O Bloco de Esquerda, a humanização do capitalismo e umas quantas banalidades sobre a turistificação do Porto

No dia em que o Público assinala com pompa a eleição do Porto como melhor destino turístico europeu de 2017, o mesmo jornal publica um artigo de opinião que pretende dar uma imagem de contraditório, de debate e de participação democrática. O artigo é assinado por Pedro Lourenço, “membro da Concelhia do Porto do Bloco de Esquerda“, partido que concorre com o PAN pelo prémio de ‘melhor partido europeu de 2017 pela humanização do capital’ e do qual não era de esperar mais do que um rol de banalidades, que passo a elencar:

  • “Quem critica a turistificação da cidade não está contra o turismo na cidade“, afirma o jovem bloquista, deixando-nos assim com a primeira banalidade: nas diferentes discussões que assisti sobre a razia que a turistificação está a provocar nos principais centros urbanos, todos os “críticos” do fenómeno fizeram esta mesma ressalva – “não estamos aqui contra o turismo, apenas contra alguns fenómenos extremos por ele desencadeados”. Mas não será o turismo, enquanto prática económica que multiplica e reproduz o capitalismo (porque a priori estruturada sobre investimentos, mercadorias e especulação), ora não será o turismo, como dizia, já em si mesmo um fenómeno “extremo”, que se opõe frontalmente a uma ideia colectiva e democrática de território? Os humanizadores do capitalismo entendem que não. Invista-se, mercantilize-se, especule-se, pois.
  • “Mas que seja com regras”, advertem-nos. A sua palavra chave, que Pedro Lourenço não poderia deixar de usar, é portanto “desregulação”. Uma vez regulado, o mundo capitalista – e as suas diferentes expressões/materializações, como é o caso do turismo – torna-se um mundo equilibrado, razoável e, à falta de qualquer outro no pobre imaginário desta esquerda, até desejável. Ora, isto leva-nos a uma reformulação do seu ponto de vista: invista-se, mercantilize-se, especule-se, mas que seja reguladamente. Com ética. Eis, no fundo, a grande proposta política alternativa que o Bloco de Esquerda tem hoje para oferecer-nos. Os promotores do capitalismo ético têm muito a aprender dos seus teóricos.
  • Terceira banalidade. Os “efeitos positivos” do turismo que P. Lourenço, apoiando-se num artigo do presidente da câmara Rui Moreira (que é também um empresário na área do imobiliário), é capaz de enumerar: “proliferação do comércio, criação de postos de trabalho, reabilitação urbana”. Caneco, mas será que um bloquista não poderia acrescentar, ao enunciado do autarca liberal, qualquer coisinha mais humanizadora?! Sei lá, partilha de experiências, tolerância, inter/multi/trans-culturalidade, qualquer coisa sobre os benefícios do contacto entre culturas? E que história é esta de louvar a “reabilitação urbana” no quadro da especulação do território? De que vale à colectividade contribuir para a reabilitação de um bairro se isso não representa mais do que um investimento em bens imobiliários que não são recuperados senão da óptica da sua mercantilização (a qual, justamente por ser um processo inerente ao funcionamento do capitalismo, exclui o interesse público)? O que há portanto a louvar nesta reabilitação?
  • Mais à frente, P. Lourenço nota que não era exactamente esta a reabilitação que tinha em mente, já que não lhe interessam os hotéis ou os apartamentos airbnb que apenas preservam as fachadas por puro folclore identitário e, graças à especulação do metro quadrado que promovem, atiram as populações para fora desses bairros. O que há então a fazer? E aqui chegamos à quarta banalidade, que no fundo é um prolongamento da segunda: a proposta bloquista passa por suspender “o licenciamento de hotéis durante um ano” (seguindo o exemplo de Barcelona), por “regulamentar a actividade das plataformas online” ou pela”criação de uma taxa turística”. Suspender provisoriamente, regulamentar e taxar são efectivamente conceitos chave para os humanizadores do mundo capitalista que, ao invés de nos proporem outro mundo, desejam tão só agilizar o policiamento deste, com a aplicação de suspensões temporárias, taxas e coimas.
  • Quinta e última banalidade. Pedro Lourenço:  “Como diz uma amiga — activista na cidade —, não haverá turismo no longo prazo se não houver pessoas no Porto.” Trocado por miúdos, as pessoas fazem falta ao tecido urbano nem que seja para torná-lo mais atractivo à clientela turística. Vamos portanto manter as pessoas na cidade, já que de outro modo não poderemos continuar a fazer do Porto uma marca atractiva no competitivo universo turístico. Vamos ‘dar vida’ à cidade de modo a que esta se possa continuar a vender. E é com estas minhas variações da afirmação citada, que anuncia premonitoriamente o surgimento da bio-mercadoria (as próprias pessoas – os seus corpos, os seus trajectos, as suas vidas – como parcelas vitais na composição do território enquanto mercadoria turística), que fechamos em chave d’ouro esta breve incursão ao pensamento bloquista.

Fotos de pormenores de fachadas não reabilitadas, Porto, 2012. A. Morgenstern
Anúncios

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

5 thoughts on “O Bloco de Esquerda, a humanização do capitalismo e umas quantas banalidades sobre a turistificação do Porto

  1. O reformismo do discurso enquanto prática faz vir ao de cima as relações entre mudança do discurso e social mas o típico discurso” não estamos aqui contra isto, apenas contra alguns fenómenos extremos por isto desencadeados”na medida em que práticas discursivas estabelecem conexões com formações discursivas, gerando novas práticas, impedem a revelação aberta dos factos da linguagem…

  2. Boas!

    “humanização do capital”, para quê? Para haverem ainda mais mortos e feridos?

    De resto só posso afirmar… Os turistas que fiquem nas suas terras e que deixem de poluir o ambiente com viagens idiotas!

Deixe o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s