Sinais de um país polarizado

brinde ao anúncio da duplicação de restaurantes com estrelas michelin em Portugal

Os políticos adoram vender-nos a imagem de um país onde reina a paz social – expressão que, sendo de muita utilidade governativa, pretende convencer-nos de que, enquanto massa de gente amorfa e passiva que supostamente somos, habitamos uma sociedade sem conflitos ou tensões. E alguns factos parecem dar-lhes razão: boa parte daqueles que estão desesperados não se mobilizam colectivamente para a construção de alternativas, emigram; e uma parte muito significativa dos que ficam, em vez de combaterem e denunciarem coisas tão triviais como os frequentes abusos laborais de que são vítimas, calam-se. Quem ganha com esta opção por não se tomar partido no meio da guerra em curso? A paz social e os seus promotores.

Será que nos estamos a aproximar a passos largos do anunciado fim da história neoliberal? Em 1993, a propósito da audácia daqueles que propagavam a boa nova de que a democracia liberal finalmente se realizara como o ideal da história humana, Derrida lembrava que “nunca como agora a violência, a desigualdade, a exclusão, a fome e portanto a opressão económica afectaram tantos humanos na história da terra e da humanidade.” O fim da história, liberal e democrático, não significava portanto a democratização da felicidade e da plenitude. Enquanto fazia aumentar abruptamente a propriedade privada de uma minoria, ele não anulava o sofrimento da maioria. O quadro que Derrida apresentava em 1993 apenas se agudizou no presente. Prevê-se que 2016 será o ano em que o 1% mais rico da humanidade possuirá tanta riqueza como todo o resto da população mundial.

Em Portugal, são hoje demasiado evidentes os sinais de um país polarizado, e mais do que nunca desde 1975. De um lado temos uma miséria que parece quase natural, dada a indiferença com que é apresentada pelos apresentadores de telejornais: desempregados e reformados que são desalojados sem aviso prévio por retroescavadoras escudadas por agentes da polícia; um doente que está um ano há espera de um medicamento e que implora no Parlamento ao ministro para que não o deixe morrer; crianças que se acotovelam no caos das salas sobrelotadas do pré-escolar; imigrantes semi-escravizados em estufas inovadoras elogiadas pela imprensa. Do outro temos a atribuição de estrelas michelin e mais estrelas michelin a restaurantes nacionais de norte a sul, não ficando esquecida a idílica ilha madeirense (onde tão pouco faltam notícias dando conta do rápido aumento da indigência e dos novos pobres), num claro sinal de que a crise em curso em nada afecta, antes incrementa, a fruição de uma burguesia neoliberal que sabe gerir cada vez melhor o seu ócio entre lugares igualmente “exclusivos e diferenciadores”: condomínios privados, resorts, marinas, pousadas, termas reconvertidas em spas, etc, etc.

Neste país com duas caras, há um facto de ordem estratégica e com enorme alcance político que as distingue: o 1% que é beneficiado pela gestão presente da economia, da sociedade e do território está de tal modo organizado que não lhe falta capacidade nem engenho para organizar à sua imagem cada detalhe do mundo democrático em que vivemos; o 99% que vive o pesadelo de um struggle for life permanente está desorganizado como nunca, atomizado por gadgets, pelas promessas da publicidade e pela luta diária por ganhar-se a vida, faltando-lhe uma percepção comum, partilhada dos acontecimentos, percebidos como fragmentos de um caos ininteligível que já nenhum representante democrático, de direita ou de esquerda, lhe consegue explicar devidamente. Vivemos este estranho momento em que o poder do povo, a democracia, desarmou completamente o povo. Materialmente e, o que não é menos grave, intelectualmente.

casas demolidas (sem aviso prévio do dia) na Amadora
casas demolidas, sem notificação prévia, num bairro da Amadora

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

One thought on “Sinais de um país polarizado

  1. Apagar a revolta confinando-a às classes perigosas castigá-las se preciso for –
    como tem vindo a acontecer até que não seja mais possível conter a revolta.
    Os sinais espalham-se à nossa volta os incendiários atiçam o fogo e escondem-se,
    já faltou mais para ver a cidade a arder… pequenos focos alastram e vão sendo contidos, sempre no mesmo afã de de pagar a revolta mas o fogo precisa de matéria para se alimentar. A economia é a serpente do fogo.

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