Síria, um reflexo da barbárie

Abd Alkader Habak, fotógrafo e rebelde que resiste na Síria, em Idlib, Aleppo, vai ser recordado pelo desespero com que chorou a morte de uma de várias crianças carbonizadas num ataque cobarde a uma caravana que procurava sair da cidade, no âmbito do precário cessar-fogo negociado entre Assad e os rebeldes. A fotografia acima lembra a esperança que o fez ficar, mas a que deixo abaixo ficará publicada sem ceder ao pudor dos meios de comunicação convencionais, que optaram por censurar a vítima, que importa. A crueldade da imagem não nos deve fazer fechar os olhos, por mais que seja isso que acontece assim que se olha para ela. Importa que se divulgue porque ela é uma imagem espelho do abismo para a qual os senhores da guerra arrastaram a humanidade. Importa, porque não nos podemos dar ao luxo de optar por esquecer. Importa porque os crimes desta envergadura não podem ficar na escuridão. Pelas vítimas de ontem, pelas vítimas de amanhã,  travar a barbárie não pode ser só uma escolha, tem que ser uma condição que não temos o direito de declinar.

Enquanto Assad, Putin e Trump se dedicam a jogar xadrez com peões a sério, o mundo permanece cúmplice, calado. A guerra das civilizações, ultimato feito por Bush na ressaca dos atentados do 11 de Setembro de 2001, tem ganho paulatinamente terreno aos que, de baixo, procuram contrapor a guerra de classes à guerra de povos, crenças ou origem geográfica. Se olharmos para o debate sobre a Síria, facilmente se conclui que à falta de todos os elementos necessários para se perceber todas as dimensões do conflito, não se escolha a prudência como a melhor das linhas. Neste tema como outros, a gritaria serve apenas para esconder as dúvidas, truncando a capacidade de um grau de elaboração sobre o assunto com o mínimo de seriedade. No mar das dúvidas, qual náufragos, o exercício mais inteligente devia fazer-nos olhar para aquilo que temos como certo. Não havendo garantias, ficaremos seguramente mais perto da solução do que de ajudar a aumentar o problema.

Não são razões religiosas, quase nunca o são, mas razões económicas e geopolíticas que estão no centro da disputa. A espaços, muito a espaços, raros exemplos de jornalismo com coragem levantam o véu sobre a realidade, mesmo na televisão pública em Portugal ou em França. O levantamento contra Assad tem legitimidade, não obstante o antagonismo no campo dos rebeldes, e deste contar com sectores ligados ao Daesh e ao Al-Nusra (cisão da Al-Aaeda), mas tal antagonismo não nos deve conciliar com a ditadura nacional, que comanda um regime repressivo capaz de atacar o seu próprio povo para manter o poder a todo o custo.

Os que alegam que a Síria era um paraíso democrático antes do levantamento, onde Assad era amado pelo seu povo e onde a oposição era respeitada, mentem. Os que usam dos crimes de Assad para justificar os de Obama e de Trump, mentem também. Ninguém tem razão nesta guerra espúria e ambos dispõem de meios poderosos de difusão da sua propaganda.

Achar que o levantamento contra Assad é unicamente obra da CIA é uma infantilidade, tão infantil como achar que a Rússia e Assad são o único problema do território. Os EUA jogam, como jogaram sempre em todo o lado, em muitas revoluções e levantamentos legítimos e dos quais tal intervenção não foi razão para se virar costas à legitima aspiração dos povos. O jogo dos EUA deve ser denunciado, combatido, mas essa denúncia de nada serve se aquilo que tivermos para dizer é que os povos se resignem aos seus déspotas, dando-lhe apoio crítico e em alguns casos entusiástico, enquanto ele prende e liquida a parte do país que lhe é contrária.

A legitimidade de Assad como governo eleito não existe a partir do momento em que este ordenou o seu exército para reprimir o seu povo, a principal vítima dos ataques. Com meio milhão de mortos é evidente que a esmagadora das pessoas é inocente e que mesmo que todos os grupos rebeldes fossem terroristas, o número de vítimas demonstra que o alvo não foram só eles. Pela tipologia da guerra, cabe ao exército sírio e à aviação russa a assinatura sobre as maiores valas comuns, não ao armamento precário dos rebeldes. Trump e a imbecildiade da sua fúria pode vir a equilibrar as contas nesta matemática do absurdo, mas quem está do lado dos sírios não pode escolher entre o vírus da ditadura nacional e do imperialismo russo e a bactéria do imperialismo americano.

Se é evidente que o papel dos EUA é pernicioso, cavalgando um levantamento e financiando, junto com os seus aliados na região (Arábia Saudita, Israel, etc) o pior lado da moeda do campo dos rebeldes, devia ser igualmente evidente que a Rússia não está no campo anti-imperialista, e antes joga, nesse quadro, o seu papel nessa disputa. O seu interesse energético é objectivo, mas para a análise subjectiva não deixa de ser relevante a proximidade do partido de Putin aos partidos da extrema-direita que têm proliferado no centro e norte da Europa.

Com mais dados em cima da mesa é evidente que é urgente um cessar-fogo efectivo e duradouro, não a farsa que vigora e continua a matar inocentes, a definição de um roteiro para a paz e para a realização de eleições, programas de auxílio aos refugiados, enfim, medidas que serão úteis não só para travar o número de vítimas mas também para perceber o quem é quem no campo dos rebeldes. O Daesh não irá seguramente a votos e não se vislumbra melhor maneira para o seu isolamento.

Não há terroristas de primeira e de segunda e na Síria poucos serão aqueles que não têm o lugar reservado no banco dos réus. A mesa de negociações com vista ao cessar-fogo e ao roteiro para organizar eleições não pode esquecer que não haverá paz se todos os que fazem fogo não estiverem envolvidos nas negociações. É o maior paradoxo da guerra, a paz depender dos generais, e é provável que nem todos aceitem, mas a legitimidade dessa negociação depende do envolvimento do maior número de intervenientes possível.

Que o esforço de Abd Alkader Habak, como o do fotógrafo Issa Touma, que ficou para registar os primeiros dias do levantamento a partir do seu apartamento, ou o de Aeham Ahmad, o pianista das barricadas de Yarmouk, sirvam para se perceber que ambos os campos em disputa estavam e estão pouco capazes de convencer a população das suas intenções. A sobrevivência, na maioria dos casos, tornou-se o seu campo da resistência para fugir a uma vala comum que já conta meio milhão de mortos. Até quando?

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8 thoughts on “Síria, um reflexo da barbárie

  1. Fosse a fotografia tema e não ilustração e não condenava aqui a sua publicação. Assim como está, segue a mesma “visualidade” daqueles que decidiram publicá-la decopada. A iconoclastia é uma arma e não se trata de pudor. Trata-se de não pactuar com a produção e reprodução de uma práctica discursiva, através da qual o poder impõe a sua legitimidade.

      1. Gosto de te ler e gosto do teu bombismo. Mas quando o tema é imagens… podias ter descrito a imagem, mas publicá-la não. Não sem engajar no que queres desmontar.

      1. Se interessa porque continuas sem referir os autores do atentado?
        A ligação é para quê? Não uso Shitbook e não gosto de o frequentar!

      2. Eu desconheço os autores do atentado. De um lado e do outro são tantos os crimes de guerra que me parecem secundárias as partilhas.

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