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Contra o medo e a submissão, coragem e desobediência

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Fotografia enviada por leitor, retirada num dos prédios devolutos da cidade de Lisboa. Legenda: Security Check. Materials: Fear and Submission. By: Forest Dump.

Camorra Lusitana

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Salgado, Bataglia, Bava, Oliveira e Costa, Loureiro, Lima, Núncio, Sócrates, Portas, Cavaco… isto ainda não é a Camorra, mas parece. A geringonça está tão capaz de travar isto como Roma está capaz de travar a máfia siciliana. A impunidade, que devia ser um convite à insubordinação, desfila, ad nauseam, em prime time, para se defender sem contraditório. A presunção da inocência, neste contexto, equivale a uma absolvição sem julgamento. Que ninguém se espante quando o Buíça se levantar da cova.

Adrien Silva, o líder da revolta contra Bruno Carvalho e Jorge Jesus

 

Em causa as palavras de Jesus, aqui autopsiadas, e a raiva contra Bruno Carvalho, o patrão que não o deixou sair para ir jogar num clube à altura da qualidade do perfume do seu futebol. Isso ou então são saudades de jogar na Briosa. Tudo compreensível, em suma.

Não é pós-verdade, é propaganda. O caso da jornalista “independente” canadiana.

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Já o tenho dito, a pós-verdade é a apenas uma finta de quem perdeu o monopólio da mentira. Se não é novidade que o papel dos EUA e dos seus aliados é execrável, que mentem e matam sem qualquer pudor para atingirem os seus objectivos e amplificarem o seu poder, é curioso que quem supostamente lhes faz frente escolha, sem pudor, a replicação dos seus métodos.

A guerra da propaganda sobra a Síria é disso um bom exemplo. Para excitar os campistas, que ainda acreditam que o mundo é uma bateria com dois pólos e que o muro de Berlim continua de pé a proteger os povos do capitalismo – como se a Rússia não fosse hoje a segunda ou terceira potência do império – basta colocar uma jornalista ocidental, um moderno rollup das nações unidas, para que grite aos sete ventos que afinal Assad é um anjo caído do céu para salvar os sírios da Síria. Mas não é bem assim, muito pelo contrário.

Depois de viralizar, o vídeo de Eva Bartlett, jornalista canadiana, foi finalmente desmontado (aqui, aqui ou aqui). Afinal, esta jornalista é uma colaboradora da propaganda russa e não uma jornalista “independente”, não apresentou um único facto, e a suposta desmontagem da “propaganda ocidental” limita-se à afirmação de que todos os que no terreno não repetem o que diz Assad estão a mentir, apostando ela mesma numa nova variação de negacionismo.

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O ridículo já matou, noutras circunstâncias, os meios de comunicação convencionais. No Iraque, na Palestina, no Afganistão, nos EUA, a imprensa ocidental não tem moral para moralizar ninguém, mas que Assad use as mesmas maquinações para dobrar a seu favor a opinião pública não pode ser tolerado.

Bashar Ja’afari, embaixador da Síria nas Nações Unidas, já o tinha tentado, ao mostrar fotografias feitas no Iraque para demonstrar a alegada compaixão do exército sírio para com a população de Aleppo.

Os números, infelizmente, falam muito alto, e na Síria o terror tem assinatura que deixam claro que o regime de Assad é quem mais sírios assassinou ao longo da guerra. Sobre isto, claro, a dita jornalista “independente” canadiana nada tem a dizer. Já todos os que não se queiram render à propaganda dos dois campos em conflito, têm que desenvolver um grau de desconfiança que lhes permita verificar, o que for possível de verificar, sobre os factos no terreno. Depois de desconfiar uma, duas e três vezes, confirmem os factos. Na guerra da propaganda não há inocentes.

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Sobre o radical amor de Assunção Cristas ao radicalismo populista

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Assunção Cristas é a melhor aluna do radicalismo populista liberal-conservador, a melhor de todas na cátedra do seu mestre, Paulo Portas. Eleita contra um bando de gajos que parecem velhos aos trinta anos, Cristas emerge à direita cavalgando dois dos sectores mais reaccionários do país. No plano social, no combate à legalização do aborto, e no plano económico, na promoção da prostituição da economia portuguesa no bordel da alta finança europeia e mundial. O seu perfil tem que ser retratado com a crueza necessária para desmontar a sua versão eleitoral, no qual se procura a metamorfose necessária para se poder apresentar como a fiel da balança de uma geringonça de novo tipo, que um mais que provável colapso da aliança do PS à esquerda e do PSD vai obrigar.

