O que é um haiku?

“Para entender um pouco o que é um haiku, não é suficiente ressaltar que é uma breve composição poética de origem japonesa que os catalães concordaram escrever numa única estrofe de 3 versos sem rima de 4, 6, 4 sílabas. Diria que um haiku actua como uma espécie de tributo a um instante fugaz que o poeta tem a sorte de presenciar e que, através do haiku, poderá partilhar com o seu entorno humano e, de certa forma, imortalizar. É também um exercício para se libertar, na medida do possível, da nossa preciosa e sobrevalorizada subjectividade. O objecto de interesse num haiku é a realidade externa ao poeta e não a expressão da sua sensibilidade e mestria formal e estética.

No Ocidente, custa muito entrar no haiku. A nossa cultura, ao contrário da japonesa é, sobretudo, uma cultura da afectação, do exibicionismo intelectual e emocional, do culto ao génio, que valoriza acima de tudo a originalidade e a exaltação do eu e que tem como tema central a paixão e o amor. Em suma, uma herança do Romantismo que os orientais ignoraram. Para eles, pelo contrário, a subjectividade e o tema do amor apresentam um interesse apenas residual. O centro da sua criação artística e da sua espiritualidade tem sido tradicionalmente a Natureza – portanto em maiúscula. Consideram-na o espelho onde se reflecte o sagrado, senão mesmo o próprio sagrado. O haiku funciona muito bem para exemplificar esta devoção que os japoneses sentem pela natureza, já que o interesse desta breve composição poética se costuma referir quase sempre a assuntos que surgem espontaneamente dela, sem que o homem aí tenha de intervir. Um haiku nunca se centra na interioridade do poeta, e este, ao contrário do que faziam os românticos, nunca fala de si mesmo usando como pretexto a descrição de uma paisagem. É um tipo de composição que não admite a intromissão do eu lírico, nem de jogos de palavras, simbolismos, opiniões, julgamentos e espasmos emocionais. Também se abstém do uso de figuras de estilo e de malabarismos complexos para obter uma rima. Como disse, o mundo interior do autor de um haiku não é, de modo algum, o mais importante, nem este pretende brilhar através dos seus poemas. Apenas interessa a sua capacidade para evocar o instante que pretende retratar com o haiku e a sua capacidade de síntese e de eliminar o supérfluo.

É um exercício de contenção muito poderoso que te obriga a um estado de contemplação bastante activo e que provoca, em última instância, que o eu se dissolva naquilo que contempla. O haiku é um carpe diem radical e extremo e eu não li muitos haikus de autores catalães que se aproximem desta ideia. Acho que se os escritores catalães que actualmente publicam haikus escrevessem realmente haikus, eles não venderiam um único livro. Claro que um escritor catalão não tem de escrever como um japonês, mas se baptizarmos com o nome de “haiku” os nossos poemas, acho que no mínimo deveríamos tentar contextualizar essa composição na cultura que a gerou, tentar entender a sua estética, e não apenas limitar-nos a seguir uma convenção silábica. Dito isto, espero que o desconhecimento e o atractivo do termo “haiku” na venda de livros não desvirtuem esta palavra por muito tempo. Alguns criticaram a minha visão conservadora do haiku. “Ariadna, és contra a evolução deste género!” A minha resposta é que assassinar o haiku não significa fazê-lo evoluir, da mesma forma que misturar coca-cola com vinho não é fazer o vinho evoluir, mas preferir o calimocho.”

Excerto de uma entrevista em catalão dada por Ariadna Torres (entrevista integral aqui / a precária tradução do catalão para o português é minha).

 

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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