Mutações no universo laboral: do trabalho precário ao trabalho gratuito

Para a generalidade das pessoas esta época é caracterizada, em termos laborais, pelo facto de ter generalizado e banalizado o trabalho precário, tornando-o um dos pilares da economia neoliberal. Trata-se de uma evidência que ninguém se atreve a negar. O que pouca gente parece ter já notado é que, paralelamente, está a emergir e prosperar um novo género de trabalho, com um peso cada vez maior na contabilidade das grandes empresas, o trabalho gratuito. Nestas empresas, coloca-se cada vez mais uma nova questão: para quê investir em salários e formações para jovens (precariamente) assalariados, se se podem fazer trabalhar gratuitamente estes mesmos jovens nos seus tempos livres? Os alvos das novas técnicas de gestão de recursos humanos deslocam-se portanto de dentro para fora dos quadros das empresas, ao mesmo tempo em que o período de trabalho mais produtivo passa a situar-se agora no seio do tempo que é passado fora do local de trabalho.

Abundam efectivamente os indícios de que se está gradualmente a instalar um novo paradigma no meio empresarial de ponta. Podíamos começar por dar aqui o exemplo do hipermercado (assim como de toda a grande distribuição), local onde é possível testemunhar diariamente a disseminação do novo paradigma. Assim que qualquer consumidor entra no seu interior, e procura o cesto/carrinho de compras, ele torna-se automaticamente também, e sem que o tenha desejado, um empregado não-assalariado, na medida em que terá de servir-se a si próprio – o que requer a adesão a uma certa disciplina e a interiorização de um código de condutas. Isso implica que execute sozinho e sem ajuda um rol de tarefas: procurar, carregar e transportar mercadorias; comparar preços ou informações de artigos; controlar prazos de validade; empoleirar-se, se tiver baixa estatura, para chegar ao artigo pretendido; manter as prateleiras arrumadas e limpas; dobrar-se para retirar as mercadorias do cesto/carrinho no momento de dispô-las ordenadamente na caixa de pagamento; arrumar o cesto/carrinho no final da compra, etc. Refira-se que a execução destas diferentes tarefas exclui destes espaços um vastíssimo conjunto de pessoas, seja por terem uma idade muito avançada, por possuírem mobilidade condicionada ou por serem por exemplo cegos – em suma, por estarem fisicamente incapacitados para a prestação do serviço a que os restantes consumidores estão obrigados a prestar gratuita e obedientemente a si próprios.

Enfim, tudo o que nos velhos mercados ou até mesmo nas pequenas mercearias de bairro se encontrava a priori garantido por empregados quase sempre competentes – não excluindo assim ninguém da possibilidade do consumo por questões de idade ou saúde -, é agora o próprio consumidor quem, com o seu próprio corpo, deve assegurar. Poupa deste modo ao dono de cada loja o investimento em exércitos de jovens precários. A média baixíssima na grande distribuição, comparativamente ao chamado comércio tradicional, de empregados por consumidor (e de empregados por artigo vendido) explica-se pelo facto de cada consumidor ser também um empregado que, para lá de se servir a si próprio, serve também o dono da loja. Pensemos aqui em todo o vastíssimo império da distribuição, que bem para lá dos artigos à venda nos hipermercados, inclui também livros (Fnac), móveis (Ikea), artigos de bricolage (Aki), artigos de desporto (Sport Zone), electrónica/electrodomésticos (Worten), material de escritório (Staples), combustíveis (Galp), etc. Em qualquer loja desta rede infinita, cada consumidor é chamado a substituir gratuitamente um trabalhador precário. Para os donos da loja, o ganho é incalculável.

Este novo paradigma não triunfa apenas na grande distribuição, estando a penetrar o conjunto da economia. Por exemplo, cada vez que faz home banking ou o check-in online, o cliente está a fazer o trabalho que antes recaía sobre empregados assalariados. Também quando gere, autonomamente, o seu processo no site da Segurança Social Directa ou no Portal das Finanças, cada um de nós transforma-se num funcionário não remunerado do Estado. Sob a aparência de darem um serviço mais eficiente, rápido e cómodo, estas empresas e instituições transferiram a prestação de serviços de empregados assalariados para os próprios consumidores/utentes. Os bancos cometeram mesmo a proeza de, graças a esta nova metodologia de organização do trabalho, terem despedido milhares de funcionários e mesmo assim terem aumentado brutalmente as comissões de manutenção de conta.

Mas onde o novo paradigma laboral se está a afirmar em todo o seu esplendor é na massificação do uso das redes sociais, cujo negócio (que anualmente movimenta já milhares de milhões de dólares) se baseia na capitalização dos conteúdos que os respectivos utilizadores produzem. A criatividade, as amizades, as paixões, as memórias, as indignações comunicadas pelos utilizadores através das redes sociais são convertidas em dados rentabilizáveis no quadro da chamada economia digital. A capitalização cada vez mais eficiente desta entrega gratuita de dados permitiu ao Facebook, no último trimestre de 2016, acumular proveitos superiores a 8 mil milhões de dólares e também facturar no mesmo período, pelo trabalho gratuitamente prestado por cada utilizador norte-americano, cerca de 20 dólares. Também o Youtube, como tem sido noticiado, tem aumentado de ano para ano os seus lucros com a generalização desta nova estratégia de criação de valor cujo ciclo funciona basicamente assim: o provedor de um serviço incentiva o uso social; os utilizadores produzem conteúdos; os conteúdos geram tráfego; o tráfego atrai receitas publicitárias para o serviço.

A afirmação deste novo paradigma laboral – que em muitos sectores da economia faz com que o trabalho precário se veja gradualmente substituído pelo trabalho gratuito visto que este, melhor ainda do que aquele, combate e elimina o maior inimigo histórico do capitalismo, o salário – é acompanhada por outra transformação estrutural na economia: a generalização da automatização e da mecanização fazem com que sejam cada vez mais os processos produtivos que prescindem do músculo e do cérebro humanos. Ora, perante isto,  como poderão os detentores da economia garantir que os seus empregados não-assalariados disponham de condições mínimas para, como diria Marx, assegurarem a sua autoconservação, “sem as quais a força de trabalho recusa absolutamente a renovação do seu serviço”? Como garantir a estes prestadores de serviços sem direito sequer a um recibo verde os mínimos indispensáveis em termos de alojamento, alimento, roupa, medicamentos e entretenimento? Enfim, e se quisermos ser mais directos, como conseguir fazer trabalhar corpos aos quais nada se paga?

Felizmente (para os Senhores da economia), os defensores da implementação do Rendimento Básico Incondicional encontraram a resposta providencial para este dilema do capitalismo contemporâneo: com o salário cada vez mais obsoleto, a reprodução das condições materiais de subsistência dos novos trabalhadores será assegurada, já não pela empresa capitalista, mas pelo Estado capitalista. Chega-se assim ao ponto culminante do estádio social e político em que vivemos: o estádio do espectacular integrado, anunciado em 1988 por Debord e por ele caracterizado como resultando de uma “fusão económico-estatal”.

Este momento em que o Estado se prepara para salvar a grande empresa capitalista é também aquele em que a esquerda se decidiu unir à direita.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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