Democracia e radicalismo

Nas democracias liberais, nada é tão mal visto quanto o radicalismo. O inimigo declarado de todos os democratas são “os radicais”, “os extremistas”. E aqui, nestes rótulos vagos mas ideológica e mediaticamente eficazes, podemos encontrar um pouco de tudo aquilo que manifesta um qualquer tipo de antagonismo relativamente ao mainstream (político, social, cultural, económico): há os anti-turismo, os anti-agricultura intensiva, os anti-globalização, os anti-barragens, os anti-ogms, os anti-Nato, os anti-Estado espanhol; e há também os terroristas (que se reclamam de ideologia marxista, islâmica ou outra) ou os xenófobos de extrema direita, entre outros menos afamados. Um editorial recente do Público, que tive ocasião de comentar, misturava sabiamente alguns destes conjuntos de ‘radicais’, os anti-turismo com os terroristas, salientando os pontos em comum que supostamente teria a agenda de ambos.

A ideia que quem escreve regularmente na imprensa procura passar é que qualquer forma de radicalismo deve suscitar-nos instantaneamente o medo e a repulsa, porque põe em causa a mais sagrada de todas as criações políticas, a democracia liberal – que os países ocidentais adoptaram e, porque lhes permite ampliar geograficamente o seu poderio económico, exportaram ao resto do planeta.

Todos os “radicais” têm em comum o facto de desconfiarem deste regime político. Uns porque desaprovam o rumo que ele impõe à sociedade, outros ao meio ambiente, outros às ‘minorias’, outros à internet, outros ainda à economia, etc. Não há consequentemente “radical” que se sinta representado por nenhuma democracia daquelas que hoje vigoram no mundo. As urnas merecem-lhe por isso pouca ou nenhuma consideração, o que não quer dizer que as suas acções não contribuam para transformar decisivamente a vida em comum e os modos de governo. Como dizia Chomsky no filme ‘Requiem for the american dream‘, a verdadeira democratização da sociedade norte-americana nos anos sessenta do século passado, que se traduziu em melhorias substanciais nos direitos de minorias, das mulheres ou na protecção do meio ambiente, resultou precisamente da pressão brutal que sectores da população habitualmente passivos, mas que entretanto se organizaram, exerceram nas ruas sobre o poder “democrático”. Aconteceu há meio século na América e acontece todos os dias nos cenários mais improváveis espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Apesar das desigualdades cada vez mais acentuadas e da intensificação permanente do controlo (pela publicidade, o império Google ou os mass media), a democracia liberal é apresentada como um território de igualdade e liberdade. Como escrevia Žižek no livro ‘O ano em que sonhámos perigosamente‘, é porque nos falta a linguagem para articular a nossa falta de liberdade que nos sentimos livres nela. A dependência que vigora (entre proprietários e inquilinos, patrões e trabalhadores, industriais e consumidores) é, segundo o filósofo esloveno, “civilizada, representada na forma de uma livre troca de mercado entre mim e outras pessoas, e não na forma de servidão directa ou mesmo de coacção física”. E esta é a verdadeira arte da democracia liberal: não elimina a dependência e a exploração, antes as civiliza. E faz aqueles que não aceitam a legitimação destas relações aparecerem no espaço público como perigosos “radicais”. Mas será que todos os “radicais” – apesar da sua fama de “incivilizados” ou mesmo de “anti-sistema” – são igualmente insanos, insensatos e perigosos para a comunidade, como são comprovadamente os terroristas e os xenófobos?

Durante décadas, os ecologistas defenderam um modelo agrícola livre de pesticidas. Claro que foram acusados de “radicalismo” já que os pesticidas, desde que “adequados às normas impostas pelas entidades reguladoras”, eram considerados indispensáveis às boas práticas de uma “agricultura moderna” que se impunha nos países desenvolvidos e que promovera a substituição progressiva da figura retrógrada do agricultor por aquela hodierna do empresário agrícola (que já não era associado à enxada mas à Toyota Hilux). No entanto, em 2013, um estudo demonstrava que 92% dos cursos de água franceses estavam contaminados por pesticidas, devido às práticas da agricultura intensiva, apenas escapando à contaminação generalizada algumas zonas montanhosas e outras onde ainda predomina uma agricultura pouco intensiva, pouco consumidora de herbicidas, os maiores culpados da contaminação. As práticas agrícolas, devidamente enquadradas e policiadas pelos decisores políticos democráticos, revelaram-se assim insanas, insensatas e perigosas para a comunidade. O extremismo não estava afinal do lado dos “radicais” ecologistas, mas precisamente do lado que eles obstinadamente combatiam.

Também acusados de “extremistas” têm sido aqueles que, principalmente em França, se têm rebelado nas ruas contra a invasão publicitária do espaço público. Estes “radicais” têm limpado paredes inteiras do metro do marketing que enche o campo visual das nossas cidades, questionando assim a hegemonia (ideológica) que os industriais detêm hoje sobre o nosso quotidiano. Basicamente, defendem que a penetração da publicidade em todas as esferas da existência condiciona os nossos comportamentos e reduz a nossa liberdade, pelo que há que atacar esse monopólio da imagem que goza de toda a legalidade democrática. Será o seu ponto de vista insensato e perigoso para a comunidade? Ou, inversamente, não estará uma vez mais o extremismo precisamente do lado que os “radicais” combatem?

Em cidades como Amesterdão, Paris, Barcelona e Lisboa, têm surgido nos últimos anos movimentos de oposição à turistificação das cidades, processo económico cujos brutais danos colaterais têm reduzido abruptamente a qualidade de vida dos residentes. Também aqui estes movimentos de resistência têm sido apelidados pelos principais órgãos de informação de “radicais”, já que o turismo se considera hoje, mesmo pelos partidos de esquerda, como uma consensual conquista civilizacional que não pode ser discutida – quanto muito, pode ser suavemente regulada, mas sem nunca pôr em causa esse novo direito humano (infelizmente inaplicável aos refugiados) que é o “direito ao turismo”. Neste combate desigual entre agentes turísticos (investidores, promotores imobiliários, profissionais de hotelaria, jovens empreendedores, etc.) e movimentos “radicais” anti-turismo, enfrentam-se duas visões antagónicas e inconciliáveis da cidade: território mercantilizável vs território habitável. Novamente, de que lado está o extremismo? Poderiam multiplicar-se aqui os exemplos que revelam que a legalidade democrática legitima hoje práticas por parte dos agentes económicos com consequências extremas para o meio ambiente e para a vida das comunidades. É pois a coberto da democracia que os promotores da valorização do capital declaram guerra aos humanos e à ecologia. E é no “radicalismo” (com que os meios de comunicação rotulam o antagonismo a essas práticas extremas) que se ensaiam hoje as verdadeiras alternativas ao extremismo em curso.

Não nos resta mesmo outra opção senão sermos “radicais”!


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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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