Elementos para uma caracterização da classe média (IV)

4) No reino encantado das representações mediáticasPara a minha consciência burguesa, ‘o que não se vê não existe’

A classe média encontra no dispositivo mediático um sistema de referências orientador das suas práticas quotidianas, sendo precisamente aí que germinam as suas representações do mundo. Este dispositivo, nomeadamente através dos noticiários, modela a sua consciência do real: ele é o mundo que é permitido ver.  E, para a classe média, o que não se vê não existe. Eis outra característica que permite definir esta classe: a sua consciência ética não se detém senão sobre o que os média afirmam existir. Para lá da imagem por estes veiculada, entra-se nas trevas, na penumbra. A ética da pequena burguesia não alcança senão o que se projecta nessa imagem. Ela está por isso dependente, uma vez mais, de uma mediação.

Assim, a classe média ocupar-se-á por exemplo a salvar isoladamente uma espécie de vida animal que seja torturada numa arena ou em directo para a televisão, mesmo que essa espécie represente 0,001%, ou até menos, daquelas que são hoje diariamente massacradas pelo homem. Para ela, um massacre público é infinitamente pior do que um que, no quadro da informação mediática, seja mantido anónimo, silencioso, oculto (como também revelaram no último ano os atentados terroristas em França e a onda de comoção que geraram, ao contrário de centenas ou milhares de outros atentados em África e na Ásia sem qualquer eco mediático).

Que os industriais da carne ou do peixe cometam as piores monstruosidades aos animais pouco ou nada lhe importa, já que os média nunca lhes dão destaque. E tão pouco lhe importa porque são justamente essas atrocidades que permitem baixar enormemente o preço da carne, dos ovos, do leite, do peixe. E a classe média é também aquela que esquece imediatamente o seu humanismo/animalismo e respectivos valores éticos sempre que surge a possibilidade de comprar mais barato. É que, antes de se relacionar com o mundo, ela relaciona-se com a mercadoria.

Se o contexto histórico presente, de formatação capitalista da economia, da cultura, da sociedade, do planeta, jamais é mencionado pelos média – os quais entre outras coisas também se destinam a despolitizar a população (e alguém ainda hoje duvida disso?) -, então para a classe média essa conjuntura histórica não é real. A burguesia “animalista” não quer assim saber [A] da mercantilização de todas as formas de vida rentabilizáveis pelo capital nem [B] da tendência apocalíptica para a extinção de todas as outras que se tornaram inúteis para os industriais, sendo que ambas (A+B) resultam da formatação capitalista do planeta para a qual ela, mais do que qualquer outra classe, contribui.

Esta postura superficial, egocêntrica, vã e hipócrita, de quem não se relaciona com o mundo senão por intermédio do dispositivo mediático, não é exclusiva da burguesia animalista. Ela é típica de toda a classe média.

(continua)

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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