“O puto da minha vizinha”*, por Liberdade

“Atrás da cena” durante as filmagens de Janela Indiscreta , de Alfred Hitchcock.
A diferença em si, e quando vivemos nela, é uma normalidade. Diferentes são as banalidades dos outros.

Ando desconfiada que o puto aqui do lado tem um problema qualquer.

Bem, o puto até que é giro, mas… mas… Sabem, no outro dia estava a fazer um bolo e faltava-me um ovo. Aproveitando que o meu estava entretido com a TV fui à casa da vizinha rapidinho. Bati à porta, pedi desculpa pelo incómodo expliquei que estava a fazer um bolo e me faltava um ovo, ela sorriu e foi à cozinha buscar o ovo e eu, claro, segui-a, foi aí que o miúdo entrou de rompante na cozinha e disse com todas as letras:

– Mãe dá-me água.

A sério, não estou a brincar, ele disse: “MÃE DÁ-ME ÁGUA”! Fiquei perplexa. Não querendo ser cusca, mas ficando intrigada, resolvi tirar esta história a limpo e de manhã pus-me a espreitar pela janela. Lá ia ela tão segura de si levando-o pela mão. O miúdo ia de fato de treino. Entraram no carro e seguiram… Será que ela o ia levar à escola? Àquelas horas só podia ser isso, mas ele ia assim para a escola? Que falta de brio! Que iriam os outros dizer?

Foi mais ou menos uma semana depois que tive a certeza que o puto tinha um problema. Eu tenho cá um olho, nunca me engano! Numa sexta-feira, à hora do almoço, entro ali num restaurante da baixa e que vejo? A minha vizinha sentada numa mesa a almoçar com o filho. Tenho a certeza que era ela, pois fiz todos os possíveis para passar mesmo encostadinha à sua mesa. Era ela sim. Com o puto. Ele sentado a comer as suas batatas e, imagine-se, estava contando coisas da escola. Das aulas! Das matérias que eles dão na escola!

Pronto, agora eu tinha a certeza! O puto era aquilo que os médicos dizem um neurotípico!** Tinha de falar disto às outras. Na hora da terapia da fala, fui lá para fora fumar um cigarrito e telefonei à Maria. Beijinho para cá, beijinho para lá e vou directa ao assunto:

– Maria, que achas disto? O puto da minha vizinha não aponta com o queixo para a torneira e não faz hum, hum… Ele diz: “Quero água”!

– Tens a certeza?

– Tenhoooo! Eu estava lá e vi. Garanto-te que ele entrou na cozinha e disse: “Quero água”.

– Pois, pois… Olha nem sei que te diga…

– E mais, vi-os a ele e à mãe no restaurante. Ele estava sentado ao lado da mãe a comer e a contar coisas da escola.

-Não me digas! Não andava a correr pelas mesas e a roubar batatas fritas de todas as mesas?

– Não! Estava sentado a comer batatas. As batatas dele! Ah, e sabes a mãe até o manda para a escola de fato de treino?

– Que horror! Como de fato de treino! E os outros não o discriminam?? Olha lá, como se chama a tua vizinha? Vou ver a página dela no Facebook, já te ligo.

Que grande ideia a da Maria, como não pensei nisto antes?

O mural dela era estranho. Não havia um único post a falar do filho. Falava de tudo e mais alguma coisa, mas nem um do filho, nem fotos do miúdo, nem gracinhas. Nada!

Acham esquisito, não é? Mas a coisa não fica por aqui, nessa noite antes do jantar o Chico foi despejar o lixo e levou o puto, vai sempre com o pai, despejam o lixo e dão uma voltinha pelo quarteirão, são os meus dez minutos de folga, e resolvi aproveitá-los da melhor maneira. Fui à casa da vizinha devolver o ovo que tinha pedido. Bati à porta, ela foi simpática mas um bocadinho fria, nem sei explicar isto muito bem, espreitei por cima do ombro dela e exclamei:

– Tem uma casa tão gira!

-Oh! Nada de especial, mas entre – disse, abrindo mais a porta – entre que estou ali a preparar as coisas para a festa de anos do miúdo.

– Não quero incomodar…. Festa de anos?

– Sim, é já no sábado…

A sala estava desarrumada, não é que eu seja de reparar nas coisas dos outros, mas havia brinquedos por todo o lado e os carrinhos estavam ao monte. Quanto mais via, mais me convencia que aquele puto era excêntrico. Porque raio não teria o puto alinhado os carrinhos? Provavelmente a psicologia até teria uma razão para isto… a natureza humana é estranha…

E Sábado chegou, ouvi uma algazarra enorme no patamar, entraram para aquela casa mais de 10 miúdos! Um pouco depois voltaram a sair e foram jogar à bola para o jardinzinho ali da frente… Isto só filmando, sei que não acreditam em mim, mas juro, os putos atiravam a bola uns aos outros como se estivessem previamente combinados, e o pai estava sentado no banco do jardim lendo o jornal impávido e sereno ….

Fechei a janela com força, são estas coisas que eu não entendo…

-Chico! Olha lá porque não vamos sair?

-E para onde queres tu ir?

– Sei lá! Podemos ir passear para o campo…

Tive oportunidade de conhecer melhor a minha vizinha e o seu estranho miúdo e devo-vos dizer que até gosto deles… Apesar de serem bastante diferentes …

*Às mães que viveram comigo esta enorme peripécia.

**Em Psicologia, Psiquiatria, Neurologia e áreas afins, diz-se neurotípico do indivíduo que não apresenta distúrbios significativos no funcionamento psíquico.

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4 thoughts on ““O puto da minha vizinha”*, por Liberdade

  1. É! De facto o puto está tramado! Assim não se safa…

    E como quem conta, desperdiça os detalhes… O puto disse ” Mãe dá-me água”, e não “Quero água”!

    Imagine-se nos dias que correm um puto chamar a Mãe por “Mãe”… Está feito!

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