exploração de solos, à contaminação ambiental e à destruição da biodiversidade. De outro modo, não serão admitidos no mercado da família Azevedo. Quem compete para se conseguir impor nos hipermercados não poderá pagar salários dignos nem zelar pelo futuro dos solos, do ambiente e da biodiversidade.  

Infelizmente, não constam entre as virtudes do liberalismo a consideração e o respeito pelo bem comum geral, apenas pelo sucesso económico de cada projecto empresarial concreto. A irracionalidade que impera na competição liberal deve-se ao facto de nela predominar a razão económica sobre todas as outras razões (a humana, a ecológica, etc.). A história actual não é senão o produto do triunfo desta razão concreta que hoje impele os produtores de mercadorias à extinção de toda a vida selvagem. Que os políticos não queiram ou não possam interferir neste movimento organizado e violento de extinção crescente é apenas revelador de como a democracia foi excluída do campo, cada vez mais vasto, onde actua, domina e prolifera a razão económica

Aves isoladas fotografadas na aldeia onde vivo (2011-2017)

 

Funcionários, patrões e obedientes: a cultura em Portugal segundo Luís Miguel Cintra

“A cultura geral está a desaparecer da vida… Toda a educação está feita no sentido da especialização, de um carácter técnico. Preparam-se funcionários. Os funcionários por definição não pensam, obedecem a uma lei, a uma regra e cumprem a regra o melhor possível e com a maior rapidez possível para pouparem dinheiro ao patrão.”

“Os programadores que existem agora no Ministério da Cultura têm uma filosofia subjacente, quer notem quer não notem, que é uma filosofia de mercado.”

“Já não há arte nenhuma. O que interessa é fabricação de produtos. E isso não se chama arte. A arte implica um pensamento criativo. Ora, toda a educação é feita não no sentido da criatividade, mas no sentido da obediência. E, portanto, ao fim de um certo tempo isto começa a entrar na cabeça das pessoas e estamos uma quantidade de obedientes, um exército de obedientes. E isso é o contrário da arte.”

“As pessoas estão cada vez menos preparadas para ler. Nota-se nas livrarias. O nível dos livros que estão expostos é uma coisa miserável. É a literatura fácil. E o mesmo acontece com todas as artes.”

Crítica completa aqui.

Nada foi tão bem planificado neste mundo como a morte das cidades

Mais um comércio centenário encerrado na Baixa de Coimbra. Adivinha-se para o seu lugar uma loja de artigos turísticos. Vinhos do Porto? Latas de conserva? Gelados artesanais?

Os que hoje choram o encerramento de mais uma antiga loja (ou “loja histórica”, como lhe chamam) no centro de uma cidade esquecem-se geralmente que esse desaparecimento não é fruto de um qualquer acaso, mas que foi cuidadosamente premeditado e calculado por urbanistas, industriais, empresas de distribuição, lobistas, ministérios vários (obras públicas, planeamento, ordenamento do território, etc.) e vereadores de urbanismo democraticamente eleitos. Cada pequena loja que fecha as portas numa daquelas ruas, que em criança nos fizeram admirar como uma das mais importantes do centro da cidade, obedece a um plano que visa transformar radicalmente a organização do território urbano e também da economia, com vastos impactos sociais, culturais e ecológicos. Nesse planeamento do território, que, apesar de ser uma forma de configurar a sociedade, é sempre apresentado como uma questão meramente técnica e não política, não há lugar para pequenos comércios familiares, independentes de grandes cadeias ou de corporações multinacionais, os quais se vão por isso tornando raridades cada vez mais anacrónicas.

