Ode aos Táxis, contra a uberização da vida e do trabalho

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São eles que nos garantem uma ida rápida para a maternidade, ou chegar a duas reuniões marcadas para a mesma hora. São eles que nos enfiam no carro bêbados e nos levam até casa, e são eles que farão o mesmo aos nossos filhos. São eles que nos levam os mais velhos à cidade e os mais novos a voar para a entrevista de emprego. Sabemos onde os encontramos e também já podem chegar por aplicação telefónica. Sabem de toda a agenda pública e, não raras vezes, a privada. Em matéria de tascas, não se iludam, dão 10 – 0 aos especialistas gourmet da Time Out ou do Fugas. Têm quatro grandes defeitos, infelizmente, pouco raros: a generalidade dos patrões, alguns colegas de má fama, os seus representantes sindicais e, claro, o serem do Benfica. Regra geral somos mais mal tratados pela polícia e ninguém ainda se lembrou de entregar de vez o sector às empresas de segurança privada. Tenham juízo, andem mais de mota e percebam que a jogada de colocar trabalhadores contra trabalhadores tem água no bico e não se chama modernidade. Je ne suis pas taxista, mas continuo a achar que sei escrever melhor do que o gerador de texto dos jornais do futuro, e que a esmagadora maioria das pessoas, nas mais variadas profissões, são melhores profissionais sem o garrote dos baixos salários, do horário avulso e da barba engomada.

No lugar dos hospitais a clínica trim trim, no lugar dos jornalistas geradores de texto, no lugar da escola o ensino por fascículos, no lugar dos bombeiros uma turba de estudantes durante a queima das fitas, no lugar da política a simplificada gestão de recursos financeiros. Diz que em São Paulo um exército de pobres deu o seu voto ao empreendedor que percebeu que a escravidão assalariada não quer ser salva de si própria. Pelo que se vê da discussão sobre os táxis, Lisboa só está à espera que alguém se lembre de trocar o populismo por poder na app do voto democrático.

Não há má direcção politica e sindical ou má comunicação pública que retire razão a um sector de trabalho. Os taxistas não são excepção. A Uber devia poder tudo, desde que a margem de lucro que fica no bolso de quem inventou a aplicação, dos rendeiros dos automóveis ou dos consumidores, não viesse exclusivamente do bolso de quem trabalha. O sonho de qualquer liberal é que haja uma Uber por cada sector do trabalho, dos serviços médicos aos jurídicos, da construção ao comércio, da docência aos cangalheiros. Travar este processo diz respeito a todos os que vendem a sua força de trabalho e a todos os que não querem fast tudo em todos os produtos ou serviços que consomem, sejam eles mais eruditos ou brejeiros enquanto classe profissional.

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Ler também Against Sharing, de Avi Asher-Schapiro, na Jacobin. 

2 thoughts on “Ode aos Táxis, contra a uberização da vida e do trabalho

  1. Primeiro atacaram os taxistas…

    Parece que só quando todos fizermos trabalhos à peça, à jorna, durante 12h, 15h ou mais horas por dia, quando todos formos “prestadores de serviços”, “empresários em nome individual”, “on call”, só aí a dita “modernidade” salvará o mundo. Curiosamente (ou não) a uberização do trabalho é muito pouco diferente da escravatura de há uns séculos atrás. Claro que agora temos facebook, smartphones e apps, valha-nos deus, virgem santíssima!!!

  2. O taxi assume um valor icónico contra a a fúria privatizadora e o branqueamento de modelos de negócio de natureza extractiva estratégicamente posicionados no circuito de circulação da mais-valia que permite a operadores globais tirar partido do abaixamento de todo o tipo de tarifas usando o consumidor-trabalhador-precário integrando-o no circuito
    donde não poderá sair vivendo para sempre na margem de um sistema que o atrela aos circuitos de valorização do capital revigorado capaz de encontrar novas formas de extração de mais valia sob o seu controlo-os estados olham para isto para se situarem a si-próprios como lugares onde essa extração é realizada …

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