Democracia liberal e vida selvagem, uma relação impossível

O desaparecimento massivo de pássaros nos países europeus é uma das consequências mais evidentes no meio selvagem dos efeitos devastadores das práticas produtivas capitalistas, que têm como única meta o lucro imediato, ainda que isso reiteradamente implique aniquilar a vida, nas suas diferentes formas. Em França, o Museu de História Natural e o CNRS acabam de emitir um comunicado conjunto onde estimam que “os pássaros dos campos franceses estão a desaparecer a uma velocidade vertiginosa” e que, “em média, as suas populações se reduziram para um terço em quinze anos”.

As práticas levadas a cabo pela agricultura industrial são a principal causa deste extermínio em massa. O fim dos pousios e a generalização dos insecticidas neurotóxicos são, entre outros factores, apontados como causas centrais deste declínio que tão pouco tem poupado, como tem sido amplamente noticiado, as populações de abelhas, mas também de todos os outros insectos, os quais se estima terem declinado cerca de 80% na Alemanha, desde os anos noventa. Quem, nos anos oitenta, fazia uma viagem por uma qualquer auto-estrada europeia recorda-se de, no final, o vidro do carro ficar completamente coberto de marcas de insectos. Hoje, e tanto dá se estamos em França, na Alemanha ou Portugal, contam-se pelos dedos de uma mão os insectos marcados no vidro.

As práticas produtivas uniformizaram-se em todo o continente, graças à política agrícola comum e ao mercado único (dominado por hipermercados), pelo domínio do qual os empresários agrícolas brutalmente competem, através da criação de monocultivos intensivos cada vez mais produtivos. Em Portugal, os produtores agrícolas que desejam encontrar um espaço no império da distribuição fundado por Belmiro de Azevedo – esse homem que recentemente o país em peso recordou como “uma pessoa extraordinária” – são constantemente pressionados, através de técnicas de “terrorismo negocial”, para reduzirem preços. Conseguem-no apenas se aumentarem a rentabilidade e reduzirem custos em todas as etapas do ciclo produtivo, recorrendo à precarização laboral, à sobre-exploração de solos, à contaminação ambiental e à destruição da biodiversidade. De outro modo, não serão admitidos no mercado da família Azevedo. Quem compete para se conseguir impor nos hipermercados não poderá pagar salários dignos nem zelar pelo futuro dos solos, do ambiente e da biodiversidade.  

Infelizmente, não constam entre as virtudes do liberalismo a consideração e o respeito pelo bem comum geral, apenas pelo sucesso económico de cada projecto empresarial concreto. A irracionalidade que impera na competição liberal deve-se ao facto de nela predominar a razão económica sobre todas as outras razões (a humana, a ecológica, etc.). A história actual não é senão o produto do triunfo desta razão concreta que hoje impele os produtores de mercadorias à extinção de toda a vida selvagem. Que os políticos não queiram ou não possam interferir neste movimento organizado e violento de extinção crescente é apenas revelador de como a democracia foi excluída do campo, cada vez mais vasto, onde actua, domina e prolifera a razão económica

Aves isoladas fotografadas na aldeia onde vivo (2011-2017)

 

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “Democracia liberal e vida selvagem, uma relação impossível

  1. Boas!

    Desde que animais umanos degenerados continuem a dar beijocas em umanóides… Tudo está “porreiro, pá!”

    Isso de preocupações ambientais são para os países que nós classificamos de sub-desenvolvidos! Esses sim não podem construir barragens, porque é preciso proteger as Florestas, mas já as podem destruir, às Florestas, se o fim for nós recebermos madeiras exóticas ou bifes de vaca!

    É deixar andar… Pode ser que afinal nem seja preciso CONTEMPLARMOS o maravilhoso cometa!

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