Identidade vs. liberdade

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Elementos para uma crítica do congelamento da história

Por trás de cada identidade (religião ‘católica’, ‘Europa’, partido ‘trotskista’, projecto de arquitectura ‘contemporânea’, investigador em ‘sociologia’, banda ‘rock’, cozinha ‘regional alentejana’), há inevitavelmente um processo de cristalização e de congelamento. Para manter idêntico, estável, uno, durante um período mais ou menos largo, um ser, um género musical, um lugar, um povo, uma gastronomia, uma corrente artística, uma disciplina científica, uma ideologia ou um partido político, há que inevitavelmente subtraí-los das relações efémeras e imprevisíveis em que, pelo facto de estarem situados numa temporalidade específica (na história, se preferirem), estão inscritos. Há que, em suma, resgatá-los dessa temporalidade, do fluxo maravilhoso, incontrolável e eternamente instável do tempo, e de toda a fecunda contradição que este encerra e que (acrescentaria Hegel) é fonte de todo o movimento, de toda a vida.

É assim, e não de outra forma, que se constroem as identidades – hoje tão celebradas nalguns meios esquerdistas e tão perpetuamente necessárias em todos os meios conservadores. E é por isso que elas são potencialmente tão nefastas: porque insensivelmente alheias a tudo à sua volta; porque hermeticamente fechadas sobre um pequeno núcleo de referentes consagrados; porque indiferentes à incessante construção de (outros) mundos em seu redor; porque impassíveis perante as forças e as vontades dispersas no presente, as quais não procuram senão iludir, silenciar, anestesiar, impondo-lhes uma herança criteriosamente escolhida no sagrado baú do passado; porque reaccionárias – se quiséssemos resumir numa única palavra. Efectivamente, as identidades reagem a tudo o que de vivo e livre vêem mover-se à sua volta. Mais concretamente, elas não suportam nenhum movimento – na sociedade, na estética, nas subjectividades, na história. Identidade e liberdade são por isso dois pólos opostos; e grande parte da contradição nas sociedades deriva desta oposição permanente.

A identidade é o estado daquilo que, por não mudar, permanecendo sempre igual e indiferente à passagem do tempo, permite distinguir ou individualizar uma pessoa, um partido político, uma ideologia, uma gastronomia, uma religião, um género artístico ou arquitectónico, uma disciplina científica, um lugar ou um povo. Todas as identidades se constroem tomando por base referentes estáveis, subtraídos ao fluxo dinâmico e diacrónico da temporalidade. Um dos maiores travões que a história encontra em todas as sociedades é precisamente o fenómeno da construção identitária.

Antes de avançar, gostaria de esclarecer previamente um ponto. É óbvio que por vezes é-nos irremediavelmente necessário construir provisoriamente uma ou várias identidades, para (de)marcarmos o nosso espaço nesse palco histórico de conflitos e antagonismos que é a sociedade: uma identidade que poderá ser proletária, feminista, curda, gay, okupa, punk, cigana, lésbica, palestiniana, catalã, grega. Podemos e devemos fazê-lo, quando desejamos afirmar – e, mais do que isso, mobilizar num movimento colectivo – a nossa diferença, o nosso espaço, a nossa subjectividade, o nosso mundo, perante a subjugação de identidades dominantes, totalitárias, intolerantes.

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Mas uma identidade dominante não se combate prolongadamente pela mobilização de uma contra-identidade (ainda que, repito, em certos contextos, e provisoriamente, isso possa ser estrategicamente necessário). Porque qualquer contra-identidade, ao fim de algum tempo, tende a degenerar nos mesmos vícios contra os quais originalmente se rebelara, tornando-se também ela – ainda que  possivelmente noutra escala – dominante, totalitária, intolerante à afirmação de outras subjectividades. É assim que também nos meios okupa, nos meios punk, nalguns meios feministas e em tantos outros meios alternativos, vemos emergir a mesma preguiça intelectual e o mesmo apego a estereótipos morais e estéticos que estes meios apontam como sendo característicos e definitórios da sociedade castradora e intolerante que os procura dominar.

O reaccionarismo estende-se subtilmente a todo o lado. E, se ele abunda igualmente naqueles meios mais críticos e tolerantes, é porque também aí o devir é visto como uma maldição que há que esconjurar. Em muitos desses meios, as identidades reproduzem-se com a mesma energia com que se reproduzem nos meios conservadores, conservando-se como um tesouro que não pode ser contaminado e que deve resguardar-se das relações efémeras onde poderia questionar-se, enriquecer-se e estimular-se, ao absorver formas, conceitos, conteúdos.

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Voltando às contra-identidades, estas são sempre criadas em contextos de combate social, como forma estratégica de afirmar e unir vontades e subjectividades. Ultrapassados esses contextos, elas deveriam imediatamente desfazer-se. E, mesmo no decurso de um combate mais ou menos longo, ao qual não se consegue pôr termo, elas seriam melhor sucedidas se, em vez de se perpetuarem, fossem sendo continuamente substituídas por outras contra-identidades, passageiras, movediças, melhor adaptadas às sempre instáveis circunstâncias em curso. É aqui que emerge a questão que há-de perseguir qualquer leninista até ao último dia da sua vida:

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se as circunstâncias da história são sempre líquidas e instáveis – elas actualizam-se permanentemente – porquê enfrentá-las com um constructo sólido e imóvel? (A política não passa assim a confundir-se com a sua maior concorrente, a religião? E a crença não virá desta forma, mais tarde ou mais cedo, a ocupar o lugar da crítica?)

