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Jornalismo e ideologia

A banalização do uso da palavra “terrorismo” não é nova. O uso ideológico do medo como instrumento legitimador da ordem existente é um recurso habitual em  política. E os média, enquanto actores políticos decisivos para a manutenção da ordem em curso, são mestres nesse uso. Não por acaso, num editorial recente do Público, o director-adjunto do jornal abordava alguns episódios recentes em Barcelona, que tiveram por alvo empresas turísticas, com o título “Terrorismo contra o turismo”. Antes de mais, lugar aos factos: um grupo de jovens independentistas, socialistas e feministas catalães teve há uns dias o desplante de atacar um autocarro que transportava turistas, furando-lhe os pneus e grafitando na viatura “o turismo mata os bairros”. Dias depois, escolheu outra forma de protesto que também implicava danificar equipamentos turísticos, neste caso bicicletas. Perante esta ousadia, o referido editorial empregou a imagem em voga dos ‘terroristas’ para denominar e qualificar estes perigosíssimos putos anti-capitalistas, destacando assim neles a sua suposta intolerância, violência e ameaça social.

Nesse sentido, o artigo começa por opor habilmente a figura dos “extremistas” àquela dos “estrangeiros”, numa formulação que pretende passar a ideia de que estas – ou quaisquer outras – acções anti-turísticas têm sempre algo contra os “estrangeiros”. Mas um pouco de investigação jornalística, que infelizmente não está nada em voga, seria suficiente para revelar que os grupos que mais têm praticado uma crítica radical do turismo são também aqueles que mais têm apoiado a defesa dos imigrantes e dos refugiados. A caricatura xenófoba é portanto o primeiro tiro ao lado do jornalista.

Na mesma frase, o director-adjunto do jornal afirma que “a ideia dos extremistas (…) é atacar o turismo de forma a debilitar o sustento social” de Barcelona. Ou seja, a ideia que supostamente mobilizara os putos anti-capitalistas a saírem de casa seria basicamente… levar a cidade a morrer à fome – até porque deixou de haver outra forma de sustento no mundo para lá da mercantilização turística dos territórios. Segundo tiro que, numa mesma frase, erra o alvo.

Prossegue o pífio editorialista o périplo ideológico de quem lhe paga o salário, insinuando que a perigosa difusão do terrorismo pela sociedade se processa também através dos que praticam nas ruas a crítica social: “Não é algo novo: cada vez que uma cimeira política ou financeira reúne líderes mundiais numa qualquer capital há quem, a coberto do protesto político, aproveite para cometer crimes violentos, normalmente em grupo e a coberto de uma qualquer ideologia que promove a crítica social.” Só não especifica em que campos de treino do ISIS recebem formação estas “células de jovens”, como ele lhes chama (e atenção que o vocabulário escolhido é tudo menos casual). Já agora, quantas “células de jovens” terroristas se terão coordenado para fazer o Maio de 68?

Para o escriba assalariado da SONAE, todos estes desvios à normalidade se resolveriam se “as autoridades” não fossem “lentas a reagir”. Afinal de contas, para qualquer neoconservador neoliberal não há mal que a repressão policial não cure. Neste mundo, apenas o mercado é irreprimível.

E reitera: “O que interessa aqui é o crime, que tem de ser combatido de forma decidida em nome da preservação da vida social.” Vida social?! Mas este porta-voz da classe média lusitana que vive trancada entre condomínios deprimentes e segundas circulares já se deu ao trabalho de ir a Barcelona ver a “vida social” dos bairros populares que a expansão do turismo está a transformar em parques temáticos desabitados e em territórios férteis para quem faz vida de negócios imobiliários? Na verdade, bastaria ao jornalista andar um pouco pela velha Lisboa popular para perceber o extremismo do fenómeno. Mas há muito que o jornalismo pequeno-burguês não frequenta as mesmas ruas que nós. Não frequenta ruas nenhumas, aliás. E espanta-se que já ninguém o lê.

E assim prossegue o brilhante raciocínio: “Quando esta mesma forma de crime organizado chegar a Portugal, será preciso recordar que é apenas uma questão de lei e ordem. E será melhor que não apareçam agentes sociais a tentar branquear comportamentos criminosos com argumentos desculpabilizantes com base em ideologias. (…) Será importante ignorar as motivações pseudopolíticas e clarificar que a lei e a ordem existem precisamente para preservar a lógica social da democracia e da liberdade. Um crime é um crime e nenhuma ideologia justifica a destruição de propriedade ou a agressão.” (Não era também o que se dizia durante as barricadas do Maio de 68?)

Enfim, tudo parece ficar mais claro quanto à ideologia do editorialista: “lei e ordem”, “democracia”, “liberdade” e “propriedade”, ou seja, os conceitos que hoje estruturam o discurso de qualquer apregoador do capitalismo liberal. Refira-se que, desses conceitos, os de “democracia” e de “liberdade” foram, ao longo de décadas, sendo castrados, pervertidos e esvaziados do seu potencial emancipador, para se tornarem pura propaganda capitalista. Não foram exactamente eles que legitimaram Bush a invadir o Iraque para aí impor o seu modelo “democrático” e “livre” de sociedade? Afinal de contas, hoje, falar de democracia e liberdade (por oposição ao inimigo, já não do comunismo, mas do terrorismo) equivale a falar de capitalismo. Trata-se simplesmente da eficaz ideologia que legitima o presente.