Ela sabe, claro, que não consegue mudar o mundo sozinha. Depois de o ter mudado muito mais que a sua rua ao serviço da PAF, do BCE e do FMI, sabe que bem que tempo é outro, pelo que precisa “de encontrar um sentido, procurar ler nas entrelinhas, aproveitar para aprender.”

Diz-se assustada com o resultado das eleições americanas. Aponta aos “vários episódios de populismo” como se fosse um problema, quando a sua família política vai festejar a vitória de Le Pen com mais entusiasmo com que celebrou a vitória de Trump. Diz-se atenta à “tendência no mundo”, e aconselha a que “nós, em Portugal e na Europa”, aproveitemos o “pretexto para essa reflexão”, mas deixa perceber bem que no seu campo essa reflexão já foi feita, precisamente para a colocar o lugar do impulso caso algum fenómeno idêntico pontifique por cá.Resultado de imagem para assunção cristas

Escreve que está empenhada na “contenção dos populismos de direita e de esquerda”, mas oculta tudo o que tem feito no quadro do populismo de direita, nomeadamente, “o papel do CDS na construção dessa voz”.

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Por fim, no seu prelúdio filosófico, deixa cair a máscara com estrondo quando nos diz que “o problema é quando nós, políticos, não conseguimos explicar. Porque não temos tempo, porque não sabemos, porque não nos é conveniente. E esta opacidade abre espaço para discursos populistas radicais.” Face às dificuldades, eis que declara o seu amor ao amor, mas apenas e só pelo amor à táctica do radicalismo populista, que apesar do que diz ser o desacerto ao nível da mensagem, soube descobrir a solução ao nível da forma: “a ligação direta às pessoas e aos seus problemas quotidianos. Às suas aspirações, às suas inquietudes.”

Assunção Cristas está atenta às circunstâncias, mas há também quem esteja atento à circunstância de Assunção Cristas.

O negócio da Escola Pública com o cérebro das crianças

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Chegou ao L’Obéissance est morte uma denúncia sobre uma prática inacreditável, outrora apenas useira e vezeira no sistema privado, mas que pelos vistos está a generalizar-se também no sistema de ensino público. Segundo a denúncia, feita por um pai de uma criança que frequenta a escola pública, os alunos passaram a “usufruir”, quinzenalmente e durante metade do ano lectivo, da substituição de uma das suas aulas por uma formação sobre “educação financeira” organizada em parceria entre a Associação Fénixis e a Consultora Financeira Deloitte.

Em função da denúncia, que publicamos de seguida, pudemos confirmar que a Consultora Financeira Deloitte financiou a Associação Fénixis – Desenvolvimento Comunitário e Saúde Mental, para um projecto que os levará, durante seis meses, a ministrar uma aula quinzenal num agrupamento de escolas de Oeiras, intitulado: “Grão a Grão, Projecto de Educação Financeira”, direccionado às crianças do 3º e 4º ano do Ensino Básico. O Ministério da Educação, ao abrigo da autonomia escolar, lava as mãos de qualquer responsabilidade nos negócios feitos pelos agrupamentos, e não tem, segundo apuramos, forma de avaliar o que quer que estas decidam fazer no que diz respeito à subconcessão do horário lectivo.

Acresce que, tal expediente é feito unilateralmente, e que além desta parceria há outras cujo negócio permite que entidades falaciosas assumam a tarefa de dar formação ideológica e religiosa, com alguns desses projectos a serem concessionados, por exemplo, aos Leigos para o Desenvolvimento, uma organização ligada à Igreja Católica. Naturalmente, a promiscuidade é de difícil resumo, mas basicamente a Deloitte, que consegue retorno financeiro deste investimento por via dos privilégios que granjeia com o mecenato cultural – com conhecidos privilégios fiscais – leva a sua agenda às escolas que pagam com o cérebro das crianças o que não tem como pagar em numerário. Se já seria absurdo pagar-se para que a Mac Donalds organize palestras sobre nutrição, ou a CGTP sobre sindicalismo, a jogada da Deloitte e a submissão das escolas a este negócio espúrio é repulsivo e contrário à constituição que defende a Escola deste tipo de perversões. Fica a denúncia, esperando que cada leitor que também é pai ou mãe procure saber quem mais anda a vender banha da cobra nas escolas públicas, sob a forma de futuros, onde as convicções das gerações que se deviam formar com liberdade de pensamento e antagonismo crítico são usadas como moeda de troca.

