Notas para uma crítica radical do turismo (IX)

O gozo efémero do turista é a desgraça permanente do residente: da ‘moradorofobia’ às bio-mercadorias

Com o mesmo modus operandi de qualquer indústria extractiva, o turismo explora matérias primas que extrai dos territórios onde opera. Os seus profissionais não precisam de inventar ou fabricar o Sol, uma ilha paradisíaca, as ondas do mar, a areia da praia, um bairro pitoresco, a neve numa montanha, um templo romano, um prato típico de caça ou um pintor surrealista para conseguirem, em proveito próprio, mercantilizá-los. O turismo é assim composto por um conjunto de indústrias genuinamente parasitárias, facto que por si só, numa sociedade que fosse vagamente racional, deveria levantar inúmeras questões aos seus cidadãos e respectivos representantes políticos.

‘moradorofobia’

Como se deu o caso de habitarmos uma sociedade que, por múltiplos mecanismos, decretou a proibição do uso da razão, deixaram de existir vozes a questionar por que diabo tem de se rentabilizar o património histórico ou porque é que cidades inteiras, como Lisboa e Porto, em vez de se administrarem para servirem as necessidades dos seus residentes, são formatadas para poderem servir de teatro de operações de consumidores em trânsito que, em toda a sua existência, não terão provavelmente mais de setenta e duas horas para dedicar a cada uma delas.

Vistos pelos investidores como empecilhos de que há que rapidamente desfazer-se, os moradores são despejados de suas casas e expulsos dos ‘bairros históricos’, para que as suas residências se transformem em alojamento turístico e as suas ruas em cenários ‘típicos’, embora previamente limpos e higienizados para melhor atraírem turistas ávidos de exotismo mas também de segurança, asseio e conforto. Por outro lado, o aumento brusco das rendas faz as lojas de uso quotidiano desaparecerem dos bairros, dificultando a vida aos moradores locais que vão resistindo à declarada ‘moradorofobia’ que a gestão turística do território ostensivamente manifesta.

E é precisamente aqui que deve desmontar-se o mito de que “as populações locais vivem do turismo”: elas morrem, isso sim, do seu imparável crescimento, que lhes arrebata habitação, comércios, pontos de convívio e trabalho não precário (os números da ultra turistificada ilha de Maiorca são esclarecedores – no mesmo período em que duplicou o número de turistas, os rendimentos, condições laborais e locais de convívio da população local diminuíram drasticamente, como relatou um membro do colectivo de Palma ‘Ciutat per qui l’Habita’, no debate ‘Habitação, Cidade e Turismo’ que teve lugar no Largo da Achada, no passado dia 15).

No entanto, o capitalismo é mais complexo do que à primeira vista parece. Mais do que complexo, ele é esquizofrénico: apropria-se sem remorsos (para gerar valor) daquilo que, ao mesmo tempo, ele contribui para erradicar – trate-se da natureza selvagem ou de uma gastronomia regional.

bio-mercadorias

Nos territórios turísticos, esta esquizofrenia traduz-se no facto de os moradores serem permanentemente humilhados pelos agentes económicos que fazem vida do turismo com tentativas de despejo e de serem por eles simultaneamente fetichizados enquanto atracções exóticas, que são exclusivas de um dado território, no qual os operadores turísticos procuram forjar uma identidade local que seja comercialmente explorável. Os moradores são portanto repelidos pelo capitalismo para fora dos territórios que são por este turisticamente apropriados (Alfama, Madragoa, Mouraria, Chiado, Bica, Ribeira, Sé, Alta de Coimbra, centro histórico de Évora, etc.) e, concomitantemente, eles são atraídos para o seu centro na qualidade de figurantes dos roteiros que, sob a forma de dormidas, refeições ou viagens em tuktuks, os turistas pagam.

Momentaneamente lavados do desprezo a que são constantemente votados, os residentes locais são assim simbolicamente elevados ao estatuto de ex-líbris turístico, complementando uma oferta onde se destacam labirínticas linhas de eléctrico, miradouros com vistas surpreendentes e estaladiços pastéis de nata. Os seus corpos, a sua cultura material e os seus costumes tornam-se parcelas vitais na composição do território enquanto mercadoria turística. A rentabilização destas bio-mercadorias é na verdade uma tendência muito importante no turismo contemporâneo. Quando o mundo – vestido pela Zara e H&M – se tornou global, um ‘velhote’ de boina e camisa aos quadradinhos sentado num banco de jardim torna-se uma imagem pitoresca, com tanto valor do ponto de vista da exploração turística como uma calçada tradicional ou um fado que se ouve num restaurante típico. Como anunciava sem ironia um vídeo promocional do Airbnb sobre a exploração turístico-comercial dos Açores, “We sell our people“.


Mais notas para uma crítica radical do turismo: (I): A falsificação do real  (II): O turista – esboço de definição (III): O turismo, uma invenção do capitalismo (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes (V): Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo (VI): O turismo, uma revolução semiótica sem precedentes / (VII): O que faz mover um turista? / (VIII) Eis porque fazer guerra ao turismo se tornou um imperativo: o turista não é um ser inofensivo, fazer turismo é tomar uma opção política pela hegemonia do capital

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “Notas para uma crítica radical do turismo (IX)

  1. Quando a degenerada cerebral que surge no vídeo a vomitar:

    “VENDEMOS A NOSSA NATUREZA, A NOSSA PAZ E O NOSSO POVO”

    pouco mais se pode esperar, que não seja isso mesmo.

    Pessoalmente ADORO os terroristas turistas pois são uma forma de ACELERAR a destruição que os animais umanos provocam nos ecossistemas. E quanto mais depressa os destruirmos melhor!

    Outra coisa que me diverte sem paralelo é quando os turistas são incomodados por furacões, terramotos, greves de tripulantes de cabine, pilotos, bófias do SEF et cetera, e depois os contemplo a chorarem-se que “tenho de estar no trabalho depois de amanhã e assim não vou chegar a tempo”… e outras lamúrias igualmente patéticas! É de partir a RIR.

    Mas enfim… NADA de magnífico e glorioso e humano se pode esperar de uma MANADA DE UMANOS DEGENERADOS!

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