Hoje a partir das 15h: sessão sobre educação e racismo, organizada pela Djass – Associação de Afrodescendentes, no auditório Fernando Pessa, Lisboa

Detalhes aqui.

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Portugal é um país onde já ninguém precisa verdadeiramente de ser racista, porque o racismo tornou-se imanente a tudo. A segregação étnico-racial é hoje inerente a praticamente qualquer decisão tomada nos gabinetes de planificação urbana ou de gestão das grandes instituições (políticas, financeiras, escolares, académicas…). Por isso, quando alguém põe um pé na sala de uma escola, na biblioteca de uma universidade, no átrio de uma agência bancária ou num velho bairro reabilitado num qualquer centro histórico, não precisa de expressar o seu racismo, porque este é já em si mesmo constitutivo da realidade desses espaços, que são meticulosamente planificados, organizados e geridos para segregarem as partes “problemáticas” da população. Que são geralmente aquelas às quais a economia liberal não reserva nenhum papel.

Num país “onde os vários séculos de dominação e colonização não merecem qualquer reflexão colectiva” e onde, “nas escolas, 99,9% dos professores continuam a glorificar os Descobrimentos, onde um nobre e valente povo ‘deu novos mundos ao mundo’”, não é obviamente de espantar que ninguém, de todas as almas que regularmente manifestam as suas opiniões na imprensa, tenha até hoje questionado que o manifesto da loja mais orgulhosamente portuguesa de Portugal assenta sobre um conjunto de ideias desenvolvidas e usadas por António Ferro, o responsável pela propaganda e pela política cultural do Estado Novo – que teve o seu auge na Exposição do Mundo Português, em 1940. Este mero exemplo é apenas sintomático que deixou de haver debate sobre racismo em Portugal. Ora, só se consegue eliminar o debate sobre um qualquer assunto quando, tacitamente, o acordo é total. Eis-nos aqui chegados.

Por tudo isto, a sessão de hoje à tarde promete ser uma pedrada no charco.

About PDuarte

Historiador, jardineiro, horticultor. Vive na província. No tempo vago, que procura multiplicar de dia para dia, perde-se em viagens, algumas pelos montes em redor, outras pelos livros que sempre o acompanham. Prefere o vinho à blogosfera, a blogosfera ao Parlamento.

2 thoughts on “Hoje a partir das 15h: sessão sobre educação e racismo, organizada pela Djass – Associação de Afrodescendentes, no auditório Fernando Pessa, Lisboa

  1. legal. O racismo,e a segregação liberal são tristes mesmo. Parece que o ser humano tende a se dividir neste aspecto. Alguns ainda continuam a lutar contra esse tipo de conduta, outros apenas o fazem ficar cada vez mais forte pois assim se satisfazem. Eu realmente acho muito estranho essa questão, mas a historia mostra que a constituição civilizatória é marcada por uma performática maneira de através de discursos legitimar a conquista e submissão. Tudo isto é, por mais que me espante, algo histórico, estes povos de hoje que são subjugados foram dominados ao longo do tempo, e a casta que venceu hoje quer reproduzir e garantir a supremacia,e assim será, até que algo ocorra no modo de considerarmos uns aos outros.

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