A inflexão nacionalista d’Os Verdes

Por vezes, a argumentação ecologista confunde a defesa do “local” com a defesa do “nacional”. E emerge acriticamente do seu discurso um “nós”, unido pela pátria. A cereja no topo do bolo dos mais recentes outdoors com inflexão nacionalista do PEV é o anti-nuclear Perigo à Nossa Porta! (relativo ao É Urgente Fechar Almaraz). Este outdoor revela de que pouco importa a estes ecologistas quem está para lá da “nossa porta” (numa imagem, esta da porta, digna da propaganda estadonovista).

Também a imagem do “Lugar à Nossa Floresta” tem que se lhe diga. A ideia da nossa floresta – enquanto entidade autóctone, quase mítica, já que idealizada numa pureza que nenhum elemento exótico deverá contaminar – é defendida por ecologistas que, apesar da sua xenofobia vegetal, não têm problemas de consciência em comer tomate, batata, laranja e azeite, produtos ‘exóticos’ que a civilização contaminadora, e não o ecossistema lusitano, fez chegar até nós. Mas não é necessário, como fazia Hitler, recorrer ao valor identitário da “nossa” floresta, para criticar a praga e o deserto de eucaliptos que varrem o país. Não é por serem estrangeiros (australianos) que os eucaliptos são maus, mas simplesmente por converterem territórios inteiros em desastrosos monocultivos capitalistas que reduzem o espaço ambiental e cultural a um investimento económico à espera de retorno.

Sabe-se que em Portugal, o nacionalismo brota como que espontaneamente das pessoas. De tal modo, que nem fazem falta os partidos políticos que se auto-denominam de nacionalistas. Porque, em maior ou menor grau, já todos o são. Afinal de contas não é de espantar que, num país onde os Descobrimentos são ensinados nas escolas como uma grande epopeia civilizadora da humanidade e onde uma cadeia de lojas chamada A Vida Portuguesa é elogiada em coro pela sociedade e imprensa, um partido ecologista imponha fronteiras políticas à defesa da ecologia, fazendo coincidir um território ecológico com um território nacional.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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