KAIJA SAARIAHO – Sobre “L’Amour de Loin” e outras matérias

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Está a ser apresentada durante todo este mês de Dezembro no Metropolitan Opera House, Nova Iorque, e é a mais estimada e conhecida ópera de Kaija Saariaho (n. 1952), com uma récita ainda neste 29 de Dezembro: L’Amour de Loin, com libreto de Amin Malouf, teve estreia mundial no Festival de Salzburgo, em 2000, e encenação do polémico Peter Sellars. (Gravação recomendada: Saariaho, L’Amour de Loin, Daniel Belcher, tenor – ‘Jaufré Rudel’; Ekaterina Lekhina, soprano – ‘Clémence’; Marie-Ange Todorovich, mezzo – ‘Peregrino’; Rundfunkchor Berlin, Deutsche Symphonie-Orchester Berlin, direcção de Kent Nagano; Harmonia Mundi, 2009.)

Kaija Saariaho é uma compositora de vastíssimos recursos, hoje ligada à chamada “música espectral”, que dá ênfase aos timbres, decomposição e microtonalidades, universo que se entende (ou localiza) melhor pensando que, por esta “escola”, ou nesta “escola” deixaram marcas, autores como Xenakis ou Stockhausen. Kaija Saariaho passou também, creio, pelos “lugares” referenciais do serialismo (ou do serialismo ao serialismo integral) como Darmstadt e o IRCAM.

Darmstadt (onde o serialismo defendido e proposto não dizia apenas respeito à série de 12 notas da escala cromática, mas se prentendia aplicar aos ritmos e dinâmicas, daí o termo “serialismo integral”), a “espectralidade” e os ensinamentos de Bryan Farneyhough, geraram um peculiar e encantatório universo sonoro de que a ópera L’Amour de Loin, vista este sábado dia 10 de Dezembro, Gulbenkian “HD Live” (do Met), bem testemunha. Para Saariaho, que é uma compositora muito divulgada, foi uma estreia naquela casa novaiorquina, aliás há mais de cem anos que o Met não produzia uma ópera de uma compositora.

Saariaho, sempre em parceria com Amin Malouf, criou L’Amour de Loin a partir da história do trovador do século XII Jaufré Rudel, uma história ideal para Malouf trabalhar temas eleitos, encontros, viagens e travessias de lugares e culturas, aqui contudo um encontro fatal, ainda com o seu (e nosso) Mediterrâneo como eixo.

Rudel, o trovador (nesta produção Eric Owens, baixo-barítono de voz “quente”, mas actor limitado), começa por contar um desejo de amor distante que, por tal, se revela quase impossível. Eis que lhe chega a figura do Peregrino (a ópera tem apenas três personagens) que confirmará a Rudel a existência de tal mulher, a Condessa de Tripoli (Susanna Philips, uma excelente cantora-actriz). Rudel faz-se então ao mar, esgota-se, adoece e vai morrer à chegada, nos braços da Condessa. Segue-se um momento espantoso de força e fúria em que Clémence, a Condessa, vocifera contra o Deus que tal tragédia permitiu, mas sempre vai sendo avisada pelo coro (interessante protagonista); diz Clémence: “Se pourrait-il que tu sois jaloux du fragile bonheur des hommes?”

Um dos momentos mais duvidosos, por vezes irritante pelo seu carácter “engenhoso” e previsível: a (não) encenação de Robert Lepage (embora aqui muito mais contido do que no Ring de 2012, onde tudo gravitava em torno da sua tremenda e ruidosa “Máquina” de 40 toneladas – ver fotos).

É um homem de sorte. Lepage consome gigantescos orçamentos no Met (a “desculpa” anteriormente foi a de que sempre que se cria um Ring algo de assombroso tem de surgir!!), não encena, não dirige cantores e actores, e apenas giza fabulosos engenhos que por vezes são empecilhos perturbadores que tudo ou quase tudo condicionam. É esta a sua contribuição, quase sempre, para a tarefa de encenar.

O mar de Malouf é aqui construído por finos tubos, juntos e paralelos, com cerca de 30000 LED que oscilam, se deslocam, gerando movimentos lumínicos encantatórios. Não é a “Máquina” do Ring com as suas projecções, mas tudo volta aqui a depender de uma máquina outra, mais modesta e, talvez, muito mais eficaz. Ora, se a “Máquina” do Ring introduzia um incómodo ruído no fluido musical wagneriano (ler, sobre esta “Máquina”, o texto da crítica de arte Roberta Smith no New York Times de 13/5/2012), este “belo” mar de L’Amour de Loin parece distrair-nos do fulcro desta tragédia amorosa: aqui, o que procurar consumar o seu “amor de longe”, ou torná-lo vivo, morre.

Quem atravessar o mar, morre, por isso a viagem de Rudel é um belíssimo momento da produção: quero chegar e não quero chegar, diz Rudel. Ama, adoece e morre.

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WAGNER – “Ring” – Encenação Robert Lepage. 2012

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“L’Amour de Loin”

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“Ring” – A “Máquina” de Lepage

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