O jornalista-turista

O jornal O Público tem-se convertido num dos baluartes nacionais da defesa e propaganda do ultra-liberalismo que, sob as mais diversas formas e sobre os mais variados planos (cultura, urbanismo, floresta, biodiversidade, património, etc.), formata de um modo inteiramente novo sociedades, territórios e até oceanos, com o único fim de deles extrair valor. E pouco importa que isso implique aberrações como enviar mil milhões de pessoas para favelas, privar muitas mais do acesso a medicamentos ou converter florestas inteiras em monocultivos inflamáveis. Dois dos fazedores de opinião a quem o jornal, intencionalmente, dá mais destaque, J. M. Tavares e D. Q. de Andrade, habituaram quem os lê aos lugares mais comuns da ideologia liberal. Uma ideologia que não serve senão para legitimar este mundo, com as suas inconcebíveis aberrações – as quais estas esplêndidas mentes, que dão o melhor de si ao serviço da ultra-liberal administração da SONAE, tão sabiamente ignoram em cada um dos seus textos.

A defesa do turismo tornou-se o último lugar comum da ideologia liberal. A naturalização do consumo turístico – que é o consumo de versões mercantilizadas do real -, enquanto mediação hegemónica do viajar (sem a qual este se torna inconcebível), participa hoje da construção de uma ideologia vital para a conservação política do presente. Uma ideologia que pretende fazer-nos crer de que deixaram de existir alternativas a este mundo irremediavelmente desigual e obsessivamente estandardizado, mediado pela toda-poderosa mercadoria. Na sua passividade, obediência e ignorância, o turista tornou-se o cidadão modelo das democracias liberais, aquele que melhor se deixa satisfazer e governar. Por isso, quem apregoa efusivamente estes regimes deve necessariamente glorificá-lo; e considerar terrorista quem lhe fizer frente. É precisamente o que faz, com toda a coerência, J. M. Tavares num dos seus últimos artigos de opinião, em que considera justo enfiar no mesmo lodo do terrorismo os putos anti-capitalistas que combatem o turismo que devasta bairros inteiros de Barcelona e a célula do ISIS que decidiu espalhar o terror pela Rambla. Nada há aqui a estranhar: a banalização/generalização do conceito de terrorismo, potencialmente aplicável a tudo o que se opõe às democracias liberais, é mesmo um dos propósitos destes experts em nada, que discorrem alegremente sobre tudo. Não me espanta que, um dia não muito distante, algum deles acuse os meus textos (os anti-turísticos, para começar) de constituírem uma incitação ao terrorismo. Conheço razoavelmente bem o mundo em que vivo, as suas gentes e do que são capazes.

No artigo citado, que foi publicado no Público e não no Correio da Manhã, J. M. Tavares apresenta-se a si próprio como um turista exemplar e, com o brilhantismo e a densidade intelectual de um Donald Trump, defende (A) que o ISIS é o melhor aliado da “trupe antiturista e, sobretudo, (B) que “cada turista é um combatente contra o Estado Islâmico“, na medida em que fazer turismo, como elucida eloquentemente o jornalista, “não é só um prazer — é a nossa modesta forma de resistir a quem nos quer matar. Daí que os desprezados turistas mereçam ser vistos com outros olhos: à sua maneira, eles são defensores de um modo de vida de que todos nos devemos orgulhar.” Mas, perguntará o leitor, porque é que “cada turista é um combatente contra o Estado Islâmico” e não cada adepto num estádio de futebol ou cada consumidor numa loja chinesa ou cada espectador num concerto do Anselmo Ralph? Não será fácil responder-lhe. Mas o certo é que o turista gera hoje um fascínio inigualável. Para quem é incapaz de produzir um texto que não seja uma promoção do liberalismo, o turista tornou-se uma figura modelar, aquela a que todo o bom cidadão deveria aspirar. É porque ele é estritamente consumidor durante as vinte e quatro horas do dia (da cama ao meio de transporte, passando pelo pequeno almoço e pela diversão nocturna, tudo no seu roteiro assume uma forma mercantilizada), mas também porque ele se deixa coagir, vigiar e conduzir como nenhum outro agente social, que o inofensivo turista é o protótipo comportamental das sociedades gestionárias e de consumo em que vivemos. Quem nos governa sonha com um futuro em que, como J. M. Tavares, todos seremos alegres e passivos turistas, não apenas nas férias, mas sobretudo em cada dia das nossas vidas. A cidade, fragmentada numa profusão de espaços criativamente empresarializados, será então um território já não de partilhas colectivas (em velhos cafés) mas de consumos individuais (em modernas hamburguerias), e o pitoresco campo um território formatado – pelos mesmos jovens empreendedores que mercantilizaram a cidade – para agradar ao olhar exterior e urbano. A sociedade do espectáculo terá, finalmente, atingido o seu zénite. O jornalista-turista poderá, merecidamente, pedir a sua reforma.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

4 thoughts on “O jornalista-turista

  1. Eu costumo resumir todo este paleio em calão da seguinte forma:

    puta que pariu os turistas

    Mas nada já me surpreende, pois a manada de escravos boçais necessita de turistar (nem que para tal se tenha que endividar) pois é a única forma que têm de durante as férias não se suicidarem, caso não consigam abandonar a senzala!

    Mas o que eu mais gosto é do ECO-TURISMO ou a outra designação TURISMO SUSTENTÁVEL… E de partir a :lol: :lol: :lol: :lol:

    De resto, sempre gostava de saber porque motivo ninguém se preocupa com o impacto que a duplicação de animais umanos no território de Portróical tem em realidade como a SECA EXTREMA/SEVERA e outros recursos…

    Pelos vistos o que continua apenas e só a interessar é o habitual LUCRO!

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