“Está bem fazer uma pousada para turismo num sítio onde está a prisão de Peniche?”, Álvaro Siza, autor do respectivo projecto de arquitectura

Esta pergunta que Álvaro Siza coloca hoje a uma jornalista do Público é, na verdade, extensível a todo o património histórico. Afinal, e pergunto eu:

por que diabo tem de se rentabilizar o património?
qual a legitimidade desta política ‘cultural’ de reabilitar património com o único fim de mercantilizá-lo e assim adulterá-lo?

porque temos de aceitar passivamente que um governo concessione à exploração privada 1, 2 ou 30 imóveis históricos?

e porque devemos considerar suportável habitar um mundo em que a economia, monopolizada por um conjunto cada vez mais concentrado de actores, tomou sozinha a decisão de ocupar todo o território da cultura?

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Que só o Forte de Peniche (antiga prisão da PIDE) suscite alguma polémica, quando se debate a nova vaga anunciada pelo governo de concessionar imóveis históricos a privados, é apenas sintoma da ausência de memória histórica que impera no país. Parece que bastará o governo retirar o Forte dessa lista e tudo ficará bem (alguns militantes do partido comunista ficarão seguramente mais tranquilos). A especulação turístico-comercial do património poderá então avançar pacificamente já não em 30 mas em 29 imóveis. É que supostamente estes, ao contrário da Fortaleza de Peniche, não têm um passado que justifique ser mantido à margem de esquemas empresariais, podendo os seus signos materiais mercantilizar-se; e assim adulterar-se.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

8 thoughts on ““Está bem fazer uma pousada para turismo num sítio onde está a prisão de Peniche?”, Álvaro Siza, autor do respectivo projecto de arquitectura

  1. Leio “. Parece que bastará o governo retirar o Forte dessa lista e tudo ficará bem (alguns militantes do partido comunista ficarão seguramente mais tranquilos). A especulação turístico-comercial do património poderá então avançar pacificamente já não em 30 mas em 29 imóveis. É que supostamente estes, ao contrário da Fortaleza de Peniche, não têm um passado que justifique ser mantido à margem de esquemas empresariais, podendo os seus signos materiais mercantilizar-se; e assim adulterar-se.”

    Ora, consultando o link que direcciona para o site do PCP verifica-se que “Para o PCP, é inaceitável que se avance com esta medida, ainda para mais tratando-se de uma matéria que diz respeito à memória colectiva de um povo. Trata-se de um conjunto de edifícios com características históricas e valor simbólico e cultural, alguns com centenas de anos de existência, que encerram em si elementos sobre períodos e episódios importantes da nossa história colectiva, razão pela qual não podem ser alienados ou alteradas as suas características, nomeadamente físicas e de usos, apenas por mera vontade do governo e de interesses privados, independentemente de pressões que estes possam exercer.”

    E temina o comunicado afirmando afirmando que “4 – O PCP rejeita o programa ontem anunciado. Exigimos a suspensão dos concursos já lançados ou a lançar, a paragem da alienação de bens patrimoniais do Estado, nomeadamente o património classificado e a sua entrega a gestões privadas, e o início de um debate alargado sobre o património cultural, a sua recuperação e utilização, que culmine com a aprovação e implementação de um Programa Nacional de Emergência para o Património Cultural.

    5 – A política do Património não pode estar sujeita ou subordinada ao “mercado” e à política de turismo. Antes, a política para o património deve intensificar a ligação cultural entre as populações e o património, integrar o património edificado na vida e quotidiano do país, resultando numa valorização e preservação vivida e fruída colectivamente. É através dessa vivência colectiva do património que se deve valorizar e afirmar o País na oferta turística e não através da concessão ou privatização de importantes componentes do património, delas alheando o povo e os hábitos culturais.”

    1. Caro Victor, para bom entendedor meia palavra basta, para mau entendedor nem um comunicado inteiro é suficiente. Por acaso reparou no destaque que o mesmo dá ao Forte de Peniche? Como é mau entendedor, eu reproduzo esse excerto na íntegra:

      “Pelo simbolismo que encerra, não podemos deixar de criticar de forma veemente o facto de o governo ter colocado nesta lista a Fortaleza de Peniche, ignorando a importância histórica e cultural de um espaço onde não é possível conciliar a actividade hoteleira e turística com a necessidade de preservar integralmente as suas características prisionais históricas. A concretizar-se a concessão da Fortaleza, estamos perante um dos mais significativos ataques à memória colectiva dos portugueses, particularmente sobre um período da nossa história contemporânea que deve ser do conhecimento das futuras gerações e, simultaneamente, de uma manifestação de desprezo para com a luta antifascista em Portugal que se desenvolveu durante quase meio século. O que deveria estar a ser discutido neste momento era a valorização e divulgação do espaço enquanto testemunho da sua função prisional durante o fascismo, designadamente, com a actualização e enriquecimento do projecto de musealização existente, e não a concessão a privados.”

      O que o Victor parece que nunca irá perceber é que fazer este destaque a um qualquer imóvel histórico equivale a relegar para segundo plano todos os outros. É assim tão complicado de perceber? Acha que isto é sintoma de uma memória histórica recomendável e de boa saúde?

  2. PDuarte o que se percebe é que desta história toda, você realçar com o seu quê de critica, o PCP, único partido que tomou uma posição clara contra a alienação deste património, só significa que você está mais preocupado em atacar o PCP do que na defesa do património.

    Vá-se catar!

    1. Poderá nem um nem o outro ser bom entendedor. Mas lá que são bons militantes, lá isso são.

      Quanto à tirada de que estou mais preocupado em atacar o PCP do que no resto, tenho a informar que escrevo publicamente sobre património há quase 15 anos e nunca antes tinha feito uma referência ao PCP – aliás, porque nunca antes tinha visto o PCP tão interessado na defesa de um qualquer património; mas como a agenda do PCP sempre me interessou ZERO, foi certamente falta minha de atenção.

      1. DE onde se conclui que apesar de escrever muito sobre património é bastante ignorante sobre o que os outros dizem sobre a matéria, ou então são as palas que não lhe permitem ver o que os comunistas escrevem e FAZEM na defesa do património.

      2. Um militante do PCP (que NUNCA veio às caixas de comentários deste blog dizer nada que não fosse a CHAPA CINCO do partido) censurar alguém por causa das suas “palas” é hilariante. Só faltava ter atribuído à cassete a minha imensa ignorância.

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