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Elogio do excesso (VI): Tributo às plantas exóticas

1 – As plantas exóticas são categoricamente desprezadas pela ortodoxia ecologista. Mas, enquanto mitificam e veneram as espécies autóctones, muitos militantes da causa ‘natural’ alimentam-se diariamente de quilos de exóticas – trigo, tomate, batata, arroz, laranja, azeite. Porque não se alimentam exclusivamente de sopas de folha de silva, saladas de urtiga e pão de bolota?

2 – Esta xenofobia vegetal dispensa um qualquer fundamento ecológico já que tais ecologistas não criticam apenas a deplorável introdução na paisagem das exóticas que se tornam pragas incontroláveis e acabam por sacrificar os frágeis equilíbrios do ecossistema. Criticam qualquer planta vinda de um lugar distante, a qual – mesmo que passe a conviver pacificamente com as restantes e até a melhorar ecossistemas degradados – se torna para eles uma abominável peste.

3 – Qual poderia ser, por outro lado, o fundamento cultural de uma tal xenofobia, sabendo-se que não existem culturas, nem identidades, que não sejam mestiças?

4 – E onde poderíamos encontrar um fundamento paisagístico, sabendo também que uma paisagem puramente ‘autóctone’ – como as que encontraríamos na Gronelândia, na Antártida ou em Marte – é, de acordo com as mais consensuais definições de ‘paisagem’, uma não-paisagem, já que marginal à intervenção humana que é, por definição, criadora de geografias impuras, miscigenadas?

5 – É ponto assente que onde não há homem não pode haver paisagem. E onde há homem – logo, também paisagem – jamais poderão faltar as exóticas, como bem deveriam saber os incoerentes ‘ecologistas’ que veneram as autóctones como o objecto de uma nova liturgia, apesar de as terem erradicado da sua dieta e da reprodução material da sua existência.

6 – Na nossa sociedade a sensualidade é violentamente reprimida. A pátina elimina-se dos edifícios, cujas fachadas periodicamente se higienizam. Nos cemitérios, as flores já não são senão de plástico, como as bolas de buxo à entrada dos hotéis. Também as madeiras do mobiliário são em cada vez maior número falsas – mas alguém nota realmente uma diferença enquanto passeia pelo Ikea? Perante o triunfo generalizado da aparência visual, que torna obsoletos os restantes sentidos, o mundo tornou-se plano, redutível à imagem de um ecrã. Como consequência desta degradação-falsificação da experiência sensorial, perdeu-se a exigência pela estética e a sensualidade dos objectos, das arquitecturas, dos lugares e das paisagens que nos rodeiam.

7 – O paisagismo contemporâneo não poderia deixar de contribuir para estas geografias assépticas, que falam a linguagem mirrada e empobrecida da classe média. O léxico da maior parte dos paisagistas, como dos arquitectos em geral, desconhece a palavra sensualidade. Trajam invariavelmente de negro como se o mundo com que se relacionam fosse um cadáver. Efectivamente, os espaços exteriores que desenham são invariavelmente inertes. O absoluto desprezo que as plantações exuberantes e exóticas de uma artista como Tita Giese lhes suscita é sintomático da aridez que predomina nos espaços exteriores das nossas cidades. Estes paisagistas, seres enfadonhos e previsíveis, que projectam para o intelecto mas não para o corpo, nem nas paisagens orgânicas e dinâmicas de Burle Marx sabem encontrar inspiração.

8 – Mas a sobriedade e a moderação não dominam apenas as paisagens hiper-racionais dos arquitectos paisagistas – paisagens que não admitem o descontrolo, a loucura, nem sequer a emoção. Dominam, reprimindo, os nossos gestos no espaço público, tal como dominam, restringindo, a nossa fantasia e o nosso imaginário.

9 – A loucura, a vitalidade e o excesso das plantas exóticas fazem tanta falta aos nossos desertos urbanos, como os oásis ao Sahara.

Fotos de  A. Morgenstern, plantas exóticas da Estufa Fria, Lisboa, 2018