Elementos para uma caracterização da classe média (fim)

Chega-se assim ao final de um percurso que, em quatro breves etapas, procurou ajudar a compreender a natureza da chamada ‘classe média’. Juntando as quatro partes (em síntese: 1 – consagração das liberdades individuais / 2 – atomização social / 3 – mediação pelo espectáculo / 4 – ética fundada na imagem dos média), fica-se com um puzzle ainda bastante incompleto, é certo, mas começamos a entrever um retrato da classe média. Recordo que  estas quatro partes são provenientes dos quatro debates que marcaram a minha passagem por este blog, e onde, em todos eles, eu ataquei as posições e as convicções da classe média.

Em jeito de resumo, e tendo esses quatro momentos em mente, poderíamos dizer que compõem a classe média todos aqueles que se sentem cómodos nesta sociedade e que nada de estrutural nela gostariam de alterar, uma vez que:

  1. crêem sem restrições no mito das liberdades individuais que a economia liberal enraizou na sociedade da livre iniciativa e do empreendedorismo;
  2. não buscam mais do que levar uma vida individualizada e tranquila, à margem das tensões e dos tumultos da história colectiva;
  3. procuram a mediação mercantil para a maioria das suas experiências mundanas;
  4. não encontram o real senão nas imagens dos média.

Deste modo, ficamos com um primeiro esboço desta classe. Sabendo que deixámos de fora do retrato uma série de outras características igualmente importantes para defini-la. E eu não poderia deixar aqui de aflorar aquela que é para mim a mais relevante: o apego que a classe média tem, de um modo geral, pela mercadoria está intimamente relacionado com o apego que ela tem pela propriedade privada. Para ela a vida converte-se essencialmente em todo um vasto projecto de criação de pequenos proprietários. De facto, quem compõe esta classe vive por exemplo obcecado com a ideia de comprar a casa onde irá viver, dispondo-se para isso a casar com um banco por 30 ou 40 anos. Mas este casamento pressupõe um divórcio: com os movimentos políticos que buscam soluções colectivas para a organização da sociedade e da economia. Ao escolher a via da pequena propriedade privada, a classe média – que vota tanto à esquerda como à direita – escolhe também aquela da estabilidade, do emprego seguro, da carreira profissional. A defesa da pequena propriedade privada leva-a a abandonar posições políticas revolucionárias, trocando-as invariavelmente por uma postura conservadora, obediente e individualista que permite conservar essa propriedade. A pólis e a sociedade convertem-se na soma da defesa de interesses privados. Eis, política e socialmente falando, o que representa o triunfo da classe que os políticos, os produtores de mercadorias e os publicitários converteram na classe modelo desta época.


Etapas nesta digressão:

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

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