Notas para uma crítica radical do turismo (VIII)

Eis porque fazer guerra ao turismo se tornou um imperativo: o turista não é um ser inofensivo, fazer turismo é tomar uma opção política pela hegemonia do capital

O turista reúne em si o vasto conjunto de propensões e atributos que o capitalismo gostaria de ver disseminados por cada um de nós. Ele é individualista, é consumidor, é espectador, é obediente, é acrítico, é analfabetoele não é consequentemente nem altruísta, nem activo nem insubmisso; nem muito menos instruído, caso contrário não se contentaria com o consumo passivo de cenários que, apesar de serem supostamente ‘verdadeiros’ e ‘autênticos’, foram meticulosamente formatados por especialistas em comunicação para poderem ser reconhecidos instantaneamente.

Quando um medíocre jornalista do Público ou um reputado professor da Universidade do Porto afirmam que “todos somos turistas”, eles, conscientemente ou não, estão a naturalizar e legitimar cada uma daquelas qualidades em nós (individualismo, consumismo, passividade, obediência, etc.), precisamente aquelas que fazem de nós seres governáveis e agentes sociais unificados pelo capitalismo. Este omnipresente “todos somos turistas” – que também ouvi da boca de todos os intervenientes em debates sobre o turismo – é parte da ideologia neoliberal de que todos somos consumidores, de que não existe vida para lá da mercadoria, de que não existem alternativas a este mundo mediado pelo capital, enfim, de que o capitalismo é mesmo a derradeira etapa da história humana. Alain Badiou: “o que define o nosso tempo é a tentativa de impor à humanidade a convicção de que só há um caminho para a história dos homens (…) sem nunca se afirmar que esse é um caminho excelente, mas apenas dizendo que não há outra solução.” Eis, em síntese, o que nos está a dizer aquele que afirma que “todos somos turistas”.

O turista é o cidadão modelo com que sonha qualquer político que ambicione gerir, sem tensões nem resistências, as democracias liberais em que vivemos. Sobretudo, porque o turista se deixa docilmente coagir, manipular e conduzir, o que não é pouco, sentindo-se (como se isso não bastasse) cómodo e seguro sob a vigilância das câmaras de segurança e das patrulhas da polícia ou do exército.

Na guerra em curso desencadeada pelos promotores da valorização do capital,  o turista sabe muito bem qual o partido a tomar. Desengane-se quem vir nele um sujeito politicamente incoerente, inocente e imparcial, que renuncia a um posicionamento político. Fazer turismo é já em si mesmo tomar uma opção política, tomar partido por um regime político concreto; precisamente aquele que cria, vigia e policia o mundo desigual, estandardizado e vendável que foi recodificado para o turismo. E é precisamente isto que faz do turista o oposto de um ser inofensivo.

Logo, o turista é hoje muito mais do que um mero consumidor de experiência e territórios. Ele tornou-se uma figura exemplar, o personagem padrão das democracias liberais, o seu protótipo comportamental, modelo ideal a que todos deveríamos aspirar. O mundo que, dos picos mais elevados e inacessíveis até aos bairros mais populares, se adultera e mercantiliza para o turismo não é neutro nem apolítico. Trata-se sim do mundo que melhor consegue reproduzir os regimes da especulação, do espectáculo e da aparência que são as iníquas democracias neoliberais.

É neste sentido que os territórios que, durante as últimas décadas, o turista ocupou  devem ser hostilizados e reocupados por quem hoje, na guerra contra a hegemonia capitalista, se mobiliza com vista à constituição de formas de vida colectiva em que as relações sociais não sejam mediadas pelo capital e pela mercadoria, e em que o interesse comum se substitua à busca do lucro. A reapropriação colectiva dos territórios usurpados pelo capital tornou-se um imperativo desta luta que acaba de começar.

Fotos: Barcelona (1,2 e 3), Israel (4) e Rio de Janeiro (5)

Outras notas para uma crítica radical do turismo: (I): A falsificação do real  / (II): O turista – esboço de definição / (III): O turismo, uma invenção do capitalismo / (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes / (V): Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo / (VI): O turismo, uma revolução semiótica sem precedentes / (VII): O que faz mover um turista?

 

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “Notas para uma crítica radical do turismo (VIII)

  1. Boas!

    Considero o “fazer turismo” uma droga.

    E só animais desequilibrados procuram nas drogas a eventual solução (equilíbrio) para o seu desequilíbrio!

    Como é evidente, não é com recurso ao uso de drogas, que os desequilíbrios se extinguem.

    Nunca fui animal turista!

    Confesso que a única vez que, em férias, saí de Portróical, foi para ir de carro a Espanha… E arrependi-me!
    Nunca lá mais fui, nem irei…

    Não tenho necessidade de tal desperdício de tempo, energia e outros recursos.

    Férias… Já há muitos anos que nas férias descanso efectivamente! Ou seja, procuro reequilibrar o organismo. E para isto, não preciso andar centenas ou milhares
    de quilómetros feito boçal, pois apenas estou a gerar mais fadiga a vários níveis!

    Deixei, assim, de andar feito parvo em migrações idiotas.

    Posto isto, não vejo o que de interessante existe em andar a fazer “turismo” nas cidades! Ver prédios? Comer restos de cadáveres apenas cozinhados de forma diferente? Ver/ouvir ruídos estranhos?

    Enfim… Os degenerados animais umanos procuram, em vão, na droga turismo, algo que nunca dela receberão!

    Na realidade, dado o nível da boçalidade, alguns até obtêm o oposto pois para “turistar” EMITEM DÍVIDA!

    É um comportamento absolutamente INSUSTENTÁVEL A TODOS OS NÍVEIS!

    Abraço

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