Category Archives: ENSAIOS COM HUMANOS

La Société du Smartphone

La Sociètè du Spectacle

La Société du Smartphone

O livro La Société du Spectacle foi publicado pela primeira vez em Paris no ano de 1967. Em Portugal a primeira tradução é de 1972 e foi seguida de perto pelo autor Guy Debord. É com base nesta edição que se elaborou o détournement de alguns capítulos substituindo a palavra «espectáculo» por «smartphone» mas mantendo a numeração e a sequência original. Este détournement, assim como as fotos ilustrativas, são da autoria de Maria Ramalho.

3. O Smartphone apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade, e como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente o sector que concentra todo o olhar e toda a consciência. Pelo próprio facto de este sector ser separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; e a unificação que realiza não é outra coisa senão uma linguagem oficial da separação generalizada.

4. O Smartphone não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediatizada por imagens.

5. O Smartphone não pode ser compreendido como o abuso de um mundo da visão, o produto das técnicas de difusão massiva de imagens. Ele é bem mais uma Weltanschauung tornada efectiva, materialmente traduzida. É uma visão do mundo que se objectivou.

6. O Smartphone compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projecto do modo de produção existente. Ele não é um suplemento ao mundo real, a sua decoração readicionada. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo directo de divertimentos, o Smartphone constituiu o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação omnipresente da escolha já feita na produção, e o seu consumo corolário. Forma e conteúdo do Smartphone são identicamente a justificação total das condições e dos fins do sistema existente. O Smartphone é também a presença permanente desta justificação, enquanto ocupação da parte principal do tempo vivido fora da produção moderna.

12. O Smartphone apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz que «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que de facto ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.

13. O carácter fundamentalmente tautológico do Smartphone decorre do simples facto que os seus meios são ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.

15. Enquanto indispensável adorno dos objectos hoje produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, e enquanto sector económico avançado que modela directamente uma multidão crescente de imagens-objectos, o Smartphone é a principal produção da sociedade actual.

16. O Smartphone submete a si os homens vivos na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si própria. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores.

30. A alienação do espectador em proveito do objecto contemplado (que é o resultado da sua própria actividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do Smartphone em relação ao homem que age aparece nisto que os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos representa. Eis porque o espectador não se sente em casa em nenhum lado, porque o Smartphone está em toda a parte.

32. O Smartphone na sociedade corresponde a um fabrico concreto de alienação. A expansão económica é principalmente a expansão desta produção industrial precisa. O que cresce com a economia movendo-se para si própria não pode ser senão a alienação que estava justamente no seu núcleo original.

34. O Smartphone é o capital a um tal grau de acumulação que se torna imagem.

37. O mundo ao mesmo tempo presente e ausente que o Smartphone faz ver é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. E o mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois o seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens entre si e face ao seu produto global.

42. O Smartphone é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social. Não só a relação com a mercadoria é visível, como também não se vê senão ela: o mundo que se vê é o seu mundo. A produção económica moderna estende a sua ditadura extensiva e intensamente.

215. O Smartphone é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O Smartphone é materialmente «a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem».

218. A consciência espectadora, prisioneira dum universo estreitado, limitada pelo écran do Smartphone, para trás do qual a sua vida foi deportada, não conhece mais do que os interlocutores fictícios que lhe falam unilateralmente da sua mercadoria e da política da sua mercadoria. O Smartphone, em toda a sua extensão, é o seu «sinal do espelho». Aqui se põe em cena a falsa saída dum autismo generalizado.

219. O Smartphone que é a extinção dos limites do eu e do mundo pelo esmagamento do eu que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura.

Dirigir o corpo, educar o espírito

Todos os corpos que atravessam a longa fila da caixa do supermercado ensaiam involuntariamente um conjunto de gestos e atitudes que não são insignificantes para a reprodução do presente. Neste (não)lugar, eles são obrigados a praticar a indiferença, a obediência, o individualismo e o fingimento. E é também aí que assimilam eficazmente a repressão da subjectividade que esta sociedade nos faz aceitar como natural – tal como se tornou perfeitamente natural que se consumam anualmente, em Portugal, oito milhões de embalagens de antidepressivos e que, no mundo, a segunda causa de morte entre os jovens seja o suicídio.

(I) A indiferença silenciosa perante quem connosco comparte um lugar na fila ensina-nos a conviver pacificamente com corpos anónimos, que nos aparecem como não sendo possuidores de sujeito nem de interioridade.

(II) O “bom dia” frio e distante que mecanicamente retribuímos ao funcionário da caixa educa-nos a reduzir as nossas interacções comunicativas a um mínimo ‘institucional’, que nos permita simplesmente atravessar o espaço social, de ‘instituição’ em ‘instituição’ (o supermercado, a empresa, a loja, a universidade, o ginásio), com um pragmatismo individualista, sem criar elos nem ligações.

(III) A convivência forçada com a música, noticiários e promoções que são incessantemente debitados da aparelhagem sonora, sem que logicamente o tenhamos solicitado, incita-nos a tolerar passivamente o enquadramento mediático-ideológico que os nossos movimentos têm em qualquer parte onde chega esta sociedade.

(IV) Ensacar instantaneamente as compras e pagá-las num ápice, como se estivéssemos numa linha de montagem onde nos é vedado vacilar assim que chega a nossa vez, ensina-nos a não perturbar quer a normal reprodução do sistema (fundado sobre a incessante circulação mercantil) quer o sono da massa apática que jaz sobre as suas pernas enquanto aguarda imóvel e obediente pela sua vez – despertá-la, através de uma performance mais lenta e demorada, poderia fazê-la soltar a agressividade descontrolada que toda a longa sucessão de actos obedientes e passivos faz acumular.

(V) Manter uma postura vertical e honrada no meio deste isolamento, desta impotência e desta humilhação ensina-nos a fingir a dignidade perante a omnipresente anulação do eu. É quando se esgota esta capacidade de fingir a dignidade que a ideia do suicídio começa a ser considerada.