“Breves notas sobre o 8 de Novembro”, por Gustavo Sampaio

1. A generalidade das sondagens nacionais indicavam uma vantagem média de 3% para Hillary Clinton em relação a Donald Trump, dentro da margem de erro. Falharam largamente? Neste momento, quando ainda há resultados pendentes em Michigan, Arizona e New Hampshire, a candidata democrata recolhe 47,7% (59,6 milhões) do voto popular, enquanto o candidato republicano tem 47,5% (59,4 milhões). Ou seja, o desvio não é muito significativo. Clinton ganhou o voto popular, mas perdeu a eleição presidencial que se decide Estado a Estado, através de um sistema não proporcional: rende mais vencer por um voto num Estado com 20 representantes no Colégio Eleitoral do que por um milhão de votos num Estado com 10 representantes, por exemplo.

2. Os meios de comunicação social extrapolaram a importância de sondagens nacionais que não reflectem, de todo, as especificidades de cada Estado. Em vez de analisarem mais atentamente as sondagens locais, em cada Estado, perderam demasiado tempo a destacar “tracking polls” que inquiriram as mesmas pessoas (cerca de mil) ao longo de vários meses: “Em quem é que tenciona votar? E agora? E agora? E agora?” Daí ter passado quase despercebida a última sondagem na Pensilvânia que indicava uma viragem das intenções de voto no sentido de Trump, tal como viria a confirmar-se nas urnas de voto. O mesmo se aplica ao Michigan, onde a última sondagem também invertia a tendência registada durante os meses anteriores, com Trump a ultrapassar Clinton na recta final da campanha. No Wisconsin ocorreu, de facto, uma grande surpresa. Mas tanto no Ohio como na Florida, as sondagens locais eram favoráveis ao candidato republicano. Afinal, o cenário de uma vitória global para Trump não era assim tão inverosímil. Os sinais estavam à mostra, embora poucos tenham reparado. E eu também os subestimei. Outro dado a ter em conta é a votação obtida pelos outros dois candidatos (Gary Johnson do Partido Libertário e Jill Stein do Partido Verde) que em quatro estados cruciais (Florida, Pensilvânia, Michigan e Wisconsin) suplantou mesmo a diferença total de votos registada entre Trump e Clinton.

3. Além de manter todos os bastiões republicanos, Trump também conquistou estados como a Pensilvânia, Michigan e Wisconsin que votaram maioritariamente nos candidatos democratas em todas as eleições presidenciais desde a década de 1980. O que é que provocou esta súbita alteração em padrões eleitorais com mais de 30 anos? Talvez o facto de se tratar do coração da indústria do aço norte-americana (a par de Indiana, Ohio e Illinois) que se debate com uma grave crise: a crescente importação de aço produzido no estrangeiro tem levado ao encerramento de fábricas nos EUA e consequente destruição de milhares de empregos (em muitos casos, famílias inteiras que trabalhavam nessa indústria há várias gerações). Não por acaso, uma das principais mensagens do discurso político de Trump focava-se precisamente nesse problema, com a reiterada promessa de rever tratados de livre-comércio, taxar as importações, proteger a indústria do aço norte-americana e recuperar milhares de empregos (não obstante o facto de vários hotéis de Trump terem sido erguidos com aço importado da China). Por entre a sucessão de escândalos sexuais e demais matérias de “infotainment”, a componente política e económica foi remetida para um plano secundário durante a maior parte da campanha, inclusive nos debates televisivos. Nas campanhas das eleições anteriores era comum dizer-se que os assuntos económicos seriam decisivos, lembrando a vitória de Bill Clinton em 1992. Parece que continua a ser um preceito válido em 2016, apesar do advento das “redes sociais” e outras formas de distracção.

4. Enquanto Clinton adormecia plateias inteiras com discursos generalistas, proferidos em modo robotizado, sem chama nem empatia, Trump galvanizava multidões de acólitos “born again”, perdedores da globalização, ultramontanos da América profunda, nativos da genuína “Main Street” que foram vítimas de mais uma crise financeira urdida na pérfida Wall Street (grande financiadora da campanha de Clinton e também da Fundação Clinton), tudo misturado num enorme “cesto de deploráveis” (a expressão suicidária de Clinton). Evidentemente que o “habitat” natural de Trump sempre foi Wall Street, por entre esquemas legais de evasão fiscal, tráfico de influências políticas e negócios obscuros. Mas Clinton estava “na política há 30 anos,” como Trump repetiu até à exaustão. O magnata do imobiliário conseguiu mobilizar os desiludidos da “Main Street”, entre os quais muitos abstencionistas crónicos (penetrando aliás no eleitorado que apoiou Bernie Sanders contra Clinton, nas eleições primárias do Partido Democrata que desgastaram a imagem pública da ex-Secretária de Estado), através de um discurso básico com meia dúzia de ideias fortes e tremendamente eficazes – sobretudo porque nunca explicou como é que tencionava concretizá-las, limitando-se a apontar problemas, carregando nos botões certos para cativar a atenção do “americano médio” (e sempre com uma mensagem local, comício após comício, sobre a fábrica que encerrou em determinada povoação do Ohio, ou o “call center” de uma empresa americana que se deslocalizou para a Índia). Perante esta máquina desenfreada que gastava mais dinheiro em bonés vermelhos do que em anúncios televisivos, nem as constantes aparições na campanha democrata de celebridades do mundo do espectáculo salvaram as aspirações políticas de Clinton.

