Assistiremos passivos às tragédias de 2018?

2018 vai ser pior do que 2017. Nem se aprendermos a “reinventar o futuro” como pedia poeticamente, no discurso de ano novo, o presidente da república aos portugueses, o poderemos evitar. A dinâmica actual do capitalismo, em plena aceleração de processos, continua a empurrar o planeta e a sociedade para um abismo, não permitindo colocar outro cenário para 2018 que não seja uma intensificação de todas as tragédias presenciadas em 2017. À medida que no centro do império capitalista o poder dos donos da economia se torna cada vez mais concentrado, nas periferias estão a aumentar os territórios de exclusão, habitados por todos aqueles que deixaram de encontrar um qualquer lugar, mesmo que reles e insignificante, na cadeia produtiva. A outro nível de análise, uma onda de contaminação vai varrendo o império de ponta a ponta. E, pedra de toque neste edifício ruinoso, o aquecimento global vai produzindo novas catástrofes difíceis de prever.

Sendo assim, todos sabemos de antemão que dentro de um ano os oceanos estarão mais poluídos do que nunca enquanto ciclones e furacões continuarão a beneficiar enormemente do seu crescente aquecimento; a atmosfera e a comida estarão também mais contaminadas enquanto as doenças associadas (respiratórias, alergias, cancros, etc.) se continuarão a multiplicar para alegria dos accionistas das farmacêuticas; as florestas tropicais estarão mais dizimadas enquanto os habitats selvagens se tornarão seguramente mais escassos e as últimas comunidades indígenas estarão quase extintas. Por oposição, a introdução do eucalipto transgénico permitirá levar este monocultivo a novas latitudes do planeta. Por outro lado, as cidades estarão mais gentrificadas e as sociedades mais desiguais, enquanto paralelamente as depressões não pararão de aumentar. Enquanto isso, muitos jovens continuarão a ver no suicídio a única saída. Será efectivamente preciso ser-se um robot, um realizador de filmes de terror ou um turista para saber admirar devidamente o mundo daqui por um ano.

A única lei que continuará a regular a vida em 2018 será a de que tudo se deverá pôr permanentemente ao serviço do aumento de lucros do pequeno conjunto de corporações que sobreviveram à concentração liberal do mercado único. Assim, os que ainda trabalharem deverão submeter-se obedientemente a formas modernas de escravatura, cujas consequências são os cada vez mais habituais burnouts. E quem consumir as mercadorias que inundam o mercado deverá continuar a aceitar, em cada nova aquisição, pagar muitíssimo acima do valor real, em benefício das fortunas dos industriais e dos distribuidores. Em 2018, os humanos continuarão portanto a ser friamente abusados e instrumentalizados.

Mas será 2018 também o ano em que toda esta hostilidade, que os promotores da valorização do capital dirigem ao planeta e à humanidade, dará finalmente origem a uma resposta colectiva e organizada? Será 2018 o ano em que esta declaração universal de guerra deixará de ser ignorada e dará lugar a um contra-ataque nos mesmos campos em que o capitalismo se reproduz? A principal arma do capitalismo é a organização da nossa atomização e passividade, porque estas nos tornam obedientes consumidores das mercadorias pelas quais, nos mais diversos campos (informação, alimentação, arquitectura, ciência, informática, produção energética, etc.), ele se reproduz. Apenas se intervirmos directamente em cada um desses campos, aí criando alternativas e assim combatendo a hegemonia do capital, poderemos disputar-lhe a supremacia na construção do mundo em que vivemos e desenraizá-lo do centro decisor da pólis. Apenas assim poderão surgir formas de vida colectiva em que as relações sociais não tenham como única meta conservar o mundo irracional, solo fértil para todo o tipo de catástrofes, do dinheiro e da mercadoria.

Assistiremos passivos às tragédias de 2018?

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “Assistiremos passivos às tragédias de 2018?

  1. Acabei de ler o teu artigo «Programa para uma guerra em curso» e felicito a tua capacidade de escrever e as pistas libertadoras que não esqueces de apontar, algo fundamental para não nos sentirmos tão sufocados. Concordo absolutamente e preciso de as colocar em prática mais vezes do que já faço.

    Lembrei-me outra vez do teu desafio e envio as tais duas imagens tiradas na zona da Zambujeira (acho que ainda não te tinha dado). Vão em formato pequeno mas se precisares de mais qualidade diz.

    Textos para colocares nas imagens:

    1. No desporto, não se trata de jogar melhor; trata-se de uma disputa que se resume a uma luta pela sobrevivência e pela dominação, e que se encontra completamente alinhada pelo espírito dominante do capitalismo.

    2. No desporto o homem é sujeito a uma ordem autoritária e habituado a “responder a um apito” – sem raciocinar. A “regra de ouro” de qualquer treinador é que “os jogadores não pensam, fazem aquilo que lhes é pedido”.

    Excertos de «O desporto como religião do capitalismo: uma entrevista com Ljubodrag Simonovic», Flauta de Luz, nº 4, 2017.

    Beijo (ainda em pijama no meio de chá, leituras e ideias)

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