Propriedade privada, propriedade sagrada

O Relatório Anual de Segurança Interna de 2017 que foi ontem divulgado aponta como motivo de preocupação securitária maior “a ocupação de imóveis devolutos no Porto e em Lisboa”. Num país e numa sociedade onde é normal os supermercados destruírem diariamente toneladas de comida que sobra, impedindo o seu aproveitamento por quem não faça parte do mercado e não cumpra a lei sagrada do capitalismo de que não pode existir valor de uso sem existir valor de troca, é também normal que “a legislação obrigue a emparedar um imóvel, quando não é possível, no imediato, proceder à sua reabilitação. Estando todo o edifício abandonado, devem ser emparedadas com tijolos, as portas e as janelas mais baixas do imóvel, para que não seja invadido por quem lhe possa, por descuido ou vandalismo, pegar fogo. Não o fazendo voluntariamente, as próprias autarquias podem intimar o proprietário a fazê-lo. Não o fazendo, muitas câmaras, tomam elas mesmo a iniciativa de emparedar o imóvel, apresentando posteriormente a fatura ao proprietário.” Ocupar um imóvel para convertê-lo no lar de uma família ou num equipamento sócio-cultural representa um perigo para a segurança interna porque significa romper com a lógica dominante que atribui maior valor (legal) à mercadoria e à propriedade privada do que ao ser humano e às suas necessidades. E, hoje, a principal incumbência da polícia é certificar o distribuidor de mercadorias e o proprietário de imóveis que a lógica mercantil que defende os seus interesses se mantém intacta e que os humanos sem condições (ou sem o objectivo) de integrar o mercado continuarão excluídos, marginalizados e criminalizados.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “Propriedade privada, propriedade sagrada

  1. Olhando para a REALIDADE vê-se bem qual é o papel atribuído aos escravos que fazem parte da tal “polícia”!

    No dia em que a missão da “polícia” for defender a população de determinada região… deixa de existir polícia!

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s