Dirigir o corpo, educar o espírito

Todos os corpos que atravessam a longa fila da caixa do supermercado ensaiam involuntariamente um conjunto de gestos e atitudes que não são insignificantes para a reprodução do presente. Neste (não)lugar, eles são obrigados a praticar a indiferença, a obediência, o individualismo e o fingimento. E é também aí que assimilam eficazmente a repressão da subjectividade que esta sociedade nos faz aceitar como natural – tal como se tornou perfeitamente natural que se consumam anualmente, em Portugal, oito milhões de embalagens de antidepressivos e que, no mundo, a segunda causa de morte entre os jovens seja o suicídio.

(I) A indiferença silenciosa perante quem connosco comparte um lugar na fila ensina-nos a conviver pacificamente com corpos anónimos, que nos aparecem como não sendo possuidores de sujeito nem de interioridade.

(II) O “bom dia” frio e distante que mecanicamente retribuímos ao funcionário da caixa educa-nos a reduzir as nossas interacções comunicativas a um mínimo ‘institucional’, que nos permita simplesmente atravessar o espaço social, de ‘instituição’ em ‘instituição’ (o supermercado, a empresa, a loja, a universidade, o ginásio), com um pragmatismo individualista, sem criar elos nem ligações.

(III) A convivência forçada com a música, noticiários e promoções que são incessantemente debitados da aparelhagem sonora, sem que logicamente o tenhamos solicitado, incita-nos a tolerar passivamente o enquadramento mediático-ideológico que os nossos movimentos têm em qualquer parte onde chega esta sociedade.

(IV) Ensacar instantaneamente as compras e pagá-las num ápice, como se estivéssemos numa linha de montagem onde nos é vedado vacilar assim que chega a nossa vez, ensina-nos a não perturbar quer a normal reprodução do sistema (fundado sobre a incessante circulação mercantil) quer o sono da massa apática que jaz sobre as suas pernas enquanto aguarda imóvel e obediente pela sua vez – despertá-la, através de uma performance mais lenta e demorada, poderia fazê-la soltar a agressividade descontrolada que toda a longa sucessão de actos obedientes e passivos faz acumular.

(V) Manter uma postura vertical e honrada no meio deste isolamento, desta impotência e desta humilhação ensina-nos a fingir a dignidade perante a omnipresente anulação do eu. É quando se esgota esta capacidade de fingir a dignidade que a ideia do suicídio começa a ser considerada.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

3 thoughts on “Dirigir o corpo, educar o espírito

  1. Eu diria que “É quando se esgota a capacidade de fingir a dignidade” que aparecem os loucos com um bocadinho de verdade. Os que falam sozinhos, os que distorcem a realidade do quotidiano, os que recusam ser presos em 4 paredes, porque o isolamento já lhes matou a ligação a eles próprios.
    A loucura é a incapacidade de parar de sonhar, de não estar no mesmo patamar da maioria com as mesmas relações físicas e emotivas. É quando se esgota “A capacidade de fingir a dignidade”.
    Num dia, quando robôs com a dita inteligência artificial nos substituírem, a diferença nesses sítios não vai ser assim tanta.
    Raios partam a pressa de tudo e em tudo para não chegarmos a parte nenhuma.

  2. Olá… Boa noite!

    “… a ideia do suicídio começa a ser considerada.” não por esse motivo mas sim porque o animal degenerado começou a CONSUMIR drogas da área da psiquiatria e suas derivadas. Estas drogas – está mais que demonstrado… eles até escrevem nas bulas! – que provocam pensamentos suicidas e podem levar à morte! Quem imagina tal situação divertida?!

    Quanto ao “ O “bom dia” frio e distante que mecanicamente retribuímos…” declaro aqui que não é assim que me comporto!

    Eu retribuo a saudação cassete com um sorriso e um “Olá, bom dia”!

    E desde que não se ponham a falar do TEMPO… retribuo os eventuais ultra-rápidos diálogos!

    :cool:

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s