Cidade e capitalismo, ponto da situação

 

Recordo-me das cidades no tempo em que os moradores se abasteciam diariamente em mercearias situadas nas ruas e nos bairros em que viviam ou num mercado central, onde produtores regionais se reuniam para aí venderem os seus produtos. Na cidade onde cresci, não havia tão pouco rua onde faltasse um café em que boa parte dos clientes se demorava horas a fio, autêntico palco para uma socialização informal e espontânea que punha em contacto diferentes moradores e diferentes gerações. Lembro-me também de muitas noites de verão passadas numa grande praça que agregava centenas de pessoas, vindas a pé, que nada consumiam, apenas se encontravam – hoje, nessa mesma praça, somente a transmissão de um evento desportivo ou a estreia de um novo menu do McDonald’s reúne tantas pessoas. As cidades estavam então repletas de lugares cheios de vida colectiva onde se reproduziam velhos costumes pré-capitalistas, como a comunicação directa e livre entre vizinhos. Assisti depois ao desmoronamento progressivo de todos estes lugares e à reconfiguração capitalista da geografia e da sociedade urbanas, num processo que, como um terramoto, abalou e destruiu as cidades tal como as conhecíamos. E o que se perdeu não foram meramente as redes de convívio, solidariedade e partilha; foi também o acesso a uma paisagem repleta de história, essencial para a construção da memória, bem como a uma sólida vida cultural, ancorada nessa paisagem e construída ao longo de gerações em torno de teatros, bibliotecas, cafés, associações, praças, jardins ou museus.

Foi quando a mercadoria vedeta da sociedade do espectáculo, o automóvel,  irrompeu no imaginário colectivo como símbolo maior de prosperidade e emancipação individual, que um novo desenho das cidades começou a ser posto em prática. Estas foram integradas numa ampla rede de mobilidades ao mesmo tempo em que nas periferias surgiam pólos comerciais, empresariais e residenciais, totalmente subordinados ao automóvel. As velhas cidades, sem condições para a circulação e o estacionamento em massa, tornaram-se rapidamente obsoletas. Habitá-las deixava de constituir uma vantagem para a maioria da população, dado que toda a oferta, à excepção da cultural, se transferira para fora delas. Foi assim que, no espaço de uma geração, se desertificaram todas as cidades deste país: Coimbra, Lisboa, Porto, Évora, entre tantas outras, sucumbiram à nova organização capitalista da geografia urbana, com o shopping, o hipermercado e o automóvel à cabeça de um vasto território que, pela primeira vez na história urbana, não incluía lugares que promovessem o convívio nem a  partilha. Nele, apenas se reproduziam a separação, a passividade e a atomização.

Mas, se há vinte ou trinta anos era lucrativo arruinar as cidades, transferindo as suas dinâmicas de emprego, habitação ou comércio para novos bairros fabricados à pressa na periferia onde, sem obstáculos, o capital mais rapidamente encontrava formas eficazes de se multiplicar, agora esse mesmo capital veio reocupar as ruínas que ele próprio gerara – e onde se haviam entretanto instalado formas de vida minoritárias, por vezes marginais, animadas por imigrantes, subculturas, comunidades lgbt ou artistas inconformados. Com a redescoberta burguesa dos encantos da velha cidade, subitamente investida de prestígio e glamour, tornou-se urgente encontrar estratégias para a sua revalorização e consequente expulsão das minorias que a haviam ocupado e das classes populares que nunca a tinham deixado. Encontramo-nos agora numa fase da configuração capitalista do território urbano em que as cidades reentraram em grande na agenda do investimento. E não só na área do turismo, dado que as transformações radicais da oferta comercial e residencial nos seus bairros mais carismáticos não são apenas desencadeadas pela turistificação. Bastaria abrirmos uma Time Out para percebermos que elas se dirigem na mesma medida à burguesia local, da qual pouco se fala quando se abordam estas transformações súbitas: do anúncio de charmosas boutiques a gigantes concept stores, não faltam, em qualquer dos bairros do centro de Lisboa que até aqui estavam excluídos do roteiro burguês, atractivos para as classes mais prósperas da cidade. Também um jornal catalão noticiava esta semana que o Ikea está a ponto de chegar ao centro de Barcelona, bem como de outras 29 cidades, revelando assim que, no momento presente, não há actor económico que queira ficar de fora da grande festa do consumo que se transferiu para as cidades. E que estas estão a recuperar o lugar que tinham perdido no coração não apenas do território urbano e da metrópole, mas também do capitalismo.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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