5. Os melhores momentos da campanha de Clinton foram os discursos de Michelle Obama, mas estas eram as eleições de 2016 e não as de 2020. Na recta final, Barack Obama participou em sucessivos comícios e interferiu diariamente na corrida eleitoral. Mais um sinal de que os números estavam a mudar em “swing states” decisivos. Clinton representava a continuidade do legado de Obama, mas diversas políticas do presidente cessante tocaram em matérias sensíveis que dividem a sociedade americana: do aumento do limite de endividamento federal até ao programa “Obamacare”, passando pelo condicionamento da posse de armas (neste caso, um rol de intenções não concretizadas), o reatamento da relação bilateral com Cuba ou o acordo sobre o programa nuclear do Irão. Não é líquido que a excessiva colagem a Obama (cujo nível de popularidade actual, cerca de 53%, segundo a Gallup, não é muito elevado) tenha resultado em mais votos para Clinton, até porque sugeria uma comparação directa que expunha as fragilidades da ex-Secretária de Estado – os seus discursos tornavam-se ainda menos empolgantes quando precedidos de uma intervenção do antigo rival que a derrotara nas primárias de 2008. A escolha de um candidato à vice-presidência quase anónimo, a dupla investigação do FBI ao caso do “e-mail” e a devassa pública de mensagens trocadas ao longo dos últimos anos também não ajudaram. Em grande parte por culpa própria de Clinton. Não esquecendo, porém, as acções de piratas informáticos russos e da WikiLeaks.

6. O comentador Van Jones, em directo na CNN, traçou uma interessante analogia entre as rupturas socio-políticas – aliadas a novos meios tecnológicos – que foram protagonizadas pelos presidentes americanos Franklin D. Roosevelt (pioneiro na comunicação via rádio), John F. Kennedy (televisão), Barack Obama (“social media”) e o neófito Trump (“reality media”). Mas qual é a diferença entre “social media” e “reality media”? Ora, a emergência de um mundo “pós-facto” em que se torna cada vez mais difícil estabelecer uma distinção clara entre a verdade e a mentira, carente dos filtros de isenção e objectividade jornalísticas, sedado pelo espectáculo contínuo de “infotainment”, alienado na religião do consumo e na cultura da celebridade, vulnerável perante a difusão de mensagens populistas com soluções fáceis e explicações simplistas para problemas complexos. “The medium is the message,” desvendou Marshall McLuhan na pré-história comunicacional. O problema é que Clinton até foi a mais votada nas faixas etárias de 18-29 anos (55%) e 30-44 anos (50%), onde se concentra a maior parte dos utilizadores de “redes sociais”, enquanto Trump dominou nas faixas de 45-64 (53%) e +65 (53%). Talvez o novo meio tecnológico seja apenas uma caixa de ressonância da sociedade contemporânea e não um actor político com inteligência artificial e pulsões totalitárias. O simples acto de “desligar” ainda não é proibido.

7. É uma América dividida ao meio que repartiu os votos entre trincheiras de raça, género e nível de escolaridade. Desde a Guerra Civil de 1861-65 que é mais ou menos assim, o norte contra o sul, os abolicionistas contra os esclavagistas, os liberais contra os conservadores, os grandes centros urbanos contra as vastas planícies rurais, embora os estados “azuis” até se tenham tornado “vermelhos”, e vice-versa, em meados da década de 1960. Sim, foi o Partido Republicano de Abraham Lincoln que aboliu a escravatura (1863) e foi o Partido Democrata de Lyndon B. Johnson que atribuiu o direito de voto aos afro-americanos (1965). Também por isso é que Barack Obama – o primeiro presidente afro-americano – proclamou que “não há estados vermelhos ou estados azuis, apenas os Estados Unidos.” E passou os últimos oito anos na Casa Branca, “construída por escravos,” como recordou a primeira-dama Michelle Obama. Neste contexto, a eleição do imprevisível Trump não representa necessariamente um movimento de dissolução. A metade da América que elegeu e reelegeu Obama terá que conviver com a outra metade que agora o substituiu por Trump, apesar dos muros (físicos e virtuais) que os separam. Mas trata-se de um desafio quase sem precedentes ao sistema de “checks and balances” que mantém a coesão nacional. Desde logo porque os republicanos acumulam o controlo do Senado e da Câmara dos Representantes. E preparam-se entretanto para acentuar o predomínio conservador no Supremo Tribunal. Contudo, o perfil de Trump é tão errático e anti-“establishment” de Washington que gera fortes resistências no interior do Partido Republicano. É possível que isso funcione como um contrapeso e, no limite, impeça a tirania.

8. Quando se reuniram na cidade de Filadélfia, Pensilvânia, em 1787, para redigir a futura Constituição dos EUA, os “Pais Fundadores” dedicaram-se sobretudo à concepção de mecanismos institucionais (nomeadamente a “separação de poderes”) que assegurassem esse mesmo princípio elementar: impedir a tirania. E não deixa de ser irónico que a Pensilvânia, cenário da Declaração da Independência (1776) e da referida Convenção Constitucional, já em 2016 tenha aberto a porta da Casa Branca a Trump, potencialmente a mais séria ameaça aos valores, direitos e liberdades consagrados na Constituição dos EUA desde o início da década de 1970, quando a deriva tirânica de Richard M. Nixon foi neutralizada por outro contrapeso essencial: o jornalismo livre. É a partir deste ângulo que a futura Administração de Trump se afigura realmente assustadora: com o jornalismo em acelerada erosão, no admirável mundo novo “pós-facto” e tendo ainda em conta a ligação directa (paradigma do “populismo”) entre Trump e as “massas”, tal como pudemos testemunhar nos comícios electrizantes que protagonizou durante a campanha eleitoral, o “caso Watergate” (ou o conteúdo das escutas captadas na Casa Branca) teria hoje o mesmo impacto? Ou seria sequer noticiado? E alguém prestaria atenção ou acreditaria nos factos após sucessivas vagas de relativismo e desinformação? “Who controls the past, controls the future; who controls the present, controls the past.”

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