“E Lisboa transformou-se no retro-vintage-gourmet, toda uma representação nostálgica de algo que nunca existiu. As padarias clássicas inventadas há dois ou três anos, e sem multibanco para não pagarem impostos, as barbearias de luxo, cafés com um chão não sei quantos, tudo à antiga, mas um antigamente em que nada daquilo existia.”

Mas eis que nem só da especulação turístico-comercial de uma identidade perdida (subitamente reencontrada) se faz a história presente desta charmosa cidade. Continua a haver vida nas margens do território dominado pelos empreendedores da nostalgia, que nos impõem as suas representações caricaturais e vendáveis da portugalidade – na Padaria Portuguesa, no ‘novo fado’, no bairro típico do Avillez, n’A Vida Portuguesa, na ‘requalificação’ do espaço público. Contra este projecto político de produzir um património coerente e sistematizado de formas “que exprimem a alma da nação”, enquanto mitificam o passado e expulsam o novo, o desconhecido e o inédito, continua a haver qualquer coisa de vivo a mexer em Lisboa. E o seu eco, ainda que ténue, ousa mesmo por vezes chegar aos jornais.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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