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Meio ambiente e mentalidade empresarial, uma relação impossível

A ilha brasileira Fernando de Noronha é um paraíso ecológico que atrai um número cada vez maior de visitantes, sendo estes já metade dos habitantes totais da ilha. Aqui, a protecção da natureza, apesar de constituir o grande atractivo da ilha, confronta-se diariamente com a avalanche turística que impõe nos quatro cantos do mundo os resultados do triunfo histórico da mentalidade empresarial, segundo a qual qualquer território se deve tornar uma mercadoria, mesmo que isso implique a sua gradual destruição ou a extinção das suas formas de vida. O principal empresário da ilha e seu grande promotor turístico, José Maria Sultanum, mostra como o turismo se alimenta precisamente daquilo que vai degradando, quando afirmava recentemente, nas páginas de um jornal brasileiro, “Eu dependo da sustentabilidade, da preservação, mas desde que não seja em detrimento do homem. O meio ambiente tem que ser protegido para servir o homem”. Ora, se é o homem, o turista, quem deve estar hoje no centro da política de conservação ambiental, torna-se desde logo evidente a insignificância, a miséria e a desfaçatez desta política, que não serve senão para camuflar a (no curto prazo) lucrativa destruição ambiental em curso.

Já todos percebemos que, à medida que a mentalidade empresarial se dissemina pelo globo, a água limpa e o ar respirável se vão tornando cada vez mais escassos. Mas há uma pergunta muito simples que os média e a classe política jamais colocam: quem beneficia com a destruição da vida?

Lisboa, Chão Salgado

Aqui, o texto de Maria Ramalho sobre a ilegal e ilegítima tomada imobiliária do centro de Lisboa, devidamente apoiado em dados e factos – publicado hoje no Público.

“Eu analiso o turismo enquanto indústria extractiva, como antes a mineração, o agro-alimentar. Para mim, Barcelona é um campo de soja, explorável como um qualquer recurso natural.”

Ler entrevista integral.

“Os pobres estão a ser expulsos do centro, e isso está a acontecer a grande velocidade”

Hoje, num interessante artigo de opinião, Pedro Machado escreve sobre “uma Lisboa que vai morrendo aos poucos”. Aí encontramos várias passagens do calibre das que aqui transcrevo:

“Estabelecimentos (…) muito estimados pelos habitantes locais desapareceram sobretudo pela acção do implacável compressor especulativo. (…) Existem diferentes causas para estes encerramentos, mas nem sempre se trata de falta de clientela ou viabilidade económica. O que acontece em muitos casos são rendas que atingem valores muito acima da realidade económica do país, e por vezes é apenas uma questão de opção e de conceito, por exemplo, um hotel que não quer a sua imagem associada a um lugar de cariz popular

“Do café Palmeiras não sobraram sequer as suas belíssimas arcadas e o seu magnífico pé direito — a ânsia de rentabilização foi tal que o rés-do-chão foi convertido em dois pisos.”

O café Estádio, no Bairro Alto, era um marco indelével da antiga boémia lisboeta, tratava-se do casamento perfeito entre o café de bairro e o destino dos errantes nocturnos e dos inconformados (…) noite fora praticava-se a tertúlia e a boémia. (…) Às sextas e sábados à noite era frequente não encontrar nenhuma das 80 cadeiras vagas e aí havia que encostar ao balcão, o que faríamos com satisfação pela oportunidade de desfrutar aquele ambiente anárquico, e electrizante. Não raras vezes havia discussões políticas e clubísticas inflamadas, ali estacionavam também alguns leitores solitários, algumas pessoas sinistras e outras até que falavam sozinhas. (…) O lugar tinha um charme decadente que já não se encontra mais nem tem substituto que se possa comparar, numa Lisboa que vai morrendo aos poucos.”

“Mais abaixo, na Praça da Figueira, o café Videirinha e a pensão Ibérica resistiam heroicamente nos últimos meses de 2017, sob ameaça de fecho. (…) Os clientes sentavam-se ao balcão para comer uma canja, um bacalhau cozido, beber imperiais acompanhadas de tremoços ou para tomar um café e um bagaço. Volta e meia saíam uns “bitaites” e umas “piadolas” ou uma resposta mais torta mas o ambiente era amistoso e sobretudo autêntico. O dono do estabelecimento estava disposto a negociar a renda e a pagar um preço mais elevado mas o proprietário do edifício não quis negociar. Agora esta verdadeira pérola será substituída provavelmente por um lugar luxuoso chamado Giuseppe’s, Low Fat Burger ou um lounge bar.”

“O pequeno café de bairro com as suas estimáveis particularidades, a sua clientela castiça e as relações que se criam entre estes não são substituíveis por modernos bistrôs self-service de paredes brancas, luminosas e desnudadas, nem por relações anónimas e mecânicas.”

“O que está a acontecer é que talvez pela primeira vez na história da cidade os pobres estão a ser expulsos do centro, e isso está a acontecer a grande velocidade.”

“Se expulsarem todos os pobres do centro, e acabarem com a mistura de estratos sociais que fazem a cidade, a Lisboa que Wim Wenders descobriu um dia morrerá tristemente.”

Texto completo aqui.

Fotos de Lisboa por PDuarte e A. Morgenstern