As identidades são terrivelmente cómodas, o que – aliado ao facto de levarem às sociedades a estabilidade de que todo o poder precisa para reproduzir-se – explica o seu tremendo sucesso em todas as épocas históricas. As identidades trazem-nos ordem no meio de um mundo instável. São elas que nos dão o conforto de um cosmos, em pleno caos. Dão-nos também a auto-satisfação de que precisamos para alimentar o nosso orgulho, justificando assim cada um dos nossos defeitos, mas legitimando também os nossos bloqueios, a nossa preguiça, a nossa inacção, a nossa indolência, a nossa crueldade. “Hoje morreram mais 90 imigrantes com hipotermia enquanto atravessavam o Mediterrâneo? É chato… mas eles são ‘pretos’, são ‘africanos’ , são ‘imigrantes’, são ‘pobres’, são tão diferentes de mim, que, na verdade, o que me importa que se extingam (como se fossem insectos)?” É isto que sussura baixinho o inconsciente de todo o ‘europeu’branco’, que adora defender os direitos humanos (mas que bem lá no fundo é tão genocida como os Reis Católicos ou como Hitler). E eu disse: TODO.

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Quanto mais conservadora é uma sociedade e quanto maior a obediência, mais as identidades aí permanecem vincadas, estáveis, incriticadas. Quanto mais totalitário é o poder, mais este depende da massificação da adesão subjectiva (que por sua vez destrói a subjectividade) a determinadas identidades. A identidade impera lá onde a subjectividade e a liberdade estão em ruínas.

Veja-se outro exemplo do poder bloqueador das identidades. Na música, as identidades (‘rock’, ‘jazz’, ‘hardcore’, ‘drum’n’bass’, ‘fado’, ‘funk’, ‘klezmer’…) reduzem brutalmente o poder da criatividade, paralizando a força vital da imaginação, ao contribuírem para inibir o questionamento de fórmulas consolidadas. Quando uma sonoridade determinada cristaliza num género específico (numa identidade), por reunir voluntariamente um leque de atributos reconhecíveis, a estética tende a tornar-se refém da reprodução de clichés. E é aqui que entra a indústria em jogo. (Abro um parêntesis: a catalogação do ‘cante alentejano’ como património da humanidade terá como primeira consequência inevitável a morte instantânea de uma sonoridade marginal, cristalizada num espectáculo burguês de consumo cultural, uma curiosidade turística que se mercantiliza – pelo que teria sido infinitamente preferível ter deixado o cante morrer sozinho, nas últimas tabernas onde ele ainda é praticado…) Os géneros musicais mais vivos, representando uma excepção no panorama geral, são justamente aqueles onde é mais difícil de identificar esses clichés.

Ora, uma banda que se identifica como sendo de ‘rock’ tenta reproduzir o que caracteriza a sonoridade ‘rock’. Uma banda ‘punk’ reproduz os estereótipos que definem o ‘punk’. Um grupo de ‘jazz’ procura tornar a sua sonoridade reconhecível enquanto ‘jazz’. Um compositor de canções ‘pop’ compõe para um auditório que possui as suas limitadas expectativas. Derek Bailey, guitarrista improvisador, observava numa entrevista que a maioria de géneros musicais estão vivos durante os seus primeiros 2 ou 3 anos, quando ainda não cristalizaram estilisticamente, funcionando apenas como campos de experimentação de formas, à procura, em busca, sem rumos previamente definidos. E depois tendem a morrer, paralizados na conservação de um património de formas congeladas no tempo.

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É assim com a música e com o resto: uma pessoa, uma cidade, uma gastronomia, uma disciplina científica, um jornal  militante, um partido político, um movimento revolucionário. Assim que estes se auto-reconhecem e identificam como parte de uma identidade estabilizada, o seu potencial de mudança, de abertura aos estímulos exteriores e à crítica esvazia-se brutalmente. É por isso que não há caminho para a liberdade que não passe por uma crítica radical das identidades (e talvez seja por isto que a liberdade há de ser sempre a maior de todas as utopias).

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

4 thoughts on “Identidade vs. liberdade

  1. Cheira-me, caro PDuarte, que este foi motivado por aquele post de um menor…aquele de onde sobressai a identidade dos negros e um apelo aos negros para protegerem negros. Uma coisa assim indigente, apontada a mais de meio mundo e que finda com uma escarradela em dizeres socialistas e revolucionários!!

    1. E note, caro PDuarte, que, quanto a mim, a indigência do escrito, que acima refiro, advém não do ponto identitário mas do apelo. Um apelo pueril na afirmação encomiástica e simultaneamente vitimizada dessa identidade. A identidade, especialmente a cultural e étnica, é de tal forma incontornável, inelutável, que não se questiona a si própria, às suas circunstancias e às circunstancias que reproduz e perpetua.
      Por esta razão o apelo cingir-se-á a um circuito fechado, identitário, sem qualquer destinatário fora dessa identidade – subcultura – a identidade de bairro maioritariamente negro.
      Todavia, sempre trágico. Trágico porque inconsequente ou trágico por consequência.

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