“Os pobres estão a ser expulsos do centro, e isso está a acontecer a grande velocidade”

Hoje, num interessante artigo de opinião, Pedro Machado escreve sobre “uma Lisboa que vai morrendo aos poucos”. Aí encontramos várias passagens do calibre das que aqui transcrevo:

“Estabelecimentos (…) muito estimados pelos habitantes locais desapareceram sobretudo pela acção do implacável compressor especulativo. (…) Existem diferentes causas para estes encerramentos, mas nem sempre se trata de falta de clientela ou viabilidade económica. O que acontece em muitos casos são rendas que atingem valores muito acima da realidade económica do país, e por vezes é apenas uma questão de opção e de conceito, por exemplo, um hotel que não quer a sua imagem associada a um lugar de cariz popular

“Do café Palmeiras não sobraram sequer as suas belíssimas arcadas e o seu magnífico pé direito — a ânsia de rentabilização foi tal que o rés-do-chão foi convertido em dois pisos.”

O café Estádio, no Bairro Alto, era um marco indelével da antiga boémia lisboeta, tratava-se do casamento perfeito entre o café de bairro e o destino dos errantes nocturnos e dos inconformados (…) noite fora praticava-se a tertúlia e a boémia. (…) Às sextas e sábados à noite era frequente não encontrar nenhuma das 80 cadeiras vagas e aí havia que encostar ao balcão, o que faríamos com satisfação pela oportunidade de desfrutar aquele ambiente anárquico, e electrizante. Não raras vezes havia discussões políticas e clubísticas inflamadas, ali estacionavam também alguns leitores solitários, algumas pessoas sinistras e outras até que falavam sozinhas. (…) O lugar tinha um charme decadente que já não se encontra mais nem tem substituto que se possa comparar, numa Lisboa que vai morrendo aos poucos.”

“Mais abaixo, na Praça da Figueira, o café Videirinha e a pensão Ibérica resistiam heroicamente nos últimos meses de 2017, sob ameaça de fecho. (…) Os clientes sentavam-se ao balcão para comer uma canja, um bacalhau cozido, beber imperiais acompanhadas de tremoços ou para tomar um café e um bagaço. Volta e meia saíam uns “bitaites” e umas “piadolas” ou uma resposta mais torta mas o ambiente era amistoso e sobretudo autêntico. O dono do estabelecimento estava disposto a negociar a renda e a pagar um preço mais elevado mas o proprietário do edifício não quis negociar. Agora esta verdadeira pérola será substituída provavelmente por um lugar luxuoso chamado Giuseppe’s, Low Fat Burger ou um lounge bar.”

“O pequeno café de bairro com as suas estimáveis particularidades, a sua clientela castiça e as relações que se criam entre estes não são substituíveis por modernos bistrôs self-service de paredes brancas, luminosas e desnudadas, nem por relações anónimas e mecânicas.”

“O que está a acontecer é que talvez pela primeira vez na história da cidade os pobres estão a ser expulsos do centro, e isso está a acontecer a grande velocidade.”

“Se expulsarem todos os pobres do centro, e acabarem com a mistura de estratos sociais que fazem a cidade, a Lisboa que Wim Wenders descobriu um dia morrerá tristemente.”

Texto completo aqui.

Fotos de Lisboa por PDuarte e A. Morgenstern
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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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