Notas para uma crítica radical do turismo (VII)

O que faz mover

um turista?

Vimos já que, do universo de viajantes que se deslocam pelo planeta, o turista – que representa claramente a maior fracção desse universo – apresenta um conjunto de particularidades que tornam possível esboçar uma sua caracterização. Aquilo que ficou ainda por responder foi: o que motiva hoje alguém a mover-se até Lisboa, Banguecoque ou Moscovo para, em 3 ou 4 dias, gozar de uma ilusão de aventura e exotismo em cenários substituíveis e estandardizados que foram previamente formatados para poderem ser reconhecidos instantaneamente? O que estimula alguém a deslocar-se a um qualquer território longínquo para com ele não construir mais do que uma relação precária, passiva, previsível, superficial que o interdita de se apropriar de cada um dos seus lugares? A resposta que aqui gostaria de ensaiar é a seguinte: é simplesmente para sentir-se vivo que o turista corre um mundo cuja essência lhe escapa mas cuja aparência admira. O turismo (tal como – ainda que de um outro modo e para um público mais amplo – o futebol) é a terapia de choque com que a burguesia entediada tenta recuperar o prazer da surpresa e da aventura que a monorrítmica rotina capitalista sadicamente eliminou do seu quotidiano. Passo a explicar.

O dia-a-dia das classes médias está cada vez mais reduzido a um conjunto de experiências banalizadas e repetitivas. A divisão contemporânea da cidade em zonas de consumo (situadas maioritariamente na periferia) e em zonas residenciais (igualmente periféricas), apenas acessíveis ao automóvel, esvaziou o centro das cidades (mesmo nas pequenas capitais de província), privando as classes médias de um relacionamento diário com a cultura material que os caracterizava: velhas arquitecturas; jardins; praças, esplanadas e cafés com vida colectiva; lugares de memória; museus; teatros; etc. Por outro lado, o aumento da pressão laboral gera um estado de stress e exaustão quase permanentes, levando inúmeros assalariados ao burnout. O aperfeiçoamento dos métodos gestionários e totalitários de incremento do desempenho profissional, que procuram extrair cada vez maior rendimento dos trabalhadores, compreende um excesso de carga horária e uma disponibilidade permanente (que o telemóvel e o email fazem prolongar mesmo para fora do posto de trabalho) responsáveis pela banalização da infelicidade, da doença e da depressão.

Somando tudo isto, não custa entender a dessensibilização que no quotidiano assalta os indivíduos perante o que os rodeia. Estes tornam-se assim potenciais consumidores da terapia de choque que lhes poderá devolver a sensação de estarem vivos. Tornam-se portanto potenciais turistas. Quando, na sua rotina, alguém realiza sempre as mesmas tarefas robotizadas e, como um autómato, percorre sempre os mesmos espaços, observa cada vez menos os diferentes matizes que os caracterizam e diferenciam. Deixa assim de surpreender-se, tornando-se insensível a tudo o que, transcendendo a sua bolha individual, é percebido como um todo indiferenciado e vazio. Isso manifesta-se claramente na ausência de desejo que a maioria de transeuntes que diariamente atravessa Lisboa revela para explorar as múltiplas camadas de singularidades (de natureza antropológica, artística, paisagística ou arquitectónica) de que é composto o território em que vive. É comum que quem passe todas as suas noites nos dormitórios de Oeiras ou do Cacém e percorra diariamente os mesmos trajectos para trabalhar no Parque das Nações e consumir no Colombo não saiba o que é aventurar-se nas ruelas mais recolhidas da Ajuda ou nos misteriosos becos do Beato.

E é a preguiça para recuperar essa sensibilidade perdida, ante a poesia do território circundante, que faz de alguém um potencial turista, desejoso de viajar a um qualquer lugar distante para recuperar, de um modo fácil e cómodo, aquele prazer perdido da surpresa e da aventura. O turismo é assim, em boa medida, uma resposta a esta dessensibilização. Mais do que uma mera fuga do quotidiano, do vazio de emoções, de acontecimentos, de aventuras e excitações em que ele se converteu, o turismo exprime uma fuga que o indivíduo faz de si próprio e da sua vida. O turista foge do confronto com o vazio, não do quotidiano, mas de si próprio.


Notas para uma crítica radical do turismo (I): A falsificação do real  / Notas para uma crítica radical do turismo (II): O turista – esboço de definição / Notas para uma crítica radical do turismo (III): O turismo, uma invenção do capitalismo / Notas para uma crítica radical do turismo (IV): O turismo prolifera lá onde o território se separa dos seus habitantes / Notas para uma crítica radical do turismo (V): Tendências gastronómicas promovidas pelo turismo / Notas para uma crítica radical do turismo (VI): O turismo, uma revolução semiótica sem precedentes

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

3 thoughts on “Notas para uma crítica radical do turismo (VII)

  1. Sem propriamente discordar, três pontos:

    será que o vazio de que se fala não é constitutivo da vida em geral, sendo o turismo e os seus desdobramentos a versão capitalista, neo-liberal, daquilo que era desempenhado pela religião e pela arte, ou seja, (tentar) encher a vida;

    além de focar o turista e o seu vazio, parece-me mais pertinente analisar as condições e os processos desse esvaziamento – doutra forma arriscamo-nos a cair naquilo que Badiou, a propósito de Guy Debord, chama de idealismo aristocrático;

    também me parece que esta abordagem deixa de fora questões de classe e hierarquia social, ou seja, uns servem outros são servidos, uns podem ser turistas, outros não.

    Cumprimentos

    1. Caro M.,

      Grato como sempre pelas suas palavras e críticas. Poderíamos falar de um certo vazio em todas as épocas da história, é certo. No entanto, com a atomização social que vigora e se multiplica no nosso tempo, essa imagem (do vazio) ganha maior protagonismo e realismo: os indivíduos vivem vidas cada vez mais isoladas, nomeadamente do território que atravessam quando se deslocam (na cidade ultra-racionalizada) entre áreas residenciais, de trabalho ou de comércio/lazer. Deixam assim, no seu previsível e monótono dia-a-dia, de ser estimuladas pelo espaço envolvente e por quem o habita. Somando isto à dura rotina laboral, não custa de entender que o turismo – tal como o futebol ou Hollywood – possa funcionar como uma terapia de choque para despertá-las para sensações vitais (de surpresa, aventura, etc.). Quanto aos processos e condições desse esvaziamento creio estarem tratados no texto, especialmente no seu segundo e terceiro parágrafos. Já as questões de classe, que determinam quem (não) pode ser turista, não são de facto abordadas no texto, nem em nenhum outro desta série. O que, num texto de uma outra série (‘Elementos p/ uma caracterização da classe média)’, eu abordei foi a relação umbilical entre a classe média e o turismo, concluindo “que o turismo não é assim mais do que o levar a todo o lado o mundo monótono e entediado da classe média”.

      Abraço.

      P

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