DENÚNCIA

“ANDAM A NEGOCIAR O CÉREBRO DOS NOSSOS FILHOS”

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“Ontem à noite o meu filho trouxe este surreal aviso da escola. Conforme se pode ler, a consultora financeira Deloitte, reputada por vender serviços de limpeza da imagem da pornografia que nos tem sido imposta pelo sistema financeiro, financiou uma associação de psicólogos chamada Fénixis, para que estes ofereçam à escola a aplicação de um “Programa de Educação Financeira”.

Desde logo porque fiquei chocado por não se tratar de algo opcional, mas sim de uma notificação sobre factos já consumados – a formação já está a decorrer – pelo que fui pesquisar a agenda de tão obscuro negócio, que oferece formação ideológica a troco de tempo livre para formatar a cabeça de cerca de 1000 jovens, todos do mesmo agrupamento, curiosamente aquele que maior PIB\per capita apresenta, no Conselho de Oeiras.

“Potenciar o empowerment social, apostar na inovação social, impulsionar a participação cívica e promover o bem-estar. Acreditamos que estas metas são conseguidas por via de propostas com enfoque na Educação e na promoção da Saúde Mental, assentes numa lógica fundamentalmente preventiva. Com recurso à alegoria do mito da Fénix, cremos que todo o indivíduo dispõe da notável e exclusiva capacidade humana de reinvenção e superação face à sua própria existência, constituindo em si mesmo uma força de criação, desenvolvimento e mudança.” Fenixis

Da parte da Associação envolvida pouco se consegue perceber para lá do uso e abuso do palavreado que agora está na moda mas que nada quer dizer – empowerment, engagement e afins – pelo que só consegui perceber que a formação é oferecida a custo monetário zero, mas fica evidente que a escola, apesar de nada pagar em dinheiro, oferece como moeda de troca a folha em branco da formação ideológica dos alunos.

Da parte da consultora, porém, foi mais fácil vislumbrar o que recebe a reboque do véu de tamanha bonomia.  Na fundamentação do financiamento do projecto, a Deloitte esclarece, não sem razões para agravar o meu espanto, que o objectivo é que serão abordadas temáticas como “a importância da moeda e dos bancos, meios de pagamento, crédito, seguros e planeamento e gestão de um orçamento familiar. Desta forma, procura sensibilizar as crianças para as questões da sustentabilidade e cidadania.”

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Os planos curriculares não existem. A organização escolhida pela Deloitte como testa de ferro da sua cruzada ideológica nada sabe de economia e tem como formadoras apenas e só profissionais formados em psicologia. O seu metier é, supostamente, a saúde mental, mas serve para que os mercenários do liberalismo entrem nas escolas com a sua ideologia  em riste.

Sem qualquer opção por parte dos alunos e encarregados de educação, ao contrário do que outrora, e bem, se conquistou ao garantir que a educação religiosa e moral fosse opcional, os alunos são assim usados para que a escola pague o “serviço” com as crianças, uma nova e perversa forma de negociar futuros.

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A economia pode e deve ser ensinada às crianças, de resto, boa parte delas, pelas dificuldades que os pais enfrentam, já terão boas noções sobre a economia do lar, mas qual o sentido de lhes injectar a pastilha sobre a “importância dos bancos” ou dos “seguros”, antes da poesia, do teatro, da equação, da lógica, da geografia ou da história? Mais, se é para lhes ensinar algo sobre o sistema financeiro, como é possível que aceitemos que essa tarefa seja delegada numa agência cujo lucro advém de camuflar as mal-feitorias dos agentes que operam precisamente no sistema financeiro? Vão explicar porque razão foi a banca a contrair a dívida? Vão deixar claro que os seguros são uma forma moderna de agiotagem? Vão deixar claro que o capitalismo implica o aumento exponencial dos pobres? Vão fazer as contas que sugere Almeida Garrett, quando nos pergunta ‘quantos pobres são necessários para fazer um rico?’.

Não sei o que farão os outros, mas o meu filho ficou a saber que tem direito quer a sair da aula quer a reivindicar a sua parte caso queira assistir ao espectáculo. Já que fazem negócio com a sua disponibilidade de tempo para ouvir mentiras, ao menos que lhe paguem a quota parte da operação comercial que foi feita com o seu pensamento. É a economia, estúpido! Pena é que não deixem a educação fora disto e que estejam, também, a transformar o saber público num negócio privado.”

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