Alentejo criativo

 

A criatividade converteu-se numa das qualidades mais valorizadas pelo capitalismo. Porque é ela que permite inventar negócios e produtos inovadores, com altas margens de rentabilidade no ultra-competitivo mercado único mundial. Em Lisboa, uma área privilegiada da zona oriental da cidade (a antiga Manutenção Militar) prepara-se para receber empresas que aí se queiram gratuitamente instalar, desde que estas operem nas indústrias ditas criativas. Será o maior “Hub Criativo e empreendedor nacional”, noticiava um jornal qualquer, num artigo que também revelava a alegria que o presidente da câmara e o primeiro ministro sentiam pelo sucedido.

Mas a criatividade está a chegar também às periferias, mesmo àquelas onde não conseguíamos imaginar mais do que extensas planícies, rebanhos de ovelhas e sobreiros. Hoje mesmo, o Lonely Planet, um guia de viagens que tem dado um inestimável contributo para levar o turismo aos lugares mais recônditos e que se tornou particularmente famoso entre os turistas que acham que não o são (precisamente porque exploram esses lugares recônditos, “quase virgens”), considerava o Alentejo uma das 10 regiões europeias a visitar em 2017. Entre os motivos para tão honrosa distinção, estão os “novos investimentos turísticos” que incluem “uma série de restaurantes criativos” e “casas de hóspedes imaginativas”.

Outro sintoma de que a criatividade está a assentar arraiais no Alentejo é a conferência internacional que decorrerá em Évora no início de Junho, chamada ‘Connecting Creative Ecosystems’, promovida pela CIMAC – Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central e inserida no projeto “Valorização, promoção e desenvolvimento do património histórico e cultural de Évora e da região envolvente” que é “cofinanciado pelo Programa Alentejo 2020, no âmbito de uma parceria regional alargada e liderada pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo”. Percorrendo temas que vão da gestão cultural à economia criativa, a conferência contará com um painel variado de intervenientes, alguns dos quais conhecidos pela sua visão crítica das democracias neoliberais (António Guerreiro, Tiago Mota Saraiva), mas todos eles dispostos a dar um contributo para um evento que, destinando-se tanto a programadores culturais como a agentes turísticos, pretende contribuir para “consolidar a Região como destino cultural, artístico e turístico”, ou seja, ajudar o Alentejo a trilhar o seu caminho no competitivo mundo da economia e do turismo globais.

Anúncios

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “Alentejo criativo

  1. Boas!

    Existem expressões que são divinamente depressoras… “economia criativa“!

    Há algo neste texto que me soa a caixeiro viajante de virtudes!

    Depois da REPRESA destruição de parte do Alentejo… só falta mesmo o “Alentejo a trilhar o seu caminho no competitivo mundo da economia e do turismo globais.”!

    Onde vai ser publicado o obituário do Alentejo?

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s