Ministro do Planeamento e das Infraestruturas de Portugal

Ainda que os políticos jamais o admitam (porque seria no fundo reconhecer a finalidade histórica das suas políticas), a concentração oligopolista do mercado único, que as suas democráticas leis favorecem, é a característica central da economia neoliberal. As poucas empresas que sobrevivem a essa concentração, e que assim se tornam gigantes corporações, para lá de dominarem toda a economia, dominam também a organização do território urbano, impondo-lhe, com o amparo de infraestruturas públicas, os novos pólos geográficos. A criação de zonas comerciais através de shoppings, hipermercados e grandes armazéns de distribuição, na periferia das cidades, enquanto cria novas centralidades desconectadas da ‘velha’ cidade, corrói as antigas centralidades que se tornam autênticos desertos humanos. A cidade torna-se obsoleta à medida que a vida se transfere para as redes viárias que desaguam nos novos centros periféricos.

O automóvel, e não o corpo humano, converte-se no actor central desta urbanidade surgida nos E.U.A. há bem mais de meio século, imposta em todos os países “ricos” a partir pelo menos dos anos setenta e patente agora até na mais pacata cidade de província ocidental. Em Vila Real, Tavira ou Cantanhede a figura do transeunte, que calcorreia a cidade nos seus trajectos quotidianos, foi já substituída por aquela do condutor, com a qual todos os jovens começam a sonhar mal se aproximam dos 18 anos. Poucas coisas são hoje mais desprestigiantes do que andar a pé, mesmo numa cidade de dez ou quinze mil habitantes. Duas consequências decorrem deste facto. Por um lado, os habitantes da nova urbe vêem-se privados de um relacionamento diário com a cultura material que caracteriza e define historicamente as cidades: velhas arquitecturas, jardins, praças, esplanadas e cafés com vida colectiva, lugares de memória, museus, associações, bibliotecas, teatros. Por outro, a função pré-capitalista de espaço de socialização informal que, através de cafés, mercearias, tabernas ou mercados, o pequeno comércio urbano desempenhava, desapareceu quase por completo. Nos não-lugares do comércio global, acessíveis apenas ao automóvel (McDonald’s, Continente, Ikea), não estão previstos o convívio e a partilha. O único relacionamento autorizado é aquele que, sem criar elos nem ligações, o consumidor isolado e anónimo de mercadorias experimenta enquanto é mecanicamente atendido por um empregado precário que se sabe na iminência de ver-se substituído por um robô.

Quanto ao pequeno comércio situado nas antigas ruas das cidades moribundas e desertas, o principal destinatário é agora o novíssimo transeunte das mesmas, aquele que por toda a parte se elogia porque “lhes veio devolver a vida”: o turista. Como bom romântico que é, todo o turista deseja ver e viver, não nos novos centros da urbe (onde se distribuem as mercadorias produzidas industrialmente), mas na velha cidade pitoresca, entretanto desaparecida, que fora criada antes da industrialização, quando ainda não se desenhavam urbes com o fim exclusivo de fazer vender mercadorias em massa. Aluga, por isso, um apartamento num antigo edifício recuperado numa ruela estreita, compra uns sabonetes artesanais com design retro numa nova “mercearia típica” e prova da doçaria “regional”. A cidade que fotografa está morta. Évora está morta, Lisboa está morta, Coimbra está morta, o Porto está morto. Mas a sua materialidade continua lá. Cuidadosamente recuperada e requalificada, ela dá lugar a parques temáticos (pseudocidades sem habitantes, sem comunidades) onde se mercantilizam os referentes (arquitectónicos, patrimoniais, gastronómicos, etc.) de uma suposta identidade local. Enquanto complexo de funções sócio-culturais que historicamente a definira, a cidade já não existe. Os poderes políticos e económicos das democracias liberais esvaziaram-na primeiro da maior parte dessas funções, depois refuncionalizaram-na enquanto mercadoria turística. Sabe-se portanto o que é possível esperar dos pequenos comércios da Baixa de Coimbra e de todas as outras Baixas do país.

Maison Centrale de Clairvaux (prisão), Aube, França, 1998. Foto: Raymond Depardon/Magnum Photos

Tout le monde déteste le travail

Travailler revient toujours à se soumettre à une finalité étrangère, jamais à la nôtre.

Poucos peixes, muitos detritos plásticos e algumas medusas: o oceano em 2018

Ao largo da ilha de Bali (Indonésia), Março de 2018