Ciência e prostituição

 

Ontem, os média noticiavam mais um episódio na triste história da inclusão da academia na esfera empresarial. Ficávamos por exemplo a saber que “o ensino superior vai contar com um novo tipo de mestrados, mais curtos, mas com uma ligação maior ao mercado de trabalho“. Parece-me fantástico que António Costa queira democratizar o acesso ao ensino superior e esteja preocupado em garantir que “até 2030 seis em cada dez jovens de 20 anos participa no ensino superior”, mas  tenebroso que o ensino superior que esses jovens irão conhecer tenha sido vendido aos interesses da economia, convertendo estudantes e investigadores em empregados ao serviço de empreendedores, startups, multinacionais, fundos de investimento e accionistas – subsidiados no entanto pela generalidade dos contribuintes. Em 2030, nenhum aluno do ensino superior saberá qual é a diferença entre investigação científica e desenvolvimento tecnológico.

No neoliberalismo, também a ciência é mobilizada pelos industriais na competição que travam entre si pela produção de valor. O dinheiro torna-se a medida exclusiva de todas as coisas, até da produção científica. Neste contexto, a única coisa que não se pode pedir à ciência é uma análise crítica para com a sociedade, a economia, a cultura, a vida presente ou passada. O seu foco deve deslocar-se exclusivamente para o incremento da rentabilidade dos mais diversos sectores da economia. E, ao invés de esclarecerem à comunidade a natureza do mundo actual, os seus contributos devem esclarecer aos agentes económicos a natureza da comunidade que estes desejam explorar.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “Ciência e prostituição

  1. Certíssimo, amigo Duarte. Os neoliberais encartados adoram propagandear as virtudes do livre- mercado que tudo resolve, mas, na prática, o que procuram é que sejam os fundos públicos a subsidiar e apoiar a “iniciativa privada”, alegando que esta é que cria riqueza. Cria, com certeza, mas importa questionar a quem é que essa riqueza toda se destina.
    Não esbanjámos…..Não pagamos!!!!

  2. Alain Badiou, a propósito de Pierre Guyotat:

    “However, ours is not just any universe. Guyotat has seen, no doubt before everyone else, at least with such opinionated force, that our universe is a prostituted universe. It is scientific, and by no means fantasmatic, to call putains the basic atoms of the world such as it presents itself today, and such as Guyotat has known that it was in the process of becoming almost half a century ago, unless something like communism happened to it.”

    “What does regime of prostitution mean? It means the reduction of every vital norm to the immediate mercantile potentialities of bodies; and, more generally, the transformation of the destitute, the weak, all those who compose the immutable bottom layer of the planet’s popular human masses, into exchangeable bodies offered up to brute desire, cruelty, destruction, and consumption.”

    Alain Badiou. “The Age of the Poets: And Other Writings on Twentieth-Century Poetry and Prose.”

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