A história que não é contada a quem compra comida no hipermercado

O agro-negócio deixa atrás de si um mar de plástico, como revelam os 30 mil hectares de estufas no sul de Espanha documentados nesta foto, onde no Inverno se produzem muitos dos vegetais consumidos por milhões de consumidores europeus que já não sabem quais são os frescos que correspondem a cada estação do ano. Beringelas ou tomates em Dezembro? Por que não? Na Holanda, outro grande exportador de hortícolas – apesar da escassez de território -, as estufas são iluminadas à noite para ampliar os períodos de crescimento dos tomates.

Mas o agro-negócio deixa também atrás de si um mar de exploração. A população imigrante, a mais explorável de todas as que habitam os países ricos do hemisfério norte, compõe a energia humana que faz carburar o negócio. Nas estufas espanholas, trabalhadores romenos e africanos erguem as estufas, plantam os legumes e recolhem os frutos. De tempos a tempos surge na imprensa, sem grande alarido, a descoberta pelas autoridades de mais um campo de escravos.

A melhor metáfora para o agro-negócio não é no entanto a do mar, mas a do deserto.

Por toda a parte onde chega a agro-indústria, ecossistemas são devastados para darem lugar a monocultivos ultra-intensivos, sem  lugar para nascentes de água potável nem para enxames de abelhas. No Alentejo eles dão assim lugar a olivais, no interior do Algarve a laranjais, no Brasil a campos de soja e na Indonésia a plantações de óleo de palma – que se tornou um ingrediente indispensável para a indústria das comidas processadas. Em desertos destes deixou de ser possível aí fazer eclodir a vida.

O capital é o reino do não-vivo. Os animais que fazem parte do agro-negócio não poderiam por isso ser tratados senão como seres não-vivos. Privados de absolutamente tudo, menos da faculdade de engordar, os porcos podem chegar aos 120 quilos durante os seus 160 dias de vida, período em que consomem em média 280 quilos de ração, ingerindo 2 mil litros de água.

O habitat natural dos seres-não vivos é aquele que, tal como numa estufa de tomates, lhes consegue garantir as condições óptimas de crescimento, graças a um controlo rigoroso de humidade, temperatura, luz e bactérias.

Na agro-indústria, a categoria dos seres não-vivos estende-se aos trabalhadores que trocam a sua força de trabalho por uma bagatela e que não são mais do que os antepassados das máquinas que, nos países ricos, executam já a maioria das tarefas produtivas. O quotidiano monorrítmico e robotizado destes assalariados é um palco de automatizações que destrói o corpo e deprime o espírito.

Eis o mundo que se esconde atrás da prateleira do hipermercado. Rejeitá-la tornou-se por isso um imperativo de todos os que lutam por outro mundo.

fotos de G. Steinmetz

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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