A organização da ignorância

Habituámo-nos a ouvir que, na sociedade do conhecimento e da informação que é a nossa democracia liberal, os cidadãos são livres, educados e conscientes porque são permanentemente informados sobre tudo o que afecta a sua existência. Graças essencialmente à grande conquista civilizacional que representam os noticiários televisivos, que os canais informativos debitam em permanência, a maioria dos cidadãos teria acesso aos conhecimentos determinantes para poder pensar o mundo à sua volta e tomar as decisões mais acertadas na defesa dos seus interesses. E esta seria a maior virtude da nossa sociedade. Ao contrário dos regimes políticos onde se exerce mais ou menos explicitamente controlo sobre os média (Coreia do Norte, Cuba, Angola, China, Congo, Irão, Eritreia, Arábia Saudita, etc.), nas democracias ‘consolidadas’ o livre acesso aos média seria a garantia de um pensamento livre e autónomo dos cidadãos, capaz de impedir a sua subserviência aos diversos poderes.

Ao contrário dos norte coreanos ou dos iranianos, os europeus sabem portanto que, se as suas autoridades detectarem, através de medições precisas, a presença de uma nuvem radioactiva sobre todo o continente, os seus média informarão imediatamente a população sobre o sucedido. Porque nenhum interesse político, nem nenhum lobby industrial ou económico se poderá sobrepor à saúde dos cidadãos, que são quem ocupa, com exclusividade total, o centro nevrálgico a partir do qual são comandadas as democracias liberais. Digamos como mera hipótese que, se a dita nuvem fosse detectada em diversas estações de medição no início de Outubro, a respectiva informação, pela segurança dos cidadãos, jamais seria veiculada 5 semanas depois. Seria portanto impossível que as autoridades registassem um pico de contaminação radioactiva a 6 de Outubro e os média europeus informassem a população a partir de 9 de Novembro. Todos sabemos que na Europa estas coisas são possíveis apenas no cinema e nas teorias da conspiração porque o poder, precisamente por ser democrático, assenta não sobre a ocultação, mas sobre a informação e o escrutínio.

Por conseguinte, é impossível que na quinta-feira passada, dia 9 de Novembro, todos os média europeus tivessem noticiado pela primeira vez que “A medição a partir das estações europeias revelou altos níveis de ruténio 106 na atmosfera da maioria dos países europeus nos inícios de Outubro, com uma diminuição constante do 6 de Outubro em diante.” Se uma aberração destas fosse verdade, e fosse realmente possível esconder da população de todas as democracias europeias, durante mais de um mês, que uma nuvem radioactiva pairou vários dias ou semanas sobre as suas cabeças, então teríamos de perguntar, como fez Debord em 1988, afinal “que diabo pode comandar o mundo democrático?”

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “A organização da ignorância

  1. Boas!

    Felizmente que a parte mais DIVERTIDA está logo no início!

    os cidadãos são livres, educados e conscientes“!

    Pobres escravos!

    Quanto ao tema propriamente dito… eu fiquei a saber disto em Outubro depois de ler na WWW informação sobre níveis de radiação acima do normal!

    Se ficarmos esperando pelos Meios de Merda Social que alimentam as mentes dos boçais escravos que se julgam “cidadãos livres, educados e conscientes“… Bem, continuaremos como até agora.

    :cool:

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