O turista de LPs à descoberta dos tesouros lisboetas

Em Lisboa, os danos colaterais da turistificação multiplicaram-se a uma velocidade que os tornou pura e simplesmente inquantificáveis. O ritmo das transformações – micro e macro – já não permite conceptualizações e descrições em tempo real. Bairros que antes eram residenciais deram subitamente lugar a cenários desabitados, exóticos e postiços de selfies turísticas. Zonas do centro que antes eram históricas foram subtilmente adulteradas e integralmente recodificadas para se tornarem reconhecidas instantaneamente pelos turistas. Espaços que antes eram públicos foram privatizados por uma rede de aparelhos publicitários, como tão bem documentaram recentemente Lucas Manarte e Bernardo Ferro no filme ‘Espaço Público’. Arquitecturas e lugares que antes albergavam e traduziam vidas/histórias singulares tornaram-se estandardizados, inertes e substituíveis. A reabilitação que antes se fazia (em pequeníssima escala) para os habitantes faz-se agora (em enormíssima escala) para os investidores. Podia ficar aqui o resto do Sábado e não seria capaz de completar o quadro da metamorfose turística (a qual, apesar de tudo, praticamente ninguém acha merecer uma crítica radical).

Tornou-se portanto um lugar comum dizer-se que Lisboa está à venda. Mas a estranha força do fenómeno faz com que tenhamos de regressar uma e outra vez a esse lugar que, de tão comum, está em vias de se tornar imperceptível. O trespasse da cidade a uma classe média internacional que se procura libertar do aborrecimento da sua vida quotidiana faz-se em pedaços: metros quadrados inflaccionados de cosy apartments e janelas com vista ao rio; pastéis de cerveja, de nata e de bacalhau; linhas de eléctrico e miradouros; mercearias e mercados; azulejos e calçadas… E até velhinhas que espreitam solitárias de suas pitorescas janelas são vendidas ao turismo como um ex-líbris inconfundível da capital. O turismo mobiliza neste momento tudo o que ajude a compor a oferta desse mega parque temático de portugalidade em que Lisboa se transformou. Pelo que se tornou muito difícil pensar nalguma coisa em Lisboa que ainda esteja por expor ao monstro insaciável do turismo, cujas câmaras, olfacto e papilas gustativas não deixam já recanto por vasculhar.

Mas eis que, de tempos a tempos, somos surpreendidos pela criatividade turística. A navegar pela net, fui dar com vendedores de LPs e melómanos alfacinhas, descobertos pela dj londrina Rita Maia, a anunciarem orgulhosamente, num site comercial inglês,  os seus mais bem guardados tesouros. Para gáudio dos record buying tourists. Fez-me lembrar os artigos de jornais dirigidos à burguesia entediada de Lisboa sobre as últimas praias virgens da costa vicentina.

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About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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