A Vida Portuguesa – quando o capitalismo ‘flirta’ com o fascismo

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“Se não podemos levar máquinas, nem automóveis, nem aviões, se não podemos teatralizar a nossa exposição com (…) modelos de comboios e paquetes (…) – porque não fazer uma parada de indústrias regionais, tapetes, mobílias, faianças – tudo quanto nos dá carácter, todas essas coisas pobres que são a riqueza, afinal, da alma de uma nação?” António Ferro, 1929 

“Pudéssemos nós trazer para a vida corrente, para a decoração dos nossos lares, filtrada pela visão dos artistas, as linhas, as formas, as cores da arte popular portuguesa e teríamos dado um grande passo na revolução do gosto em Portugal. Quando nos dedicamos portanto, com tanto entusiasmo, (a esta causa) não é pela aspiração infantil de brincar com bonecos ou pela aspiração legítima de desenvolver os nossos estudos etnográficos. É, antes, porque a nossa arte rústica é a grande fonte do bom gosto nacional.” António Ferro, 1940

Identidade, autoridade e mito

O congelamento da história é uma das grandes constantes na vida das sociedades humanas. A sua negação felizmente também: em todas as sociedades há quem, voluntária ou involuntariamente (pouco importa), transforme, substitua ou destrua as formas e as ideias que reproduzem e conservam uma dada ordem, uma dada normalidade. As tensões animam por isso qualquer sociedade humana. Talvez seja redutor ver as coisas sob este prisma mas, à falta de outro melhor, voltarei a insistir uma vez mais nele:

  • num pólo da geografia social estão aqueles que pelas suas práticas concretas contribuem, consciente ou inconscientemente, para construir e reproduzir identidades
  • no pólo oposto do mesmo plano, encontra-se quem pelas suas acções contribui, consciente ou inconscientemente, para questionar a legitimidade dessas identidades

De um lado, temos assim os adeptos paranóicos da construção da identidade, que vivem na obsessiva procura por fazer do dinâmico e caótico mundo circundante um repertório estável, estruturado, coerente e sistematizado de formas e significados, os quais deverão ser suficientemente estáveis e constantes para poderem resistir à influência dissolvente e destrutiva do tempo; do outro, procurando desfazer as formas e os significados que os construtores de identidades procuram doentiamente impor ao mundo, mostrando que a semântica deste não é estática mas dinâmica, não é sólida mas líquida (está num fluxo constante), temos aqueles que preferem abrir as suas vidas à passagem ciclónica e imprevisível do tempo, raiz última da liberdade.

É porque a construção/conservação de identidades implica a submissão a formas e significados pré-estabelecidos, concebidos por alguma autoridade, que aí não pode existir a experiência radical da liberdade. Mas, por força da vitalidade e da dinâmica próprias da história e da evolução das sociedades humanas, todas as identidades acabam por caducar e desaparecer. É precisamente o que há de livre na vida social que permite que ocorram essas transformações, essa destruição de identidades estabelecidas, sólidas, aparentemente indestrutíveis e eternas. A prova do absurdo que representam as crenças num qualquer fim da história (socialista, capitalista, cristão ou budista) é que nenhuma identidade se reproduz ad aeternum. É uma das grandes lições da história. Todas as identidades são construções contingentes (históricas) e, como tal, perecíveis. Apoiadas sobre fundos de crenças (mitos), elas desaparecem com estas. Por trás de cada identidade está efectivamente um mito, o qual uma vez desmontado deixa aquela em ruínas.

Insisto nesta relação pouco explorada entre identidade e mito. O imaginário de qualquer sociedade é permeável àquilo de que são compostos os mitos (e que está tão presente na sociedade contemporânea como na sociedade mais arcaica): determinadas idealizações, construções mentais, valores sociais/morais e estereótipos que se empregam quando se olha, valoriza e dota de significado tanto a nossa presença como o mundo lá fora. E é precisamente o quadro mental/moral daqui resultante que determina e orienta os processos de construção identitária. Logo, quando ele desaba, desabam também as identidades.

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Portugalidade vs. imigração

Um imigrante africano ou asiático chegado a Portugal vem questionar, pela sua mera presença destoante e contrastante, os fundamentos da identidade portuguesa. Nos bairros da Lisboa antiga, que os guias mostram aos turistas como sendo testemunhos autênticos de ‘portugalidade’, milhares de imigrantes das mais diversas proveniências transformam os hábitos desses bairros onde antes se cantava o fado e assavam sardinhas à porta de casa. Mercearias chinesas introduzem cogumelos secos, tofu e legumes desconhecidos nas dietas do bairro, restaurantes de várias proveniências asiáticas instituem paladares novos, roupas africanas diversificam a indumentária, bruxos do Senegal roubam clientela às paróquias, e assim se transforma activamente essa misteriosa ‘portugalidade’ que os turistas passivamente consomem.

