Notas para uma crítica radical do turismo (X)

Mobilidades, policiamento e coleccionismo turístico

Todo o turista é por natureza coleccionador. Mais do que aprofundar, ele acumula: experiências, imagens, lugares, viagens. Este coleccionismo não é apenas um facto de ordem mental (colecção de impressões, de memórias, numa trama muitas vezes confusa – “Tive aquela experiência na viagem à Austrália ou à Namíbia?”), já que se manifesta também num plano físico, material. A imprescindível câmara fotográfica permite-lhe reunir e acumular imagens das experiências e dos lugares, materializando o sentimento de possessão desenfreada que é comum a qualquer coleccionador. Os souvenirs desempenham o mesmo papel: a compra de uma lata de sardinhas retro ou de um sabonete vintage numa mercearia ‘típica’ lisboeta permite-lhe levar consigo de volta para casa um pouco da Lisboa ‘genuína’ que vem descrita nas páginas do Lonely Planet ou do Fodor’s Travel, de dela se apropriar por um período mais longo do que aquele que dura a viagem. Eis a função do souvenir e o motivo do seu extraordinário sucesso.

O autocarro descapotável que traduz aos turistas, em imagens reais, as descrições que um guia de viagens faz do centro de uma cidade, tal como o tuk tuk que serpenteia esse centro num registo mais divertido e aventureiro, não tem outra motivação que não seja a de alimentar o coleccionismo passivo de imagens, as quais faz sucederem a um ritmo frenético. Também o trilho pedestre que foi introduzido algures na natureza para permitir ao eco-turista aventurar-se em paraísos ‘intactos’ da Serra do Gerês ou da ilha açoriana das Flores serve o mesmo propósito, ao criar no seio de paisagens invulgares um fluxo de imagens que, desta feita numa cadência slow, se substituem e eliminam à medida que se vão sucedendo. Todo o trilho de natureza – cujo antepassado mais provável é o alpinismo, que foi uma das primeiras formas de turismo – tem por meta criar uma lenta sucessão de imagens e, deste modo, limitar a possibilidade de se explorar cada imagem singular.

Seja no meio do alcatrão da cidade ou das daninhas da natureza, os lugares que se encenam num itinerário turístico surgem unificados, desfazendo-se do seu carácter único, o qual apenas poderiam reconstituir aqueles que os habitaram. Apesar da sua singularidade, estes lugares são mobilizados para a criação de um roteiro ou pacote, que lhes confere uma equivalência e unidade inéditas, ao mesmo tempo que anula aquilo que os faz diferentes e incomparáveis, ou seja os seus significados, códigos e contextos locais. É através de um sofisticado processo de adulteração, que modela os territórios de modo a poderem ser consumidos, que se dá a sua recodificação e recontextualização. Este processo visa, através do uso de códigos universais, torná-los descodificáveis – leia-se consumíveis – por esse coleccionador nato que é o turista. É por isso que os territórios turísticos, enquanto deslizam continuamente de um contexto local para um outro que é de natureza universal, se vêem libertos de uma semântica que é particular a um lugar e cuja chave de interpretação está circunscrita ao grupo que o habita. Todo o processo turístico passa por uma vasta recodificação e estandardização do mundo sensível.

O habitante opõe-se ao turista na medida em que o turismo é a negação do habitar. Habitar implica ocupar, estar presente, permanecer activa e prolongadamente num dado lugar, através da constituição de redes de relações, que se transformam num devir imprevisível, entre os diferentes habitantes. Fazer turismo, pelo contrário, implica estar  ausente dessas redes de relações históricas que se prolongam no tempo, na medida em que, estando continuamente integrado num sistema de mobilidades, o turista nunca deixa de estar em movimento, em trânsito, numa passagem perpétua, que, enquanto colecciona experiências e imagens, se revela incapaz de criar nós ou estabilizar ligações com os habitantes. Se a imposição de mobilidades aos territórios se tornou um dos aspectos centrais do turismo é porque elas são o meio do turista se realizar enquanto coleccionador.

Um território sem uma rede eficiente de mobilidades – ao negar a possibilidade a qualquer um, independentemente do seu grau de conhecimento da geografia em questão, de mudar constantemente de lugar – é um nonsense turístico. Um bairro popular (a Rocinha no Rio, Alfama em Lisboa, o Raval em Barcelona, a Baixinha de Coimbra) não é turístico até ao dia em que, sem o consentimento de quem o habita, agentes exteriores ao bairro – decisores políticos, urbanistas, paisagistas, investidores, credores, polícias, etc. – passam a operar coordenadamente, de modo a integrá-lo numa ampla rede, sistematizada e policiada, de mobilidades, que torna possíveis e seguros o trânsito e o consumo turísticos. A violência do processo turístico – ou da turistificaçãoreside precisamente nesta imposição das mobilidades e dos consumos que são inerentes ao turismo a geografias habitadas, sem qualquer consulta nem participação de quem as habita (é precisamente nesse momento que os habitantes se apercebem quão débil e frágil é, no mundo da mercantilização capitalista, a soberania de que dispõem sobre os seus territórios).

O policiamento dos territórios turísticos, trazendo consigo a novidade de defender uma população que lhes é exterior pela repressão de grupos locais – os quais, no entanto, o financiam através dos seus impostos -, corresponde essencialmente ao policiamento daquelas mobilidades, como ocorre no Rio de Janeiro, onde a polícia militar vigia com armamento de guerra as chamadas ‘áreas turísticas’, ou em Lisboa, onde ficará reservada às principais artérias turísticas a colocação do futuro dispositivo de vídeo-vigilância que já foi anunciado pelo actual presidente da câmara.

Mais notas para uma crítica radical do turismo: (I): A falsificação do real  (II): O turista – esboço de definição (III): O turismo, uma invenção do capitalismo (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes (V): Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo (VI): O turismo, uma revolução semiótica sem precedentes / (VII): O que faz mover um turista? (VIII): Eis porque fazer guerra ao turismo se tornou um imperativo: o turista não é um ser inofensivo, fazer turismo é tomar uma opção política pela hegemonia do capital / (IX): O gozo efémero do turista é a desgraça permanente do residente: da ‘moradorofobia’ às bio-mercadorias

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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