Nos lugares do mundo onde há muitos imigrantes (como em todas as grandes metrópoles), as identidades que aí vigoravam tendem a desaparecer – muitas vezes para dar lugar a outras, mas condenadas também elas a sucumbir em pouco tempo. O cosmopolitismo de Berlim, por exemplo, onde para cada restaurante de comida alemã existem vinte ou trinta de comida internacional, faz com que na vida da cidade seja já difícil de encontrar o domínio esmagador de identidades, nomeadamente a alemã, que o turista mais clássico e também o mais ignorante ainda procuram quando atravessam a pé ou de barco o centro monumental de Mitte.

Não há maior ameaça à reprodução de identidades do que o fenómeno da imigração. Daí o eterno ódio que toda a direita conservadora lhe vota (daí também os barcos que hoje a Europa, conformada, vê afundarem-se no Mediterrâneo). O fascismo foi um período histórico onde a construção identitária esteve no centro da acção política, alcançando por essa via os meios de comunicação, a arquitectura, o urbanismo,  a arte, os conteúdos escolares, os livros de história, os dicionários e as enciclopédias. A identidade nacional reproduzia-se assim nas ruas, nas bibliotecas, no interior das casas e das escolas. O poder político penetrava fundo nas vidas e consciências individuais. E com ele “a vida portuguesa”, essa invenção da dupla Salazar/Ferro de que toda a obra material do regime era propaganda activa.

A Vida Portuguesa, um manifesto

Nos últimos anos, “a vida portuguesa” voltou a tornar-se moda. Se, após o 25 de Abril, vivemos uma boa década em que a maioria das pessoas tinha um certo pudor em exibir-se publicamente por exemplo com a bandeira nacional, hoje – por obra da Selecção Nacional de futebol, da Expo 98, do Euro 2004, do “novo fado”, da acção de sucessivos governos conservadores, da Joana Vasconcelos e sabe-se lá do que mais –, volta a instalar-se na sociedade, mais ou menos subterraneamente, mais ou menos espectacularmente, uma certa onda nacionalista. Eis-nos mesmo chegados a um ponto em que uma cadeia de lojas não tem problemas de consciência em chamar-se “A Vida Portuguesa”.

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Se o nome dado a esta cadeia é revelador, não o é menos o seu manifesto (do qual a sua mera existência é já um indício de estarmos perante um projecto que – mesmo que os seus promotores disso não tenham consciência – transcende largamente a mera actividade comercial):

“Acreditamos que os objectos são capazes de contar extraordinárias e reveladoras histórias. Sobre um povo e os seus gostos peculiares, sobre uma sociedade e o seu contexto, sobre uma história que é afinal uma identidade comum. E, porque conhecemos – como não? – o infinito poder da saudade, outorgamos também aos objectos esse condão mágico de, como uma certa madalena, acordar sensações e lembranças em cada um de nós. Revelar-nos portanto.

A Vida Portuguesa nasceu com (…) o desejo de revelar Portugal de forma surpreendente.

Ao longo dos últimos anos pesquisámos, do Norte ao Sul de Portugal, produtos de criação e fabricação portuguesa. Que produtos são esses? São produtos que atravessaram gerações e nos tocam o coração. (…) São marcas registadas na memória e comercializam uma forma de viver. Relembram o quotidiano  de uma época e revelam a alma de um país.

Estes produtos são nossos. Estes produtos somos nós.”

Este texto, onde o verbo ‘revelar’ surge 3 vezes, recorda os textos de António Ferro onde se apresentava a arte popular “como uma emanação directa da alma da nação” (Vera Marques Alves). O critério que, segundo este manifesto, determina a pertença à identidade portuguesa é muito claro: partilhar de um mesmo património de formas culturais (que neste caso são também comerciais). À luz deste critério, são portugueses de pleno direito todos aqueles que se identifiquem com aquele repertório de formas. Excluem-se desta condição todos os que nenhum tipo de familiaridade possuam com o dito repertório. Este critério inclui tanto quanto exclui. Inclui um português branco de avós portugueses. Exclui um português negro de avós africanos ou um português de pais chineses ou um português cigano.

E chegamos aqui à essência de todas as identidades: são poderosas e perigosas ferramentas de exclusão. Todos os discursos em torno das identidades (como o deste manifesto) são discursos que determinam critérios de exclusão. O manifesto de A Vida Portuguesa exclui centenas de milhares de portugueses do “nós” a que ele se refere (para este manifesto, esses portugueses são um “eles”). Que em 2015 este tipo de discurso, ligado a um projecto comercial de sucesso, se mantenha operativo, é sintomático de que entre o fascismo e o presente neoliberal os pontos de convergência são bem maiores do que o que habitualmente se julga.

todas as imagens que ilustram este texto são provenientes da loja A Vida Portuguesa

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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